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INTRODUÇÃO: O envelhecimento populacional contemporâneo no Brasil é um fenômeno marcado por profundas transformações demográficas e sociais. Segundo dados do Censo 2022, os idosos representam 15,8% da população nacional, índice que se acentua em regiões litorâneas como a Baixada Santista, onde atinge 19%. No entanto, esse aumento da longevidade não é acompanhado por uma assistência à saúde que contemple a integralidade do sujeito, especialmente no que tange à saúde sexual. No contexto da Atenção Primária à Saúde (APS), a sexualidade na velhice permanece silenciada, sendo frequentemente reduzida a aspectos biológicos ou negligenciada por preconceitos institucionais. Este cenário de invisibilidade reflete-se em indicadores alarmantes, como o aumento de 33,9% nos casos de Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (AIDS) em pessoas com 60 anos ou mais entre 2015 e 2023. Sob a ótica da analítica do poder de Michel Foucault, compreende-se que a identidade do idoso foi (re)construída para atender às demandas do biopoder e do sistema capitalista. Emergiu a figura do “novo idoso” ou da “melhor idade”, a quem se impõe um ideal de vida ativa, consumo e performance sexual. Essa imposição, muitas vezes, opera como um dispositivo de exclusão, pois ignora aqueles que não se enquadram nos padrões de juventude prolongada e vigor físico. A negligência dos profissionais de saúde, que relatam insegurança e falta de preparo teórico desde a graduação, amplia as vulnerabilidades dessa população. Este trabalho, desenvolvido no âmbito do Mestrado Profissional em Ensino em Ciências da Saúde da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), propõe que a superação desse silenciamento depende da radicalização das práticas de Educação Permanente em Saúde (EPS). A EPS é aqui entendida como uma ferramenta de análise crítica dos processos de trabalho capaz de transformar a clínica e garantir que o idoso seja reconhecido como protagonista de sua própria verdade e desejos. OBJETIVOS: O objetivo geral desta pesquisa é identificar as concepções e vivências sexuais da população idosa a partir da análise do dispositivo da sexualidade, no município de Praia Grande, no estado de São Paulo (SP). Como objetivos específicos, o estudo busca: 1) Analisar as percepções sobre a dimensão erótica e as preocupações de saúde sob a ótica do "novo idoso"; 2) Identificar estratégias de abordagem para profissionais da APS baseadas nas necessidades subjetivas dessa população; e 3) Elaborar um produto técnico educacional, no formato de podcast, voltado à formação e sensibilização de profissionais de saúde sobre a temática. METODOLOGIA: Trata-se de uma pesquisa de abordagem qualitativa, com desenho observacional transversal. O referencial teórico-analítico fundamenta-se na analítica do poder de Michel Foucault, nos conceitos de erotismo de Georges Bataille e na sabedoria do erotismo de Ricardo Iacub. A coleta de dados estruturou-se em duas frentes: uma revisão narrativa da literatura e a realização de grupos focais. A amostra é composta por oito pessoas idosas residentes em Praia Grande/SP, com capacidade cognitiva preservada e participantes de atividades coletivas. Foram planejados três encontros presenciais de 90 a 120 minutos, utilizando recursos disparadores como trechos literários, filmes e campanhas publicitárias para estimular a reflexão coletiva. O primeiro grupo focal abordou vivências da sexualidade; o segundo focou na dimensão do erotismo; e o terceiro, a ser realizado no corrente mês, explorará a percepção sobre a abordagem dos profissionais de saúde. Os dados estão sendo analisados por meio da Análise de Conteúdo de Laurence Bardin e suas correlações com os pensamentos de Foucault, buscando elucidar como o saber e o poder operam nas falas dos participantes. O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da UNIFESP sob o CAAE nº 94099825.7.0000.5505. RESULTADOS/DISCUSSÃO: Embora a análise final dos grupos focais esteja em fase de conclusão, a revisão narrativa e os dados preliminares dos dois primeiros encontros revelam uma desconexão significativa entre o discurso biomédico e a experiência vivida pelos idosos. A ciência sexual moderna, em sua "terceira onda", foca excessivamente na funcionalidade orgânica e na medicalização (uso de fármacos para ereção e reposição hormonal), reforçando uma "ditadura do não envelhecimento". Esse modelo de "ciência-confissão" extrai a verdade do sujeito para rotulá-lo entre a normalidade e a patologia, o que contribui para a exclusão de idosos que vivenciam a sexualidade de formas não tradicionais. Em contrapartida, as vivências relatadas pelos idosos aproximam-se do que Foucault denomina "arte erótica", onde o prazer, o carinho e a intimidade sobrepõem-se ao ato puramente genitalizado. A sabedoria do erotismo, conforme proposta por Iacub, surge como um recurso de resistência psíquica e emocional. Ela permite que o indivíduo ressignifique seu "eu" e vivencie o prazer como uma transgressão aos interditos do envelhecer, driblando as barreiras biológicas e sociais impostas pelo etarismo. A inclusão efetiva dessa temática na APS exige ferramentas educacionais inovadoras. O produto técnico deste mestrado — um podcast — justifica-se pela alta penetrabilidade dessa mídia no Brasil, o segundo maior consumidor mundial do formato. Como estratégia de EPS, o podcast permite uma linguagem dialógica e acessível, facilitando a sensibilização dos profissionais para uma escuta ativa e uma clínica ampliada que reconheça o idoso como detentor de sua verdade. A educação em saúde, sob esta perspectiva, torna-se um ato de promoção da integralidade, ao combater a marginalização dos desejos na velhice e fortalecer a integração ensino-serviço-comunidade. CONCLUSÃO: A inclusão da abordagem da saúde sexual da pessoa idosa exige superar o modelo reducionista da Medicina Sexual e adotar práticas formativas que valorizem a subjetividade e a autonomia. A Educação Permanente em Saúde, mediada por tecnologias digitais como o podcast, apresenta-se como uma estratégia potente para transformar o olhar ético-político dos trabalhadores da APS, permitindo que a sabedoria erótica seja compreendida como um indicador de saúde e um recurso contra o etarismo institucionalizado. Reconhecer que o idoso é protagonista de sua história e de sua sexualidade é fundamental para garantir um envelhecimento digno, em consonância com os princípios de integralidade do Sistema Único de Saúde (SUS). Espera-se que este estudo contribua para o avanço das práticas pedagógicas na formação em saúde, fomentando espaços de acolhimento onde a diversidade de vivências na velhice seja não apenas aceita, mas respeitada e incluída nas políticas públicas de saúde sexual.
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