OS LIVROS DE LEITURA ¿QUIERES LEER? E PASO A PASO: UM ESTUDO COMPARATIVO ENTRE EDIÇÕES Introdução A cartilha ¿Quieres Leer? integra a Serie graduada de lecturas culturales básicas composta de quatro cursos - preparatório, elementar, intermediário e superior, sendo ela o primeiro livro de leitura da coleção, portanto, do curso preparatório. A série foi produzida por José H. Figueira, e publicada no ano de 1892, sendo incorporada oficialmente na lista de textos escolares no ano de 1901, durante a administração do Dr. Abel J. Pérez, sendo utilizada por muitos anos (Zarilli e Soriano, 1946). Além do Uruguai, a cartilha foi adotada em diversos países da América Latina e da Europa pelo fato de o livro defender em sua proposta o método analítico e propor o ensino da escrita simultaneamente ao da leitura. Na América Latina, cita-se como exemplo, a adaptação da obra feita para a Língua Portuguesa pelas professoras do Rio Grande do Sul, Olga Acauan e Branca Diva Pereira de Souza. Assim, Queres Ler? foi editada pela Editora Selbach, posteriormente ao intercâmbio de estudos realizado pelas docentes no Uruguai entre os anos de 1914 e 1917. Embora a obra tenha sido aprovada para uso no Estado, a partir de 1924, há indícios de que seu método já era praticado pelas autoras em escolas de Porto Alegre, desde 1918 (Michel, 2017). No caso da Argentina, a obra foi publicada pela casa editorial Cabaut y Cia, com a denominação de Paso a Paso, sendo utilizada também, por muitos anos, nas escolas do referido país (Palomeque, 2012). Considerando a ampla circulação, o uso em diferentes países e a provável adaptação para outros idiomas, é que a presente pesquisa, em andamento, tem como intuito comparar a versão ¿Quieres Leer? (1943), editada no Uruguai, e a edição Paso a Paso (1908) publicada na Argentina, objetivando identificar similaridades e diferenças entre ambas as obras. Metodologia Esta pesquisa se ampara na perspectiva que compreende que a materialidade do livro e os aspectos gráfico-editoriais são fundamentais na análise de obras didáticas (Chartier, 1996; Frade, 2010a, 2010b), considerando, sobretudo, que projetos gráfico-editoriais e pedagogias do ensino da leitura e da escrita estão associados na produção de livros didáticos. Logo, tratar o livro como objeto de estudo na perspectiva de uma história de sua edição (Frade, 2006) é importante para reconhecer sua proposta, mudanças e/ou ajustes, bem como as relações estabelecidas entre o mercado que se consolidava de produção de cartilhas e livros de leitura e as propostas para o ensino da leitura e da escrita. Para tanto, buscou-se comparar, neste texto, as versões de ¿Quieres Leer? (1943), editada no Uruguai, e a edição Paso a Paso (1908) publicada na Argentina. A opção por analisar essas duas versões deve-se aos fatos de elas estarem completas; de constar no exemplar da edição uruguaia a informação de que o mesmo é uma “nueva edición”, sendo “Propriedad del Consejo Nacional de Enseñanza Primaria y Normal” e de Paso a Paso ser a versão mais antiga localizada e estar disponível no formato online. Os aspectos analisados foram a capa, a estrutura e a organização da obra. Resultados Parciais e discussão O objetivo de cotejar as duas edições indicadas foi de mapear as dissonâncias e similitudes existentes entre elas, tendo em vista que Paso a Paso é uma produção adaptada para uso nas escolas argentinas, da obra original ¿Quieres Leer? editada no Uruguai. As duas edições diferem em tamanho e número de lições, a edição uruguaia comtém 111 lições distribuídas em 165 páginas e a versão argentina possui 92 lições distribuídas em 128 páginas. No que diz respeito à capa, é possível indicar, inicialmente, ao compará-las que a versão argentina manteve uma proposta gráfica semelhante a ¿Quieres Leer?, especialmente em termos de estrutura, qual seja: apresenta uma imagem na parte superior da capa seguida do título em destaque e do nome da editora na parte inferior da capa. Apresenta a arte gráfica basicamente com as mesmas cores – vermelho e azul. As cartilhas possuem na capa, ainda que em posições distintas, os princípios do método adotado: “lectura rápida y sin deletreo e una dificultad por vez” (¿Quieres Leer?, 1943). O que, provavelmente, foi mantido para legitimar o método que era considerado uma inovação à época. Chama a atenção na capa do exemplar argentino o nome do autor, José H. Figueira em destaque na parte superior da capa, e a indicação da aprovação da obra pelo Consejo Nacional de educación y la Dirección general de Escuelas de la provincia de Buenos Aires. Compreende-se, a partir disso, assim como se observou para o caso do Rio Grande do Sul na adaptação de Queres Ler?, que a edição argentina também buscou manter visível aos olhos dos professores, dados que servem como protocolos de leitura e demonstram o “prestígio” do impresso, do autor e do método (Frade, 2006). No entanto, ainda que tais aspectos sejam semelhantes, observa-se, a partir dos relatos das imagens mencionados anteriormente, que não há uma “fidelidade” de Paso a Paso à versão uruguaia, uma vez que o nome da obra não é mantido, ainda que o idioma em ambos os países seja o espanhol. Do mesmo modo, na versão uruguaia há na imagem da capa a reprodução de uma clássica cena identificada como:“Origem de la escritura y la leitura (Edad de la Piedra; Epoca del Reno)”, que remete ao início do período da escrita, enquanto que no exemplar argentino, a ilustração mostra uma criança tendo seus passos conduzidos e sustentados pela figura de uma mulher. Sem dúvida, seriam necessários mais elementos para compreender tais escolhas. Por ora, é possível problematizar que, se por um lado as questões editoriais podem ter influenciado nas imagens a serem impressas, tais como acesso à imagem, maquinários e etc. por outro lado, elas podem ser resultado de uma intencionalidade em manter uma relação direta entre os títulos das obras e as ilustrações selecionadas, garantindo assim, a cada edição, a sua especificidade. Quanto à estrutura e organização das cartilhas destaca-se que, pelos índices das obras, ambas estão divididas em quatro partes: as três primeiras são constituídas por grupos de “palavras normais”, e a quarta, por trechos literários (pequenos textos). Em cada uma das partes há uma classificação que obedece, como destacado, características lexicográficas, ortográficas, fonéticas e prosódicas. Cada uma dessas partes é precedida por uma estampa e por uma nota geral, de uma a duas páginas, para o caso uruguaio, as quais orientam o trabalho docente, especialmente, para o grupo de palavras que será estudado. Considerações finais A presente pesquisa está em andamento e, por isso, os dados aqui expostos são parciais. Por ora, retratam similitudes e dissonâncias relativas à capa, à estrutura e à organização das obras analisadas, a saber: a versão ¿Quieres Leer? (1943), editada no Uruguai, e a edição Paso a Paso (1908) publicada na Argentina. Em linhas gerais foi possível observar ao cotejar ambas as obras que a edição de Paso a Paso mantém os mesmos princípios e orientações metodológicas da ¿Quieres Leer?. Inclusive, destacando esses aspectos na capa da obra. No entanto, a versão argentina apresenta uma redução no número de páginas, de lições e dos textos apresentados na quarta parte da cartilha. A referida versão também não reproduz as orientações específicas sobre o treino gráfico, movimentos e posturas necessárias para aprender a ler e a escrever que são expostos no início da versão uruguaia e enfatizados nas notas gerais presentes antes de cada parte da cartilha. Ou seja, este aspecto mais “rigoroso” para “adquirir soltura al escribir e para evitar la miopia” (¿Quieres Leer?, 1943) não foi mantido no exemplar argentino. O que, por sua vez, pode estar vinculado à compreensão de ensino e de leitura que se defendia à época na Argentina. Sobre isso, indica-se a necessidade de maior aprofundamento dos estudos na continuidade da pesquisa. REFERÊNCIAS CHARTIER, Roger. Do livro à leitura. In: CHARTIER, Roger (Org.). Práticas de leitura. São Paulo: Estação Liberdade, 1996. FRADE, Isabel C. A.; MACIEL, Francisca Izabel. Cartilhas/impressos: perspectivas teórico-metodológicas de análise do texto e do paratexto e suas contribuições para a história da alfabetização e do livro. In: CONGRESSO LUSO-BRASILEIRO DE HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO, 6., 2006. Anais... Uberlândia: UFU, 2006. FRADE, Isabel C. A. da S. Livros para ensinar a ler e escrever: uma pequena análise da visualidade de livros produzidos no Brasil, em Portugal, e na França, entre os séculos XIX e XX In: BRAGANÇA, Aníbal; ABREU, Márcia. Impresso no Brasil. Dois séculos de livros brasileiros. São Paulo: Editora da UNESP, 2010a. p. 171-190. ____________________. Livros de leitura de Abílio César Borges: ideários pedagógicos, produção e circulação. In:SCHWARTZ, Cleonara; PERES, Eliane; FRADE, Isabel Cristina A. S. (Org.). Estudos de história da alfabetização e da leitura na escola. Vitória, ES: EDUFES, 2010b. p. 171-208. MICHEL, Caroline B. Missão de estudos ao Uruguai: mudanças no sistema de ensino do Rio Grande do Sul (1913-1927). 283 p. Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Educação. Universidade Federal de Pelotas, 2017. MICHEL, C. B.; ARRIADA, E.; PERES, E.. Os livros de leitura ¿Quieres leer? e Queres ler?: do Uruguai para o Rio Grande do Sul. Momento. v. 24, n. 1, p. 151-170, jan./jun. 2015. PALOMEQUE, Agapo Luis (org.) Historia de la educación uruguaya: la educación uruguaya 1886-1930. Tomo 3. Montevidéu: Ediciones de La Plaza, (Colección Ensayos). 2012. ZARRILLI, Humberto; SORIANO, Roberto Abadie. Metodologia de la lectura. Desde el deletreo a la globalizacion. Montevideo: Talleres Gráficos Sur, 1946.