(ESCRE)VIVÊNCIAS EDUCATIVAS DE MULHERES QUE SÃO MÃES E ESTUDAM NA EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS (EJA)

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Resumo Expandido - Trabalho
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Abstract
(ESCRE)VIVÊNCIAS EDUCATIVAS DE MULHERES QUE SÃO MÃES E ESTUDAM NA EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS (EJA) Para início de conversa... O presente trabalho origina-se de uma pesquisa desenvolvida no âmbito da Iniciação Científica Júnior[1] no Colégio das Oliveiras (CO)[2], unidade escolar circunscrita no Território de Identidade do Velho Chico, no interior do estado da Bahia. Ao olharmos para o cotidiano dessa escola, notamos que um número significativo de estudantes da Educação de Jovens e Adultos (EJA)[3] é composto por mulheres-mães que demonstram cansaço e parecem dispor de poucas condições de acesso e permanência na escola. Diante dessa realidade, questionamos: Quem são as mulheres-mães-estudantes da EJA matriculadas Colégio das Oliveiras? Quais condições marcam suas experiências de acesso e permanência na escola? Tais indagações orientaram na formulação dos objetivos da pesquisa, que consistiram em: a) Problematizar as relações de gênero na sociedade na educação; b) Identificar as escrevivências de mulheres-mães-estudantes da EJA; c) Analisar suas condições de acesso e permanência na escola. Na busca por respostas, tomamos as escrevivências das participantes como principal objeto de análise, compreendendo-as como narrativas que emergem das experiências e vivências, ora individuais, ora coletivas (Evaristo, 2017). Os esforços utilizados nesta empreita investigativa contribuem para o desmonte dos ideais de uma sociedade visceralmente capitalista, racista, misógina e machista, que ainda atribui à mulher múltiplas responsabilidades, impondo-lhe barreiras estruturais, sobretudo no que se refere ao mercado de trabalho e aos percursos de escolarização. Como salientam Reis e Eiterer (2017), trata-se de uma problemática histórica, pois desde a infância, “[...] somos orientados para seguir determinados comportamentos socialmente aceitos” (p. 7). Nesse sentido, o propósito deste texto é evidenciar que “nem tudo são flores” na trajetória de mulheres que são mães e estudam da EJA. Ao contrário, suas vivências são atravessadas por desafios cotidianos, tensões e resistências. Para isso, tomamos como referência um contexto que nos é particular, destacando sua capacidade e vontade de agir para obter melhores condições de vida e de estudo (Reis; Eiterer, 2017; Magalhães; Jorge, 2023). Percursos teórico-metodológicos “Poderia me dizer, por favor, que caminho devo tomar para ir embora daqui?” “Depende bastante de para onde quer ir”, respondeu o Gato. “Não me importa muito para onde”, disse Alice. “Então não importa que caminho tome”, disse o Gato. “Contanto que eu chegue a algum lugar”, Alice acrescentou à guisa de explicação. (Carrol, 2002, p. 59). O conhecido diálogo entre Alice e o gato, pinçado do livro Alice no País das Maravilhas, publicado originalmente em 1865 por Lewis Carrol, serve como uma metáfora para o ato que nomeamos de fazer pesquisa, entendido como “um procedimento formal [...] que requer um tratamento científico e se constitui no caminho para conhecer a realidade ou para descobrir verdades parciais” (Marconi; Lakatos, 2010, p. 139). Saber para onde ir e quais caminhos seguir são tarefas precípuas para um bom pesquisador (Marconi; Lakatos, 2010; Castro, 2006), por isso, na condução metodológica da pesquisa que aqui debulhamos, em um primeiro momento, fizemos uma revisão de literatura sobre as relações de gênero and Educação de Jovens e Adultos, em bancos de teses e dissertações brasileiros e no Google Acadêmico. Um olhar aligeirado para essas produções, não por isso menos criterioso, nos mostrou que a maioria dos estudos têm analisado fatores que atravessam as condições de acesso e permanência de estudantes da EJA. O modo como cada sujeito enxerga a vida e os dilemas que a circundam figura como um elemento que confere novidade a cada estudo. Em resumo, esses trabalhos têm demonstrado que o desafio contemporâneo não consiste em decidir se a escola deve ou não falar sobre a EJA ou os sujeitos que dela se utilizam, mas sim em perceber como ela já fala, a fim de que possamos repensá-la. Em segundo momento, dedicamo-nos à tarefa de tentar identificar as informantes da pesquisa. Para isso, pedimos a colaboração dos líderes de classe das três turmas de EJA do CO, mediante envio de uma mensagem de texto nos grupos de WhatsApp, onde definimos o propósito investigativo e os cuidados éticos, expressos na utilização de nomes fictícios. Identificadas as participantes, que aceitaram colaborar de forma voluntária, procedemos com o envio do questionário online, no dia 31 de julho de 2024, com questões objetivas e subjetivas. Por meio do referido instrumento, traçamos o perfil das mulheres-mães-estudantes da EJA e capturamos fragmentos das suas escrevivências educativas. Inspirados nas reflexões de Conceição Evaristo, compreendemos a escrevivência como um procedimento teórico-metodológico que concebe a escrita como movimento relacionado à vivência de quem narra, às experiências de quem escreve (Duarte; Nunes, 2020). Evaristo deixa claro que nunca se ocupou da formulação de um conceito. Entretanto, quer queira, quer não, suas provocações nos deram subsídios para endossarmos a inseparável relação entre texto e sujeito e os debates em torno do paradigma qualitativo das pesquisas em educação. Ao falar sobre a origem da escrevivência como uma categoria epistemológica – a qual, segundo a nossa aposta, se faz importante para a produção do conhecimento científico –, a autora desta: [...] surge da minha experiência pessoal. Surge na investigação do entorno, sem ter resposta alguma. Da investigação de vidas muito próximas à minha [...]. Assim como a escritora ou o escritor ao inventar a sua escrita, pode deixar um pouco ou muito de si, consciente ou inconscientemente, creio que a pessoa que lê, acolhe o texto, a partir de suas experiências pessoais, se assemelhando, simpatizando ou não com as personagens. (Evaristo, 2020, p. 32). Esse entendimento diz muito da nossa inclinação para a temática aqui discutida. Os desafios enfrentados pelas mulheres-mães-estudantes da EJA, nossas interlocutoras, se aproximam daqueles que temos enfrentado, cotidianamente, diante dos ideais heteronormativos, misóginos e racistas que circulam nas instituições de saber-poder (Magalhães; Jorge, 2023). Como Castro (2006, p. 54), acreditamos que “[...] “o que o coração não sente, os olhos não veem”. Em outras palavras, voltamos nosso olhar para temas e assuntos instigados por nossas crenças, por nosso coração”. Enfim, com os dados em mãos, fizemos uma leitura flutuante para identificar as categorias recorrentes, que foram analisadas a partir da noção de escrevivência – ela que, conforme discutimos, não deve ser compreendida como uma “história de ninar” (Evaristo, 2017), mas como uma escrita capaz de gerar incômodos e mobilizar pessoas (tanto as que escrevem quanto as que leem) para uma intervenção concreta diante dos problemas. Resultados e discussão Foram identificadas dez mulheres-mães-estudantes da EJA no Colégio das Oliveiras. Diante da leitura e análise dos dados, notamos que elas possuem uma faixa etária entre 17 e 38 anos, sendo que a maioria delas se autodeclara preta ou parda, como exposto no gráfico 1. Gráfico 1 – Identificação étnico-racial Fonte: Dados da pesquisa, 2024. Entre as mulheres-mães-estudantes da EJA participantes, oito têm entre um e dois filhos, sendo que uma tem quatro filhos e outra está gestante: “Tô grávida de quatro meses”. Observa-se que a maioria delas teve filhos com menos de vinte anos, o que pode estar relacionado à ausência de práticas educativas voltadas para a educação sexual na escola, ausência de orientação e diálogo entre pais e filhos sobre relações sexuais e medidas de prevenção de Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs). É importante salientar, ainda, que há duas informantes se dedicam exclusivamente aos estudos, três de identificaram como donas de casa, sendo uma delas diarista, e duas que trabalham em secretaria de almoxarifado e salão de beleza. Duas delas não especificaram sua ocupação e uma preferiu não responder. No que diz respeito à renda familiar, a maioria sobrevive apenas com menos de um salário mínimo (80%) e apenas 20% entre um e um salário mínimo e meio, como ilustrado no gráfico 2. Gráfico 2 – Renda familiar das participantes Fonte: Dados da pesquisa, 2024. Esses dados corroboram as estatísticas recentes: pessoas pretas e/ou pardas são mais vulneráveis socialmente, refletindo as marcas de uma sociedade estruturalmente racista em que o preconceito de reproduz, gerando desigualdades. Além da combinação de fatores econômicos e étnico-raciais, as mulheres-mães-estudantes da EJA dizem já ter interrompido a trajetória escolar por múltiplos motivos entre eles: necessidade de trabalhar, falta de suporte para cuidar dos filhos e até mesmo atritos com os companheiros. Esse último ponto merece destaque, pois desde a infância, mulheres são educadas para exercerem papeis tradicionais como o de esposas, mães, donas de casa... (Reis; Eiterer, 2017). Embora não tenham mencionado, os companheiros tendem a inibir a participação dessas mulheres nas atividades escolares, dado este que reforça um imaginário em que os homens exercem controle sobre o corpo feminino. Acreditamos que essa lógica tem sua origem em estereótipos que nos dizem em quais espaços podemos estar, o que convém aos homens e às mulheres pensar, dizer, vestir e fazer, os quais precisam ser desfeitos (Magalhães, Jorge, 2023). Outros desafios foram destacados pelas interlocutoras[4]: “Enfrentar o cansaço do dia a dia.” (Maria de Fátima) “[...] deixar meus filhos em casa.” (Maria das Dores) “[...] O único tempo que tenho com minhas 3 meninas, é a noite. Aí tenho que conciliar o tempo.” (Maria Vitória) “[...] ter que cuidar da casa, trabalhar, cuidar da minha filha e estudar. Às vezes, não tenho tempo pra nada, nem pra dormir direito. Porque quando tem prova ou algum trabalho [...], passo a noite acordada.” (Maria Aparecida) “Eu trabalho o dia todo e levo minha filha. Chego à noite, ela, na maioria das vezes, tá cansada e quer dormir. Só que, quando ela dorme, não consigo ir porque não tenho ninguém que possa ficar com ela.” (Maria Cecília) “Meu desafio é meus 2 filhos. Pois não tenho com quem deixar e também não tenho condições de pagar uma babá, e estou gestante, sempre passo mal por conta da anemia!” (Maria Alice) O cansaço gerado pelas múltiplas tarefas realizadas durante o dia aparece como um fator que dificulta a permanência dessas mulheres-mães que estudam na EJA, agravado pelo constante desafio de conciliar estudos e maternidade. Em virtude disso, parecem abdicar até do autocuidado e perdem noites de sono, o que resulta em problemas de saúde. Diante desse amálgama, urge indagar: O que faz com que elas, mesmo com tantos desafios, permaneçam na escola e queiram concluir os estudos? Conforme evidenciam suas escrevivências, o que dá sentido a essa luta cotidiana é o desejo de ter um futuro melhor e ingressar no mercado de trabalho. E complementam: “[...] quero ser a primeira da família a formar” (Maria Júlia), “[...] dá um bom exemplo aos meus filhos” (Maria Helena). Assim, vemos que, mesmo com poucas condições de acesso e permanência na escola, elas lutam por uma vida menos agitada, um futuro melhor e financeiramente estável, reconhecendo que a educação é um dos caminhos fundamentais para a realização dos seus sonhos e a conquista da sua vocação ontológica, que é ser mais, é humanizar-se (Freire, 1996). Considerações finais O acesso e a permanência das mulheres-mães-estudantes da EJA na escola são intrincados por desigualdades que atravessam questões étnico-raciais, socioeconômicas e de gênero. Apesar dos obstáculos, elas resistem e lutam cotidianamente por melhores condições de vida. Suas escrevivências educativas são marcadas pela falta de suportes institucionais e de pessoas, fatores que têm reverberado em uma tardia conclusão do Ensino Médio. A criação de uma rede de apoio, dentro e fora da escola, emerge como uma medida imprescindível. Enfim, salientamos que os objetivos da pesquisa foram alcançados e destacamos a importância das reflexões ora apresentadas, enquanto dados capazes de provocar incômodos e despertar práticas educativas mais sensíveis e acolhedoras, tendo como mote as escrevivências dos sujeitos que interagem, aprendem-e-ensinam, na escola e em outros espaços de educação. REFERÊNCIAS CARROL, Lewis. Alice no País das Maravilhas. Tradução de Cecília Regina Ramos. Rio de Janeiro: Arara Azul, 2002. CASTRO, Claudio de Moura. A prática da pesquisa. – 2ª ed. – São Paulo: Pearson Prentice Hall, 2006. DUARTE, Constância Lima; NUNES, Isabella Rosado (Org.). Escrevivência: a escrita de nós: reflexões sobre a obra de Conceição Evaristo. Ilustrações: Goya Lopes. – 1ª ed. - Rio de Janeiro: Mina Comunicação e Arte, 2020. EVARISTO, Conceição. Becos da memória. – 3ª ed. – Rio de Janeiro: Pallas, 2017. EVARISTO, Conceição. A escrevivência e seus subtextos. In: DUARTE, Constância Lima; NUNES, Isabella Rosado (Org.). Ilustrações: Goya Lopes. Escrevivência: a escrita de nós: reflexões sobre a obra de Conceição Evaristo. – 1ª ed. – Rio de Janeiro: Mina Comunicação e Arte, 2020, p. 26-46. FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996. MAGALHÃES, Iani Silva; JORGE, Romário Silva. Fios que enlaçam os “saberes-experiências” de uma mulher da roça, mãe, costureira e estudante da EJA. Anais... VI Seminário de Educação da UNEB-Campus XII: Pedagogia e processos formativos: entre emergências e insurgências. Guanambi - BA, 2023, p. 1-6. MARCONI, Marina de Andrade; LAKATOS, Eva Maria. Fundamentos de Metodologia Científica. – 7ª ed. – São Paulo: Atlas, 2010. REIS, Sônia Maria Alves de Oliveira; EITERER, Carmem Lúcia. “Nem tudo são flores”: a interface da educação popular e um modo de ser mulher, mãe e líder nas comunidades eclesiais de base. Anais... 38ª Reunião Nacional da Anped, 01 a 05 de outubro de 2017. UFMA – São Luís/MA: Anped, 2017, 1-17. [1] Registramos nosso reconhecimento e agradecimento às estudantes de Ensino Médio que produziram as reflexões iniciais que aqui desenvolvemos. Gratidão, Carolayne, Júllia, Maria Clara e Taima! [2] Utilizamos um pseudônimo para identificar a escola, a fim de garantir a identidade dos sujeitos e, com isso, fazer a manutenção dos cuidados éticos na pesquisa. [3] A EJA é uma modalidade educativa voltada, prioritariamente, para aquelas pessoas que não conseguiram concluir o Ensino Fundamental ou o Ensino Médio na idade que se convencionou referir como adequada, entre 4 e 17 anos. [4] Para garantir o anonimato, utilizamos nomes compostos a partir do substantivo próprio Maria, uma alusão ao curta-metragem Vida Maria, de Márcio Ramos (2006). A obra mostra a multiplicidade de Marias que, com sinas bastante parecidas, perpetuam a cultura do trabalho doméstico e do não estudo no sertão. Não porque querem, vale salientar, mas por conta de uma estrutura social que as educou para esse fim.

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  • GT18 - Educação de Pessoas Jovens e Adultas