EDUCAÇÃO FINANCEIRA E EMPREENDEDORISMO NA ESCOLA DE PERIFERIA: DISCUSSÕES ACERCA DE UMA ETNOGRAFIA REALIZADA EM CAMPINAS

- 215835
Resumo Expandido - Trabalho em Andamento
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Abstract
EDUCAÇÃO FINANCEIRA E EMPREENDEDORISMO NA ESCOLA DE PERIFERIA: DISCUSSÕES ACERCA DE UMA ETNOGRAFIA REALIZADA EM CAMPINAS Introdução A formação escolar das classes trabalhadoras vem sofrendo significativas mudanças nas últimas décadas, como resultado da crescente ofensiva do capital na formação dos jovens. Essas mudanças visam responder às novas exigências decorrentes da reestruturação do mundo do trabalho no contexto da acumulação flexível. No entanto, seus efeitos não se limitam às transformações na esfera produtiva stricto sensu — o que, por si só, já seria muito significativo. Esse regime também alcança os modos de consumo, de vida, de sociabilidade, de cultura, de lazer e de educação. Ao transbordar para o espaço da reprodução social, esse regime instaura novas formas culturais, expressas por meio de discursos, ideologias e mecanismos de sujeição. No contexto da crise estrutural do capital que emergiu nos anos 1970, uma crise de sobreacumulação, iniciou-se um movimento que solapou o compromisso fordista e o consenso keynesiano do pós-guerra. Harvey (2012, p.140) denominou esse processo como regime de acumulação flexível, que se apoiaria na “flexibilidade dos processos de trabalho, dos mercados de trabalho, dos produtos e padrões de consumo”. Esse processo não apenas documentaria mudanças substanciais na gestão da produção, mas também na financeirização da economia, decorrente do excesso de liquidez (HARVEY, 2011). Práticas de formação e de socialização foram implementadas nas escolas a fim de responder às demandas da acumulação flexível. A reforma do ensino médio se destacou na introdução de uma série de dispositivos que condizem com essas demandas: flexibilização curricular, aulas projeto de vida, de empreendedorismo, etc. O estado de São Paulo se caracterizou por uma forte intensificação desses dispositivos, inicialmente com a presença de Rossieli Soares como secretário de educação, antigo ministro de Michel Temer, e posteriormente com a gestão Tarcísio de Freitas (2023-2026). Nesse sentido, realizamos uma pesquisa documental e etnográfica com o objetivo de investigar as formas pelas quais os jovens de periferia experienciam na escola discursos, noções e práticas de socialização que procuram incarnar no sujeito a subjetividade demandada pela acumulação flexível. Trata-se de uma pesquisa de doutorado em andamento. Para este texto, focaremos em considerações acerca das aulas de educação financeira e de empreendedorismo. Ressalta-se que essa pesquisa foi aprovada pelo comitê de ética da universidade onde este doutorado vem sendo realizado. Metodologia, material e métodos Esta pesquisa utiliza métodos documentais e etnográficos para coleta de dados, permitindo uma análise relacional entre a política proposta, as práticas educacionais e de socialização na escola e a incorporação desses processos por parte dos jovens estudantes de periferia. A coleta de dados documental procura compreender a produção da política em âmbito nacional e seu Currículo, no sentido amplo do termo, na elaboração da política pelos poderes legislativo e executivo, na articulação com os atores mais influentes, quais sejam, as diferentes frações burguesas representadas pelas fundações e institutos empresariais e organismos multilaterais. A pesquisa etnográfica nos permite adentrar o espaço escolar e observar in loco as práticas de socialização e formação cujo “público-alvo”, para usar um termo recorrente dos produtores de políticas (policy-makers), são os jovens das regiões periféricas onde se encontram tais escolas. A pesquisa contou com dois anos de observação em campo (com um hiato de sete meses durante o período sanduiche do doutorado), assistindo aulas e atividades escolares, realizando conversas informais, entrevistas e grupos focais, com foco nos jovens estudantes. A pesquisa contemplou duas escolas de periferias distintas de Campinas/SP. Para este texto, será apresentado dados de uma delas. Trata-se de uma escola da rede estadual de São Paulo que participa do Programa de Tempo Integral – PEI de 7 horas. Resultados parciais O professor responsável pela disciplina de Educação Financeira (EF) é formado em química, enquanto o professor responsável pela disciplina de empreendedorismo, é formado em física. Ambos também lecionam em suas áreas nessa escola. Cada uma dessas duas disciplinas teve 14 aulas por bimestre, elaboradas em formato de slides e seguidas pelos professores. Os slides abordam temas de forma superficial e com forte carga ideológica, sobretudo em relação a questões que envolvem classes sociais e economia política. A perspectiva de gestão financeira pessoal e familiar abordada nas aulas de EF, incorporada de algumas formas pelos jovens, desconsidera o papel do Estado enquanto uma entidade coletiva capaz de prover diversas das necessidades do sujeito e da família, pois a satisfação de todas as suas necessidades é abordada a partir da organização individual de suas finanças. Segundo essa visão, uma vida boa e segura em relação ao futuro, com acesso a bens e serviços e até a felicidade, depende de uma competência individual, que se desenvolveria em um indivíduo "educado financeiramente". Essa perspectiva contraria um senso de coletividade capaz de alimentar formas de organização das lutas sociais anticapitalista de interesse da classe trabalhadora. As formas de conduta exigidas pelo neoliberalismo são progressivamente assimiladas pelos indivíduos nas diversas esferas, das relações de trabalho à sexualidade. Estas práticas constituem formas de governança e gestão social das subjetividades e, por isso, "não podem ser compreendidas sem sua capacidade de instaurar comportamentos e modos subjetivos de autorregulação. Elas não podem ser elucidadas sem a gestão de uma psicologia que lhes é inerente" (SAFATLE, 2021, p.33). A disciplina de empreendedorismo está no itinerário de Matemática e Ciências da Natureza. Embora os slides dessa disciplina apresentem o discurso do empreendedor como empresário de sucesso, as aulas foram claramente produzidas para jovens de menor renda. Há uma mistura de noções acerca de empreendedorismo presente nas aulas. Com muita hipocrisia, como quando apresentam falas de herdeiros, muitos discursos parecem considerar a formação de um empreendedor “vindo de baixo”, originado a partir da realidade em que de fato se encontram os jovens destinatários das aulas. Noções acerca de empreendedorismo aparecem de forma misturada nas aulas. Há uma perspectiva mais vinculada à um ethos, uma forma de conduta e de agir, como expressa no trabalho de Lopez-Ruiz (2007), mas também uma perspectiva vinculada ao “mito do empreendedor”, reforçando sempre uma genialidade de um indivíduo que protagoniza a criação de um negócio revolucionário, onde os contextos sociais e econômicos que permitiram o deslanche da inovação, bem como os trabalhadores envolvidos, ficam em segundo plano (GALLUZZO, 2023). Essa última noção vincula-se diretamente a um discurso muito presente nas aulas: o empreendedorismo como uma solução para os problemas sociais. Muitas atividades propostas para os alunos propunham a criação de um negócio capaz de resolver a “dor de alguém”. A disciplina de empreendedorismo reforça o aspecto da formação de conduta dos indivíduos na escola. Essa conduta é prescrita tanto pela forma de comportamentos específicos demandados aos jovens, quanto pela indução de um desejo, similar à como é feito na gestão empresarial, ao apresentarem os casos “mitológicos” de empreendedores de sucesso. Segundo Gaulejac (2007), na gestão empresarial impõe-se uma visão clara dos objetivos da empresa, solicitando um comprometimento dos agentes e propondo um ideal partilhado e alimentado por todos. No sentido psicanalítico, a empresa é “um objeto de investimento comum que cada um é convidado a interiorizar, a assumir em si, a introjetar” (GAULEJAC, 2007, p.85). Considerações parciais É importante salientar que esse processo na escola manifestou formas contraditórias de adesão. Não foi possível perceber uma incorporação total dos sujeitos. As posições conformadas dos jovens em relação ao empreendedorismo são carregadas de aspectos mais práticos. A crise de emprego e a baixa perspectiva em conquistar postos de trabalho de melhor remuneração e dignidade os compele a pensar em formas alternativas de manutenção material da vida. Isso não é um fenômeno novo, sobretudo no Brasil. Sua incorporação como um ethos que perpassa diversas formas de trabalho é certamente presente. Mas também vemos uma tradução em um aspecto mais prático e condizente com uma resistência ao processo de proletarização, ao interpretar determinadas noções de acordo com o seu desejo de não “trabalhar para [outras] pessoas”. As falas dos estudantes mostram que a experiência dos jovens com essas disciplinas é heterogênea e proteiforme. Nem os estudantes nem outros atores escolares apresentam rejeição à proposta de introduzir uma disciplina de educação financeira ou de empreendedorismo no currículo, suas críticas se limitam às formas de implementação. Ao criticar o modo como são produzidas pela SEDUC, e não seu conteúdo e significado, manifesta-se um tom de legitimação na escola. REFERÊNCIAS GAULEJAC, Vincent. Gestão como doença social. São Paulo: Idéias & Letras, 2007. GALLUZZO, Anthony. Le mythe de l'entrepreneur: Défaire l'imaginaire de la Silicon Valley. Paris: La Découverte, 2023. HARVEY, D. O enigma do capital e as crises do capitalismo. São Paulo, SP: Boitempo, 2011. HARVEY, D. Condição pós-moderna. São Paulo, SP: Loyola, 2012. SAFATLE, V. A economia é a constituição da psicologia por outros meios: sofrimento psíquico e o neoliberalismo como economia moral. In.: SAFATLE, V.; DUNKER, C. (orgs). Neoliberalismo como gestão do sofrimento psíquico. Belo Horizonte, Autêntica, 2021, p.77-122.

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  • 1 UNICAMP - Universidade Estadual de Campinas
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  • GT09 - Trabalho e Educação