“DESCULPA, ACHEI QUE VOCÊ ERA ALUNA”: PERSPECTIVAS DE ESTUDANTES DE PEDAGOGIA DA UFMG SOBRE A VIOLÊNCIA ESCOLAR ENTRE ADULTOS E CRIANÇAS

- 216074
Resumo Expandido - Trabalho
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Abstract
“DESCULPA, ACHEI QUE VOCÊ ERA ALUNA”: PERSPECTIVAS DE ESTUDANTES DE PEDAGOGIA DA UFMG SOBRE A VIOLÊNCIA ESCOLAR ENTRE ADULTOS E CRIANÇAS. Introdução Embora a violência contra o professor seja algo grave, a forma como o tema é tratado e capturado tanto pela mídia como em algumas pesquisas cria um alarde que dificulta compreender sua complexidade (Vinha; Nunes, 2020). Quando a vítima é o estudante, os casos mais destacados e investigados são aqueles que têm como agressor outro estudante. Contudo, algumas ocorrências de violência praticadas pelo professor ou profissional da educação aparecem nos meios de comunicação e redes sociais. E, em menor número, são abordadas em algumas pesquisas acadêmicas (Silva; Silva, 2018). Sobretudo, encontram-se os estudos que abordam a violência simbólica (Bourdieu; Passeron, 2014 [1970]) direcionada a todos estudantes ou a grupos específicos. Além disso, a maior parte das notícias que envolvem esse tema (Vinha; Nunes, 2020), assim como das pesquisas, concentram-se nos anos finais do Ensino Fundamental e no Ensino Médio. Outro ponto que atravessa o debate é a dificuldade de levantar dados sobre violência nas escolas. Pesquisadores que versam sobre o tema buscam abordá-lo a partir de registros de livros de ocorrência (Vóvio et al., 2016), observações sistemáticas ou imersões etnográficas (Ferraz; Ristum, 2012), boletins de ocorrência ou infracionais da segurança pública (Garcia-Silva; Lima Junior; Caruso, 2022) ou plataformas de registros escolares[1] (Vinha; Nunes, 2020). Contudo, tais dados podem somente abarcar casos mais graves ou não abarcar os casos de violência relatados por estudantes, uma vez que são os adultos que intermediam tais registros. Mesmo que alguns desses materiais permitam um aprofundamento maior dos que os demais, eles, geralmente, se limitam a uma ou poucas escolas, dado a inoperância de realizá-los em muitos estabelecimentos. Em função dessa limitação, mas também levando em consideração como tais processos atravessam a formação de estudantes de Pedagogia, a pesquisa foi direcionada para a análise da interação entre crianças dos anos iniciais do Ensino Fundamental e profissionais da educação, com foco na violência escolar, a partir das experiências de estágio de estudantes do curso de Pedagogia que tenham cursado a disciplina Estágio Curricular do Ensino Fundamental na Universidade Federal de Minas Gerais. O intuito é verificar, a partir dos relatos de experiências, se os estagiários estão presenciando em suas atividades práticas de formação cenas de violência entre crianças e adultos e como identificam e analisam tais situações. Violência Escolar A violência, mais especificamente aquela ligada à escola, é um termo de difícil conceitualização que possui diferentes entendimentos nas pesquisas nacionais e internacionais (Abramovay; Rua, 2002). As divergências são muitas, desde quais são as fronteiras do que é e do que não é violência escolar (Abramovay; Rua, 2002), até o que pode ser, de fato, entendido como um ato violento objetivo e subjetivo (Garcia-Silva; Lima Junior, 2022). As violências duras, aquelas que envolvem crimes e agressões físicas, não são as únicas formas de violência em contexto escolar admitidas pelos pesquisadores deste campo (Debarbieux; Blaya, 2021). Uma diferenciação interessante para o presente trabalho é tipificar a violência escolar como crime, incivilidade e violência simbólica (Charlot; Émin, 1997 apud Garcia-Silva; Lima Junior, 2022)[2]. A violência escolar também pode ser entendida de formas diferentes de acordo com o ator escolar (Abramovay; Rua, 2002) e pode ser percebida ou banalizada por aqueles envolvidos direta ou indiretamente (Garcia-Silva; Lima Junior, 2022). Para identificar papéis em casos de violência, Charlot (2002) difere a violência na escola, com origem externa ao ambiente escolar, mas que acaba acontecendo na escola, da violência da escola, voltada aos estudantes e seus familiares, e à escola, direcionada à estrutura escolar e seu corpo profissional. Entender o campo aqui descrito permite classificar as violências que podem ser encontradas, e cria condições para avaliar de qual forma as estudantes de Pedagogia estão percebendo as violências nas relações entre crianças e profissionais da educação. E, sobretudo, se conseguem ter ferramentas para avaliar e melhorar sua própria prática pedagógica. Pois, a violência presente no ambiente escolar pode tensionar ainda mais as desigualdades escolares. Uma das principais injustiças da escola é transformar desigualdades sociais em desigualdades escolares, responsabilizando crianças e adolescentes pelo seu insucesso escolar, ao mesmo tempo que oculta os desequilíbrios sociais causadores deste insucesso (Dubet, 2004). A violência da escola passa também por esse ocultamento de diferenças sociais. Metodologia Tendo em vista que a Educação Infantil é frequentada por crianças de 0 a 5 anos e que o debate sobre violência escolar nessa faixa etária é atravessado por ponderações como a diferenciação entre violência e agressividade (Luz, 2010), centrou-se a investigação na experiência de estudantes do curso de Pedagogia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) que cursaram a disciplina Estágio Curricular em Docência no Ensino Fundamental I, por meio de grupos focais com os estudantes de Pedagogia que já passaram pela disciplina. A partir dos grupos foram abordadas as diferentes interpretações que estudantes de Pedagogia podem ter sobre a violência escolar (Gaskell, 2002). A estruturação das entrevistas do grupo foi a semiestruturada, na qual existe um roteiro de perguntas, mas, ao mesmo tempo, busca-se propiciar uma maior liberdade para o entrevistado discorrer sobre aquilo que acredita ser pertinente (Amado, 2014). Os entrevistados foram selecionados a partir de um breve questionário endereçado aos estudantes dos dois últimos semestres da disciplina em foco. Por meio desse instrumento exploratório, buscamos conhecer as características sociais e culturais do corpo de estudantes dispostos a participar da pesquisa e a disponibilidade de dias e horários para participar do grupo focal. Buscou-se garantir representatividade de gênero, sexualidade e raça dos entrevistados, uma vez que a presença do estagiário na escola está no imbróglio das relações escolares, inclusive naquelas ligadas aos papéis de gênero, à sexualidade ou à raça, o que pode alterar a percepção de cada estagiário. A percepção das violências na escola também é diretamente ditada de acordo com quem observa e é observado. Se relações de violência escolar são mais percebidas ou banalizadas (Garcia-Silva; Lima Junior, 2022) para o observador ou para os próprios participantes do ato. Portanto, tentar uma maior diversificação de graduandos é essencial para tentar captar essas nuances. Contudo, os grupos foram formados privilegiando um número mínimo de entrevistados, o que não permitiu uma escolha representativa de estudantes. Um exemplo disso foi a forma como os homens foram sobre representados nos grupos, uma vez que existem poucos homens no curso. As perguntas foram feitas, primeiro de forma mais aberta, solicitando ao estudante que descrevesse alguma situação que poderia ser considerada violenta na interação entre adultos e crianças na escola e, depois, mais específicas. Também foram questionados sobre o que eles achavam que deveria ser feito para resolver esses problemas. Por fim, as respostas foram sintetizadas a partir da Análise de Conteúdo (Bardin, 2000), com o intuito de ultrapassar os primeiros olhares e interpretações que os relatos podem causar e buscar estabelecer “fios condutores” das diversas respostas dadas ao longo do processo de entrevistas (Bardin, 2000). Dessa forma, a análise buscou estabelecer categorias pertinentes ao que os entrevistados forneceram de em suas entrevistas, mas cotejada com a teoria do campo (Bardin, 2000). Análise e discussão de resultados Os estudantes que participaram dos grupos focais estavam em sua maioria no fim do curso ou eram recém-formados. Dessa forma, eles também haviam realizado estágio em escolas de educação infantil e relataram ter experiências em estágios não-obrigatórios ou, em alguns casos, já estavam trabalhando em escolas públicas ou particulares. Outra categoria de análise ressaltada nos dois grupos focais foi a diferença entre escolas públicas e privadas. Por um lado, as escolas particulares de caráter construtivista foram descritas como escolas onde não era possível observar casos de violência escolar, ao mesmo tempo que a composição majoritariamente branca e de classe média também foi um assunto recorrente. Por outro, em relação às escolas públicas, os estudantes de Pedagogia relataram mais casos de violência, direcionada principalmente para as crianças negras, com deficiência, com dificuldade de aprendizagem ou tidas como negligenciadas pela família. Entre estes últimos, em algumas falas os estudantes entrevistados chegaram a identificá-los como “alunos-problema”, apesar de não ter ficado claro se tal rotulação era da escola ou do entrevistado e de tal rótulo não se restringir somente às crianças tidas como negligenciadas. Geralmente, eram a essas crianças que os docentes direcionavam as atitudes mais violentas. Em uma escola particular católica uma estudante disse ter presenciado muitos casos de violência, principalmente envolvendo casos de racismo. A experiência de estágio na educação infantil foi relatada pelos estudantes ainda que não fosse o foco do grupo, os participantes ressaltaram como a violência voltada para crianças pequenas eram recorrentemente de violência física. Conceitos como “vigiar e punir”, “violência simbólica”, “autoritarismo”, “racismo”, “alunos-problema” foram utilizados espontaneamente pelos entrevistados. Além disso, em um dos grupos os participantes reivindicaram sua formação inicial como sendo um contraponto a violência que eles presenciaram. Também foi um ponto comum entre eles reivindicar a solidão de “bons professores/diretores” em escolas violentas e a pressão para que professores novos ou diferentes se enquadrassem. A frase “logo você aprende” foi citada por mais de um participante do grupo, por ser bastante recorrente nas escolas e direcionada a esse grupo dissidente. Portanto, a banalização da violência (Garcia-Silva; Lima Junior, 2022) foi tida como norma em boa parte das escolas, principalmente públicas e particulares tradicionais. Essa normalização ficou evidente na fala de uma das entrevistadas em que ela relatou ter sido confundida com uma aluna e tratada com hostilidade pela diretora, quando explicou que era estagiária, a diretora falou: “desculpa, achei que você era uma aluna!”. Conclusões finais Considerando a dificuldade de acesso aos dados sobre a violência nas escolas, o grupo focal com estudantes que realizaram estágios curriculares e não-obrigatórios se mostrou uma possibilidade de acessar as percepções sobre violência escolar em escolas diferentes, permitindo uma visão comparativa das diferentes experiências. Além disso, a diversidade de escolas e público escolar também se mostrou relevante, uma vez que muitos pesquisadores encontram dificuldades de adentrar em alguns estabelecimentos escolares. Porém, dado que se trata de uma pesquisa qualitativa, ela não representa da experiência de estágio de todos os estudantes de Pedagogia no que tange a violência escolar. Por outro lado, justamente o caráter qualitativo permite uma riqueza de detalhes maior que traz à tona experiências compartilhadas e casos emblemáticos como alguns citados acima. Referências ABRAMOVAY, Miriam; RUA, Maria Das Gracas. Violencias Nas Escolas. Brasília, DF: Unesco Brasil, 2002. AMADO, João. Manual de investigação qualitativa em educação. 2aed. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra, 2014. Disponível em: https://ucdigitalis.uc.pt/pombalina/item/54493. Acesso em: 12 dez. 2023. BARDIN, Laurence. Análise de conteúdo. tradução: Luís Antero Reto; Augusto Pinheiro. Lisboa: Edições 70, 2000. BOURDIEU, Pierre; PASSERON, Jean-Claude. A Reprodução: Elementos Para Uma Teoria Do Sistema De Ensino. Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 2014. CHARLOT, Bernard. A violência na escola: como os sociólogos franceses abordam essa questão. Sociologias, [s. l.], n. 8, p. 432–443, 2002. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1517-4522200200…. Acesso em: 25 nov. 2023. DEBARBIEUX, Éric; BLAYA, Catherine. Violência escolar. In: VAN ZANTEN, Agnés (org.). Dicionário de Educação. Petrópolis: Editora Vozes, 2021. DUBET, François. O que é uma escola justa?. Cadernos de Pesquisa, [s. l.], v. 34, p. 539–555, 2004. 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[1] As plataformas de ocorrência não são muito disseminadas nas secretarias de educação. Dois exemplos mais conhecidos são a Plataforma CONVIVA (Placon) na rede estadual de São Paulo e o Sistema de Registro de Situações de Violências nas Escolas – ROVE em Canoas no Rio Grande do Sul. [2] CHARLOT, Bernard; ÉMIN, Jean-Claude (coord.). Violences à l’école: état des savoirs. Paris: Armand Colin, 1997.

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  • GT14 - Sociologia da Educação