NARRATIVAS DE EXPERIÊNCIAS VIVIDAS NO GRUPO DE ESTUDOS E PESQUISAS EM EDUCAÇÃO MATEMÁTICA (GEM)

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Painel Temático
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Abstract
NARRATIVAS DE EXPERIÊNCIAS VIVIDAS NO GRUPO DE ESTUDOS E PESQUISAS EM EDUCAÇÃO MATEMÁTICA (GEM) Keli Cristina Conti – Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Rayane de Jesus Santos Melo – Universidade Federal do Maranhão (UFMA) Everaldo Gomes Leandro – Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo (IFSP) Campus Campos do Jordão Maura Araujo Dias – Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo (IFSP) Campus Guarulhos Coordenação – Profa. Dra. Keli Cristina Conti – Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Resumo: O objetivo deste painel/narrativa é contar sobre experiências vividas por integrantes do Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Matemática (GEM) vinculado à Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), no que diz respeito às narrativas e suas dimensões formativas. Optamos por contar o que nós, pesquisadores/as narrativos/as, seguindo a perspectiva de Jean Clandinin e Michael Connelly, fazemos: como a pesquisa começou, como as propostas foram desenvolvidas, a entrada no campo e as negociações em relação a isso, o trabalho em relação ao relacionamento com os/as participantes, nosso progresso e nossas paixões. Nesse sentido, o Painel 1 apresenta a experiência vivida na Atividade Curricular de Ensino Pesquisa e Extensão (ACIEPE), intitulada “Processos de Ensino e Aprendizagem: Estatística na Educação Infantil e Anos Iniciais”, destacando as narrativas dos/as participantes sobre a Estatística. No Painel 2, objetivamos apresentar a narrativa de uma pesquisadora sobre o seu processo de constituir-se pesquisadora narrativa a partir de sua participação no Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Matemática da Universidade Federal de São Carlos (GEM – UFSCar). No Painel 3, almejamos refletir sobre as aprendizagens coletivas de uma formadora e um formador de professores/as ao investigarem e estruturarem uma metodologia para a construção de memoriais de formação por licenciandos/as em Matemática. Consideramos que a articulação dos painéis com foco em narrativas, possibilitou a ampliação da competência teórica e metodológica dos/as pesquisadores/as envolvidos/as, criando ou ressignificando compreensões, ações e reflexões que se inseriram no ensino, na pesquisa e na extensão. O espaço construído pelos membros do grupo propiciou momentos de trocas, inquietações e reflexões e contribuiu nos nossos processos de constituição enquanto pesquisadores/as narrativos/as e sobretudo nos formando como formadores/as. Palavras-chave: Educação Matemática; narrativas; formação de professores; painel temático. REFERÊNCIAS CLANDININ, D. Jean; CONNELLY, F. Michael. Pesquisa narrativa: experiência e história em pesquisa qualitativa. Tradução: Grupo de Pesquisa Narrativa e Educação de Professores ILEEI/UFU. Uberlândia: EDUFU, 2011. Painel 1: Narrativas de uma Atividade Curricular de Ensino Pesquisa e Extensão: ACIEPE – Processos de Ensino e Aprendizagem: Estatística na Educação Infantil e Anos Iniciais. Resumo: O objetivo desse painel é narrar a experiência vivida numa Atividade Curricular de Ensino Pesquisa e Extensão, que ocorreu entre 2020 e 2021, de forma remota. Nela pretendeu-se dar protagonismo aos/às professores/as que ensinam Matemática, com o destaque para o ensino e aprendizagem da Estatística na Educação Infantil e nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental. A pesquisa possui uma abordagem qualitativa e os dados foram construídos por meio das narrativas orais e/ou escritas de 20 participantes. Refletir a respeito da própria narrativa e compartilhá-la com outros/as professores/as tem se mostrado potencialmente favorável à formação e ao desenvolvimento profissional de professores. Seu desenvolvimento possibilitou a ampliação da competência teórica e metodológica dos/as envolvidos: das pesquisadoras, de pós-graduandos/as, de professores/as escolares e futuros/as professores/as que ensinam Matemática no Ensino Fundamental, criando ou ressignificando compreensões, ações e reflexões que se inseriram no ensino, na pesquisa e na extensão. Palavras-chave: Educação Matemática; Educação Estatística; Formação de professores; Narrativas de formação; Atividade de ensino, pesquisa e extensão. Introdução O painel apresenta a experiência vivida na Atividade Curricular de Ensino Pesquisa e Extensão (ACIEPE), intitulada “Processos de Ensino e Aprendizagem: Estatística na Educação Infantil e Anos Iniciais”, destacando as narrativas dos/as participantes sobre a Estatística. Pensando em nossas atuações como formadoras de professores/as e nas contribuições advindas de nossa experiência, elegemos a temática “O que é Estatística?" para ser o foco da discussão aqui empreendida, por meio das narrativas. Teoricamente, numa tentativa de definir o termo narrativa, e para refletirmos sobre a questão apresentada no título deste painel, ou seja, “as narrativas”, encontramos em Reis (2008): As narrativas (entendidas como sinónimo de histórias), tanto escritas como orais, têm sido utilizadas desde há milénios e em diversas culturas como instrumentos educativos, constituindo artefactos culturais com potencialidades na organização do pensamento e da realidade e na estruturação de aprendizagens (ROLDÃO, 1995). Geralmente, as histórias narram: a) o desenvolvimento de uma acção desencadeada por uma situação conflitual, real ou imaginária; b) as tensões e os conflitos vividos pelos protagonistas; e c) a forma como os conflitos foram superados (REIS, 2008, p. 19). Sobre a escrita de narrativas, Nacarato e Passeggi (2013) afirmam que “no ato de escrita de narrativa, o/a narrador/a precisa não apenas lembrar-se dos fatos passados, como também construir um cenário, uma trama na qual a história se passa, suas personagens e suas ações” (p. 292); mas, além disso, quem narra também precisa pensar no/a leitor/a, pois “todo texto pressupõe um leitor” (p. 292). Outro ponto destacado pelas autoras é a reflexão que ocorre no processo da escrita sobre a experiência que está sendo narrada, considerando-o como essencial, pois “esse é o momento em que são atribuídos sentidos e significados ao que se faz” (p. 292). Reafirmando, produzir narrativas a respeito de sua trajetória de formação faz com que professores/as revelem aprendizagens e também determinadas atuações didáticas que lhes são/foram marcantes quando educandos/as. Esse processo de reflexão pedagógica lhes permite compreender as consequências de sua atuação e criar novas estratégias de ensino, revelando-nos indícios de seu desenvolvimento profissional. Metodologia O compartilhamento das narrativas aconteceu no contexto de uma Aciepe, que de acordo com a Pró-Reitoria de Extensão da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), “as Atividades Curriculares de Integração Ensino, Pesquisa e Extensão (ACIEPEs) são atividades curriculares complementares inseridas nos currículos de graduação, com duração semestral de 60 horas, valendo 4 créditos acadêmicos”. Entendemos também que uma grande possibilidade para essas atividades é a da integração entre ensino, pesquisa e extensão. A ACIEPE “Processos de Ensino e Aprendizagem: Estatística na Educação Infantil e Anos Iniciais (923112.018496/2020-68)” foi coordenada pela Profa. Dra. Cármen L. B. Passos (professora Sênior do Departamento de Teorias e Práticas Pedagógicas - DTPP) e pela Profa. Dra. Keli Cristina Conti (professora da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais e pós-doutoranda no DTPP, no período de 2020-2021) e foi desenvolvida no período de 09/11/2020 a 16/01/2021. Teve como público-alvo Licenciandos/as dos cursos de Pedagogia, Matemática, Educação Especial e outros/as interessados, Professores/as da Educação Infantil, dos Anos Iniciais do Ensino Fundamental e professores/as de Matemática da rede pública e particular. Ao discutir sobre processos de ensino e aprendizagem de Estatística com os/as participantes dessa ACIEPE, buscou-se contribuir para ampliar o repertório de conhecimentos sobre a Matemática nos anos iniciais visando que os/as participantes pudessem relatar suas práticas, elaborar atividades, analisar e refletir sobre a implementação delas em sala de aula e avaliar, teórica e metodologicamente, seu alcance no processo de aprendizagem dos/as estudantes. Nesse sentido, a abordagem qualitativa da pesquisa (BOGDAN; BIKLEN, 1994) está ancorada teórica e metodologicamente nos estudos das narrativas, considerando o trabalho docente do/a professor/a compartilhado com o de licenciandos/as e o de pós-graduandos/as. Em especial, devido à realização dos encontros de forma remota, interessados de diferentes localidades do país puderam se inscrever e participar, fato antes impossível em tempos de encontros presenciais, quando se atingia interessados que residiam e/ou atuavam próximo à universidade. Concluíram as atividades 20 participantes, sendo 4 estudantes da UFSCar e 16 participantes externos (professores/as da educação básica e/ou estudantes do ensino superior de outros cursos da universidade e de outras universidades brasileiras, pós-graduandas da UFSCar e de outros programas de universidades públicas e privadas). As narrativas Alguns participantes narraram que a motivação para se inscrever foi o fato de conhecerem e/ou já terem participado de alguma ACIEPE, revelando que ações nesse sentido são importantes junto à comunidade que reside no entorno da universidade. Então, eu também sou professora da rede estadual, sou mineira e agora moro em São Carlos e eu vim pra cidade em 2013 eu sou bem fã das ACIEPE... e fiquei bem feliz, viu professora Carmen quando, é né, fiquei sabendo que você tava disponibilizando né junto aí com a professora Keli. E assim, como as professoras relataram aí os meninos também né, os professores no caso, que quando a gente melhora né o nosso conhecimento, a gente melhora enquanto professor né? (Narrativa oral de M. C. em 11/11/2020). Os/as participantes narraram, também, que um dos fatores que os motivou a se inscreverem para participar da ACIEPE foi a temática, como nos foi revelado em trechos de suas narrativas: Me interessei bastante pela proposta de compreender esse contexto histórico da Estatística; como ela se insere, hoje em dia, nos currículos escolares; além de conhecer, através dos estudos e discussões, propostas para trabalhar essas noções iniciais em sala de aula de forma que destaque e dê protagonismo aos alunos. (Trecho do Primeiro Convite à Narrativa de J. F.). Consideramos que a ACIEPE proporcionou aos/às participantes oportunidade de ampliar o conhecimento sobre Estatística a partir da organização dos encontros que envolveram discussões a respeito de teoria e prática. Durante os encontros online, via plataforma "Google Meet", ocorreram debates e estudos que levaram a discussões sobre a importância de graduandos/as, professores/as e pesquisadores/as participarem de um grupo como o que foi organizado para discutir a Estatística no início da escolarização, e, assim, consideramos que os seguintes objetivos foram alcançados: 1) ampliação do conhecimento do contexto histórico sobre ensino de Estatística, resgatando também a memória dos/as participantes; 2) reflexão a respeito das questões curriculares envolvendo a Estatística, as quais podem ser trabalhadas na Educação Infantil e nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental (1º ao 5º ano); 3) apropriação de propostas para a sala de aula que permitem trabalhar noções iniciais de Estatística por meio de atividades que proponham o protagonismo do/a estudante, buscando dialogar com saberes estatísticos e pedagógicos para seu ensino. Ao longo do período da ACIEPE foram produzidas várias narrativas orais e escritas, mas, para este artigo, selecionamos, como já anunciado, a narrativa escrita que teve como “disparador” o convite para narrar “O que é Estatística”, que passa a ser analisada a seguir. Essa foi a nossa “provocação” ou uma expressão disparadora de narrativas em nosso primeiro encontro: O que é Estatística? O objetivo não era responder à questão, mas nos provocar a refletir sobre o que sabíamos sobre o tema e as motivações para a participação num encontro que tinha por objetivo discutir a temática, ou, como nos diz Larrosa (2018), “algumas coisas para ler e algumas instruções para escrever com a esperança de encorajar (na leitura e na escrita) aquela coisa inexprimível que chamamos de pensamento” (p. 19). A maior parte dos/as professores/as narraram que nunca perguntaram a seus/suas alunos/as o que era Estatística. Chamou nossa atenção como esse questionamento e a produção da narrativa inicial impactou as reflexões uma das professoras a ponto de ela sentir-se provocada a iniciar o próximo ano letivo propondo que seus alunos e alunas escrevessem o que sabem sobre um determinado tema. Também pudemos notar que, ao narrar sobre essa questão, os/as participantes trazem questões a respeito do ensino em si, como por exemplo: No meu tempo de estudante o professor não fazia perguntas para o aluno, ele era o centralizador das informações e, não podia haver questionamentos por parte dos alunos sobre tal atividade. (Trecho do Primeiro Convite à Narrativa de L. P.). E as recordações desses/as participantes sobre o ensino (ou não) da temática revelam fatos marcantes que vivenciaram durante a escolarização: Não me lembro de qualquer outra justificativa no ensino de Estatística na educação básica que não seja “passar no vestibular” – e muito menos se algum professor me perguntou ou definiu o termo “Estatística”. Nesta temática, recordo que havia uma predominância sobre a interpretação de gráficos e tabelas, além de conceitos como média, moda e mediana. (Trecho do Primeiro Convite à Narrativa de M. R.). As narrativas parecem ter provocado mudanças na prática docente dessa e de outras professoras a tal ponto que ela levou o mesmo questionamento ocorrido para sua turma. A experiência vivida pela professora durante a ACIEPE fez com que ela revisse sua prática pedagógica, indicando disponibilidade para mudança. Algumas considerações E para finalizar este painel, escolhemos um trecho de uma narrativa para ser disponibilizada, lida, refletida, conversada, na íntegra, com pequenas adaptações para preservar a identidade do participante. Olá! Me chamo M., tenho 27 anos e moro em Serra/ES. Tenho licenciatura em Matemática por uma Universidade Federal.[...] Em relação a temática Estatística, lembro que este termo entrou em cena quando o ENEM se tornou a principal porta de entrada nas Universidades. Sou desta geração em que fez o ENEM para tentar vagas fora do meu estado de origem, tendo sido fator de entrada para cursar e concluir a licenciatura em Matemática. Não me lembro de qualquer outra justificativa no ensino de Estatística na educação básica que não seja “passar no vestibular” – e muito menos se algum professor me perguntou ou definiu o termo “Estatística”. Nesta temática, recordo que havia uma predominância sobre a interpretação de gráficos e tabelas, além de conceitos como média, moda e mediana. Durante a graduação, percebi uma cultura de ensino que não se distanciava da educação básica. Ao invés de “passar no vestibular” me deparei com um currículo que claramente tinha a finalidade de “fazer pesquisa Minha motivação em participar desta ACIEPE é justamente preencher algumas lacunas que ficaram vazias durante a minha formação, no que diz respeito a Estatística e Anos Iniciais. Além disso, almejo dar continuidade nos estudos por meio de uma pós-graduação, e este tema certamente me traz grande interesse por entender que posso contribuir não somente com a minha formação, mas com os demais. Sou grato pelo convite e participação nesta ACIEPE uma vez que eu não conhecia esta atividade de extensão da UFSCAR. Considero também uma oportunidade de ter uma formação em outras localidades do país e escutar vivências com outras formações. Primeiro convite à escrita de M. R. Observa-se que a narrativa desse professor é carregada de emoção. Ele transmite sua história sem se posicionar como uma autoridade no assunto e a virada que foi para ele, buscar em sua formação e atuação, modos de superar os obstáculos encontrados com a Matemática no início da escolarização. Do inconformismo de não ter aprendido matemática de modo significativo, ele se revela um professor que ampliou seu repertório aproveitando as oportunidades que surgiram. Sua narrativa, construída com uma multiplicidade de olhares, transmite ao leitor os diferentes olhares que ele tem de sua formação, comparando-a com as narrativas dos/as demais participantes da Aciepe e nos apresenta como se deu o movimento de sua experiência exitosa com a Estatística, revela-nos saberes construídos a partir do protagonismo que assumiu ao se identificar com uma temática que lhe tocou. Ele narra sua experiência como se estivesse em uma conversa, dando sentido ao vivido e encerra com um final poético, convidando o leitor a continuar a prosa. Além disso, consideramos que o desenvolvimento desta pesquisa possibilitou a ampliação da competência teórica e metodológica dos/as envolvidos/as: das pesquisadoras, de pós-graduandos/as, de professores/as escolares e futuros/as professores/as que ensinam Matemática no Ensino Fundamental, criando ou ressignificando compreensões, ações e reflexões que se inseriram no ensino, na pesquisa e na extensão. Além disso, destacamos o papel da narrativa como mediadora na formação e no desenvolvimento profissional do professor, possibilitando a reflexão para as práticas futuras e ajudando a minimizar as angústias, principalmente no início da docência. Destaca-se, também, o papel auto-formador dessa atividade, já que ela propiciou a construção de conhecimentos pelos/as professores/as e possibilitou o compartilhamento com outros/as professores/as. Referências BOGDAN, Robert C.; BIKLEN, Sari K. Investigação qualitativa em educação: uma introdução à teoria e aos métodos. Porto: Porto Editora, 1994. FERREIRA, Ana Cristina. Metacognição e desenvolvimento profissional de professores de Matemática: Uma experiência de trabalho colaborativo (Tese Doutorado em Educação: Educação Matemática, FE/Uni­camp, Campinas, SP), 2003. LARROSA, Jorge. Esperando não se sabe o quê: sobre o ofício de professor, ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2018. NACARATO, Adair; PASSEGGI, Maria da Conceição. Narrativas autobiográficas produzidas por futuras professoras: representações sobre a matemática escolar. Rev. educ. PUC-Camp., Campinas, 18(3), p. 287-299, set./dez., 2013. REIS, Pedro. As narrativas na formação de professores e na investigação em educação. Nuances: estudos sobre Educação, 15(16), 17-34, 2008. Disponível em: < file:///E:/Documentos/UFSCar/174-671-1-PB.pdf> . Acesso em: 14 abr. 2021. Painel 2: O PROCESSO DE CONSTITUIR-ME PESQUISADORA NARRATIVA: experiências vividas a partir do Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Matemática (GEM) Resumo: Este painel objetiva apresentar a narrativa de uma pesquisadora sobre o seu processo de constituir-se pesquisadora narrativa a partir de sua participação no Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Matemática da Universidade Federal de São Carlos (GEM – UFSCar). Para isso, é apresentado seu memorial de formação, com marco temporal inicial definido: sua entrada no doutorado. A pesquisadora narra sua aproximação com a pesquisa narrativa, as experiências vividas durante o desenvolvimento da sua tese de doutorado, projetos desenvolvidos e suas perspectivas futuras. Após rememorar as experiências vividas, a pesquisadora conclui que pretende continuar a escrever narrativamente, refletir sobre o vivido e continuar transformando sua forma de ser e estar no mundo a partir da escuta e leitura atenta e voltar a participar das atividades do GEM, uma vez que o grupo foi fundamental para o seu crescimento como pessoa, docente e pesquisadora, bem como para o desenvolvimento do seu trabalho de doutoramento. E, ainda acrescenta que, com o grupo, pôde compreender que a formação é um processo relacional, ou seja, que o outro é necessário para dar sentido à nossa prática e a nossa constituição, neste caso, enquanto pesquisadora narrativa. Palavras-chave: Pesquisa narrativa; Processo formativo; Educação Matemática; Memorial de formação. Introdução Entendo, a partir de Larrosa (1998), que o sentido do que e de quem somos são construídos a partir das histórias que contamos e que nos contam e que ao darmos a conhecer nossas experiências e refletirmos sobre elas, aprendemos sobre nós mesmos, ressignificamos nossas experiências e damos sentidos a nossa vida. Passeggi (2021, p. 1) corrobora quando afirma que “a reflexividade narrativa propicia à pessoa que narra a possibilidade de dar sentido ao que antes não tinha e, ao ordenar narrativamente os acontecimentos, ela (re)constrói outra versão de si e de sua formação”. A partir dessa compreensão, a intenção desta escrita é apresentar algo de mim, de minha história, como integrante do Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Matemática (GEM). Ou seja, pretendo narrar reflexões sobre meu processo de constituir-me pesquisadora narrativa: minhas aproximações, experiências vividas e perspectivas futuras. Essa escrita é carregada de sentimentos, uma vez que é a primeira vez que retorno a um passado, não muito distante, para escrever uma narrativa que revela um encontro sem volta com a pesquisa narrativa. Para Passeggi (2016, p. 82), quando sujeitos narram sua experiência, eles/as “dotam-se da possibilidade de se desdobrar como espectador e como personagem do espetáculo narrado; como objeto de reflexão e como ser reflexivo”. Desse modo, organizei esta escrita em cinco seções: a primeira consiste nesta introdução; na segunda apresento a metodologia definida; na terceira descrevo o meu encontro com a pesquisa narrativa e os passos para o desenvolvimento da minha tese; na quarta seção apresento experiências atuais e meu continuum processo de constituir-me pesquisadora narrativa e; por fim, teço reflexões sobre o processo vivido. Metodologia Para a escrita deste relato, optei por apresentar o meu memorial de formação, que segundo Prado e Soligo (2007, p. 58-59), é “um gênero textual predominantemente narrativo que trata do processo de formação num determinado período” e nele é encadeado “acontecimentos relacionados à experiência de formação, à prática profissional e também à vida – nesse caso, nos aspectos que, de alguma forma, explicam, justificam ou ilustram o que está sendo contado”. O texto está escrito em primeira pessoa do singular, porém, em minha voz existem vozes de muitos/as outros/as que me constituem e que são evocados/as à medida que participaram de um momento importante do percurso da minha vida. Aqui destaco a importância do GEM no meu processo de constituir-me pesquisadora narrativa, em especial: a Profa. Dra. Cármen Lúcia Brancaglion Passos; a Profa. Dra. Keli Cristina Conti; e o Prof. Dr. Everaldo Gomes Leandro. Ressalto que não conseguirei narrar tudo que vivi e que me aconteceu desde a entrada no GEM e isso pressupõe que o memorial é um espaço de escolha, no qual eu seleciono aquilo que quero revelar ou não. A minha narração obedece a critérios do presente, portanto, “é com este espírito enraizado no agora que repenso o que vivi” (Freire, 2003, p. 21) e apresento-lhe o meu encontro com a pesquisa narrativa e o processo de constituir-me pesquisadora narrativa. Meu encontro com a pesquisa narrativa Em março de 2020, em meio a pandemia da COVID-19, iniciei o doutorado em Educação na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) sob a orientação da Profa. Dra. Cármen Lúcia Brancaglion Passos. Para mim, parecia estar definido que a escrita da minha tese se configuraria nos moldes do que tem sido recomendado pela Academia – capítulos teóricos, capítulo de metodologia, capítulo de análise dos dados, padrão da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) para formatação, citação, etc. Nos primeiros encontros remotos do Grupo de Estudos e Pesquisa em Educação Matemática (GEM), em 2020, coordenado pela Profa. Cármen, fizemos a leitura e discussão do livro “Pesquisa Narrativa: experiências e história na pesquisa qualitativa” de D. Jean Clandinin e F. Michael Connelly. A cada leitura e discussão no grupo fui me encantando, refletindo e tomando decisões. Eu sempre tive interesse em desenvolver nos meus trabalhos acadêmicos uma escrita que exigisse de mim coragem para enfrentar o formalismo da academia e competência para dizer aquilo que eu acredito, da forma como eu acredito, ao mesmo tempo que revela o domínio dos conhecimentos que possuo e que a Academia valoriza. Foi a partir dessa primeira experiência vivenciada no GEM que eu iniciei meu processo de constituir-me pesquisadora narrativa. No GEM, além de vários outros teóricos, me foi apresentado o filósofo Walter Benjamin a partir de dois de seus escritos: Experiência e Pobreza e O Narrador. No segundo artigo, Benjamin (2012, p. 221) acrescenta que “a narrativa [...], é ela própria, num certo sentido, uma forma artesanal de comunicação. Ela não está interessada em transmitir o “puro em si” da coisa narrada, como uma informação ou um relatório. Ela mergulha a coisa na vida do narrador para em seguida retirá-la dele. Assim, imprime-se na narrativa a marca do narrador, como a mão do oleiro na argila do vaso.”. Posto isto, percebi que com a pesquisa narrativa eu poderia compreender saberes docentes (matemáticos) utilizados e ensinados por um mestre carpinteiro naval no Curso de Construção de Embarcações Artesanais Maranhenses no âmbito do Estaleiro Escola, mergulhando nas experiências narradas por ele e pelo professor Luiz Phelipe Andrès (in memoriam), procurando dar-lhes o brilho e a importância que merecem, enunciando vozes que passaram tantos anos silenciadas e retirando de mim, enquanto narradora, as experiências que as histórias narradas provocaram e transformaram. Meu primeiro passo foi escrever uma nova versão do meu projeto de pesquisa, agora definindo como procedimento teórico-metodológico a pesquisa narrativa, seguindo a perspectiva de Clandinin e Connelly (2011). Nessa experiência, percebi que comecei a dar meus primeiros passos para sair da fronteira entre o pensamento nos moldes da pesquisa narrativa e o pensamento nos moldes da narrativa dominante. Iniciei a apresentação do meu projeto de pesquisa a partir da minha história de vida. Para a coleta dos dados da pesquisa, me inseri por um bom tempo no Estaleiro Escola para viver experiências, participei como aluna do Curso de Construção de Embarcações Artesanais, estabeleci uma relação de confiança com o Mestre Otávio, realizei entrevista narrativa e busquei as produções acadêmicas e entrevistas concedidas por Luiz Phelipe que se encontram disponíveis na internet, após o seu falecimento, ou seja, eu busquei me “[...] familiarizar ao máximo com as tantas e multifacetadas narrativas presentes no campo de pesquisa” (Clandinin; Connelly, 2011, p. 107). Em minha tese (Melo, 2023), a pesquisa narrativa possibilitou que eu desenvolvesse a escrita a partir de uma metáfora de uma viagem embarcada e ela foi, sem dúvida, o melhor pressuposto teórico-metodológico para o desenvolvimento do meu trabalho de doutorado. Inserida nas atividades do GEM, participei da Atividade Curricular de Integração Ensino, Pesquisa e Extensão (Aciepe), intitulada “Processos de Ensino e Aprendizagem: Estatística na Educação Infantil e Anos Iniciais”, vinculada à Pró-Reitoria de Extensão da UFSCar e organizada pelas Professoras Dra. Keli Cristina Conti e Dra. Carmen Lúcia Brancaglion Passos. Durante a Aciepe, foi feito aos/às participantes um convite à escrita de uma narrativa, com o intuito de possibilitar-lhes narrar e refletir sobre as marcas da matemática escolar na formação e na prática docente. Na realização desta atividade, procuramos utilizar as narrativas dos/as participantes com um caráter pedagógico e formativo, pois acreditávamos que, ao ler o relato dos/as professores/as narradores/as, o/a leitor/a (sujeito receptivo) poderia refletir sobre as experiências dos/as outros/as e as suas próprias, vividas durante o período de escolarização, relembrar fatos que, sem perceber, influenciam sua prática, e atribuir sentidos a cada experiência, buscando apropriar-se daquelas que precisam ser valorizadas ou desconstruir e ressignificar as que trazem elementos que não se agregam a sua formação. Por meio desta pesquisa, compreendi a importância da narrativa para o movimento de olhar para si, rememorar as experiências, produzir histórias e também refletir sobre os processos de formação e constituição. E, conforme Oliveira (2011, p. 291-292), passei a defender que a narrativa pode “[...] exercer um forte papel de mediador na formação e no desenvolvimento profissional do professor, [...], ajudando a minimizar a angústia que se estabelece nos profissionais do ensino, sobretudo, nos primeiros anos da docência”. Em um continuum processo de constituir-me pesquisadora narrativa Concluí o doutorado em fevereiro de 2023 e em outubro do mesmo ano tomei posse como Professora Adjunta da Universidade Federal do Maranhão (UFMA). Nesse período, me ausentei das atividades do GEM, devido às novas atividades que estava desempenhando e ao choque de horário dos encontros do grupo com minhas aulas na universidade. No entanto, não deixei, em nem um momento, de receber os e-mails e ver as sugestões de leituras que o grupo tem proposto. E, ainda, continuo realizando leituras para compreender ainda mais sobre a pesquisa narrativa e tenho sugerido leituras e discussões de textos no Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação em Ciências e Matemática (GEPECIM), na qual eu lidero, sobre esse procedimento teórico-metodológico. Para participar do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (Pibic), submeti um projeto de pesquisa na UFMA, intitulado “Saberes das ciências e da matemática de diferentes grupos socioculturais da microrregião de Chapadinha – MA e sua presença/inserção nos currículos escolares”. Não defini como procedimento teórico-metodológico a pesquisa narrativa devido ao período de apenas um ano que alunos/as da graduação teriam para se aprofundar teoricamente e vivenciar experiências para constituição dos textos de campo. No entanto, busquei considerar, pelo menos, o viés da pesquisa narrativa, uma vez que, hoje, eu não consigo conceber uma pesquisa, sem pensar nas experiências vividas e sem descrever narrativamente, a partir do espaço tridimensional, os fatos e acontecimentos. O primeiro plano de trabalho do projeto de pesquisa supracitado está intitulado “Saberes da ciência e da matemática de Quebradeiras de coco do município de Chapadinha – MA”. Eu e meu orientando temos buscado viver experiências com uma quebradeira de coco da comunidade Canto do Ferreira (MA) para identificar seus saberes da ciência e da matemática e realizamos com a mesma uma entrevista narrativa, para conhecer suas experiências e história de vida. Outra pesquisa que oriento, porém a nível de mestrado, está intitulada “Desenvolvimento profissional de um educador matemático e sua relação com o laboratório de ensino de matemática”. Assim como na pesquisa citada anteriormente, definimos o procedimento metodológico como pesquisa de campo, com viés da pesquisa narrativa, considerando o tempo para o desenvolvimento da pesquisa. E, diante dessas novas pesquisas e vivências, continuo o meu processo de constituir-me pesquisadora narrativa, buscando compreender experiências vividas e narradas. Reflexões sobre o processo vivido Conforme relatei na escrita deste texto, desde 2020, ao entrar no Doutorado e começar a participar das atividades do GEM, meu encantamento pela pesquisa narrativa e o processo de constituir-me pesquisadora narrativa começou. Hoje, enquanto pe...

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