NEOCONSERVADORISMO: CORPOS NORMATIZADOS E INVISIBILIZADOS NO COTIDIANO ESCOLAR

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Resumo Expandido - Trabalho
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Abstract
NEOCONSERVADORISMO: CORPOS NORMATIZADOS E INVISIBILIZADOS NO COTIDIANO ESCOLAR INTRODUÇÃO Tratamos do avanço do neoconservadorismo, por meio dos corpos normatizados e invisibilizados no cotidiano escolar, tendo como foco as adolescências e juventudes. O texto é fruto das pesquisas de nossos grupos de estudos que têm refletido sobre educação, interculturalidade, emancipação humana e sobre gênero, cultura e deslocamento na fronteira do extremo norte brasileiro. A escola, enquanto território ainda marcado por velhas colonialidades, enfrenta na atualidade novas colonialidades e as novas formas de controle dos corpos baseadas na psicopolítica da chamada sociedade do desempenho (Han, 2018; 2015). Temos como objetivo discutir o neoconservadorismo e os corpos normatizados e invisibilizados no cotidiano escolar, que impactam os/as estudantes de escolas públicas em Boa Vista-Roraima, a partir de dados educacionais e psicossociais referentes aos anos 2017, 2018, 2019 e 2024. Partindo da problemática: De que forma o neoconservadorismo tem se apresentado e que tipo de corpos são normatizados e invisibilizados no cotidiano escolar? O trabalho se fundamenta em Foucault (2008; 1987), Goellner (2019), Han (2018, 2015), Louro (1997, 2000, 2022), entre outros. METODOLOGIA É uma investigação que adota uma abordagem qualitativa e documental, incorporando dados quantitativos. A pesquisa analisa informações obtidas a partir dos atendimentos da Divisão de Desenvolvimento Psicossocial Escolar (DIPSE) da Secretaria de Estado e Desporto (SEED/RR), dos anos de 2017, 2018, 2019 e 2024, proporcionando dados relevantes sobre o tema em questão. ANÁLISE E DISCUSSÃO DE RESULTADOS O termo conservador, no sentido dicionarizado significa quem defende a manutenção do que é tradicional ou da ordem estabelecida. No Dicionário de política de Bobbio, Mateus e Pasquino (2000, p. 242), a terminologia designa “ideias e atitudes que visam à manutenção do sistema político existente e dos seus modos de funcionamento, apresentando-se como contraponto das forças inovadoras”. Sobre o neoconservadorismo Apple (2003; 2001), informa que ele surge nos anos de 1990, no campo da política, economia, com impactos na educação e se constitui em movimento ideológico e político, que compõem as agendas da chamada Nova Direita e que se baseia em grande parte, em uma romantização de um passado recente em que “‘o verdadeiro saber’ e a moralidade reinavam supremos, onde as pessoas ‘conheciam o seu lugar’, guiadas por uma ordem natural, protegiam-nos dos estragos da sociedade” (Apple, 2003, p. 57). Um passado baseado em hierarquias de saber-poder, controle do conhecimento e em um sistema de classificação dos corpos (Quijano, 2005). O crescimento destas ideologias conservadores vem limitando os avanços democráticos e privando e retirando direitos conquistados historicamente por meio de lutas, jovens, negros, indígenas, mulheres, pobres, entre outros (Arroyo, 2015), com amplas consequências nos ambientes escolares. Os neoconservadores, de acordo com Apple (2001), defendem o “retorno” do que definem como a retomada dos “padrões mais elevados” de conhecimento e de uma “cultura comum”. Esses tais “Padrões mais elevados”, afirma o pesquisador seriam aqueles conhecimentos baseados em antigas “tradições” escolares contidos nos “velhos” manuais, que exaltam a cultura hegemônica de alguns grupos sociais, os quais consideram seus conhecimentos mais “verdadeiros” que os demais. Neste trabalho nossas reflexões são a respeito do neoconservadorismo e as implicações sobre os corpos normatizados e invisibilizados no cotidiano escolar. Cardoso e Silva (2023, p. 160) dizem que “O corpo, na educação, passa por um processo de escolarização, disciplinamento, com uma pedagogia que se apresenta, em diferentes momentos, sutil, discreta e numa continuação duradoura que promove a negação de corporeidades outras.” Concordamos com Cardoso, Silva e Ferst (2024, p. 249), ao dizerem que os “[…] corpos negados são identificados primeiro quando estão sob poderes, pressões, julgo ou domínio de autoridade de qualquer pessoa.”, isso porque, na escola, exige um padrão a ser alcançado, como fábricas de corpos perfeitos, proporcionando reflexão e questionamentos de tais ações. Goellner (2019, p. 141), ao fazer referência ao corpo, o destaca como “[…] produto de uma construção cultural, social e histórica sobre o qual são conferidas diferentes marcas em diferentes tempos, espaços, conjunturas econômicas, grupos sociais, étnicos, etc.”. Louro (1997, 2000, 2022), tem dado destaque ao processo escolar no que trata a construção do “corpo educado” ou “escolarizado”, demonstrando o processo histórico da forma como se dá o disciplinamento no ambiente escolar. Assim como, os estudos de Foucault (1987; 2008), tem nos ajudado compreender a biopolítica do poder e os processos de “enquadramento” dos corpos na sociedade. Han (2017, 2018) ao tratar da sociedade do cansaço e da psicopolíticas e as novas técnicas de poder sustentadas pela ideologia da sociedade do desempenho, analisa a violência neuronal e o aumento do adoecimento da sociedade como um todo. O estado de Roraima, localizado na Fronteira da Amazônia Ocidental é marcado por ideologias coloniais, neocoloniais e geopolítica de fronteiras, com amplas implicações nos ambientes educacionais, conflitos e adoecimento, tanto de professores/as quanto de estudantes, configurando avanço do conservadorismo nas escolas. Os dados da Divisão de Desenvolvimento Psicossocial Escolar — (DIPSE), da Educação Básica do Ensino Fundamental ao Ensino Médio, da Secretaria Estadual de Educação do Estado de Roraima — SEED-RR, que atende docentes e discentes de escolas públicas, apontam para um aumento de doenças emocionais e psicológicas nas escolas, que por sua vez, são indicadores da violência sócio-política, somatizada no/pelo corpo. No quadro 1, os dados atendimentos foram no período de 2017 a 2019, relacionados a adolescentes e estudantes na faixa de 11 a 18 anos. A tabulação dos dados é organizada de forma geral, sem especificar o gênero pelo sexo. Nesse sentido, não foi possível fazer o levantamento dos casos por faixa etária e nem por gênero, porque não foi permitido aos/as pesquisadores/as o acesso aos dados. Entre as doenças psicossomáticas atendidas no DIPSE, vemos: físicas, emocional, familiares/sociais registradas pela escola e encaminhadas para atendimento psicológico. Em primeiro lugar, aparece o ato indisciplinar. O segundo, aparecem as faltas injustificadas. No terceiro aparece o ato infracional e, em quarto, problemas familiares que, em 2019, chegaram a 2427 casos. Embora não apareçam nas primeiras colocações outras situações identificadas como: violência escolar, ideação suicida e suicídio, especialmente a partir de 2019, estes são dados que demonstram haver o crescimento de doenças psicológicas nas escolas e que, estão relacionadas a violência sócio-política sobre adolescentes e juventude de forma invisibilizadas, não mostrando os dados por gênero. Nesse sentido, a DISPSE apresenta 23.018 registros nas escolas em 2022, conforme o gráfico a seguir: Gráfico 1 - Demandas (DIPSE) EM 2022 Fonte: Divisão de Desenvolvimento Psicossocial Escolar - DIPSE, (2022). É importante destacar que a equipe do DIPSE organiza os dados da seguinte maneira: utiliza termos gerais; por exemplo, se houver indícios de comportamentos autolesivos/cortes corporais, esses casos são categorizados como autolesão. Da mesma forma, casos de ansiedade e/ou depressão são agrupados como problemas emocionais. Assim, mantém-se a listagem, uma vez que no contexto escolar diversas situações são avaliadas e enviadas ao DIPSE. Portanto, o banco de dados não fornece detalhes específicos sobre os casos, mas apresenta percentuais das ocorrências registradas, como ilustrado no (Gráfico 1). Diante dos dados, percebe-se na escola a reação corporal dos/as alunos/as pelas imagens registradas na sala de aula. Isso foi notado na entrada da porta, paredes, janelas, quadro, mesas e carteiras, desenhos iconográficos e escritas dos/as estudantes, partindo da sexualidade, violência, grupos de facções, vícios e nomes aleatórios para redes sociais. Como mostra a seguir: Figura 1 - Sala de aula 13, 3ª série/ano, turma 301 / Sala de aula 06, 1ª série/ano, turma 104 Fonte: Sala de aula de uma Escola Estadual localizada em Zona Leste da cidade de Boa Vista–Roraima, 27 de maio de 2024. Autores/as: registro dos/as pesquisadores/as (2024). Quantas as manifestações dos/as estudantes anunciam inquietações e vivências do seu cotidiano, apresentam diversidade, questões de gênero e sexualidade, outros olhares e necessidade de acolhimento por parte das instituições escolares. Contexto que a documentação da SEED ainda busca por uma comunidade padronizada e normatizada, excluindo as especificidades relacionadas a identidades culturais (ser mulher, étnico-raciais, migrante, LGBTQIA+). Desse modo, o silenciamento destes sujeitos reforça o conservadorismo, sedimentam práticas preconceituosas, de violência de gênero, racismo, sexismo, homofobia, contribuindo com a lógica da invisibilidade e manutenção das desigualdades sociais (Nascimento, Miguel e Sombrio, 2021). Assim como o não reconhecimento de outros sujeitos que se encontram fora do perfil estabelecido institucional. Portanto, precisam se ajustar para pertencer na escola, ou seja, negar sua identidade, sua história, seus corpos para pertencer à comunidade escolar desejada pela proposta de educação do estado, tendo como um dos discursos presentes a disciplina militarizada e a meritocracia. PALAVRAS-CHAVE: Educação. Neoconservadorismo. Corpo. Identidade. Gênero. CONSIDERAÇÕES FINAIS No texto, discutimos o neoconservadorismo e os corpos normatizados e invisibilizados no cotidiano escolar, em Boa Vista-Roraima, a partir de dados educacionais e psicossociais referentes aos anos 2017, 2018, 2019 e 2024. Percebeu-se pelos dados o quanto esses corpos, tão visíveis na escola e que se tornam em muitos momentos invisibilizado, discriminado, sofrido e às vezes violentado, são expostos em comportamentos dos/as alunos/as diante suas manifestações corporais, pois o corpo fala, expressa, comunica e sinaliza. Contudo, pelas representações em desenhos na escola e os registros da sala de orientação encaminhados (DIPSE), permite refletir sobre as vivências em sala de aula e o ensino e aprendizagem de estudante hegemônicos o que supõe que nem sempre é considerado as especificidades culturais e sociais e as mútiplas experiências da/na Amazônia. Portanto, é urgente pensar outras perspectivas de acompanhamentos e repensar o ensino, os currículos a fim proporcionar outros olhares, debates e acompanhamentos da diversidade social e cultural da comunidade estudantil, dentre elas as leituras do corpo, identidades culturais e relações de gênero na escola podem configurar mudanças de perspectivas de educação, de inclusão, de reconhecimentos de sujeitos silenciados, renegados. Desafios e possibilidades que alguns/mas docentes já vêm enfrentando e fazendo a diferença nas escolas, portanto, contribuído com outras reflexões e práticas metodológicas no estado de Roraima, inclusive na escola em estudo. REFERÊNCIAS APPLE, Michael W. Educando a direita: Mercados, padrões, Deus e desigualdade. São Paulo: Cortez: Instituto Paulo Freire, 2003. APPLE, Michael W. Reestruturação educativa e Curricular e as Agendas Neoliberal e Neoconservadora: entrevista com Michael Apple. Currículo sem Fronteiras, v.1, n.1, pp 5-53, jan/junho 2001. 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Institutions
  • 1 PPGE- UERR/IFRR- Universidade Estadual de Roraima
Track
  • GT23 - Gênero, Sexualidade e Educação