A DIVISÃO SEXUAL E RACIAL DO TRABALHO NO IFRS: OS DESAFIOS DE SER ESTUDANTE NO CURSO TÉCNICO EM ELETRÔNICA

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Resumo
A DIVISÃO SEXUAL E RACIAL DO TRABALHO NO IFRS: OS DESAFIOS DE SER ESTUDANTE NO CURSO TÉCNICO EM ELETRÔNICA INTRODUÇÃO A Educação Profissional ao longo da sua história tem sido utilizada como um pilar para consolidação de uma sociedade capitalista que atenda aos interesses do Estado burguês, racista e patriarcal. E por isso, desde sua gênese, constitui-se de forma seletiva e excludente especialmente com as mulheres, ao moldar-se à estrutura política, econômica e social de cada tempo histórico, impondo lugares destinados a elas em cursos de formação profissional (Araujo, Oliveira, 2022). Neste sentido, a educação profissional e tecnológica ainda nos parece um lócus de manutenção de hierarquias, desigualdades e vulnerabilidades interseccionais entre mulheres e homens, mas também entre as próprias mulheres. O debate que dá conta de compreender as dinâmicas de dominação e os padrões de desigualdades considera gênero/sexualidade, raça e classe como eixos que se entrelaçam complexamente e possibilita uma interpretação aprofundada do mundo social e a indicação de projetos alternativos emancipatórios (Biroli, Miguel, 2015). Nos propomos neste trabalho, apresentar um exercício de leitura de contexto, tomando por base os dados de matrículas das estudantes do Técnico em Eletrônica, do ano de 2023, disponibilizados pela Plataforma Nilo Peçanha (PNP). Sob perspectiva dos estudos feministas, alicerçados pelo feminismo marxista (Souza-Lobo, 2021), do feminismo negro (Gonzalez, 2020) com os estudos sobre interseccionalidades (Akotirene, 2019; Crenshaw, 2002), produzidos, especialmente, desde o Brasil e América Latina, queremos entender como essas estudantes vivenciam o curso. O presente texto integra a pesquisa de doutorado que está direcionada para o campo da educação profissional, onde buscamos compreender como a divisão sexual do trabalho e as relações sociais de gênero, classe e raça constituem e afetam a presença feminina no Curso Técnico em Eletrônica Integrado ao Ensino Médio no Instituto Federal do Rio Grande do Sul (IFRS). AS ESTUDANTES DO CURSO TÉCNICO EM ELETRÔNICA NO CAMPUS CANOAS E RESTINGA DO IFRS Realizar uma pesquisa feminista implica assumir o compromisso da não neutralidade científica e analisar criticamente os poderes, as hierarquias e as desigualdades constituídas por meio das relações sociais e por marcadores de opressão. É colocar as experiências, as vozes e os interesses das mulheres e de outros grupos marginalizados no centro da pesquisa, sabedoras de que historicamente cursos como o de Eletrônica são majoritariamente cursados por homens. Muitos são os questionamentos que possibilitam conhecer o cotidiano escolar destas estudantes: Como é ser mulher no IFRS? Estão e são invisibilizadas? Como é ser estudante numa turma em que são minoria? Como é ser uma estudante branca? E negra? O processo de ensino e aprendizagem acontece da mesma forma? As oportunidades são iguais? Como a vida fora da escola impacta nos estudos? A instituição escolar dá suporte às estudantes? Perguntas como essas povoam nossos interesses investigativos e, para isso, nos debruçamos em dados públicos disponibilizados na Plataforma Nilo Peçanha (PNP), que é um ambiente virtual que divulga as estatísticas oficiais da Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica. Embora o total de matrículas dos Cursos Técnicos Integrados ao Ensino Médio do IFRS apresente um certo equilíbrio – 50,15% femininas e 40,80% masculinas – em 2023, conforme dados da PNP (2024), uma análise mais aprofundada dos números de matrículas por eixos tecnológicos e cursos, revela que a divisão sexual e racial do trabalho opera na instituição, na constituição de seus cursos, no acesso a eles e no processo formativo. Com isto, o IFRS acaba por reproduzir a lógica de que há cursos que historicamente são valorizados e vinculados ao sexo masculino, associados ao trabalho produtivo, e os que se vinculam ao cuidado e ao trabalho reprodutivo, portanto, relacionados ao sexo feminino (Kergoat, 2009). O Técnico em Eletrônica, ofertado em dois campi do IFRS, é um exemplo concreto: o Campus Canoas, situado na cidade homônima, registra a menor presença feminina entre os cursos técnicos integrados ao ensino médio – com apenas 12 estudantes (14,63%) do total de 82 pessoas matriculadas em 2023 (PNP, 2024) – e o Campus Restinga, localizado em Porto Alegre, conta com 38 estudantes (23,90%) de 159 pessoas matrículas em 2023 (PNP, 2024). No Campus Canoas são 12 estudantes, a maioria autodeclaram-se brancas (9 de 12), com uma presença muito pequena de mulheres negras (1 parda e 1 preta). Destas, 9 encontram-se na faixa etária entre 15 a 19 anos e 3 entre 20 a 24 anos (PNP, 2024). Grande parte das estudantes está concentrada em faixas de renda mais baixas, especialmente na faixa de meio a um e meio salário mínimo per capita. São 8 estudantes nesta condição, 5 brancas, 1 parda, 1 preta e 1 não declarada. A única estudante preta está no grupo mais vulnerável, com renda per capita entre meio e um salário mínimo. Já no Campus Restinga, o retrato altera-se um pouco. Em comparação com Canoas, há um pequeno aumento da presença feminina no curso. Em termos de diversidade racial, as mulheres são mais diversas, com 22 estudantes autodeclaradas brancas e 12 estudantes que se autodeclararam negras (7 pardas e 5 pretas). Há a presença de 4 estudantes que não declararam (ou não foram declaradas) sua raça. Encontramos mais mulheres empobrecidas neste campus, uma vez que das 38, 7 possuem renda per capita entre zero e meio salário mínimo, sendo 4 jovens negras. A maioria das estudantes está concentrada nas faixas de renda mais baixas, entre zero a um e meio salário mínimo, especialmente na faixa de 1

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Instituições
  • 1 PUC-RS - Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul
Eixo Temático
  • GT23 - Gênero, Sexualidade e Educação