APRENDIZAGEM NOS ANOS INICIAIS DO ENSINO FUNDAMENTAL: UMA ANÁLISE DOS NÍVEIS DE ESCRITA DE UMA TURMA DE 3º ANO

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Resumo
APRENDIZAGEM NOS ANOS INICIAIS DO ENSINO FUNDAMENTAL: UMA ANÁLISE DOS NÍVEIS DE ESCRITA DE UMA TURMA DE 3º ANO Introdução O potencial de aprendizagem é constituinte da natureza humana e se amplia através da relação com o mundo e por meio de práticas mediatizadas. Em vista disso, aqueles que se engendram no âmbito da educação escolar não podem esquivar-se de compreender que a criança não aprende simplesmente pelo fato de ir à escola, ou por fazer uso dos instrumentos necessários, mas porque é capaz de realizar um trabalho cognitivo a partir daquilo que o meio lhe oferece, é capaz de pensar. Nesse sentido, coadunamos com Ferreiro (1986) quando afirma que “por trás da mão que pega o lápis, dos olhos que olham, dos ouvidos que escutam, há uma criança que pensa”. Posto a obrigatoriedade da universalização do ensino, mas também da garantia de padrão de qualidade e equidade, expressa no art. 212 – Emenda Constitucional nº 59 (Brasil, 2009), mesmo diante da política de incentivo à melhoria da educação no país, o que se presencia é que nem sempre esse fator está sendo efetivado no contexto escolar, pois, apesar dos esforços existentes, vemos que parte significativa de nossas escolas ainda apresenta elevados índices de insucesso. Os resultados da avaliação do 2º ano do ensino fundamental do Saeb[1] 2021, divulgados pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisa Educacionais Anísio Teixeira (INEP), revelam que 43,6% dos estudantes estavam alfabetizados ao final do 2º ano, o que sinaliza desafios persistentes na alfabetização de crianças no contexto nacional (Brasil, 2024). Ainda que a aprendizagem envolva aspectos que ultrapassam a apropriação do sistema de escrita alfabética, consideramos que esta auxilia na internalização de conceitos, no desenvolvimento de funções psicológicas superiores uma vez que a escrita é um sistema simbólico de representação da realidade (Oliveira, 2003). Concebendo a leitura e da escrita nos anos iniciais como um processo complexo, interno e ao mesmo tempo cultural, que é construído de modo particular e através das relações sociais, objetivamos compreender o processo de aprendizagem de uma turma de 3º ano de uma escola pública do município de Guanambi-BA. Os resultados aqui apresentados são um recorte da pesquisa de mestrado intitulada “O aprendizado de uma turma de 3º ano do Ensino Fundamental: tensões, limites e possibilidades”. Tendo como pressuposto teórico a Psicogênese da Língua Escrita (Ferreiro; Teberosky, 1986), não apenas focando nos aspectos gráficos, mas naquilo que se quis representar e nas estratégias utilizadas, entendendo que a aparência gráfica não é garantia de escrita (Ferreiro, 2001), analisamos os níveis de escrita das crianças da turma. A criança constrói diferentes hipóteses sobre a escrita antes mesmo de chegar à compreensão do sistema alfabético. Portanto, “a escrita infantil segue uma linha de evolução surpreendentemente regular, através de diversos meios culturais, de diversas situações educativas e de diversas línguas” (Ferreiro, 2001, p. 18). Considerando a linha de evolução da escrita infantil, Ferreiro (2001) distingue três grandes períodos. Nos dois primeiros as hipóteses da criança são definidas como pré-silábica, entretanto, quando a escrita começa a ser regulada pela diferenciação entre os significantes sonoros, há um ingresso no terceiro momento o qual ela chama de fonetização da escrita. Este se inicia no período silábico, passa pelo silábico-alfabético e culmina no alfabético. A hipótese silábica se caracteriza como a escrita na qual a criança começa a utilizar uma letra para representar uma sílaba, sem omitir sílabas ou repetir letras. O período posterior é caracterizado pela hipótese silábica-alfabética que “marca a transição entre os esquemas prévios em vias de serem abandonados e os esquemas futuros em vias de serem construídos” (Ferreiro, 2001, p. 27). O ingresso na hipótese alfabética se dá quando a criança descobre que a sílaba não pode ser considerada como uma unidade, mas que ela é reanalisável em elementos menores. O início do período alfabético é marcado por novos problemas, sobretudo ortográficos, posto que não existe uma regularidade entre letras e sons (Ferreiro, 2001). Portanto, quando a criança apresenta a escrita alfabética é comum encontrarmos omissões, acréscimos ou trocas de letras, pois mesmo tendo atingido esta fase de compreensão da escrita, nem sempre fará a escrita convencional. Tais falhas na ortografia não são consideradas “erros” para a psicogênese, mas a constatação de que a produção escrita é resultado de descobertas e não de mera cópia. A partir de Vygotski (1994), temos que, assim como a aprendizagem da fala corresponde a um marco no desenvolvimento infantil, aprender a língua escrita ativa o desenvolvimento de processos psicointelectuais da criança. Logo, compreendemos a importância dessa aprendizagem para a apropriação de conceitos e de habilidades necessárias ao bom desempenho escolar nos anos iniciais e, por isso, sistematizamos aqui os resultados da produção escrita dos sujeitos participantes da pesquisa. Metodologia A aprendizagem dos alunos enquanto objeto de estudo aponta para a abordagem qualitativa, pois essa objetiva compreender o comportamento e a experiência humana por meio da qual se constroem significados, privilegiando a perspectiva do sujeito e o contexto natural em que os fenômenos ocorrem (Bogdan; Biklen, 1994). Trata-se de um estudo de caso por entendermos que investigar um caso específico nos oferece melhores condições de análise, pois permite estudá-lo em profundidade, apresenta flexibilidade e favorece o entendimento do processo (Gil, 2009). Os sujeitos da pesquisa foram a professora e os 21 estudantes da turma, entre oito e 14 anos de idade, identificados com o nome fictício que cada um escolheu para si. Os indicadores apontam para o elevado número de alunos com atraso de dois ou mais anos escolares. Desta forma, 62% da turma, 13 alunos, se encontrava em distorção idade/ano escolar e apenas oito cursavam o 3º ano pela primeira vez. Dentre outros instrumentos, com o objetivo de analisar os níveis de escrita dos alunos, realizamos a observação participante e duas etapas de teste individual de escrita, uma no início e outra no final do segundo semestre letivo. Foi solicitado a cada criança que registrasse uma relação de quatro palavras[2] seguidas de duas frases usando três delas. Optamos pela técnica da triangulação para tratamento das informações, pois essa possibilita um cruzamento de diferentes pontos de vista (Minayo, 2010). Consideramos não apenas os resultados dos testes de escrita, mas o processo em que foi realizada e escritas produzidas durante as aulas. Assim, identificamos as hipóteses/nível de escrita de cada criança, analisamos os casos de evolução e traçamos um quadro comparativo das duas etapas de testes. Os níveis de escrita dos alunos Embora seja previsto que os alunos tenham se apropriado do sistema de escrita alfabética até o 3º ano[3], os dados revelam que a maioria dos investigados apresentou um nível de escrita inferior ao que é esperado para o ano em curso, conforme enuncia os gráficos 1 (1ª etapa) e 2 (2ª etapa) acerca dos níveis de escrita dos 21 alunos nas duas etapas dos testes de escrita. Conforme o percentual exposto no gráfico 1, sete alunos se encontravam no nível pré-silábico, 11 no silábico-alfabético e três no alfabético. Os percentuais expostos no gráfico 2 evidenciam que os sete permaneceram com nível de escrita pré-silábica, nove com nível silábico-alfabético e cinco concluíram o ano letivo apresentando nível alfabético, o que aponta para alguns sinais de evolução em relação aos níveis de escrita de duas crianças. A análise da escrita das sete crianças que apresentaram hipótese pré-silábica permitiu-nos observar que houve poucos sinais de evolução. Cinco delas são repetentes (dois anos no 3º ano) e dois são multirrepetentes (três ou quatro anos no 3º ano). A figura 1 mostra a escrita pré-silábica de um desses alunos. Nas observações em sala de aula, percebemos que Bruno ainda apresenta dificuldade no reconhecimento das letras. Ia falando a palavra e usando uma letra para cada som, sinalizando hipótese silábica, porém ainda demonstra instabilidade em algumas palavras. Ao registrar a frase, fez uso de uma letra para cada palavra, já na segunda etapa, foi percebendo que apenas uma letra não era suficiente e acrescentava outras. A escrita de Bruno demonstra que houve uma evolução no modo de compreender a escrita. A escrita da palavra bola demonstra que a criança registra mais facilmente e retoma as palavras que lhe são mais familiares. Estas acabam lhes servindo de referência para a escrita de novas palavras. Possibilitar que a criança faça uma análise a partir da relação entre as que lhes são mais familiares e as novas palavras, constitui-se uma boa estratégia para mediação de sua escrita. As escritas produzidas por Marília Azevedo (figura 2) revelam uma evolução. Na primeira etapa caracterizou a hipótese silábica-alfabética, pois procurou associar uma letra para cada som (peteca), com algumas variações[4]. Na palavra boneca havia utilizado apenas as três primeiras letras e no momento da leitura acrescentou (tia). No segundo teste começa a apresentar uma escrita alfabética, pois parece se pautar na marca da oralidade, representando os sons produzidos na fala, embora haja omissão (bicicleta) ou troca de letras com som parecidos (peteca). A escrita de João Lucas (figura 3) nos mostra o quanto ele evoluiu da hipótese silábica-alfabética para a alfabética. Na primeira etapa atribui uma letra para cada palavra, ao passo que na segunda registra-as de modo convencional, omitindo (gosto-brincar) ou trocando letras (boneca- bicicleta). Marília Azevedo e João Lucas passaram a compor o grupo dos que apresentavam hipótese de escrita alfabética, porém, com características diferenciadas das escritas da figura 4. Embora Beatriz apresente omissão de letra na palavra bicicleta, ambas as escritas já se mostram mais estáveis em relação aos alunos mencionados. O fato de uma criança apresentar um nível de escrita alfabética não significa que esteja alfabetizada, é necessário essa que seja capaz de ler e escrever textos com autonomia e tenha condições de participar de forma ativa e em diferentes situações em que a língua escrita se faça presente. Notamos a efetiva participação de Lara[5] durante os questionamentos levantados pela professora, bem como seu desempenho na realização das atividades e suas escolhas por textos nos momentos de leitura propostos pela professora ou nas ocasiões de leitura livre. Diferente de seus colegas, ela sempre recorria ao “cantinho da leitura” quando concluía suas atividades. Retomando estas observações e fitando nos resultados de escrita apresentados pelos alunos, inferimos que a ausência da apropriação do sistema de escrita alfabética pode impactar diretamente o interesse pela leitura e prejudicar a compreensão e abstração de conceitos. As propostas pedagógicas se concentravam em leitura e escrita, em detrimento das disciplinas e demais áreas do conhecimento, uma vez que o objetivo era alfabetizar aquela turma marcada pelo insucesso nas habilidades de ler e de escrever. Porém, a maneira com que o desempenho desses alunos foi avaliado nos parece contraditória. Primeiro porque notamos que João Lucas e Marília Azevedo, que demonstraram sinais de evolução na escrita foram reprovados mais uma vez. Além disso, notamos que o foco que poderia estar nos pontos fortes dos alunos parecia estar justamente em suas deficiências. Considerações finais Considerando as características do contexto investigado, as atividades que lhes foram propostas, os níveis de escrita em que se encontram, assim como a defasagem idade/ano escolar apresentada pela maioria dos alunos, podemos inferir que o desenvolvimento de seus processos intelectuais ocorreu em ritmo inferior ao de suas potencialidades. Salientamos que a caracterização da escrita dos alunos se fez necessária, uma vez que nossa pretensão foi compreender como se dá o processo de aprendizagem desses. Ancoramo-nos na compreensão de que a qualidade da escrita impacta a aprendizagem das crianças, uma vez que aquelas que ainda não compreendem ou fazem uso do sistema de escrita alfabética, principalmente por estarem em um ano escolar que exige delas tal competência, poderão estabelecer vínculos negativos ou apresentar dificuldades para aprender, para compreender ou abstrair conceitos. Considerando a importância da apropriação do sistema de escrita alfabética para um efetivo desempenho escolar nos anos iniciais e as características do contexto investigado, marcado pela redução de possibilidades de construção de conceitos relacionados aos conteúdos escolares, salientamos uma redução das possibilidades de aprender conceitos acerca das diferentes disciplinas escolares e, como efeito, do desenvolvimento de suas funções psicológicas. Referências BOGDAN, R.; BIKLEN, S. K. Investigação qualitativa em educação: uma introdução à teoria e aos métodos. Tradução de Maria João Alvarez, Sara Bahia dos Santos e Telmo Mourinho Baptista. Portugal: Porto Editora, 1994. BRASIL. Emenda Constitucional nº 59, de 2009. Brasília, DF, 12 nov. 2009. BRASIL. Base Nacional Comum Curricular (BNCC): educação é a base. Brasília, MEC/CONSED/UNDIME, 2017. BRASIL. Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira. Relatório do 5º ciclo de monitoramento das metas do Plano Nacional de Educação – 2024. – Brasília, DF: Inep, 2024. 625 p.: il. FERREIRO, E.; TEBEROSKY, A. Psicogênese da língua escrita. Tradução de Diana Myriam Lichtenstein et al. Porto Alegre: Artes Médicas, 1986. FERREIRO, E. Reflexões sobre alfabetização. 24. ed. São Paulo: Cortez, 2001. GIL, A. C. Estudo de caso. São Paulo: Atlas, 2009. MINAYO, M. C. de S. Introdução. In: MINAYO, M. C. de S.; ASSIS, S. G.; SOUZA, E. R. (org.). Avaliação por triangulação de métodos: abordagem de programas sociais. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2010. p. 19-51. VIGOTSKI, L. S. Aprendizagem e desenvolvimento intelectual na idade escolar. In: VIGOTSKI, L. S.; LURIA, A. R.; LEONTIEV, A. N. Linguagem, desenvolvimento e aprendizagem. Tradução de Maria da Pena Villalobos. São Paulo: Ícone, 1994. p. 103-117. OLIVEIRA, M. K. de. Vygotsky: aprendizado e desenvolvimento – um processo sócio-histórico. São Paulo: Scipione, 2003. (Pensamento e ação no magistério). [1] Sistema de Avaliação da Educação Básica. [2] Pré-selecionadas considerando diferentes quantidades de sílabas e brinquedos como campo semântico (bola, boneca, peteca e bicicleta). [3] Conforme a Base Nacional Comum Curricular – BNCC (Brasil, 2017), o período referência para a alfabetização passa a ser o 2º ano. [4] Na palavra bicicleta começa usando uma letra para cada sílaba, mas consegue registrar a última (TA) de modo convencional. O acréscimo da letra R é decorrente do modo como a criança pronuncia a sílaba CLE (CRE). [5] Única aluna alfabetizada da turma.

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