LEITURA LITERÁRIA NA FORMAÇÃO INICIAL: O QUE DIZEM OS ESTUDANTES DO CURSO DE PEDAGOGIA

- 215943
Resumo Expandido - Trabalho em Andamento
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Abstract
LEITURA LITERÁRIA NA FORMAÇÃO INICIAL: O QUE DIZEM OS ESTUDANTES DO CURSO DE PEDAGOGIA Esta comunicação refere-se a uma pesquisa de doutorado em andamento sobre a leitura literária na formação em Pedagogia. Tem como objetivo principal compreender quais impactos o uso da leitura literária pode ter na formação do pedagogo. Traz, ainda, como objetivos específicos: 1) Compreender como estudantes de Pedagogia narram suas vivências com a leitura literária na formação e na vida; 2) Identificar quais desafios se apresentam nas práticas de leitura presentes no curso de Pedagogia; e 3) Refletir sobre as possibilidades e caminhos do uso da leitura literária na formação inicial do professor da educação básica. De abordagem qualitativa, a pesquisa foi realizada com estudantes do 4º semestre do curso presencial de Pedagogia de uma instituição de ensino superior da região metropolitana de Campinas. Como fundamentação teórica, pauta-se na perspectiva enunciativo-discursiva do Círculo de Bakhtin, para a qual a linguagem se caracteriza essencialmente pela dialogicidade e responsividade, constituída a partir das relações/interações sociais que nos tornam sujeitos (Bakhtin, 2011). Pauta-se ainda nos aportes dos Novos Estudos sobre o Letramento, com (1995, 2001, 2006, 2018), Street (1996, 2014) e outros para discutir os desafios dos letramentos na formação do professor, bem como nos estudos de Cândido (2004), Graça Paulino (1999, 2004) e Cosson (2006) para conceituar literatura e o letramento literário. Diante da presença da literatura na formação do pedagogo ainda incipiente (Saldanha, 2018), tendo a leitura como central na vida e na atuação do professor, compreendemos o uso da literatura como caminho de contribuição efetiva para a ampliação do seu letramento e na constituição de sua identidade e de sua prática em sala de aula (Kleiman, 1995). Para nós, a literatura, como conceitua Cosson (2006), funciona para além de sua relação com dada manifestação literária; ela se situa como atividade de linguagem que possibilita, de modo singular, uma construção de sentidos que concorre para a compreensão da vida, do mundo, da relação com o outro e da sociedade. A universidade, onde é desenvolvida a pesquisa, é instituição privada de ensino superior que oferta o curso presencial de Pedagogia há 50 anos, não tendo em sua grade curricular componente que aborde a literatura. O contato do curso com a leitura literária se deu a partir de projeto de atividade interdisciplinar iniciado em 2023, que propõe a leitura e discussão de uma obra literária por semestre. Nesse contexto, a produção de dados se deu em duas etapas: a primeira com a aplicação de um questionário on-line elaborado no Google Forms e disponibilizado aos 49 estudantes da turma nos dias 19 e 20/06/2024, tendo recebido 42 respostas. O instrumento compôs-se de perguntas objetivas/fechadas e trouxe, inicialmente, o termo de consentimento livre e esclarecido para indicar o interesse em participar ou não da pesquisa. Questionou-se também sobre a disponibilidade de participação na segunda etapa da pesquisa, a entrevista narrativa, tendo recebido 29 respostas afirmativas. Desses, 6 estudantes foram selecionados a partir da resposta à questão: “Você gosta de ler obras literárias?”, sendo 2 pela resposta “Sim” à questão, 2 pela resposta “Não” e 2 pela escolha da opção “Sim, me considero um leitor literário”. Após esse processo, demos início às entrevistas narrativas. A entrevista narrativa se mostra um instrumento de produção de dados relevante na pesquisa em educação, uma vez que se opõe ao modelo perguntas/respostas que induz o entrevistado a uma estrutura já definida de tema, tópicos e ordem e o cerceia em sua espontaneidade na narração dos acontecimentos (Jovchelovitch; Bauer, 2005). Possibilita a interação dialógica entre pesquisador e entrevistado, tendo a palavra cultivada livremente na narrativa e oferecendo sentidos que mobilizam o pesquisador em sua análise a partir do vivenciado pelo sujeito. Até o presente momento foram realizadas 3 das 6 entrevistas previstas. O participante 1[1] foi entrevistado em 18/11/2024, com duração de 42min. e 20s; o participante 2, em 13/02/2025, com 48min. e 35s; E a do participante 3 ocorreu no dia 19/02/2025, tendo durado 76min. e 38s, todas na biblioteca da universidade. Os participantes 1 e 2 são do grupo que gosta de literatura, enquanto o 3 é do grupo que se considera leitor literário. Com a produção de dados e análise em construção, buscamos compreender os impactos da leitura literária na formação do pedagogo, trazendo para a discussão um recorte das entrevistas que nos dão a percepção dos estudantes sobre a presença da literatura a partir das atividades interdisciplinares com obras literárias vivenciadas no curso de Pedagogia. Buscamos aqui realizar uma análise dialógica discursiva, conforme defendida por Brait (2006), fundamentada nos pressupostos teórico-metodológicos do Círculo de Bakhtin, tendo como movimento ir em busca das particularidades que caracterizam, de forma mais ampla, um dado discurso, considerando não apenas aspectos da materialidade linguística e extralinguística do enunciado, mas também compreendendo o contexto social em que se constitui a relação língua-enunciação. Diante da questão de como veem a relação literatura e Pedagogia, o participante 1 nos diz o seguinte: Muito importante, muito importante. Eu acho que não só eu. Acho que toda professora deveria tirar um momento, uma hora de leitura, mas não tem mais o brincar. Agora tudo é apostilado, essas crianças você vai hoje lá elas estão exaustas, não querem mais saber de nada, não tem brincar, não tem leitura, não tem nada.” O participante 2, por sua vez, traz: “É extremamente importante. Porque cria repertório, cria um contexto para enxergar […]. Então, acho que prepara muito a gente. […] É interessante porque aumenta nossa visão assim, não deixa a gente ser limitado […]. E tendo essa função de ensinar outra pessoa, é importante a gente ter o costume de ler, ler várias coisas, estudar, porque é o que a gente vai passar pro outro”. Já o participante 3 diz: “Acho importante em vários níveis. Acho importante essa interpretação, porque eu vejo que muita gente não tem. Uma mensagem de whatsapp as pessoas não sabem interpretar. […] Sei que cada um tem sua vivência, mas indo para o quinto semestre, pelo amor de Deus, né?” Os trechos acima nos trazem que as atividades com a literatura na Pedagogia são tidas para finalidades diversas, inclusive em relação com outras questões como a leitura em geral (sem especificar a literatura), o apostilamento, a brincadeira, a intertextualidade, a função no ensino de língua materna. Apesar de questões a serem discutidas individualmente, podemos pontuar que elas sinalizam o efeito da lacuna de instituição formalizada da literatura no curso de Pedagogia, o que faz com que a literatura não seja vista com lugar próprio, com finalidade de formação em si mesma, mas sempre envolta em concepções e funções superficiais. No dizer do participante 1, a literatura é relevante como instrumento de mediação de leitura na educação básica. Ainda que a instrumentalização do professor seja plausível (Saldanha, 2018), temos discutido a necessidade de se levar em consideração o potencial que a literatura tem de contribuir para a autonomia do sujeito, habilitando-o um pouco mais a agente de sua própria vida (Petit, 2009). Essa consciência do papel formativo da literatura se apresenta na voz do participante 2. Sua fala, também perpassada pela ideia de instrumentalização – ser preparado para formar leitores no futuro –, traz a literatura como possibilidade de ampliação do repertório, da visão de mundo, evidenciando-se a compreensão de que, a partir do literário, o sujeito pode experimentar “sua verdade mais íntima como a humanidade compartilhada”, pois “[…] a relação com o próximo se transforma. Ler não isola do mundo. Ler introduz no mundo de forma diferente” (Petit, 2009, p. 43). Na voz do participante 3, temos a literatura implicada em sua função de instrumento no ensino de língua materna. No entanto, a literatura pode ser vista para além desse potencial de apropriação da língua. Ela tem o potencial de, também na formação em Pedagogia, ser empenhada para problematizar a vida através da experiência do outro, colocando o estudante diante de conflitos e dilemas inerentes à vida humana (Cândido, 2004), que servem a confirmar a sua própria humanidade, tornando-o mais atento à sua própria ação no mundo. Na pesquisa temos buscado discutir, sobretudo, a força da literatura em sua possibilidade de formação humana, olhando para além da instrumentalização para a formação do leitor, mas vendo a literatura como possibilidade em si mesma de contribuir para a constituição do sujeito professor e de sua formação humana. Palavras-chave: Formação Inicial; Leitura literária; Curso de Pedagogia. REFERÊNCIAS BAKHTIN. M. Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 2011. BRAIT, B. Uma perspectiva dialógica de teoria, método e análise. Gragoatá, Niterói-RJ, n. 20, p. 47–62, 2006. Disponível em: https://encr.pw/9nlHv. Acesso em: 25 de fev. 2025. CÂNDIDO, A. Vários escritos. São Paulo: Ouro Sobre Azul, 2004. COSSON, R. Letramento literário: teoria e prática. São Paulo: Contexto, 2006. JOVCHELOVITCH, Sandra; BAUER, M.W. Entrevista narrativa. In: BAUER, M.W.; GASKELL, G. (Orgs.). Pesquisa qualitativa com texto, imagem e som: um manual prático. 4ª ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2005. KLEIMAN, Angela (Org.). Os significados do letramento. Campinas, S.P.: Mercado de Letras, 1995. PETIT, Michèle. Os jovens e a leitura: uma nova perspectiva. 2. ed. Trad. de Celina Olga de Souza. São Paulo: Ed. 34, 2009. SALDANHA, Diana M. L. Lopes. O ensino de literatura no curso de pedagogia: um lugar necessário entre o institucional, o acadêmico e o formativo. 246f. Tese (Doutorado em Educação) – Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal, 2018. [1] Os participantes ainda definirão o pseudônimo a ser adotado na pesquisa.

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