CORPO TRANSMASCULINO E (RE)ARRANJOS DISCURSIVOS DA ESCOLA Introdução Este trabalho tem o intuito de apresentar aspectos outros de uma pesquisa de mestrado em educação que buscou compreender como experiências transmasculinas produzem aberturas para um (re)pensar institucional nos espaços de uma escola de educação básica do município de Uberlândia-MG. Importa saber, antes de introduzirmos esses aspectos outros, que a pesquisa percorreu caminhos metodológicos derivados da etnografia, mobilizando a técnica de observação participante, acrescida de entrevistas semiestruturadas para produzir dados que, sob as lentes teóricas pós-estruturalistas, assumiram a intenção de identificar como sujeitos que reivindicam performances desafi(n)antes das convenções binárias do sistema sexo-gênero carregam, em suas experiências, estratégias para produzirem um cotidiano possível no universo escolar. Para tal, a pesquisa foi às interpretações sobre gênero e sexualidade que sustentavam os discursos dos profissionais da escola em relação às experiências transmasculinas presentes na instituição, seguindo os posicionamentos e as ações realizadas (ou não) pelos profissionais para uma reordenação institucional frente às “desordens” provocadas por essas experiências. Por fim, a pesquisa levantou as estratégias acionadas pelos sujeitos, frente aos rearranjos institucionais que suas vivências, ali, provocavam, no intuito de suscitar como essa dinâmica apresenta subsídios para (re)pensar a escola. Dados os detalhamentos da inspiração de pesquisa, nesse trabalho trazemos um recorte para questionar: quais (re)arranjos são colocados em funcionamento nos discursos da equipe de profissionais de uma instituição de ensino fundamental (I e II) a partir da presença de um corpo transmasculino no espaço escolar? Movimentados por essa questão, nesse trabalho tivemos o objetivo de cartografar os (re)arranjos provocados pela presença de um corpo transmasculino na escola, tal como se inscrevem nos discursos e práticas da equipe escolar de uma instituição de ensino fundamental (I e II) — docentes, equipe gestora e do setor administrativo —, atentando para os modos como tais enunciados (re)produzem, tensionam ou deslocam normatividades de gênero. Em específico, compreender como a convivência prévia das e dos profissionais com o estudante influencia no trato de sua identidade de gênero. Identificar os efeitos da expressão de gênero do estudante nas percepções das e dos profissionais. E por fim, descrever como os e as profissionais produzem e demarcam fronteiras binárias na trajetória escolar do estudante. A pesquisa foi, então, tecida a partir de um entrecruzamento teórico que se ancora, principalmente, nas contribuições de Michel Foucault, cujas reflexões sobre os discursos, regimes de saber-poder e os dispositivos de sexualidade oferecem ferramentas potentes para problematizar as formas de normatização dos corpos e das identidades de gênero no espaço escolar. Ao lado de Foucault, os escritos de Gilles Deleuze — especialmente em parceria com Félix Guattari — sustentam a perspectiva cartográfica da pesquisa, permitindo pensar os corpos como superfícies de inscrição e os arranjos escolares como territórios em constante devir. Complementarmente, o trabalho dialoga com importantes referências brasileiras nos estudos de transmasculinidade e outros autores que têm se dedicado a escavar experiências, narrativas e epistemologias transmasculinas, ampliando as possibilidades de pensar a escola como campo de disputa e produção de existências dissidentes. Metodologia A perspectiva metodológica acionada nesse trabalho foi constituída ao longo das produções científicas do Grupo de Pesquisa (nome ocultado para avaliação), que considera a transitoriedade, a instabilidade e a admissão de que, nas fronteiras, no trânsito, no entre, não há a priori. Nesse sentido, o território da investigação, ao mesmo tempo em que é criado, carrega a suposição de que é movente e, em alguns instantes, cria modos de estabilização. A certeza — se é que ela é possível — é a de que a tarefa é a da composição, ao tempo que essa ação é registrada: anotações, desenhos, diagramas, rabiscos e riscos. Tudo importa para que a movimentação do pensamento sobre o pensamento possa, então, emergir. Assim, processos criativos, por entre conversas, escutas — muitas escutas — são provocados. Não há afastamento das emoções e das múltiplas formas de percepção. Com isso, a percepção dos afetos e afeições é vivida, tecida, experienciada, de modo a parecer, aos/às aprendizes de pesquisa (de bruxarias e feitiçarias), que são instados/as a seguir com, a seguir na partilha e na rede solidária, que, em muitos momentos, faz com que se sintam perdidos/as e amparados/as; desafiados/as e amparados/as. Estar junto é afastar-se — e vice-versa. Ao fim, sentir, perceber, registrar, entregar-se ao ato de criação — sempre buscando o entre, o devir — são as operações que podemos afirmar como metodológicas para pensar os corpos, os gêneros, as sexualidades e as educações. É nessa perspectiva que encontramos a seguinte amostragem de pesquisa (figura 1): Figura 1: Amostra de profissionais participantes da pesquisa. Fonte: Dados da Observação do autor da pesquisa. Análise discursiva dos resultados Há estudantes trans na escola? Foi a pergunta que encabeçou o roteiro utilizado para conduzir as conversas com os e as profissionais da instituição. Uma pergunta simples, quase banal, mas que abriu fendas, deslocou o solo e permitiu que viessem à tona hesitações, silêncios, reposicionamentos e enunciados que escapavam à linearidade de respostas prontas. Muitos e muitas responderam com surpresa, dúvida ou desconforto. O que essa pergunta inaugura não é um simples dado, mas uma atmosfera de sentidos: ela coloca em funcionamento uma cadeia de enunciações que expõem as gramáticas da cisgeneridade presumida como norma. Ao cartografarmos os discursos produzidos pelos diversos setores da escola — desde a gestão até a equipe administrativa, passando pelas professoras, professores, bibliotecária e profissionais da educação física — percebemos três linhas de força que se destacam. A primeira delas diz respeito à convivência prévia com o estudante, elemento que emerge como marcador de familiaridade, afeto e, ao mesmo tempo, de resistência à mudança: “Conheço ele desde pequenininho… sempre foi assim, pra mim é o mesmo aluno de sempre”. A insistência nesse reconhecimento anterior sinaliza, muitas vezes, uma tentativa de manter estável o lugar do estudante, mesmo diante da reconfiguração de sua identidade de gênero. Essa estabilidade aparente, no entanto, é tensionada pela própria presença do corpo em transformação, que insiste em provocar rearranjos. A segunda linha visível nos discursos diz respeito aos efeitos da expressão de gênero do estudante nas percepções institucionais. O modo como ele performa sua identidade — nos gestos, na fala, nas roupas — aparece como um marcador que desestabiliza o regime binário e convoca a escola a dar respostas: “Ele mudou o jeito de se vestir, cortou o cabelo, começou a andar mais com os meninos… aí a gente foi percebendo”. Essa percepção, ainda que aparentemente neutra, carrega um imperativo normativo que se desvela na exigência por “comprovação”, “documentação”, “autorização dos pais” — dispositivos de controle que atualizam o exercício do poder sobre os corpos que transgridem. Quando considerado exclusivamente a expressão de gênero apresentada pelo estudante como critério a ser considerado no trato relativo a seu nome e pronomes, a taxa de respostas que afirmam haver concordância entre a leitura feita de sua masculinidade e o trato pelo nome masculino e o uso dos pronomes “ele” ou “dele” foi de 94%. Os 6% restantes, no entanto, disseram que a expressão da masculinidade do estudante não foi fundamental para que se adaptassem como o uso do nome social e dos pronomes do adolescente. Essas e esses profissionais alegaram que em nenhuma circunstância a expressão de gênero dele teria influência no modo como elas e eles o tratariam, visto que, a autodidentificação do estudante tinha primazia sobre qualquer leitura expressiva que fizessem. Por fim, a terceira linha cartografada refere-se aos modos como os e as profissionais produzem e demarcam fronteiras binárias na trajetória escolar do estudante. Cerca de 73% das e dos profissionais demarcam em suas falas um passado de Carlos Henrique em que verbalizam seu nome de registro, usam pronomes “ela” e “dela”, havendo assim, um antes e um depois do sujeito. Isso se dá, por exemplo, nos espaços físicos (banheiros, vestiários), nos formulários escolares (nome civil x nome social), nas práticas pedagógicas (chamadas, provas, grupos de trabalho). A escola, enquanto instituição que historicamente opera na reprodução de normas, mostra-se atravessada por fissuras quando interpelada por existências que recusam a fixidez dos gêneros. Em meio a essas fissuras, emergem também ações afirmativas, tentativas de acolhimento e gestos de cuidado que, embora tímidos, apontam para potências de deslocamento. Esses movimentos mostram que os discursos da equipe escolar não são homogêneos nem estáticos; ao contrário, são atravessados por contradições, afetos e jogos de força que revelam tanto a reprodução quanto o tensionamento das normatividades de gênero. A presença de um corpo transmasculino na escola, longe de ser um dado isolado, atua como operador de sentido que reconfigura o cotidiano institucional, abrindo espaços para que outros modos de existir possam emergir, ainda que sob resistência. Considerações Finais Esse é um trabalho em andamento. Assim, não é concluir a travessia, mas abrir margens, deixar vestígios e afirmar os deslocamentos provocados pelo encontro com um corpo transmasculino na escola. REFERÊNCIAS DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil Platôs: capitalismo e esquizofrenia. Vol. 1. Tradução de Aurélio Guerra Neto, Celia Pinto Costa e Suely Rolnik. São Paulo: Editora 34, 1995. DUQUE, Tiago. A gente sempre tem coragem: identificação, reconhecimento e as experiências de (não) passar por homem e/ou mulher. Cadernos Pagu. 2017. FAVERO, Sofia. Crianças Trans: infâncias possíveis. 1 Edição / Salvador - BA. Editora Devires, 2020. FOUCAULT, Michel. História da sexualidade I: a vontade de saber. Tradução de Maria Thereza da Costa Albuquerque e J. A. Guilhon Albuquerque. 13. ed. Rio de Janeiro: Graal, 1993. FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso. 26. ed. São Paulo: Loyola, 2021.