PESQUISA, EDUCAÇÃO POPULAR E CRIANÇAS: DIÁLOGOS COM O GT06-ANPEd O presente resumo tem como objetivo problematizar a importância da presença e do trabalho de pesquisa com as crianças no Grupo de Trabalho da Educação Popular (GT06) da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação. Entende-se a criança como sujeito histórico, produtor de cultura e integrante da sociedade (Redin et. al., 2007) que possui olhares próprios e, seu reconhecimento, colabora para a necessária politização do campo da infância (Castro, 2008). A Educação Popular como um movimento de trabalho político, com as classes populares (Brandão, 2006) pode aportar para que avancemos neste sentido. Entendendo a sua importância no compromisso com os/as oprimidos/as e com a transformação da realidade que os oprime (Freire, 2016), buscando o diálogo e a compreensão das pesquisas e práticas educativas, onde estão presentes ou não as crianças. Assim, procurou-se identificar a presença das crianças entre os sujeitos nos trabalhos apresentadas no GT06 e estabelecer um diálogo com análises da participação infantil na luta camponesa, problematizando com base na educação popular as possibilidades de contribuir com a transformação da sociedade. Nos últimos anos, passamos no país, uma série de situações graves, desde ataques a democracia, como o golpe parlamentar de 2016, ofensivas golpistas em 2022 e 2023, o avanço de políticas neoliberais, que somados a pandemia global de coronavírus e os eventos climáticos extremos, causaram impactos severos, sobretudo nas classes populares e populações historicamente oprimidas. Um estudo da UNICEF (2025), com base nos dados na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNADC), dos anos de 2016 a 2023, apresentou relatório em que 55,9%, cerca de 28,8 milhões de crianças (do total de 51,5 milhões), em 2023, não lhe foi garantido algum dos direitos básicos. A pesquisa “analisa o acesso de crianças e adolescentes a sete direitos básicos: renda, educação, informação, proteção contra o trabalho infantil, água, saneamento e moradia.” (UNICEF, 2025, p. 5). Entretanto a maior gravidade está nas desigualdades regionais onde o percentual de crianças e adolescentes residentes “em áreas rurais enfrentam consistentemente níveis muito altos de privação ao longo do período analisado, com percentuais variando ligeiramente acima de 95% em todos os anos pesquisados” (UNICEF, 2025, p. 16). Estes estudos mostram como a sociedade e suas instituições, incluindo o estado e seus gestores, vem tratando as crianças e, sobretudo a urgência de transformações. De acordo com Redin, Precisamos defender e ajudar a construir uma ética humana que dê às crianças o direito de viver com dignidade, mas não somente isso. É necessário ir além: buscar na estética a possibilidade de se tornar um ser original, indivisível, íntegro e belo. (Redin et. al., 2007, p. 7-8) A citação colabora na explicitação do posicionamento ético-político-estético que diante da denúncia da feiura e do flagelo a que as crianças e oprimidos da sociedade se encontram, anunciam a necessidade de um posicionamento e de ações em favor das/os oprimidas/os e da transformação da sociedade, contra a indignidade, a coisificação das pessoas, que são submetidos a situações e condições concretas da vida desumanas. Neste sentido, nos somamos aos oprimidos e com eles lutamos buscando formas de viver em sociedade, justas, dignas e sem opressões, onde possamos ser mais, contra os processos de dominação e opressão, e aqui sobretudo, destacando a necessidade de pensar em possibilidades de infâncias e de integrarmos e nos relacionarmos com as crianças de outras formas. Um importante espaço onde se sistematiza, se problematiza e dialoga sobre as práticas de educação popular é o Grupo de Trabalho de Educação Popular (GT06) da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação. Observando os trabalhos de dez (10) anos, 2011-2021, deste GT disponíveis no site da associação para download, reuniu-se um total de 131 trabalhos, em que 21 foram apresentados na modalidade de Pôsteres. Na leitura dos trabalhos encontrou-se em mais da metade deles (68) a menção ao termo “criança”. Resultado relevante que demonstra a presença das crianças como integrantes das pesquisas desenvolvidas no GT. Os estudos além de mencionarem as crianças, também incluem nas análises outros sujeitos como professores/as, integrantes das comunidades escolares, mães, pais e responsáveis. Podemos referir a pesquisa participante como parte do trabalho da educação popular (Brandão, 2014), e que ela própria se insere no contexto de ação dos sujeitos que buscam transformar a realidade e, neste trabalho com os sujeitos oprimidos, se constroem o conhecimento e as possibilidades de mudança social, pois “o conhecimento não precede a ação ou é gerado à parte dela, mas é produzido no movimento dos sujeitos que buscam a transformação.” (Streck, Sobottka, Eggert, 2014, p. 8). Esse entendimento é relevante, pois pode contribuir com uma compreensão das crianças e da possibilidade de intertroca e construção solidária de saberes (Brandão, 2014) com elas através da pesquisa participante. Tomando essa compreensão de pesquisa, e inter-relacionando com a compreensão da criança, que viemos refletindo podemos, através dessa, afirmar a criança como um ser capaz de participar ativamente nesse processo de criação de saberes, no qual reside a possibilidade e a potência da pesquisa participante com crianças. Buscando compreender possibilidades de educação e luta com as crianças, considerando o tópico de estudo que viemos trabalhando “a participação das crianças nos movimentos do campo” e da indicação da literatura da relevância da participação das crianças do MST para o aprendizado e construção coletiva das lutas, especialmente nas cirandas em encontros dos Sem Terrinha (Antunes-Rocha, 2013; Silva, Silva, Martins, 2013; Silva, Pasuch, Silva, 2012), optou-se por uma revisão enfocando estes sujeitos. Para conhecer as pesquisas já realizadas com as crianças Sem Terrinha, iniciou-se a busca pelo Catálogo de Teses e Dissertações da CAPES. A busca no catálogo utilizou-se os descritores crianca e “sem terrinha” (entre aspas duplas) interligados pelo operador booleano AND (crianca AND “sem terrinha”), sem restringir data de defesa ou área de conhecimento. Como resultado foi encontrada uma lista com as referências de quatorze (14) trabalhos. As pesquisas em todas as cinco regiões do país. As investigações foram desenvolvidas em treze (13) universidades públicas, sendo que destas sete são federais e seis estaduais. Apenas um trabalho foi desenvolvido em uma universidade privada. As instituições estão localizadas em onze (11) dos vinte e seis (26) estados do país. As pesquisas com as crianças do movimento que refletem sobre a educação, vão em alguma medida enfatizar as aprendizagens decorrentes da participação, sejam nas marchas, nos atos e ações de solidariedade, nas relações com outros movimentos de luta dos oprimidos, nas ocupações, nos acampamentos, nas cirandas, nas escolas itinerantes, nas preparações e nos encontros do movimento, em especial dos Sem Terrinha. Além disso, é um movimento feito pelas famílias onde os componentes do grupo familiar participa e luta junto. Vive as tenções, os conflitos, as dificuldades, esperanças, alegrias e conquistas juntos. As desocupações, o conflito e a violência policial também sofrida por todos. As bandeiras e as marcas da luta formam o movimento e a identidade das e dos integrantes. Entendemos que os esforços de construções de pesquisas e do trabalho da educação popular junto aos movimentos de luta pela transformação da sociedade, colaboram com a visibilidade de projetos coletivos, em base as necessidades e aos horizontes construídos nas experiências, contribuindo com as possibilidades de romper com as opressões. Além disso, podem atuar no fortalecimento das políticas públicas, no reconhecimento das instituições e do trabalho coletivo, assim como do estado e a democracia. A visão das crianças também pode surpreender quanto a criatividade e as demandas, além de contribuírem com uma ética humana de uma sociedade que busca considerar todas/os as/os sujeitos. REFERÊNCIAS ANTUNES-ROCHA, Maria Isabel. Prefácio. In: SILVA, Isabel de Oliveira e; SILVA, Ana Paula Soares da; MARTINS, Aracy Alves (Orgs.). Infâncias do campo. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2013. p. 9-11. BRANDÃO, Carlos Rodrigues; STRECK, Danilo R. (orgs.). Pesquisa Participante: o saber da partilha. Aparecida, SP: Ideias & Letras, 2006. BRANDÃO, Carlos Rodrigues. Educação Popular e Pesquisa Participante: um falar algumas lembranças, alguns silêncios e algumas sugestões. In: STRECK, Danilo R.; SOBOTTKA, Emil A.. EGGERT, Edla (org.). Conhecer e transformar: pesquisa-ação e pesquisa participante em diálogo internacional. Curitiba, PR: CRV, 2014. p. 39-73. CASTRO, Lúcia Rabello. A politização (necessária) do campo da infância e da adolescência. Revista Psicologia Política [Online], 7(14), 2008. Disponível: . Acesso em: ago. de 2018. FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 62. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2016. FREIRE, Paulo; GUIMARÃES, Sérgio. Partir da infância [recurso eletrônico]: diálogos sobre educação. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2014. FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. 35. ed. São Paulo: Paz e Terra, 1996. REDIN, Euclides; REDIN, Marita Martins; MÜLLER, Fernanda. Infâncias: cidades e escolas amigas das crianças. Porto Alegre: Mediação, 2007. STRECK, Danilo R.; SOBOTTKA, Emil A.. EGGERT, Edla (org.). Conhecer e transformar: pesquisa-ação e pesquisa participante em diálogo internacional. Curitiba, PR: CRV, 2014. SILVA, Ana Paula Soares da; PASUCH, Jaqueline; SIVA, Juliana Bezzon da (Orgs.). Educação Infantil do campo. São Paulo: Cortez, 2012. UNICEF. Pobreza multidimensional na infância e adolescência no Brasil – 2017 a 2023. Unicef.org. Jan. 2025.