PEDAGOGIA DE COMPETÊNCIAS E TEORIA CRÍTICA: REFLEXÕES A PARTIR DO PENSAR EM CONSTELAÇÃO DE THEODOR ADORNO Introdução O presente trabalho parte de uma pesquisa de Doutorado cujo objetivo geral é compreender determinações históricas da introdução da norma pedagógica orientada pelo desenvolvimento de competências na formação em Psicologia. O conceito de competência é apresentado como sendo uma capacidade individual para a mobilização e articulação de conhecimentos, habilidades e atitudes que resultam em desempenho eficiente e eficaz nos contextos profissionais (Perrenoud, 2000; Zarifian, 2001; 2010). Para além do conceitual, o que a pedagogia das competências porta em si como algo que se tornou por efeito das suas mediações históricas constitutivas? Qual terá sido seu caminho e processo de objetivação? Qual história está contida no seu objeto? Método A análise do tema das competências aqui realizada tem aporte na Teoria Crítica da Sociedade, por motivo de relevância filosófica e sociológica. Os autores aos quais nos referimos, apesar de não terem chegado à competência como tal, defendem que o segredo de um objeto é coisa que se constitui dentro e fora dele. Na medida em que se viu implicado com exercícios de estranhamento do existente racionalizado, o dispositivo filosófico fundante da Escola de Frankfurt dedicou-se ao estudo de figuras da dominação que se constituíram no decorrer do século XX e que determinaram os rumos de processos sociais que estabeleceram, por sua vez, os contornos da educação contemporânea. O enquadre histórico de eventos da vida social que configura tendências e acordos ao redor da pedagogia de competências como discurso oficial das políticas educacionais nos parece oportuno, no sentido da viabilidade de confrontá-lo com os problemas da razão instrumental, da indústria cultural, da dominação ideológica e do esvaziamento de sentido da formação por meio da insistente afirmação de supostas transformações “para melhor”. Primeiro, nos inclinamos a alguns pressupostos elementares da Teoria Crítica; em seguida, apresentaremos a constelação crítica a partir de Adorno (2009), não como um conceito em si, e sim como operador para a leitura dos conceitos analisados em relação. Apontamentos críticos Foi por meio da análise da concretude histórico-material da realidade social que uma primeira geração de filósofos críticos de Frankfurt constatou que a promessa moderna de autonomia redundou no seu oposto (Horkheimer; Adorno, 1985). De seres humanos (que somos) passamos à triste categoria de recursos humanos previsíveis e úteis (que nos querem tornar) ao arranjo capitalista que apoia o que lhe fortalece. Compreenderemos a lógica da competência como expressão da pseudoformação (Adorno, 1971), conceito que busca justamente sublinhar que são falsas as propostas pedagógicas vendidas e defendidas como se de interesse fossem à autonomia do indivíduo, quando, em verdade, se mostram como instrumentos postos à disposição do princípio adaptativo que racionaliza um modelo de vida que a danifica (Adorno, 1992). É no necessário demorar-se do pensamento que se mostram as tensões entre o que o objeto pretende negar e o que nele se opõe à negação, como quando Zarifian (2001), um dos mais influentes porta-vozes da competência, denega a existência de elo entre tal conceito e a plataforma neoliberal. Se é preciso alcançar algo para além do conceito e através dele (Adorno, 2009), as noções articuladas de competências e habilidades não são devidamente compreendidas fora de um esquema que as associa aos problemas de adaptação, ideologia, reificação e consciência contraditória, relacionados em constelação. Deliberadamente, não utilizamos a palavra formação em referência ao que temos atualmente. Em acordo com Adorno (1971), formação envolve a apropriação subjetiva da cultura em seu valor substancial, o que não corresponde ao pêndulo inclinado à adaptação ao mundo, dominante na Educação. Nesse sentido, uma formação digna do nome se opõe ao estado de coisas que se estabelece na atual configuração sociopolítica e econômica. Parece ingênuo afirmar os parâmetros pseudoformativos da pedagogia de competências como bons porque inovadores em relação ao ensino tradicional. Também chega como cínico negá-los em seu caráter tecnicista e rendido aos ditames de mercado por quem sabe ao que eles se prestam na qualidade de balizadores da política educacional. Assim, tensionamos os contornos do que se entende por formação, em sua defesa. O ensino-mercadoria é exemplo do que se quer desadormecer quando se reitera a ideia de sociedade administrada (Horkheimer; Adorno, 1985) em um momento que acomoda a educação como um produto ou serviço qualquer. E, no caso do ensino superior, destinado a “realizar de forma mais conclusiva a adaptação do indivíduo ao mundo presente e ao mundo futuro, pensado como extensão do presente” (Silva, 2001, p. 35). Silva (2001) nega que as universidades públicas estão protegidas da racionalidade das competências, atento à tendência objetiva que tende a desorganizar e, no limite, extinguir o ensino público em favor do privado; e mais, a implantação dos modelos privatistas de organização e gestão em tais instituições, reconhecidos por indicadores de produtividade e eficiência, dilui as diferenças entre os sistemas. Cabe resgatar o prestígio, ou, nas palavras de Perrenoud (2013), o fascínio que o discurso da competência conquistou em lugares institucionais de onde se espera oposição. É o caso de indagar se apenas pela absorção totalizante do público pelo privado ou se há, de fato, o entendimento da formação por competências como pedagogia que se justifica como dominante. Para Pucci (2018), caberia recuperar as teses centrais de Adorno (1971) a partir de um exercício de tensionamento das contradições sociais e históricas contemporâneas que afetam o tema da formação. O diagnóstico de crise da formação cultural (Adorno, 1971) apontou para o risco de abertura calculada, não democrática, de contato com os bens culturais; mais, para sua fetichização - compreendidos e consumidos como produtos. Segundo Pucci (2018), em um contexto de capitalismo neoliberal, o rebaixamento da experiência formativa indicado por Adorno se agrava. Nesse sentido, a teoria deve explicitar suas novas nuances constitutivas, bem como atentar às possibilidades de resistência ao que se impõe nesse tempo histórico (Patto, 2008). Isto leva a indagar: como uma falsa formação se nos apresenta como ideal quando, em verdade, é onipresença do espírito alienado como forma dominante da consciência? Como tratar esta situação? No cenário atual, o espírito empreendedor é prioridade nos sistemas de Educação dos países ocidentais; a gestão privada vence a administração pública por ser considerada eficiente, flexível e inovadora. Se indivíduo e Estado existem como empresas (Dardot; Laval, 2016; Pucci, 2018), demandam-se novas roupagens para o conceito de autonomia: o culto à inovação para a solução de crises e incertezas, o elogio da informação como crivo de tudo, a conversão de ócio em negócio, a ideia de aprendizagem ao longo da vida, a ênfase em discursos sobre gestão, o desprestígio da atividade e autoridade docente e todo um vocabulário que passa pelo discurso de competências (Ramos, 2001). Considerações finais A pseudoformação captura a Educação com finalidade de adequação resignada ao existente. No neoliberalismo, a racionalidade pedagógica triunfante expressa a soberania da integração indivíduo-sociedade na chave do conformismo e da adaptação ao mercado. Há uma contradição básica: o projeto societário defende o indivíduo enquanto medida de todas as coisas é o mesmo que impede sua realização e sustenta sua captura (Horkheimer; Adorno, 1956). Assim, o sujeito da competência é a caricatura de um indivíduo livre em condições de heteronomia e opressão (Adorno, 1992). Do aceno que se faz à autodeterminação individual resulta a denúncia de sua liquidação degradante na condição infeliz de personalidade. Contudo, algo resiste: “o pulso ainda pulsa” (O PULSO, 1990). E parece ainda buscar sinais do diferente. REFERÊNCIAS: ADORNO, T. W. Teoria de la seudocultura. In: HORKHEIMER, M.; ADORNO, T. W. Sociologica. Madri: Taurus, 1971, p. 233-267. ADORNO, T. W. Minima moralia: reflexões a partir da vida danificada. São Paulo: Ática, 1992. ADORNO, T. W. Dialética negativa. Rio de Janeiro: Zahar, 2009. DARDOT, P.; LAVAL, C. A nova razão: ensaio sobre a sociedade neoliberal. São Paulo: Boitempo, 2016. HORKHEIMER, M.; ADORNO, T. W. (Orgs.), Temas básicos da Sociologia. São Paulo: Cultrix, 1956. HORKHEIMER, M.; ADORNO, T. W. Dialética do esclarecimento: fragmentos filosóficos. Rio de Janeiro: Zahar, 1985. O PULSO. Intérprete: Titãs. Compositores: Arnaldo Antunes, Marcelo Fromer, Tony Belloto. In: Õ Blésq Blom. Intérprete: Titãs. São Paulo: Warner Music Brasil, 1990. 1 disco vinil, lado B, faixa 2 (2:44). PATTO, M. H. S. Teoria crítica e ciências da educação: algumas reflexões. InterMeio: revista do Programa de Pós-Graduação em Educação, Campo Grande, v. 14, n. 28, p. 167-176, jul.-dez./2008. Disponível em:
https://periodicos.ufms.br/index.php/intm/article/view/2497. PERRENOUD, P. 10 novas competências para ensinar. Porto Alegre: Artmed, 2000. PERRENOUD, P. Desenvolver competências ou ensinar saberes? A escola que prepara para a vida. Porto Alegre: Penso, 2013. PUCCI, B. A ontologia da semiformação em tempos de neoliberalismo. In: Veritas, Porto Alegre, v. 63, n. 2, p. 595-613, mai./ago. 2018. Disponível em:
https://tinyurl.com/24apsfk6. RAMOS, M. N. A pedagogia das competências: autonomia ou adaptação? São Paulo: Cortez Editora, 2001. SILVA, F. L. A perda da experiência da formação na universidade contemporânea. In: Tempo Social, São Paulo, v. 13, n. 1, p. 27-37, mai. 2001. Disponível em:
https://tinyurl.com/2p87tmd9. ZARIFIAN, P. Objetivo competência: por uma nova lógica. São Paulo: Atlas, 2001. ZARIFIAN, P. O modelo da competência: trajetória histórica, desafios atuais e propostas. São Paulo: Editora Senac São Paulo, 2010.