ESCOLA E COMUNIDADE: RELAÇÕES A PARTIR DE INTERVENÇÕES NO TERRITÓRIO O presente texto objetiva apresentar um estudo sobre as relações entre escola e comunidade a partir de intervenções no território, trata-se de uma pesquisa etnográfica (Rocha; Eckert, 2008) realizada em um período de vinte meses em uma instituição pública localizada no Litoral Norte do Estado do Rio Grande do Sul. As técnicas utilizadas foram observações, diários de campo, entrevistas com profissionais e famílias, análise de documentos, de notícias e publicações na página do Facebook. As ferramentas analíticas empregadas para a interpretação dos dados são a noção de território (Haesbaert, 2014) e seus desdobramentos. A compreensão do território ocorre a partir dos processos históricos, socioespaciais, das relações sociais, de poder e dominação, caracterizando diferentes territorialidades e modos de apropriação do espaço (Haesbaert, 2014). O território tem uma dimensão mais concreta e uma apropriação simbólico-identitária, determinada por ações dos grupos sociais sobre o espaço de vida. Assim, ao se referir sobre territorialidade, evidencia-se o caráter simbólico ainda que não seja a principal referência, nem esgote as características do território (Haesbaert, 2014). A escola onde a pesquisa foi desenvolvida está localizada na periferia de uma cidade do Litoral Norte do Rio Grande do Sul. O Litoral é a região que apresenta a maior concentração populacional do Estado do Rio Grande do Sul, com crescimento demográfico de 1,77% ao ano. Sua economia possui grande atuação no setor da construção civil e serviços, em especial nos municípios que se constituem como centros de turismo sazona,, atraindo um grande número de pessoas com baixa qualificação e rendimentos, os quais se dedicam a serviços temporários e informais, já que a atividade turistica tem demandas oscilatórias. Sul. O município onde a escola está inserida tem uma população de 54.387 habitantes, conforme o censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2022 e está entre os três municípios mais populosos do Litoral Norte/RS. A educação da cidade conta com seis escolas estaduais, com nível de Ensino Fundamental e Ensino Médio. Um Núcleo de Educação de Jovens e Adultos (NEJA) e dezoito escolas municipais, sendo sete de Educação Infantil e onze escolas de Ensino Fundamental. Além disso, a cidade possui seis escolas de Educação Infantil conveniadas. Para o desenvolvimento do estudo, foram mapeadas ações das escolas municipais de Ensino Fundamental e selecionada uma instituição para a realização da pesquisa de campo. Como critério, considerou-se a localização, maior tempo de funcionamento, número de alunos e projetos desenvolvidos. O bairro onde a escola está localizada fica a 9,4 km de distância do centro da cidade. O acesso ao bairro se dá por uma rodovia que liga a cidade a outros três municípios. A rodovia, mostra as duas realidades existentes na cidade. De um lado, onde está localizado o mar, apresenta casas amplas e bem estruturadas de moradores e veranistas, ruas com calçamento, passeio público paralelo ao mar, espaços de lazer e descanso. No outro, uma outra realidade, ao fundo o parque eólico, casas modestas e, em alguns casos, precárias, algumas sem acesso a itens básicos como água e saneamento, ruas sem calçamento, local em que moram parte da clientela escolar. Neste sentido, mostra-se uma contradição local, onde a observa-se a diferença entre os bairros ou no mesmo bairro e sua população, suas diferentes necessidades e um crescimento urbano desigual. A instituição atende famílias de classe média baixa, constituídas por pescadores, recicladores, auxiliares de limpeza, pintores, auxiliares de cozinha e autônomos. É um grupo que busca, na região do Litoral, oportunidade de emprego, qualidade de vida e refugio da violência dos grandes centros urbanos. A escola atende o Ensino Fundamental I e II e tem como objetivo desenvolver um trabalho pedagógico de qualidade que amplie o potencial dos estudantes em todas as áreas do conhecimento, proporcionando o desenvolvimento da cidadania e da inclusão, garantindo sucesso do estudante na escola e na sociedade. Além disso, a instituição busca trazer a participação da comunidade nas atividades desenvolvidas através do projeto "Escola e Comunidade" e conta com o apoio de outras instituições e voluntários para desenvolver atividades com os estudantes. A construção de experiências nos territórios, sejam a partir de ações assistenciais, solidárias, voluntárias ou educativas em que a escola intervém, ocupa o entorno ou outros espaços para a realização de suas práticas estabelecem relações entre escolas e territórios que são produzidas e moldadas de acordo com o contexto onde a intituição está inserida. No decorrer da pesquisa de campo, foi possível observar as relações entre escola e comunidade a partir de intervenções no território. Entretanto, nao é objetivo deste texto apresentar todas as ações desenvolvidas durante o período de pesquisa, mas evidenciar aquelas que apresentam aproximações com o território, buscando compreender como influenciam as relações entre escola e comunidade. O contexto apresentado demonstra um aprofundamento das desigualdades sociais que são produzidas a partir da segregação e da periferização social. Frente a esse cenário, um conjunto de intervenções são desenvolvidas na e com comunidade, sejam elas assistenciais, culturais ou educativas. Essas ações são propostas com base na realidade econômica e social do território e são organizadas através de atividades na escola, em seu entorno e no bairro. Neste cenário, observa-se que a escola se torna espaço de estratégia para uma variada gama de propósitos culturais, econômicos e sociais. Há, nesse sentido, um uso conveniente da escola (Costa; Momo, 2009), que articulada com diferentes setores, é utilizada como recurso capaz de resolver diversos problemas. Além disso, evidencia-se a circulação de projetos sociais que ocorrem no bairro e apresentam finalidade educativa. Silva (2022) destaca o quanto a cidade vem experimentando, constantemente, intervenções que influenciam as experiências urbanas no contemporâneo. Dada a urbanização acelerada, que geram contextos de exclusão socioespacial e desigualdades sociais, uma série de intervenções ligadas às políticas educativas e às ações pedagógicas são desenvolvidas, principalmente em contextos mais empobrecidos. De certa forma, as intervenções têm como objetivo reeducar a população local, proporcionar novos aprendizados sociais e mobilizar novas significações aos territórios vividos (Silva, 2022). Experiências similares podem ser observadas na comunidade onde a pesquisa foi desenvolvida. As ações coletivas, desenvolvidas por mobilizações da escola, instituições parceiras e moradores, evidenciam o sentido de comunidade e solidariedade. A ação de limpeza do bairro, um convite aberto para toda a comunidade, onde estudantes e demais moradores do bairro limparam as proximidades da escola e plantaram flores na escola, evidenciam esses sentidos. O mutirão reuniu alunos, pais e professores para realizar a limpeza e organização da escola e seu entorno. Nesse contexto, há uma proposta da escola para a comunidade para desenvolver práticas que objetivam melhorias e valorização do local onde a instituição está inserida. Essa iniciativa, aproxima-se das ações apresentadas nos estudos de Leite e Carvalho (2016), em que os atores desenvolvem ações coletivas de cuidado com o bairro em um exercício de pertencimento daquele local. Além disso, a escola, enquanto um espaço de difusão de informação e conhecimento, possui propostas com a possibilidade de sensibilizar a comunidade do entorno, motivando a participarem de ações de melhoria do território. Em uma leitura mais simbólica do território a partir do conceito desenvolvido por Haesbaert (2014), observa-se que a escola, enquanto uma instituição que ocupa um novo espaço físico no bairro, convoca a comunidade a se apropriar do espaço e construir sua identidade nele e com ele. Neste sentido, a escola colabora para fortalecer os vínculos de pertencimento dos estudantes e dos moradores com o bairro e com o espaço da escola. Por consequência, as intervenções que envolvem o território podem proporcionar o sentimento de pertencimento por parte dos moradores a partir das ações que geram melhorias no espaço. O Projeto “sábado no bairro”, idealizado pela equipe diretiva, é uma das atividades mais antigas na escola. Por ser uma atividade desenvolvida ao ar livre, o projeto ocorre no segundo semestre do ano e consiste em oficinas, atividades recreativas e esportivas, realizadas na escola e seu entorno. As oficinas e as atividades recreativas são desenvolvidas pelos professores da escola e alguns pais voluntários. Dália destaca, “o sábado no bairro tem professor, tem pai, tem mãe, tem os alunos, tem um monte de gente da comunidade” (Entrevista, diretora Dália). Observa-se que o projeto tem uma perspectiva de aproximação da escola com a comunidade, para que eles se sintam parte da instituição e de seu território. Há, nesse sentido, uma ideia de inserção e de participação da comunidade nas atividades da escola, seja para tomar um chimarrão e participar de uma atividade ou para conduzir uma oficina. Essa perspectiva de aproximação pode ser compreendida a partir da ideia de desenvolvimento de práticas ancoradas no conhecimento e pertencimento a um território, e na ampliação das pertenças territoriais e das potencialidades para ensinar e aprender (Silva, 2023) em comunidade. Outro movimento importante que passa a dar visibilidade aos moradores da comunidade, são as ações do Projeto “Mãos na Obra”, que ocorre há nove anos no bairro. O projeto é uma iniciativa idealizada por uma Pedagoga e missionária, que é natural de Natal (Rio Grande do Norte). Suas ações começaram a partir da ação do lanche solidário, em que eram distribuídos cestos básicos para as famílias e, em algumas vezes, lanches. Moradora do bairro há dois anos, mas com o projeto em execução há nove anos, a idealizadora relata seus primeiros anos de ação na comunidade: “Quando cheguei na comunidade a situação era bem precária. Ainda eram poucas pessoas, mas as moradias eram insalubres. Frente a isso, eu passei a ajudá-los com doações e logo em seguida, oficinas para crianças e mulheres” (Diário de campo, 04/11/2023). Nesse contexto, foram observadas ações de solidariedade que visam auxiliar a população em condições de pobreza e vulnerabilidade, como o projeto desenvolvido pela pedagoga e missionária na comunidade, que busca auxiliar na solução das carências e dificuldades dos moradores em acessar seus direitos. Atualmente, a idealizadora direciona seu projeto para as crianças, realizando lanches especiais e oficinas diversas. As atividades ocorrem em sua casa e, quando necessário, ela combina com a escola para realizar os encontros. Durante a realização das entrevistas e da pesquisa de campo, três interlocutoras mencionaram a responsável pelo projeto como uma das pessoas engajadas com a comunidade, tanto em relação às doações como orientações relacionadas aos direitos das famílias, como moradia, auxílios, denúncias de violência, maus tratos, aposentadorias e busca de emprego. Observa-se um movimento de elaboração de atividades e ações para resolver ou amenizar as situações de vulnerabilidade no bairro, como as doações e propostas de oficinas desenvolvidas pelo projeto. Percebe-se também, a partir dos dados do campo, um exercício de conscientização desenvolvido pela responsável do projeto com as mulheres (mães e avós) do bairro, a partir de encontros onde ocorrem diálogos individuais ou em pequenos grupos sobre a busca de melhores condições de vida, sendo essas situações de caráter familiar e privado ou comunitário. As relações entre escola e território são retratadas a partir de intervenções contínuas ou episódicas de caráter educativo, desenvolvidas pela ou com a escola, ampliam o repertório formativo dos estudantes. Além disso, as ações desenvolvidas pelo Projeto “Mãos na Obra” exercem a função de inserir os indivíduos na sociedade e de vislumbrar a transformação desta sociedade. Observa-se que a escola vem reconhecendo o seu papel dentro do território e, a partir de ações no território e disponibilização do espaço escolar, vem fortalecendo suas relações com a comunidade. Por fim, há também diversas perspectivas e interesses em jogo, que utilizam da escola e de seu entorno para desenvolver uma variada gama de propósitos sociais, políticos, econômicos e culturais. Essas iniciativas podem ser observadas a partir do desenvolvimento de ações pedagógicas, culturais, profissionalizantes, interventivas e reparadoras, demonstrando que esta relação territorial presente nas intervenções contém as contradições de uma sociedade desigual. REFERÊNCIAS COSTA, Marisa Vorraber; MOMO, Mariangela. Sobre a “conveniência” da escola. Revista Brasileira de Educação, Rio de Janeiro, v. 14, n. 42, p. 521-604, set./dez. 2009. Disponível em: . Acesso em: 17 maio 2018. HAESBAERT, Rogério. Viver no limite: território e multi/transterritorialidade em tempos de in-segurança e contenção. 1. Ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2014. 320 p. INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Censo 2022. 2023. Disponível em:
https://www.ibge.gov.br/explica/pib.php. Acesso: 3 nov. 2023. LEITE, Lúcia Helena Alvarez. CARVALHO, Paulo Felipe Lopes de. Educação (de tempo) integral e a constituição de territórios educativos. Educação & Realidade, Porto Alegre, v. 41, n. 4, p. 1205-1226, out./dez. 2016. Disponível em:
https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2175- 62362016000401205&lang=pt. Acesso em: 20 dez. 2021. ROCHA, Ana Luiza Carvalho; ECKERT. Cornelia. Etnografias: Saberes e práticas. Ciências humanas: pesquisa e método. Porto Alegre. Editora da Universidade, 2008. SILVA, Rodrigo Manoel Dias da. Intervenções pedagógicas em territórios urbanos no Brasil: a situação do Programa A União faz a Vida. Revista Brasileira de Educação. V. 27, p. 1-21, 2022. Disponível em:
https://www.scielo.br/j/rbedu/a/jTDmfvfRjskTRvFtrNqbD9g/abstract/?lang=… . Acesso em: 27 ago. 2022. SILVA, Rodrigo Manoel Dias da. Pedagogicidades: educação, cultural e territórios urbanos. São Carlos: Pedro e João Editores, 2023.