RELAÇÕES ÉTNICOS RACIAIS NA FORMAÇÃO DE PROFESSORAS/ES DE PEDAGOGIA DA ENS/UEA

- 215952
Resumo Expandido - Trabalho
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Abstract
RELAÇÕES ÉTNICOS RACIAIS NA FORMAÇÃO DE PROFESSORAS/ES DE PEDAGOGIA DA ENS/UEA INTRODUÇÃO Em janeiro de 2025, a Lei nº 10.639/2003, completou 22 anos de existência, porém, ainda, vivenciamos a falta de discussões mais intensas a respeito das relações étnico-raciais em nossos espaços-tempos acadêmicos. E, entendemos, que o debate sobre essa temática na perspectiva da negritude é de grande importância, pois, desafia a lógica racista, e vai de encontro aos processos/práticas educacionais que ‘suleam’ e servem de instrumento de problematização e/ou empoderamento da causa antirracista, decolonial e contracolonial, conectando-se, assim, com a formulação de um processo educacional, que desenvolva uma educação integral, transgressora, emancipatória e que reconheça/acolha as diversidades (Gomes, 2024). No Estado do Amazonas, essa discussão é bem pertinente e significativa, devido as negligências, os apagamentos, as invisibilidades e as negações que esse assunto foi/é acometido. Tomamos como exemplo o fato de que no período de nossa pesquisa (2022-2024), a Universidade do Estado do Amazonas (UEA), não disponibilizava, na sua política de acesso, as cotas raciais para a população negra. Isso, nos aponta, que, mesmo diante da existência de legislações que se constituem enquanto instrumentos de reparações sociais pelo estado brasileiro, esse processo ainda não foi consolidado. Isso demonstra que ainda não há comprometimentos reais com essas pautas, principalmente, pelas ‘autoridades políticas’, que, em sua maioria, desconsidera e desrespeita as implementações de tais políticas/práticas. Seja negando ou silenciando os debates a respeito do processo da escravização ocorrido no Brasil, a respeito da constituição/contribuição da população negra e os enfretamentos dos preconceitos, discriminações que população negra é submetida, entre outros assuntos. E quando existem, essas discussões limitam essa temática a momentos pontuais e/ou em ações extracurriculares. Portanto, compreendemos que se faz necessário construirmos, dentro de nossas ‘vidas escolares’, discussões/vivências a respeito dos currículos e das negritudes, oportunizando cada vez mais, a participação de docentes e de discentes para um engajamento real e constante de combate/denúncia dos racismos, das discriminações, dos preconceitos e das intolerâncias. Nesse sentido, nosso estudo tem por objetivo central problematizar, a partir da temática racial da população negra, os processos formativos das/dos estudantes do Curso de Pedagogia da Universidade do Estado do Amazonas. Fomos ao encontro dos diálogos-espaços, que as/os discentes de pedagogia fazem, em relação aos significados/relevâncias da educação para população negra, na perspectiva de compreender as possíveis construções/afirmações de espaços-tempos tolerantes e plurais dentro da universidade, a partir de suas percepções/anunciações e de suas trajetórias. Almejamos ainda, identificar as presenças/ausências das temáticas da negritude no espaço acadêmico, e nos documentos oficiais que regem o Curso de Pedagogia da Escola Normal Superior/UEA, e como estes estão presentes em seu plano pedagógico. Para isso, a nossa fundamentação teórica, foi estruturada nas buscas e diálogos com autoras e autores negras/os, na perspectiva de desconstruirmos (ou decolonizarmos e contacolonizarmos) estereótipos há muito ‘encucado-marcado’ em nossa ‘mente-corpo’. Dialogamos com trilhas/encruzilhadas de epistemologias que visibilizam/defendem a pluriversidade de saberes/olhares, as quais permitem/advogam a construção de ‘novos-outros’ pontos de vista, compreensões das vidas, e trajetórias transgressoras de outros futuros. Reafirmamos, dessa forma, nossa contrariedade ao processo de negação, de apagamento e de silenciamento da população negra (Alves-Melo, 2021). Com esses estudos, percebemos, a necessidade de nos aliarmos aos caminhos-estratégias ‘outras’ para concretizarmos um estudo efetivo das relações étnico-raciais na perspectiva da negritude. Desta forma, estendemos, nossos olhares-passos, às políticas educacionais e as suas estratégicas pedagógicas, com a finalidade de superarmos/denunciamos/combatermos a ideologia da meritocracia presente em nossas escolas, realizando avaliações/discussões que anunciem e problematizem as presenças negras, suas representatividades na sociedade, o racismo estrutural e institucional, as/os mulheres/homens históricos e as relações sociais, econômicas e de distribuição de riqueza. Reverberamos, que é urgente decolonizarmos e contracolonizarmos o eurocentrismo dos currículos escolares, os quais inferiorizam e subalternizam a população negra por meio dos racismos estruturais, do patriarcado e do neoliberalismo, que silencia e distorce a história e a cultura afro-brasileira (Coelho; Brito, 2015). E, encontrar espaços-tempos, para a construção de um modelo educacional emancipatório para a população negra, fincado na igualdade, na equidade, na valorização/afirmação das diferenças e no combate/transgressão das relações de poder em nossa sociedade, é um desafio e um compromisso da nossa pesquisa. METODOLOGIA Nossos estudos dialogam com a pesquisa qualitativa, e buscou aproximações/respostas, contingenciais e contemporâneas, para as nossas indagações e os nossos interesses/objetivos de investigação. Utilizou, enquanto fontes principais os arquivos disponibilizados pela Secretaria do Curso de Pedagogia, o Sistema Acadêmico Lyceum/UEA, e os dados recolhidos junto ao Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Foi realizado um diálogo-encontro com 10 (dez) discentes autodeclaradas/autodeclarados pretas/pretos. Como instrumentos, utilizamos um formulário de Autoidentificação do Pertencimento Étnico-Racial (aplicado em salas de aula por meio do google formulários) e as Entrevistas Narrativas. ANÁLISE E DISCUSSÃO DE RESULTADOS Durante a análise dos dados coletados, observamos as contradições, as aproximações, as divergências, os distanciamentos... das informações anunciadas/narradas. Realizamos a análise sistemática do material escrito a respeito da temática e das entrevistas narrativas realizadas. Dos (des)encontros oportunizados pelas narrativas das/dos dez discentes que participaram de nossa atividade, determinadas questões acentuaram o que não é discutido dentro da sala de aula, dentre os quais destacamos: I – O Silenciamento: Eu sinto muito a falta desse assunto dentro da nossa... dentro da graduação. Tanto que eu faço pesquisa em cima disso também (Nassar, 2024). Eu percebo que não falar de mim, seja na faculdade, seja em outro local, uma regra normativa da sociedade, pois, ninguém quer saber, da minha pessoa e da minha cor (Jamila, 2024). Assim, a gente não é boa em tudo, mas em algumas disciplinas, eu acho que eu me saio bem, mas, tenho certeza que tenho que me esforçar mais, para fazer diferença e eu vou fazer a diferença quando eu tiver formado (Zuri, 2024). II – O Pertencimento: Antes eu me via muito como apenas uma pessoa parda, assim como tá na minha certidão de nascimento, do que uma pessoa preta, de fato. Então, acho que durante o primeiro período, mais ou menos quando eu tive contato com leitura, principalmente da disciplina de história. Aí eu me enxerguei de fato como uma pessoa preta (Amahle, 2024). Me sinto uma pessoa preta dentro da academia é, mas, eu acho, por exemplo, é que existe uma luta mesmo entre os acadêmicos. Alguns, não se sentem pretos, principalmente, devido a essa miscigenação, alguns ficam meio deslocados, mas como sou retinta, eu acho que é mais fácil pra mim (Alika, 2024). Nessa questão do preconceito, que eu só vim nomear como preconceito, depois que eu me entendi como uma pessoa preta. Tive uma infância difícil, como todos as pessoas na minha condição, então, entendia que tudo que sofri, porque era pobre, não por ser uma pessoa preta, até ler e entender essa condição das pessoas pretas (Ayana, 2024). III – A Reinvenção Justamente, nesse sentido, depois do 5º período, que agora eu consigo ver isso de uma forma mais crítica. Eu consigo justamente me colocar nesse lugar como uma pessoa preta. E como pardo, justamente, eu não, ligava muito. Eu não tinha muito acesso a essas questões. Aí já, quando eu já me descobria, já fui fazendo leituras sobre, falando mais sobre, conhecendo. Tanto que eu tive um pequeno... Não vou falar de desentendimento, como um dos professores daqui da graduação, quando esse professor perguntou qual era a minha... Como eu me autodeclarava... Eu falei, eu sou uma pessoa preta (Nassar, 2024). Depois, já na faculdade, depois de ter entendido um pouco mais, sobre as instituições, foi que aproximei mais das pessoas negras. Como posso dizer, eu consigo me identificar de fato sobre traumas, até sobre curas. Mas, ainda, achava muito, sabe tipo faltava alguma coisa. Foi quando eu comecei a me identificar com a questão do cabelo, e aí, veio também a questão da negritude, de você valorizar as características fenotípicas das pessoas negras. E com a valorização da beleza negra. Enfim... Foi quando eu tive esse sentimento de pertencimento (Zuri, 2024). Eu senti a diferença... Senti a diferença que eu sentia. Que eu poderia... Digamos... Que poderia redescobrir, mas me redescobrir, porque eu me vi de uma forma... Daí eu pensei: poxa! Estou aqui em estudo e continuo tendo acesso a algumas informações que eu não tinha antes. Então posso mudar um ponto de vista, posso, me aperfeiçoar enquanto pessoa e enquanto sujeito. Daí eu comecei a anotar essa diferença (Akin, 2024). Essas narrativas, nos colocam na expectativa de ir ao encontro de mais diálogos e encontros, que nos façam caminhar para uma discussão das relações étnico-raciais na negritude, com mais tempo, mais respiração e com mais crítica aos processos embasados na negação racial, contra o conformismo e denunciando o silenciamento da sociedade, buscando mudanças nas políticas educacionais, a partir de uma atuação árdua e diuturna de enfrentamento das forças autoritárias, retrogradas e tradicionalistas, as quais não aceitavam/aceitam uma escola pública, gratuita, inclusiva, antirracista, plural... a qual contribua para mudanças sociais. CONSIDERAÇÕES A luta por educação para relações étnico-raciais na perspectiva da negritude, é uma pauta necessária, para estabelecer uma justa compreensão do compromisso/contribuição que cada povo, principalmente, a população negra, teve/tem para o desenvolvimento e crescimento da nossa sociedade. Enquanto houver intolerância, preconceito, discriminação e racismos, precisamos manter a resistência. É preciso subvertermos esses processos/discursos, ressignificá-los, transgredi-los, indicar caminhos para repensarmos os espaços-tempos escolares e universitários, os currículos, as metodologias, os processos de formação docente, dentre outros. Faz-se necessário, encontrar no eco das discussões das/dos silenciadas/silenciados, os seus verdadeiros sons, suas verdadeiras mensagens, sem intermediários – sem aqueles que, audaciosamente, afirmam que nos darão a voz –, sem o duplo significado/inferiorização e com a invenção/afirmação de novas/outras identidades/identificações. Isso significa que é preciso afirmar/reafimar, dentro dos processos educacionais, outros processos de ‘escurecimento social’, encontrando trilhas e encruzilhadas para a construção de uma sociedade antirracista, decolonial e contracolonial. Adotando ações de denúncia e combativas, de enfrentamento as lógicas/estratégias que rotulam/identificam a população negra enquanto marginal, inferior, maligna, subserviente. Para isso, é preciso transgredir, deslocar, subverter as opressões e as exclusões do modelo que ainda vivenciamos, onde, o racismo estrutural disputa sua pauta dentro da educação e, que impõe (ou insiste em impor) o silenciamento as/aos excluídas/excluídos, as/aos que questionam o processo de marginalização das/dos pobres-pretas/pretos-indígenas, banaliza a retirada dos direitos e, principalmente, impõe regras para tentar subjugar as maiorias, com o desejo de mantê-las ‘calmas’, subalternas e subservientes. Nesse sentido, também cabe a nós, produzirmos resistências, persistência e insurgências capazes de promoverem e problematizarem as epistemologias do povo negro, pois percebemos que há muito que debater. E isso é promovido, segundo já defendemos, a partir dos compromissos assumidos na presente pesquisa, mas também, na cultura da aceitação de novas compreensões de igualdade, as quais não sejam homogeneizadoras, mas sim, diversificadas e interpluriculturais. Posto que possibilitam a construção de práxis de pesquisa e de formação – inicial e/ou continuada –, em maior relação-comprometimento com os cotidianos escolares. Com essa postura, a ‘escola’, poderá ampliar/fortalecer, em seus espaços-tempos educativos, as lutas pelo direito à vida, à igualdade racial, em um permanente processo de aceitação/afirmação das identidades/identificações culturais das negritudes nos diversos contextos de formação e profissionalização das/dos docentes. Também contribuirá com a construção de conhecimentos e metodologias que visibilizem, atendam, desvelem... as negações/exclusões das vivências/experiências da população negra. Ao estimularmos os ‘pensares’ para além do prescrito, e buscarmos uma compreensão mais imersiva, por meio de investigação e estudos científicos, conduziremos para uma ressignificação das temáticas que permeiam as negritudes. Estas, que necessitam/devem ser, constantemente, abordadas/vividas nas salas de aula, bem como em outros espaços das vidas acadêmicas. Pois elas podem fornecer perspectivas ‘outras’ para que possamos pesquisar e aprofundar estudos que coloquem em evidência como essas problemáticas são/foram, discutidas, assimiladas e sistematizadas, com a finalidade de fortalecer os debates a respeito das relações étnico-raciais nas escolas e nas universidades. Assim, contribuiremos com o acesso e a permanência das/dos estudantes nesses locais e construiremos estratégias/políticas/programas para superação dessas questões e desafios. REFERÊNCIAS ALVES-MELO, Patricia. Rompendo o silêncio sobre a presença negra no Amazonas: um breve balanço historiográfico. In: ALVES-MELO, Patricia (Org.). O fim do silêncio: presença negra na Amazônia. 2ª ed. Curitiba: CRV, 2021. p. 13-34. GOMES, Nilma Lino. O Movimento Negro e a intelectualidade negra descolonizando os currículos. In: BERNARDINO-COSTA, Joaze; MALDONADO-TORRES, Nelson (Org.). Decolonialidade e pensamento afrodiaspórico. Belo Horizonte: Autêntica, 2020. p. 223-246. COELHO, Wilma de Nazaré Baía. SOARES, Nicelma Josenila Brito. A implementação das leis nº 10.639/2003 e nº 11.645/2008 e o impacto na formação de professores: inflexão inicial. In: MÜLLER, Tânia Mara Pedroso; COELHO, Wilma de Nazaré Baía; FERREIRA, Paulo Antônio Barrosa (org.). Relações étnico-raciais, formação de professores e currículo. São Paulo: Livraria da Física, 2015. p. 75-100 (Coleção formação de professores & relações étnico-raciais).

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Institutions
  • 1 UEA-PPGED- Universidade do Estado do Amazonas
Track
  • GT21 - Educação e Relações Étnico-Raciais