TERTÚLIAS LITERÁRIAS DIALÓGICAS EM UM CURSO TÉCNICO DE MAGISTÉRIO: ALGUMAS REFLEXÕES

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Resumo Expandido - Trabalho
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Abstract
INTRODUÇÃO As Tertúlias Dialógicas Literárias (TDL) são encontros, rodas de conversa ou reuniões, que são chamadas de sessões, organizadas com a intenção de problematizar, isto é, provocar temas do cotidiano por meio da Literatura Clássica Universal de maneira participativa e colaborativa. A principal característica das TDL é o foco no diálogo entre as/os participantes. Ao contrário de uma palestra ou apresentação unidirecional, na qual um indivíduo domina a discussão, nas TDL todas/os as/os sujeitas/os presentes têm a possibilidade de contribuir, expressar suas opiniões, interpretar textos literários e trocar pontos de vista de maneira aberta e respeitosa. A pesquisa de Mestrado em Educação de onde emergiu o presente resumo tomou como objeto de estudo as Tertúlias Literárias Dialógicas em um curso Técnico de Magistério. Compreendemos, como Souza; Novais; Vasconcelos que “o ato de pesquisar, nessa práxis educativa, demanda do(a) pesquisador(a) disponibilidade para implicar-se no processo de construção de conhecimentos sobre si e a realidade, expondo-se e refletindo sobre o processo investigativo com o Outro e aprendendo-e-ensinando no decurso das ações conjuntas, assentadas na dignidade humana como valor. (Souza; Novais; Vasconcelos (2021), diante disso, entende-se que exige-se do pesquisador uma postura ativa e reflexiva, envolvendo-se pessoalmente no processo de construção de conhecimento sobre si e a realidade. METODOLOGIA A metodologia do trabalho foi a Pesquisa-ação, com o intuito de tecer uma rede entre a pesquisa e a prática de forma colaborativa e dinâmica, possibilitando uma interação contínua e reflexiva entre esses dois âmbitos, no que diz respeito ao ato de ler por meio das Tertúlias Literárias Dialógicas que têm como principal fundamento a reflexão crítica da vida. O conceito de Pesquisa-ação deriva da combinação dos vocábulos "pesquisa" e "ação", cujos pilares da são a cooperação e solidariedade entre pesquisadoras/es e participantes. Em vez de adotar uma postura externa e distanciada ou até elitizada, as/os pesquisadoras/es atuam como moderadoras/es, promovendo um diálogo constante com as/os envolvidas/os e valorizando suas experiências e conhecimentos. Para Vasconcelos e Oliveira (2010, p.12, tradução nossa): “A pesquisa-ação em que acreditamos tem como horizonte a construção de metodologias que permitam um diálogo constante entre teoria e prática, entre reflexão e ação, entre conhecimento acadêmico e conhecimento popular, buscando a superação dos problemas apontados pelas pessoas da comunidade, que representam os próprios sujeitos de sua formação”. RESULTADOS E DISCUSSÃO Para Brandão (2020, p. 25): “Ninguém escapa da educação. Em casa, na rua, na igreja ou na escola, a sós, com os outros, em silêncio diante de um livro, ou entre falas de alguém, de um modo ou de muitos todos nós envolvemos momentos de nossas vidas com a educação”. As TLD são guiadas de maneira organizada e a partir do que as/os envolvidos têm a contribuir, entretanto todas/os têm espaço para participar igualmente, conforme sua vontade. Os tópicos e proposições discorridos podem diversificar amplamente, desde a análise de obras clássicas até a discussão de tendências contemporâneas na literatura. “A Tertúlia Literária Dialógica é uma atividade cultural educativa desenvolvida em torno da leitura de livros da Literatura Clássica Universal. Destinada a pessoas sem formação universitária, foi criada há vinte e cinco anos, na escola de educação de pessoas adultas da Verneda de Sant-Martí, em Barcelona/Espanha, por educadores e educadoras progressistas, em conjunto com participantes da escola, homens e mulheres que estavam iniciando ou retomando sua escolaridade” (Flecha e Mello, 2013, p. 1). Freire (1989) utiliza o conceito de "leitura de mundo" para descrever esse processo de compreensão crítica e reflexiva do ambiente social, cultural e político em que vivemos. Nessa perspectiva, ler o mundo não é apenas uma habilidade técnica, mas uma atividade intelectual e emocional que envolve a interpretação dos sinais e símbolos presentes na realidade, assim como se interpreta um texto escrito. As TLD se estruturam nas seguintes fases: 1) diálogo igualitário; 2) inteligência cultural; 3) transformação; 4) aprendizagem instrumental; 5) criação de sentido; 6) solidariedade; 7) igualdade na diferença. Ressalta-se que a Educação Popular busca uma aprendizagem que seja crítica, consciente e transformadora, engajando as/os educandas/os na reflexão sobre sua realidade e em sua própria história. A Educação Popular não deve ser entendida como uma oposição radical à "educação bancária", como se fosse apenas uma abordagem em que o educador é dispensado de seu papel de autoridade e conhecimento (Vasconcelos e Oliveira, 2009). Na pesquisa-ação da qual tratamos aqui foi escolhida coletivamente a obra “A Hora da Estrela”, de Clarice Lispector, para as oito sessões de TDLs, que aconteceram em uma escola pública na região serrana de Santa Catarina com cinco mulheres estudantes do curso técnico de Magistério. A obra, que traz Macabéa como protagonista marginalizada, permite um olhar profundo sobre as questões de identidade e pertencimento, elementos que foram explorados ao longo dos encontros. Nas sessões de TLD, o grupo iniciou discutindo como seriam os próximos encontros e, por meio de diálogo, decidiu-se a leitura da obra já citada. A ordem de leitura foi definida colaborativamente, com cada participante lendo duas páginas, o que favoreceu uma abordagem dinâmica e fluida, estimulando discussões sobre a mulher na sociedade, o isolamento e a solidão da personagem Macabéa, além da desumanização das mulheres na família e sociedade. Freire (1987) argumenta que essa desumanização é uma distorção possível dentro da história, mas não é algo que deva ser considerado parte da vocação histórica do ser humano, mas seu verdadeiro potencial. Macabéa, com sua vida limitada e trabalho precário, representa a mulher em funções subalternas, precarizadas e mal remuneradas, sem perspectivas de crescimento. O debate se aprofundou, analisando o impacto da atitude de Olimpo namorado da protagonista, que a trata com desdém e a coloca em uma posição de humilhação e inferioridade. Essas impressões são ilustradas na fala de uma participante da pesquisa: “[...] ao que parece, os homens sempre estão à frente, começando pela língua portuguesa (Graça)”. Em outro momento, a mesma aluna questiona: “Mas será que ele não era apaixonado por ela e ela aprontou algo com ele que nem acontece em casos de a mulher apronta, aquela gorda, aquela magra, aquela seca, e daí acaba ofendendo? É que a gente não sabe o contexto”. Para Tiburi (2020, p. 78) as mulheres, ao longo da história, foram condicionadas a viver em função dos outros, principalmente dos homens e não puderam se tornar quem realmente eram ou alcançar seus próprios desejos e potencialidades porque foram socialmente educadas para serem submissas. Isso destaca a importância de repensar os modelos educacionais, sociais e culturais, para que as mulheres possam ser quem realmente são ou desejam ser, sem serem restringidas por normas antiquadas. Nessa mesma perspectiva, hooks (2019) afirma que o sexismo não é apenas uma atitude de indivíduos, mas está enraizado em estruturas sociais e institucionais, ou seja, faz parte do sistema de organização da sociedade. (hooks, 2019, p. 79), ao encontro disso, bell hooks critica a ideologia supremacista masculina, que ensina as mulheres a acreditarem que seu valor depende da validação masculina, limitando sua liberdade e autoestima. Ela destaca que essa visão mantém a estrutura de poder desigual, onde as mulheres são objetificadas e definidas pela perspectiva masculina. Além disso, hooks alerta que a opressão sexista é uma construção sistêmica, em que as mulheres, muitas vezes, internalizam essa inferioridade. Ela chama a atenção para a necessidade de desconstruir essas normas sociais e transformar as estruturas de poder, promovendo a conscientização das mulheres sobre seu valor e potencial, independentemente da validação externa. Nas TLD as participantes refletiram sobre as diferentes formas de aprendizado e a importância da formação acadêmica, abordando a função da educação na transformação social e na mudança de perspectiva. A questão central é se os sonhos de Macabéa eram genuínos ou uma farsa imposta pela realidade que a cerca, levantando a dúvida sobre sua capacidade de se tornar protagonista de sua história ou se estaria condenada a ser eternamente coadjuvante. A personagem Macabéa vive uma existência marcada pela apatia, resignação e falta de perspectivas, refletindo uma realidade naturalizada pela sociedade. Durante a leitura, um trecho em que Macabéa é chamada de "feia" e "coitada" evidencia o peso das palavras sob o olhar social sobre ela, reduzindo-a a uma avaliação superficial. Esse tratamento reflete a marginalização e invisibilidade que ela sofre, sendo definida e limitada pela percepção dos outros, o que reforça sua posição subalterna. Diante disso Vasconcelos e Sousa (2020) afirmam que a linguagem, que é a capacidade humana de se comunicar usando um sistema de signos (como palavras e símbolos), tem sido, ao longo da história, uma ferramenta usada para criar distinções e hierarquias entre diferentes grupos sociais. Esse trecho também provoca uma reflexão sobre quem importa na sociedade contemporânea e as expectativas sociais, que influenciam profundamente a forma como as pessoas são tratadas e como elas se veem. Ao final da leitura surgiu um comentário: “Mas ela morreu, ela descansou, porque a gente queria que ela tivesse uma história feliz no final, ela sofreu, sofreu e sofreu e acabou morrendo, mas na... realidade é a vida, a pessoa sofre, sofre” (Graça) Quando pensamos sobre o sofrimento da personagem principal e espelha uma realidade dolorosa, na qual as expectativas de um final feliz são confrontadas pela dura constatação de que a vida nem sempre oferece tais soluções. De certa forma, Graça revela o desejo que toda história tenha um final feliz, o que vai de encontro na história de Macabéa. Ela nunca foi tão olhada por tantas pessoas quanto no dia do seu atropelamento, parece que as pessoas só viram a Macabéa na hora da sua morte. (Graça) Ela é invisível, ela é ingênua, ela aceita tudo quieta. (Graça) Esses comentários reproduzem uma crítica sutil, mas dilacerante, no que diz respeito ao comportamento e a posição social de uma pessoa que vive à margem da sociedade, uma mulher esquecida, que as suas necessidades não foram escutadas. A palavra "invisível" sugere que a personagem em questão é ignorada, não valorizada, como se sua existência e suas ações passassem despercebidas pelos outros. A ideia de "aceitar tudo quieta" reforça a ideia de passividade, indicando que a personagem, talvez por falta de alternativas ou pelo lugar que é dado ao corpo feminino, não questiona ou não reage diante das adversidades que enfrenta. Assim como Woolf (2020, p.47) critica a visão histórica de que as mulheres eram apenas reflexos do poder masculino, sugerindo que, sem esse papel, a humanidade não teria alcançado o progresso que obteve. Tal reflexão questiona os papéis sociais impostos aos gêneros ao longo da história. A fala anterior revelou uma suposição de subordinação e impotência, onde a personagem se vê limitada pelas circunstâncias e pela insuficiência de possibilidades, podendo ser interpretada, também como uma crítica à opressão social, que silencia e subjuga corpos cujas vozes e desejos são constantemente ignorados. Nas sessões de Tertúlias Literárias Dialógicas, a leitura se transforma em uma possibilidade de reflexão sobre questões sociais e a construção das identidades. A Educação Popular contribuiu para compreender a leitura de “A Hora da Estrela”, de Clarice Lispector, como um processo interativo e metamórfico, principalmente por suas premissas de respeito, diálogo e construção conjunta de conhecimentos... Nas Tertúlias Literárias Dialógicas, esse processo se amplifica porque a leitura não é só uma decodificação, contudo um ambiente de discussão colaborativa, que desafia as estruturas de poder e cria possibilidade para a mudança e transformação. De tal maneira, ler se torna um ato de resistência e de reconfiguração das realidades sociais. Diante disso, partimos, a seguir, para nossas considerações finais. CONSIDERAÇÕES FINAIS A pesquisa realizada confirma a importância das Tertúlias Literárias Dialógicas evidenciando a relevância do ato de ler na formação crítica das educandas no contexto do curso técnico de Magistério. A partir dessa prática, ficou claro que o ato de ler vai além da simples decodificação das palavras, funcionando como um processo de desvelamento, que abre portas para a construção de um pensamento crítico e emancipatório. A análise demonstrou que as participantes se apropriaram do conteúdo da obra e utilizaram a leitura como um meio de questionar e refletir sobre questões sociais e existenciais. Esse processo se alinha às premissas da Educação Popular no sentido de promover a conscientização e a autonomia. Nesse sentido, as TLD, como estratégia pedagógica, criaram um ambiente de diálogo que possibilitou a reflexão sobre o mundo em que vivemos ao abordar temas como opressões, desigualdades e preconceitos. Ademais, se configuraram como um espaço privilegiado para questionar as estruturas sociais que impactam as comunidades periféricas, principalmente as mulheres. REFERÊNCIAS BRANDÃO, Carlos Rodrigues. O que é a educação? 1° ed. Goiânia: Editora Espaço Acadêmico, 2020. FLECHA, R. MELLO, R. R. de. Tertúlia Literária Dialógica: compartilhando histórias. Presente! Revista de Educação - Ano 13 - nº 48 - Salvador, mar/2005. FREIRE, P. A importância do ato de ler: Em três artigos que se completam em São Paulo: Autores Associados, 1989. ______. Pedagogia do oprimido. 17. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987. HOOKS, bell. Teoria Feminista Da Margem ao Centro. Tradução Rainer Patriota. São Paulo: Perspectiva, 2019. TIBURI, Marcia. Feminismo em comum. 14 ed. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 2020. VASCONCELOS, V., & OLIVEIRA Waldenez de, M. (2010). Trayectorias de investigación acción: concepciones, objetivos y planteamientos. Revista Iberoamericana de Educación, 53(5), 1–13. https://doi.org/10.35362/rie5351716. VASCONCELOS, V.; SOUSA, F.R. Unidade na diversidade: Entre utopias e concretudes em pesquisas desde a Educação Popular. Cadernos CIMEAC. V10 n. 1 (2020): Dossiê - O uno e o diverso nas tramas da educação popular. DOI: https://doi.org/10.18554/cimeac.v10i1.4168. ZANQUÊTA DE SOUZA, T., NOVAIS, G. S., & VASCONCELOS, V. O. de. (2023). A ética da alteridade-cuidado nos processos formativo-investigativos do/no campo da Educação Popular: diálogos interinstitucionais. Horizontes, 41(1), e023042. https://doi.org/10.24933/horizontes.v41i1.1660 WOOLF, Virginia: Um teto todo seu. São Paulo, SP: Tordesilhas, 2017.

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