EDUCAÇÃO EM TEMPOS DE CRISE DA DEMOCRACIA E NEOCONSERVADORISMO: APONTAMENTOS BAKHTINIANOS AOS EDUCADORES Introdução Nos últimos anos, o mundo tem sido assolado por uma guinada conservadora. São exemplares desse momento de crise da democracia as eleições de Donald Trump [2016 e 2024] nos EUA, de Jair Bolsonaro [2018] no Brasil, de Giorgia Meloni [2022] na Itália e de Javier Milei [2023] na Argentina. Trata-se de uma crise da democracia, visto que, como analisam Levitsky e Ziblatt (2018), a fragilidade democrática no século XXI revela uma mudança de paradigma para os movimentos antidemocráticos, que ascendem ao poder não por meio de golpes de estado, mas pelo voto. Assim, “os autocratas eleitos mantêm um verniz de democracia enquanto corroem a sua essência” (Levitsky; Ziblatt, 2018, p. 14). Nessa perspectiva, a crise democrática no mundo moderno acaba por se espraiar pelas mais diversas áreas, não apenas se ocupando da esfera política. A educação, como não poderia deixar de ser, é impactada pelo momento de crise. Tendo isso em vista, objetiva-se, com este trabalho, refletir sobre o papel da educação em tempos de neoconservadorismo. De acordo com Lima e Hypolito (2019), os neoconservadores [...] são um dos grupos que compõem a Nova Direita, [...] um movimento que teve início por volta dos anos de 1960 [...]. A Nova Direita constitui uma aliança, principalmente, entre neoconservadores e neoliberais, central para o desmantelamento do Estado de Bem-Estar e para a criação de uma nova forma de administrar o Estado quando da crise de 1970 nos países centrais ao capitalismo [...] Os neoconservadores são aqueles que definem os valores do passado como melhores que os atuais e lutam pelas tradições culturais (Lima; Hypolito, 2019, p. 3-4). Pode-se considerar, então, como característica do neoconservadorismo, o apego ao passado ao lidar com problemas atuais. Diante da crise, a resposta neoconservadora recorre aos momentos de outrora, na busca de uma constante retomada do vivido. Make America Great Again, jargão de campanha de Donald Trump, nada mais é do que esse desejo de retorno a um suposto passado glorioso. Julga-se necessário, aqui, primeiramente deter-se ao conceito de crise. Para isso, recorrer-se-á ao ensaio A crise na educação, da filósofa alemã Hannah Arendt (2016). Para a autora, toda crise é marcada pela queda de fachadas e pelo esfacelamento do senso comum. Nessa concepção, a crise não é intrinsecamente algo negativo, justamente por constituir-se em uma oportunidade de “explorar e investigar a essência da questão em tudo aquilo que foi posto a nu” (Arendt, 2016, p. 222), já que [a crise] dilacera fachadas e oblitera preconceitos [...]. O desaparecimento de preconceitos significa perdermos as respostas em que nos apoiávamos de ordinário sem querer perceber que originariamente elas constituíam respostas a questões. Uma crise nos obriga a voltar às questões mesmas e exige respostas novas ou velhas, mas de qualquer modo julgamentos diretos. Uma crise só se torna um desastre quando respondemos a ela com juízos pré-formados, isto é, com preconceitos. Uma atitude dessas não apenas aguça a crise como nos priva da experiência da realidade e da oportunidade por ela proporcionada à reflexão (Arendt, 2016, p. 222-223). Pode-se aproximar, aqui, essa concepção de Arendt ao arcabouço teórico-metodológico do Círculo de Bakhtin, que engloba os trabalhos escritos desenvolvidos pelo pensador russo Mikhail Bakhtin e por Valentin Volóchinov e Pavel Medvedev. O Círculo de Bakhtin fornece um filtro ético-estético para que se possa compreender o mundo, ancorado em uma perspectiva que rejeita o positivismo e, ao estudar a linguagem, privilegia o discurso, isto é, a língua em sua integridade viva, em seu caráter de eventicidade, em sua materialidade viva que se dá no enunciado. A filosofia ética[1] e moral bakhtiniana coloca o eu e o outro no centro de suas preocupações, passando pela noção de ato ético ou responsável, que, a partir da arquitetônica bakhtiniana, difere-se da ação mecânica, irrefletida, que não constitui ato. Este, por sua vez, é assinado e responsável, ou seja, exige autoria, exige que aquele que realiza o ato assuma responsabilidade por ele. Cada indivíduo ocupa um lugar específico e único no mundo, o que o convoca, dessa forma, a fornecer sua contribuição singular, aquilo que somente ele pode empreender. Portanto, é a posição única que o sujeito ocupa em dado contexto da vida concreta que estabelece o dever de pensar e a impossibilidade de não pensar, já que, do lugar que somente esse sujeito ocupa, o que ele vê, pensa e enuncia devem passar pela unidade de sua responsabilidade. Somente esse sujeito pode pensar da forma como pensa, o que implica a assunção de que inexiste álibi para que ele não pense e não assuma responsabilidade pelo que pensa. Resgatando as provocações de Arendt quanto ao conceito de crise, pode-se dizer que o sujeito deve enfrentar a crise a partir do lugar em que ocupa no mundo, respondendo singularmente aos problemas que surgem; deve inserir-se no grande diálogo que é estabelecido a partir da relação entre a história da humanidade (grande tempo) e a existência singular (pequeno tempo). Tendo esses princípios em mente, propõe-se refletir sobre o papel da educação em tempos de neoconservadorismo a partir dos fundamentos do Círculo de Bakhtin, compreendendo que a crise da democracia exige novas respostas diante de novos problemas. Metodologia Para empreender a reflexão proposta neste trabalho, adota-se metodologicamente a perspectiva do Círculo de Bakhtin. O papel de uma educação bakhtinianamente orientada, em tempos de ascensão do neoconservadorismo, será posto em análise a partir de uma perspectiva discursiva. Entretanto, não se pode encarar a teoria do Círculo de Bakhtin como um conjunto de preceitos fechados e organizados de forma sistemática, mas uma teoria com um embasamento constitutivo: o da indissolúvel relação que existe entre língua/linguagem/discurso e sujeitos historicamente situados, compreendendo os estudos da linguagem como lugares de produção de conhecimento (Brait, 2020). Para isso, almeja-se empreender percurso similar ao de Geraldi (2013), que se propôs a refletir sobre o que Bakhtin teria a dizer aos educadores da contemporaneidade. Para o autor, uma “educação bakhtinianamente inspirada [...] há de ser dialógica, sem submissão do outro à autoridade mesmo que científica. [...] [E] há de ser uma atividade essencialmente estética, realizada eticamente, operando com a cognição como instrumento” (Geraldi, 2013, p. 27). Nessa perspectiva, a análise empreendida deve reconhecer os discursos como enunciados concretos, ao compreender que a linguagem é constituída por uma pluralidade de discursos sociais e culturais, a partir de posicionamentos axiológicos, visto que o sujeito, ao enunciar, é concebido na e pela linguagem (Volóchinov, 2018). Portanto, a análise não pode ser erigida a partir de categorias apriorísticas que são aplicadas mecanicamente ao texto/discurso (Brait, 2020). Análise e discussão É importante que o neoconservadorismo seja encarado não apenas como um conjunto de ideias e bandeiras políticas, mas como um modo de ver o mundo, isto é, um posicionamento discursivo que recusa tudo aquilo que tem sido convencionalmente classificado como avanços da modernidade, optando por apegar-se a um passado glorioso que deve permanecer fechado, acabado e inquestionado (Eco, 2018). Há uma série de movimentos no Brasil que demonstram o avanço do neoconservadorismo, tanto no campo político – vide os grupos religiosos com atuação no Congresso – quanto no educacional – vide “os inúmeros projetos de leis municipais, estaduais e federais apresentados, assim como na abrangência da atuação do movimento ESP [Escola Sem Partido] em várias esferas de interferência” (Lima; Hypolito, 2019, p. 13). O neoconservadorismo atua de forma a escamotear a relação viva entre presente, passado e futuro, ao minar a capacidade de pensamento crítico, erigindo verdades absolutas que não devem ser objeto de reflexão. Por exemplo, as disputas em torno da construção dos currículos escolares revelam ideais neoconservadores de cristalização e descontextualização da história. Parece não haver um projeto concreto, apenas o resgate de velhos ideais em resposta aos avanços da modernidade. E, para isso, qualquer abertura ao pensamento crítico do aluno deve ser ceifada. Nessa perspectiva, o aluno é condicionado a realizar ações, mas não atos. Juntamente com Amorim (2009), entende-se a ação enquanto um comportamento qualquer, que pode ser mecânico ou impensado. Distintamente, o ato não pode deixar de ser responsável e assinado, já que “o sujeito que pensa um pensamento assume que assim pensa face ao outro, o que quer dizer que ele responde por isso” (Amorim, 2009, p. 22). Sem empreender atos no mundo, o sujeito não pode se comprometer com a construção do futuro, visto que não assumirá responsabilidade por nada. Assim, pode-se inferir que o neoconservadorismo não chega a almejar verdadeiramente um futuro, já que se constitui num presente absoluto, com o olhar sempre para um passado morto e cristalizado, na esperança do eterno retorno. Sem futuro, “somente se faz educação para o presente, para o mercado, para o consumo, para o emprego” (Geraldi, 2013, p. 27), e a educação estará fadada a sucumbir aos ditames da ascensão do neoconservadorismo, solapando qualquer tipo de convivência democrática. Contrariamente, pode-se compreender a educação como uma aposta no futuro (Geraldi, 2013). É tarefa de uma educação bakhtinianamente orientada, portanto, lidar com a preparação dos novos sujeitos que chegam ao mundo; empreender, junto aos alunos, uma jornada que não cesse a relação indestrutível entre presente, passado e futuro, o que envolve justamente o cuidado com um projeto, que na perspectiva do Círculo de Bakhtin, pode ser encarado como uma memória de futuro. A memória de futuro opera como um acabamento provisório, sempre em condições de vir a ser, projetando um futuro para que dele se extraia os critérios de seleção do acúmulo vivo de sentidos do passado; sentidos que devem funcionar como alavanca de construção desse futuro (Geraldi, 2013). Portanto, o ato pedagógico tem algo de estético, necessariamente: antevê [...] um acabamento provisório no futuro, dele tem uma memória e com essa memória calcula as ações possíveis no presente com o material que nos fornece o passado, mas selecionado para realizar o futuro: saberes, conhecimentos, crenças, utopias etc. (Geraldi, 2013, p. 20) De forma contrária ao neconservadorismo, uma educação ancorada nos princípios do Círculo de Bakhtin pode construir seu projeto de forma sempre aberta e inacabada, visto que, como um Jano bifronte, o ato do sujeito deve se orientar duplamente, para frente e para trás. Esse olhar para o passado, diferentemente do olhar do neoconservadorismo, não significa a recuperação de um passado morto. Assim, sem que se perca a vivacidade de seu caráter de acontecimento único e irrepetível, o novo será analisado em sua historicidade, isto é, será cotejado em relação ao grande tempo, de forma que o passado ganhe vida num futuro hipotético, assim como no passado e no presente, numa concepção de eternidade secular da comunicação humana (Reed, 2014). Ao ser convocado, o passado poderá fornecer pistas para se lidar com os problemas do presente, já que, na perspectiva do Círculo de Bakhtin, nada é fundamentalmente novo: tudo já foi dito, discutido e avaliado por outros. Em qualquer momento do desenvolvimento do diálogo, “existem massas imensas e ilimitadas de sentidos esquecidos, mas, em determinados momentos do sucessivo desenvolvimento do diálogo, tais sentidos serão relembrados e reviverão em forma renovada (em um novo contexto)” (Bakhtin, 2017, p. 79). Portanto, uma educação bakhtinianamente orientada não pode permanecer alheia à crise da democracia, nem pode se dar ao luxo de querer combater o neoconservadorismo valendo-se de táticas já utilizadas outrora sem qualquer tipo de reflexão. Considerações finais Com este trabalho, almejou-se mobilizar as provocações empreendidas pelos autores do Círculo de Bakhtin, perspectivando como suas ideias podem fazer com que se pense os dias atuais. Uma das características da educação é a de lidar com seres jovens que nascem em um mundo velho, já repleto de histórias. Esta é a memória de futuro de uma educação bakhtinianamente orientada: que se lide de peito aberto com o passado, para que se aprenda, coletivamente, com os erros e acertos. E que não se tolere a desumanidade corrosiva. Assim, poderá ser empreendido o enfrentamento da crise da democracia diante da ascensão do neoconservadorismo. Na interminável cadeia discursiva do grande tempo, o sujeito deve se situar entre o passado e o futuro: na renovação daquilo que já se foi e na iminência daquilo que se poderá empreender. Palavras-chave: Educação. Círculo de Bakhtin. Crise. Democracia. Neoconservadorismo. Referências AMORIM, M. Para uma filosofia do ato: “válido e inserido no contexto”. In: BRAIT, B. (org.). Bakhtin, dialogismo e polifonia. São Paulo: Contexto, 2009. p. 17-43. ARENDT, H. A crise na educação. In: ARENDT, H. Entre o passado e o futuro. 8. ed. São Paulo: Perspectiva, 2016. p. 221-247. BAKHTIN, M. M. Por uma metodologia das ciências humanas. In: BAKHTIN, M. M. Notas sobre literatura, cultura e ciências humanas. Tradução de Paulo Bezerra. São Paulo: Editora 34, 2017. p. 57-79. BRAIT, B. Análise e teoria do discurso. In: BRAIT, B. (org.). Bakhtin: outros conceitos-chave. 2. ed. São Paulo: Contexto, 2020. p. 9-31 BUBNOVA, T. O princípio ético como fundamento do dialogismo em Mikhail Bakhtin. Revista Conexão Letras, [S. l.], v. 8, n. 10, 2013. Disponível em:
https://seer.ufrgs.br/index.php/conexaoletras/article/view/55173. Acesso em: 25 fev. 2025. ECO, U. O fascismo eterno. Rio de Janeiro: Record, 2018. GERALDI, J. W. Bakhtin tudo ou nada diz aos educadores: os educadores podem dizer muito com Bakhtin. In: FREITAS, M. T. A. (org.). Educação, arte e vida em Bakhtin. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2013. p. 11-28. LEVITSKY, S.; ZIBLATT, D. Como as democracias morrem. Rio de Janeiro: Zahar, 2018. LIMA, I. G. de.; HYPOLITO, Á. M. A expansão do neoconservadorismo na educação brasileira. Educação e Pesquisa, São Paulo, v. 45, p. e190901, 2019. Disponível em:
https://doi.org/10.1590/S1678-463420194519091. Acesso em: 25 fev. 2025. REED, W. L. Romantic literature in light of Bakhtin. Nova Iorque: Bloomsbury, 2014. VOLÓCHINOV, V. Marxismo e filosofia da linguagem: problemas fundamentais do método sociológico na ciência da linguagem. Tradução de Sheila Grillo e Ekaterina Vólkova Américo. 2. ed. São Paulo: Editora 34, 2018. [1] O conceito de ética, em Bakhtin, não diz respeito à ética enquanto disciplina que se debruça sobre conjuntos de regras de ordem valorativa e moral, mas envolve, sobretudo, a relação entre eu e outro. Segundo Bubnova (2013, p. 11): “Atuar ‘eticamente’ é atuar ‘para outro’”.