A EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS NA ECONOMIA SOLIDÁRIA: BALANÇO DOS ESTUDOS PRODUZIDOS NO BRASIL NO PERÍODO DE 2004 A 2023 Esta pesquisa é um estudo do tipo Estado do Conhecimento[1] em interface ao Estado da Arte[2] e teve por objetivos inventariar, sistematizar, categorizar, analisar e discutir a relação entre a Educação de Jovens e Adultos (EJA) e a Economia Solidária (EcoSol) nas pesquisas de Pós-Graduação, circunscrevendo o período de 2004 a 2023. Para Freire (1996), é preciso interrogar o já sabido para poder produzir novos saberes, num movimento alicerçado na “força criadora do aprender de que fazem parte a comparação, a repetição, a constatação, a dúvida rebelde, a curiosidade não facilmente satisfeita” (Freire, 1996, p. 28). A pesquisa teve por objetivo geral analisar, sob diferentes aspectos, a presença da Educação de Jovens e Adultos (EJA) em trabalhos acadêmicos produzidos no Brasil sobre educação/formação e Economia Solidária, no período de 2004 a 2023. Em alinhamento ao objetivo geral, o estudo buscou atingir os seguintes objetivos específicos: a) selecionar, organizar, sistematizar e apresentar os elementos-chave (objetivos, metodologias, marco teórico, conceitos e resultados) das produções que fazem parte do corpus do estudo; b) categorizar, analisar e discutir as temáticas centrais das pesquisas selecionadas e seus entrecruzamentos; c) evidenciar lacunas e silenciamentos nos trabalhos analisados e temas emergentes a serem explorados em pesquisas futuras; d) por fim, discutir as inter-relações entre conhecimentos escolares e processos formativos não escolares em experiências de trabalho associado, com ênfase à Economia Solidária. Em relação ao marco teórico utilizado, destacam-se: Arroyo (1998), Ferreira (2002), Freire (1977, 1979, 1996), Haddad (2000), Kruppa (2005), Kols-Santos e Morosini (2021) e Singer (2005), tendo como pano de fundo, inspiração no materialismo histórico e dialético (categorias da particularidade, da totalidade, da mediação e contradição). Como procedimento metodológico, combinaram-se duas abordagens, qualitativa e quantitativa. Para a coleta dos trabalhos nas bases de dados (pesquisa realizada em 20 de outubro de 2024) da CAPES (
https://catalogodeteses.capes.gov.br), da BDTD (
http://bdtd.ibict.br/vufind/), da SciELO (
https://www.scielo.br/) e no Catálogo de Periódicos da CAPES(
https://www.periodicos.capes.gov.br/), definiram-se os descritores “EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS” e “ECONOMIA SOLIDÁRIA”, com o operador booleano AND e com o acréscimo das aspas, validados no sistema “Thesaurus Brasileiro da Educação (
https://vocabularyserver.com/brased/index.php?letra=E). Após as buscas nas plataformas digitais, resultaram-se 27 produções, que foram submetidas à ferramenta de Análise de Pertinência Temática (APT) - modo de verificação e de avaliação do grau de representatividade, pertinência e aproximação temática ao estudo realizado. Assim sendo, do universo encontrado, doze (n=12) pesquisas foram selecionadas para a composição do corpus deste estudo. Para as análises, construíram-se duas categorias: bibliométricas (dados quantitativos extraídos dos trabalhos, fundamentais para a análise estatística de elementos-chave, permitindo discussões mais densas e possíveis cruzamentos entre as categorias) e de conteúdo (dados qualitativos extraídos dos resumos, títulos e palavras-chave). Segundo a sistematização das categorias bibliométricas, verificou-se que os anos de 2014 (n=2) e 2016 (n=3) tiveram maior número de publicações de teses, dissertações e artigos, articulando as temáticas Educação de Jovens e Adultos e Economia Solidária, o que corresponde a cinco estudos (n=5), em relação ao total de doze (t=12). Os demais anos (2005, 2009, 2013, 2015, 2017, 2019, 2022) tiveram apenas uma defesa (n=1) por ano. No período de 2004 a 2023, apenas uma autora publicou duas (n=2) pesquisas sobre Economia Solidária na interface com a EJA, em relação ao total (n=12), o que demonstra a continuidade dos estudos, mesmo que seja em um caso específico. Os trabalhos dividem-se em duas grandes áreas do conhecimento, das quais a grande maioria pertence às Ciências Humanas (n=11), seguida das Ciências Sociais Aplicadas (n=1). A concentração na área da Educação está, por suposto, associada ao fato de que a EJA, como modalidade escolar, é objeto de estudo da área. Destaca-se que a grande maioria dos estudos (teses e dissertações) foram encontrados nas bases de dados da CAPES e da BDTD (n=9) em relação ao total de trabalhos (n=12). As demais pesquisas dividem-se entre a base de dados SciELO (n=1) e Periódicos CAPES (n=2). Estes dados revelam a importância de se fazer buscas em mais de uma base de dados, de domínio público e de confiança. Os estudos estão distribuídos nas cinco regiões do País, cujo maior número de pesquisas encontram-se na região sudeste (n=5) com destaque à UNESP com 2 trabalhos (n=2). Do total de doze (n=12) produções, cinco (n=5) estão distribuídas nas seguintes Instituições de Ensino Superior (IES): UFSCar, UNESP, UNITAU e USP, todas localizadas na cidade de São Paulo (SP). Em segunda posição, temos a região Nordeste com quatro (n=4) estudos, oriundos da UNEB (n=2), UFPB (n=1) e UFRN (n=1). A seguir, constata-se que as regiões Centro-Oeste, Sul e Norte concentram apenas um (n=1) estudo, em cada uma, e as pesquisas são procedentes da UnB (n=1), UFRGS (n=1) e UFPA (n=1). Estes resultados permitem inferir que as Instituições de Ensino Superior (IES) públicas convergem maior número de pesquisas cujo objeto de estudo volta-se à EJA e à Economia Solidária, e que, podem ter relação com a criação das Incubadoras Tecnológicas de Cooperativas Populares (ITCPs) nas instituições de ensino superior. No que tange às categorias de conteúdo, em linhas gerais é possível afirmar que: a) a EJA, a Economia Solidária e a formação profissional e político-profissional são temas centrais das pesquisas, seguidas dos saberes experienciais resultantes na/da prática do trabalho e das relações entre saber escolar e saber prático; b) alguns estudos discutem a possibilidade de implementação da temática da Economia Solidária como componente curricular na EJA; c) são estabelecidas aproximações entre os conteúdos escolares abordados em sala de aula na EJA ao cotidiano vivenciado na Economia Solidária; d) destaca-se também a utilização da Economia Solidária como prática educativa e formativa; e) há articulações entre os conhecimentos escolares e saberes dos trabalhadores inscritos na prática do campo; f) aparecem conexões entre Educação Matemática no contexto da Economia Solidária, visando atender as demandas específicas do Empreendimento Econômico; g) outros assuntos, como as Experiências das Mulheres na Economia Solidária, Empoderamento Feminino, Políticas Públicas direcionadas à EJA e à prática do trabalho em Economia Solidária, são discutidos nos estudos inter-relacionados aos temas trabalho e educação; h) por fim, as temáticas de Alfabetização e Letramento, Educação Matemática e Etnomatemática são discutidas nas pesquisas, em aderência a outros temas, como a Educação do Campo. Em relação aos objetivos descritos nos resumos, verificou-se que os principais focos foram: a) investigar a possibilidade de autorganização coletiva na produção da vida e na relação trabalho e escola; b) investigar a prática da incubação e o processo de autogestão em Empreendimentos Econômicos Solidários (EES); c) discutir as relações teóricas entre os conceitos de lugar e comunidade no fortalecimento de laços identitários, culturas e de pertencimento socioespacial na relação com a EJA e com o trabalho; d) aproximar o currículo escolar da EJA com a Economia Solidária; e) desenvolver atividades matemáticas nas demandas específicas dos EES; f) conhecer como se desenvolvem os processos Educativos/Formativos que tem como meta à profissionalização de cooperados Econômicos Solidários; g) analisar a utilização dos princípios da Economia Solidária nas ações de ensino na EJA (PROEJA; h) analisar as contribuições dos conhecimentos matemáticos na prática do trabalho do campo e nas relações tempo-escola e tempo-família; i) compreender de que forma a Educação Social e os processos de escolarização da EJA promoveram o empoderamento de mulheres para a prática do trabalho em EES; j) compreender a dinâmica da formação escolar em EJA nas práticas de Economia Solidária. Acerca das metodologias adotadas, todos as pesquisas tiveram como método o estudo qualitativo, transitando entre estudos de caso e pesquisa-ação, e os procedimentos mais utilizados foram a pesquisa bibliográfica, análise documental, entrevistas, aplicação de questionários, diário de campo e observação participante. No que tange ao referencial teórico, evidencia-se que do total de doze (n=12) pesquisas, apenas quatro (n=4) sinalizaram a base teórica utilizada no estudo. Desse universo observa-se os conceitos desenvolvidos por Paulo Freire aparecem com expressividade, indicando a forte relação com a educação popular e de matriz emancipatória (Pedagogia da Práxis, Educação Popular, Educação e Conflito, Educação e Mudança, Educação Popular como Emancipação Humana, Teorias e Movimentos Sociais etc). Quanto aos resultados encontrados nos trabalhos destacam-se: a) são muitos os fatores transformadores da incubação, como a valorização da inteligência cultural, o aumento da autoestima e ampliação da perspectiva agroecológica no assentamento; b) a Matemática é preponderante na gestão financeira e logística do Banco Comunitário e na compreensão na autogestão do EES; c) a relevância do processo de escolarização para as mulheres que trabalham como catadoras em cooperativa solidária; d) a possibilidade de (re)configuração da EJA (matriz curricular) abre espaço para os estudantes construírem possibilidades de geração de trabalho e renda a partir de dinâmicas socioprodutivas que não se limitam apenas as necessidades imediatas de sobrevivência, mas se configura como dimensão educativa integral pautada nas perspectivas solidária, inclusiva e emancipatória. Conforme Freire (1979, p. 40) “[…] a realidade não pode ser modificada, senão quando o homem descobre que é modificável e que ele pode fazê-lo […]”. Ainda mais, evidenciou-se que: a) há ausência de abordagens e ações pedagógicas em sala de aula, que estejam relacionadas ao mercado de trabalho e que motivem os estudantes no combate ao desemprego; b) é preciso Pedagogizar os processos de trabalho calcados nas relações solidárias, éticas e afetivas; c) há necessidade de revisão da política pública da EJA considerando a perspectiva da Economia Solidária como um componente curricular e como um campo de possibilidades de mediação do conhecimento; d) em alguns casos, a valorização do dinheiro se sobressai aos conhecimentos instrumentais produzidos nos espaços de trabalho. À luz das necessidades dos estudantes da Educação de Jovens e Adultos poucos estudos tratam dos processos de alfabetização, educação matemática e Etnomatemática na relação com a Economia Solidária, considerando que ambos os campos, do ponto de vista educativo/formativo, podem se alimentar reciprocamente. Mesmo pouco expressivos trazem elementos para reflexão muito relevantes. O aprofundamento teórico-prático sobre as experiências de EJA que fazem interseção com a Economia Solidária são imprescindíveis à construção e consolidação de práticas que ressignificam territórios de trabalho e seus fazeres, considerando as correspondências entre as iniciativas escolares e os espaços de Economia Solidária, ao passo que podem trazer redimensionamentos para os rumos da EJA como, por exemplo, a reconfiguração do currículo escolar, o que anuncia uma perspectiva de escola pensada em diálogo com o contexto sociocultural, valorizando e respeitando as singularidades e humanidades dos estudantes-trabalhadores. Por fim, os dados sugerem a continuidade do estudo, de forma ampliada, no método, na temporalidade e nas bases de dados, o que pode trazer importantes contribuições para o campo da EJA e para o mundo do trabalho. REFERÊNCIAS ARROYO, Miguel Gonzalez. Ofício de Mestre: imagens e auto-imagens. Petrópolis: Vozes, 1998. 251 p. FERREIRA, Norma Sandra de Almeida. As pesquisas denominadas “Estado da Arte”. Educação & Sociedade, n. 79, p. 257-272, 2002. Disponível em:
https://www.scielo.br/j/es/a/vPsyhSBW4xJT48FfrdCtqfp/?format=pdf&lang=pt. Acesso em: 27 jan. 2022. FREIRE, Paulo. Extensão ou comunicação? Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977. FREIRE, Paulo. Conscientização; teoria e prática da libertação; uma introdução ao pensamento de Paulo Freire. São Paulo: Cortez & Moraes, 1979. FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. 2. ed. São Paulo: Paz e Terra, 1996. HADDAD, Sérgio. O Estado da Arte das pesquisas em Educação de Jovens e Adultos. São Paulo: Ação Educativa, 2000. KOHLS-SANTOS, Pricila; MOROSINI, Marilia Costa. O revisitar da metodologia do estado do conhecimento para além de uma revisão bibliográfica. Revista Panorâmica Online, Pontal do Araguaia, v. 33, 2021. Disponível em:
https://periodicoscientificos.ufmt.br/revistapanoramica/index.php/revis…. Acesso em: 02 out. 2024. KRUPPA, Sonia Maria Portella (Org.). Economia Solidária e Educação de Jovens e Adultos. Brasília: INEP, 2005. p. 104. SINGER, Paul. A economia solidária como ato pedagógico. In KRUPPA, Sonia Maria Portella (Org.). Economia Solidária e Educação de Jovens e Adultos. Brasília: INEP, 2005. p. 104; 13-20. [1] O estudo do Estado do Conhecimento possui caráter bibliográfico e “se refere como a identificação, registro, categorização que levem à reflexão e síntese sobre a produção científica de uma determinada área, em um determinado espaço de tempo” (Morosini; Fernandes, 2014, p. 102; Ferreira, 2002). Dito de outra forma, o Estado do Conhecimento é um tipo de pesquisa bibliográfica, baseada, principalmente, em teses, dissertações e artigos científicos, pois neste rol de pesquisas é possível conhecer o que está sendo pesquisado em nível de pós-graduação stricto sensu de determinada área sobre determinado tema [...]” (Kohls-Santos; Morosini, 2021, p. 125). [2] “Os estudos do tipo Estado da Arte permitem, num recorte temporal definido, sistematizar um determinado campo de conhecimento, reconhecer os principais resultados da investigação, identificar temáticas e abordagens dominantes e emergentes, bem como lacunas e campos inexplorados abertos a pesquisas futuras” (Haddad, 2000, p. 04). O “Estado da Arte” traz o desafio de ir além do mapeamento das produções científicas em diferentes campos do conhecimento, épocas e territórios, essa metodologia de caráter inventariante e descritiva busca conhecer “em que condições as teses, dissertações, publicações em periódicos, comunicações em anais de congressos e seminários têm sido produzidas” (Ferreira, 2002, p. 258).