1. Introdução Este trabalho objetiva analisar as contribuições do Estágio Supervisionado na construção da unidade teoria-prática na formação inicial de professores, nos cursos de Pedagogia da Universidade Federal de Goiás – UFG. A relevância da temática para a área da formação de professores deve-se à necessidade de se contrapor ao neopragmatismo que tem ganhado espaço nas políticas e na produção teórica em educação e ensino. A UFG é uma instituição pública de ensino, pesquisa e extensão que pretende “produzir, sistematizar e socializar conhecimentos e saberes, formando profissionais e cidadãos comprometidos com a transformação e o desenvolvimento da sociedade”, (UFG, 2025, p. 01). Os cursos de Pedagogia da UFG são ofertados na modalidade presencial, nos Câmpus Colemar Natal e Silva (Goiânia) e no Câmpus Goiás (Cidade de Goiás). Nos referidos cursos, a disciplina de Estágio Supervisionado prtende proporcionar aos estudantes a aproximação com o mundo do trabalho, com vistas ao desenvolvimento político, técnico, cultural, científico e pedagógico. O Estágio é tido como um componente teórico-prático da formação acadêmica, com parceria entre instituições de ensino da educação básica e a Universidade (UFG, 2023). Diante do exposto, este trabalho se propõe a responder à seguinte problemática: “Qual a contribuição do Estágio Supervisionado na construção da unidade teoria e prática?” A análise fundamentou-se na epistemologia da práxis, baseada em autores como Marx (2001; 1980), Kosik (1986), Vázquez (2011). Adotou-se a categoria práxis, que, a partir de Marx (2001), fundamenta-se em uma filosofia do conhecimento e da transformação do mundo, que vê o trabalho como o centro de toda relação humana e é a práxis como constituidora da realidade social e cultural. Essa compreensão de conhecimento não dissocia teoria e prática, visto que é necessário agir sobre a realidade, colocar-se em atividade, analisando e interpretando a realidade concreta, que não se dá a conhecer apenas pela observação do que é aparente, imediata. É preciso, portanto, buscar a essência dos fatos com seus antagonismos e contradições. Nessa perspectiva, a ação transformadora da realidade tem como base o conhecimento da realidade que se quer transformar (VÁZQUEZ, 2011). Ancorada nas concepções histórico-críticas, adotou-se a concepção de estágio como momento de construção da unidade teoria e prática, que visa ampliar a participação, inserção, reflexão e discussão dos/as estudantes sobre e a realidade concreta. Nessa ótica, no estágio, não se dissocia ensino, pesquisa e extensão, visto que são dimensões da construção do conhecimento que se constituem no diálogo com o mundo do trabalho, ou seja, com a prática humana, a práxis, na qual o fazer e o pensar são indissociáveis. 2. Metodologia Adotou-se como orientador das análises o método de investigação materialista dialética elaborado por Marx, no qual o ponto de partida são os fatos da realidade - o concreto. Daí, a denominação de Kosik (1986): dialética do concreto. Entretanto, para compreender esse concreto, devemos superar as primeiras impressões que os fatos nos causam, pois a realidade social é constituída por processos, estruturas e relações complexas e contraditórias, que não se podem conhecer pela observação empírica. (IANNI, 1984), visto que os fenômenos se constituem de contradições e forças antagônicas, movimento e transformação, em relação com outros fenômenos. Assim, o estudo do fenômeno social implica compreendê-lo a partir “da” e “na” realidade concreta da qual faz parte. “A investigação tem que apoderar-se da matéria, [...] analisar suas diferentes formas de desenvolvimento, e perquirir a conexão íntima que há entre elas.” (MARX, 1980, p.16) A proposta metodológica se configura com uma pesquisa de abordagem qualitativa, com estudo bibliográfico e documental, visto que esta abordagem permite ao pesquisador compreender a realidade do sujeito, a partir de perspectivas de investigação, propiciando uma “análise mais detalhada sobre investigações, hábitos, atitudes e tendências de comportamentos” (MARCONI; LAKATOS, 2003, p. 269). O estudo bibliográfico possibilita ao pesquisador conhecimentos acerca do campo, a partir de trabalhos já publicados (MARCONI e LAKATOS, 2003), enquanto o estudo documental consiste em uma técnica fundamental para o tratamento de dados qualitativos, que engloba a análise de documentos que integram uma fonte segura de informações (Lüdke & André, 1986). O texto apresentado é um levantamento de estudo bibliográfico acerca da temática do trabalho. Os dados foram analisados a partir das seguintes categorias: a) a Relação Teoria-Prática e a Formação Inicial de Professores: b) o Estágio Supervisionado nos curso de Pedagogia da UFG. 3. Análise e Discussão de Resultados Neste tópico buscamos evidenciar a análise e discussão dos resultados alcançados por meio das categorias apresentadas acima. a) A Relação Teoria-Prática e a Formação Inicial de Professores Na construção da profissionalidade docente, numa perspectiva emancipadora, de acordo com Silva e Alves (2019), “a articulação teórico-prática é constituinte do processo de formação em qualquer área de atuação, diferentemente do modelo da racionalidade global, do modelo flexível e do modelo neoliberal” (p. 318). Sem essa relação, a formação torna-se estanque, desarticulada e individual. Neste sentido, os autores corroboram a visão de que a formação é um momento de responsabilidade, organização e articulação entre diferentes campos de atuação na e da sociedade, defendendo que: É fundamental apontar que mesmo estabelecendo uma relação de unidade, indissociabilidade e interdependência, com relatividade de limites, a teoria e a prática são, no entanto, autônomas em si e estão em oposição. Ou seja, não se faz uma ação, em que teoria e prática estejam presentes, sem a ocorrência da contradição, elemento fundamental para a compreensão da realidade humana.(2019, p.322) Eles apresentam a contradição como elemento essencial, que permeia a relação entre teoria e prática. Portanto, a forma pela qual a formação traz o elemento dialético em sua base, fundante do materialismo histórico, demonstra a diferença de uma formação pragmatista para uma formação que estimula o pensamento, ao articular a reflexão crítica e despertar o estabelecimento da relação entre o que se aprende na universidade com o que é vivido na realidade da educação básica, com compromisso social. Na visão de Alves, Civardi e Echalar (2019), Os cursos de formação de professores, historicamente, têm sido alvos de discursos que buscam responsabilizá-los pela má formação dos licenciados que atuam na educação básica e, consequentemente, pela falta de qualidade da educação. Dentre outros aspectos, a discursividade recorrente enfatiza o fato de os professores não saberem ensinar, de os cursos de formação inicial serem muito teóricos ou ensinarem apenas conteúdos programáticos. (p.382) Essa perspectiva trazida pelas autoras evidencia que a formação necessita ser teórico-prática, sem, contudo cair no pragmatismo. Para tanto, é fundamental que se construa o sentido de práxis de modo a ampliar o olhar dos profissionais de educação em formação quanto ao seu papel social como trabalhadores da educação. Essa visão demonstra a importância de uma sólida formação teórica, alicerçada na prática concreta, que permita estabelecer a relação entre a formação curricular voltada para a compreensão e atuação com compromisso social na realidade educacional e social. Neste sentido, a formação inicial visa promover nos estudantes a profissionalidade e o profissionalismo, ou seja a responsabilidade de um profissional da educação que compreenda a realidade concreta e o seu papel como educadores críticos e transformadores. b) O Estágio Supervisionado nos cursos de Pedagogia da UFG O Estágio Supervisionado nos cursos de Pedagogia da UFG têm como um de seus princípios a articulação teórico-prática, buscando desenvolver uma formação que orienta a práxis pedagógica de acordo com a observação, inserção e transformação da realidade educacional e social. Deste modo, o Estágio constitui-se num “espaço fundamental da formação de professores, espaço de construção e reconstrução de práticas e lócus privilegiado de reflexão dos estudantes, os quais passam a vivenciar e a refletir sobre os processos educativos, inseridos nos cenários dessas práticas.” (Rosa e Souza, 2019, p. 35). O Estágio Supervisionado do Curso de Pedagogia da UFG assume a “pesquisa como princípio educativo, visando ao desenvolvimento de atitude pedagógica e investigativa por parte do estudante e, assim, propiciar-lhe melhor compreensão da realidade e novas formas de atuação na Educação Infantil e nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental.” (PPC, Resolução CEPEC/UFG, 2017). De acordo com Rosa e Souza (2019), “o desenvolvimento do pensamento autônomo dos estagiários no projeto de estágio [...] é estimulado a partir da vivência de práticas pedagógicas e da problematização dessas práticas, tendo a pesquisa como método de formação e de desenvolvimento de postura e habilidades investigativas.” (p. 36) O Estágio se traduz no momento das parcerias estabelecidas nos campos de estágio, instituições públicas, em que reverbera a aproximação do mundo do trabalho por meio de observações, docência e articulações entre a academia e a educação básica. Deste modo, esse componente curricular proporciona um espaço de estudo, pesquisa e reflexão sobre as práticas pedagógicas e a realidade das instituições. Para ampliar essa articulação institucional, a Universidade desenvolve atividades formativas que têm como sujeitos os profissionais de educação que atuam nos campos de estágios, visando contribuir para sua formação continuada e desenvolvimento profissional. As temáticas desenvolvidas partem de problematizações acerca de necessidades prementes na instituição de educação básica. Deste modo, o Estágio Supervisionado, além de ser um momento privilegiado na formação inicial dos licenciandos, possibilita que a universidade colabore com o desenvolvimento de uma educação básica pública de qualidade e referência social, por meio da formação continuada dos profissionais da educação em exercício. Esses princípios estão sistematizados no Regulamento de Estágio do Curso de Pedagogia da UFG, que acata a legislação vigente no âmbito nacional, bem como as resoluções internas da instituição, no que tange a formação de professores e o Estágio Supervisionado (FE/UFG, ). O desenvolvimento do Estágio é realizado anualmente, em que o/a professor/a orientador acompanha as turmas na instituição/campo de estágio, junto aos estudantes. Essa característica do estágio é um diferencial do curso, pois há uma articulação entre o que está sendo observado e vivenciado no campo de estágio com a teorização para o desenvolvimento da experiência formativa. Silva e Alves (2019) discorrem que “[..] o estágio seria o momento de o aprendiz conceber a teoria vinculada à prática, numa articulação de construção da unidade teórico-prática, de forma interdependente” (p.312). A possibilidade de contribuir na construção dessa unidade entre a teoria e a prática torna o Estágio um componente curricular fundamental na formação de professores, bem como na superação da dicotomia entre essas duas dimensões do conhecimento, que não podem ser vistas de forma desarticulada. A forma pela qual essa relação se estabelece é primordial para o modelo formativo adotado, pois possibilitará aos futuros profissionais da educação o desenvolvimento de um determinado olhar acerca da realidade educacional e social, bem como de sua maneira de atuar e inferir nessa realidade. 4. Considerações Finais Com o objetivo de analisar as contribuições do Estágio Supervisionado para construir a unidade teoria-prática na formação inicial de professores, em destaque nos cursos de Pedagogia da Universidade Federal de Goiás – UFG, realizamos este estudo bibliográfico e documental. Pautado no método materialista histórico-dialético, procurou-se compreender a realidade do objeto de estudo por meio do pensamento crítico, com vistas à compreensão da práxis formativa desenvolvida nesse componente curricular, por considerar que o referido método contribui com o fortalecimento dos campos científico e pedagógico. Neste estudo, evidenciou-se, a partir da análise dos Projetos Pedagógicos dos cursos, que, o Estágio Supervisionado nos cursos de Pedagogia da UFG busca contribuir com uma formação pautada na práxis, por meio da articulação teórico-prática, no intuito de possibilitar aos estudantes uma formação crítica, que impulsiona a transformação social. O projeto de estágio dos cursos de Pedagogia da UFG articula ensino, pesquisa e extensão por meio de diferentes atividades formativas no campo e na Universidade, que pretendem propiciar uma formação inicial emancipadora aos acadêmicos, mas também possibilitar oportunidades de formação continuada para os docentes das instituições que os recebem como campo de estágio. O fundamento dessa atividade formativa é a práxis pedagógica, ou seja, o trabalho educativo vivenciado na realidade educacional entendida o concreto a ser compreendido e transformado pela práxis coletiva desenvolvida pelos professores em formação e os docentes da escola-campo. 5. Referências ALVES, M. F.; CIVARDI, J. A.; ECHALAR, A. D. L. F. A RELAÇÃO TEORIA E PRÁTICA COMO ELEMENTO FUNDAMENTAL À FORMAÇÃO DE PROFESSORES: ESTÁGIO E PIBID EM QUESTÃO. In SUANNO, M. V. R. (org.). Imagens da formação docente: o estágio e a prática educativa. Anápolis - Go: Ed. UEG, 2019. LÜDKE, M.; ANDRÉ, M. E. D. A. 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https://files.cercomp.ufg.br/weby/up/2/o/Resolucao_CEPEC_2017_1506_-_Pr…. Acessado em 05 de abril de 2025.