COSMOLOGIAS MITOLÓGICAS CONSTITUÍDAS EM CONTEXTOS LÚDICOS COM INFÂNCIAS INDÍGENAS E NÃO INDÍGENAS NOS ESPAÇOS ESCOLARES DA EDUCAÇÃO BÁSICA A proposta desta pesquisa em andamento desenvolve-se no campo das infâncias indígenas e não indígenas em suas territorialidades identitárias, mediante conexões interativas das cosmologias indígenas constituídas nos espaços escolares, por meio dos valores culturais desses territórios, reinventados nos mitos e nas narrativas originárias, referendados em círculos literários com obras de autores(as) indígenas, como produção de sentidos e significados na construção das identidades de infâncias, no intuito de evidenciar as crianças como atores socioculturais em seus territórios, incursas em suas inteirações, bem como em suas vivências identitárias no cotidiano de suas comunidades. Este campo de estudo nos conduz a um profundo (re)pensar dos métodos e práticas de ensino na Educação Básica, envolvendo processos de interculturalidade, uma vez que, ao sairmos das lógicas colonizadas do cotidiano, e adentramos em outros universos educativos, iniciamos um movimento insurgente para educadores que se percebem em constantes processos de ação-reflexão-ação, implicados aos referenciais freireanos. No caso particular deste estudo, os participantes da pesquisa são crianças indígenas e não indígenas matriculadas na Educação Básica, em uma escola localizada no município de Aracruz/ES, onde são realizados os percursos metodológicos de investigação, por meio de pesquisa qualitativa, via exercício de inspiração etnográfica, desenvolvidos através da observação das relações de convivência e da vida dessas crianças em seus territórios de culturas de pares, nas interações lúdicas e nos espaços escolares, com o auxílio de registros em diários de campo, compondo notas para a elaboração de categorias de análises profundas dos dados produzidos sobre suas culturas, crenças e inteirações em seus contextos, numa perspectiva metodológica de “projetos decoloniais”, referenciadas pela obra da autora indígena Linda Smith (2018). Mediante o exposto, o intuito desse estudo é aprender com as infâncias, indígenas e não indígenas, em suas territorialidades e em seus próprios termos de culturas, a partir desta mediação. O propósito é fomentar processos criativos nos momentos de círculos narrativos e círculos literários de autorias indígenas, enredados no repensar dessas literaturas com as crianças indígenas e não indígenas, para a ampliação dessa visão epistemológica, orientadas na referência da cultura originária, compreendendo em situação e ato, a Educação conforme apresentada na lei nº 11.645/2008, sobre o estudo das culturas indígenas em seus universos cosmológicos, no desejo de compreender e qualificar, junto a estas infâncias, a materialidade da Educação para diversidade, reconhecendo nos diversos espaços escolares, outros sujeitos, memórias e historicidades. Para tanto, estamos realizamos um trabalho de campo, via exercício de inspiração etnográfica, tendo como recursos a coleta das informações, captando os relatos orais com as crianças em suas cosmologias infantis, acentuando os mitos e lendas da comunidade, bem como as narrativas e elementos estéticos produzidos de acordo com as temáticas literárias indígenas utilizadas nas circularidades das conversas e das ações pedagógicas desenvolvidas. O percurso etnográfico está sendo desenvolvido por meio da observação (simples ou participante) da vida das crianças, em seus territórios de culturas e nos espaços escolares, tentando recortar de suas realidades as dimensões culturais nas correlações de forças em processos de sociabilidade, seja com adultos ou entre elas, atentando-se às relações de sociabilidade das crianças em seus repertórios lúdicos, pois desse modo, conforme argumentam Graue & Walsh (2003, p. 21-22), ao observarmos um coletivo de crianças em seus contextos locais, a atenção concentra-se em um olhar apurado às particularidades concretas de suas vidas nesses contextos. Ainda neste escopo, estão sendo registrados, em notas de campo, as ações realizadas nos tempos de imersão e interação nos espaços escolares, possibilitando que as crianças possam produzir - caso queiram - seus registros, fazendo dessas “notas diárias” uma composição de escrita coletiva, não apenas entre crianças e seus pares, mas também nas suas interações com os adultos, uma vez que, conforme Corsaro (2010), as culturas de pares são produzidas publicamente, coletivamente e são performativas. No que se refere às discussões dos resultados parciais do trabalho em andamento, ressaltamos as observações das ações realizadas pelas infâncias indígenas e não indígenas em seus processos de cosmologias de saberes e conhecimentos. A partir dos contextos metodológicos em execução, durante a realização de um círculo de leitura, utilizando como dispositivo literário a obra “Um curumim, uma canoa”, de Yguarê Yama, onde o autor apresenta a história de um menino indígena que dentro de uma canoa, e através de sua imaginação, sai desbravando territórios até sua chegada ao “reino da cobra grande”, observamos um momento digno de nota: algumas crianças - Valentina e Kauã, de origem tupiniquim - ao término da história, disseram que “existe uma ‘cobra grande’, que vive presa debaixo de uma igreja”, próxima ao aldeamento no qual eles vivem; as outras crianças, residentes fora desse aldeamento, afirmaram que já ouviram falar sobre a história descrita pelos colegas. Trata-se do mito da “Serpente Prisioneira”, descrito pelos mestres Tupinikins, a qual vive aprisionada debaixo da igreja católica, localizada na Aldeia Caieiras Velha, no município de Aracruz/ES. A partir dos relatos das crianças, surgiram detalhes acerca do mito, reverberados não apenas nos círculos narrativos que seguiram, mas também nas atividades propostas para o momento. Pedimos que, aleatoriamente elas formassem três grupos, sendo-lhes entregues materiais para composições coletivas de releituras acerca das literaturas e narrativas produzidas pelos mesmos: dois grupos foram compostos por crianças não indígenas e um grupo foi composto por crianças indígenas e não indígenas. No desenvolver das atividades, evidenciamos que no grupo onde estavam as crianças indígenas havia maior interação coletiva entre elas. Já nos outros dois grupos, haviam pequenos conflitos e uma tendência individualista em relação ao uso dos materiais, como pincéis, potes de tintas, algodão, barbantes, colagens, etc., e na divisão das tarefas, como quem risca o desenho, quem o pinta, a cor usada na pintura, etc. As produções estéticas das crianças culminaram em três painéis: o 1º grupo das crianças indígenas e não indígenas, um painel de aproximadamente dois metros, representado o mito da “Serpente Prisioneira”; o 2º grupo de crianças não indígenas, desenharam a figura de uma “cobra grande” e o 3º grupo de crianças não indígenas, fizeram uma “cobra de barbante” em alto relevo, usando cola e tinta guache, de menor tamanho em relação aos demais. Toda a estética do trabalho produzido pelo grupo das crianças indígenas e não indígenas foi conduzida pelas crianças indígenas, por meio da qual revela-se: a riqueza de detalhes na composição cênica do mito em forma de desenhos e texturas, demonstrando a história da territorialidade do Aldeamento de Caieiras Velha, com ilustrações da Aldeia, da igreja e da grande cobra, presa debaixo da mesma, dos habitantes indígenas e suas moradias (ocas), da natureza no entorno do Aldeamento, retratada com animais, árvores, rios, peixes, ruas, dentre outros. Destaca-se ainda entre os detalhes, o grafismo representado na face e no corpo da serpente, trazendo à tona as impressões identitárias afirmativas do povo Tupinikim reverberadas em suas identidades de infâncias, na ancestralidade originária e na oralidade do mito anunciado na produção imagética coletiva composta pelos mesmos. Mediante o exposto, consideramos que as metodologias desenvolvidas (e em desenvolvimento) ao longo deste trabalho tem fomentado o fortalecimento das identidades originárias e a reverberação dos cosmosaberes nos ambientes escolares, lócus de interações entre as infâncias indígenas e não indígenas, evidenciando as culturas Tupinikim - e Guarani, consolidando a forte presença e resistência desses povos originários, bem como suas cosmologias de conhecimentos ancestrais, existentes nessas territorialidades. Constatamos durante a consolidação das atividades propostas que as literaturas de autorias indígenas corroboram com as reverberações de ancestralidades presentes nas ações e nas produções das infâncias indígenas, legitimando suas identidades originárias. Os cosmosaberes relacionados à tradição da oralidade indígena, particularmente, como a narrativa do mito da “Serpente Prisioneira”, descrita pelas crianças Tupinikins, inauguram novos caminhos a serem percorridos pela Educação Básica, alicerçadas nas cosmologias de conhecimentos originários, promovendo formação e afirmação identitárias ancestrais de pertencimento, valorizando a diversidade cultural e étnica nos processos de ensino-aprendizagens na construção de novos saberes. REFERÊNCIAS BRASIL. Lei nº 11.645/2008, de 10 de março de 2008. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, para incluir no currículo oficial da rede de ensino a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena”. Disponível em:
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2008/lei/l11645.htm Acesso 23/03/25. CORSARO, W. A. Sociologia da infância. São Paulo: Artmed, 2011. GRAUE, M. Elizabeth; WALSH, Daniel J. Investigação etnográfica com crianças: teorias, métodos e ética. Lisboa. Fundação Calouste Gulbenkian. 2003. SMITH, Linda Tuhiwai. Descolonizando Metodologias: pesquisa e povos indígenas. Tradução: Roberto G. Barbosa. Curitiba: Ed. UFPR, 2018. 239 p. YAMA, Yguarê. Um curumim, uma canoa. Ilustrações de Simone Matias. Idioma: português. 1ª Edição. Rio de Janeiro. Editora Zit. 2012. Dimensões. 22.8 x 21.4 x 0.4 cm. 36 p.