a) Título do trabalho: EDUCAÇÃO EM VALORES E O BOM TRABALHO: A EMPATIA COMO CONSTRUÇÃO ÉTICA NOS PROJETOS DE VIDA b) Introdução Esta pesquisa integra um estudo mais amplo sobre a educação moral e a construção de projetos de vida entre jovens de diferentes contextos socioeconômicos. A investigação parte do referencial teórico do Good Work ou “Bom Trabalho” (Gardner, Csikszentmihalyi & Damon, 2001), que propõe a articulação entre excelência, ética e engajamento como dimensões fundamentais de práticas profissionais que não apenas atendam a critérios de qualidade técnica, mas também sejam socialmente responsáveis e orientadas para o bem comum. A partir desse referencial, buscamos compreender como a empatia pode ser fomentada por meio de práticas educacionais que estimulem a reflexão crítica. Em tempos marcados por polarizações políticas, desigualdades crescentes e dificuldades de diálogo intergeracional, o desenvolvimento da empatia emerge como uma competência essencial para a construção de sociedades mais justas e democráticas. Diferentes organismos internacionais, como a Unesco e a OCDE, têm destacado a importância das competências socioemocionais — com ênfase na empatia, na cooperação e na escuta ativa — para o enfrentamento dos desafios do século XXI. No campo educacional, isso se traduz na necessidade de integrar práticas que articulem valores éticos e reflexão crítica ao cotidiano escolar. Nesse cenário, articular a empatia nas práticas pedagógicas torna-se necessário para ampliar os horizontes éticos e fortalecer a coesão social. A construção de um projeto de vida significativo envolve a articulação entre aspirações, desejos, interesses pessoais e contribuição social. William Damon (2008) define projeto de vida como uma intenção estável e generalizada de alcançar algo que seja, ao mesmo tempo, significativo para o eu e que gere consequências para o mundo além do eu. Nesse sentido, a incorporação de princípios como excelência, ética e engajamento — elementos que constituem o conceito de “Bom Trabalho”, conforme formulado por Gardner, Csikszentmihalyi e Damon (2001) — contribui para a formulação de projetos de vida éticos. Os autores defendem que o trabalho adquire sentido pleno quando alia competência técnica à responsabilidade social e ao envolvimento pessoal. No entanto, essa elaboração está condicionada ao campo de possibilidades percebido pelos sujeitos em seus contextos socioculturais (Velho, 1994), o que reforça a importância de uma abordagem educacional sensível às desigualdades e às experiências juvenis. Este estudo busca compreender como esses princípios são ativados em contextos escolares distintos, promovendo a articulação entre escolhas pessoais e responsabilidade coletiva. Para esta apresentação, o foco recai sobre o papel da empatia como um componente da educação em valores, analisando sua relação com o engajamento cívico e a responsabilidade social. Partimos da hipótese de que a empatia, quando intencionalmente trabalhada em contextos escolares, vai além de uma resposta emocional imediata, ela pode ser compreendida como uma construção relacional e reflexiva que integra valores, escolhas e ações concretas. c) Metodologia A pesquisa foi realizada com 95 estudantes do ensino médio, distribuídos entre dois grupos socioeconomicamente distintos. O primeiro grupo, composto por 70 estudantes, pertence a uma escola localizada em um território de alta vulnerabilidade social, marcado por desafios urbanos, familiares e comunitários significativos. O segundo grupo, formado por 25 estudantes, frequenta uma instituição privada de elite, caracterizada por maior estabilidade socioeconômica, turmas reduzidas e famílias com elevado capital educacional. A metodologia adotada baseia-se na aplicação do plano de aula The Good Project, que operacionaliza os conceitos de Good Work no ambiente escolar por meio de práticas que incentivam a autorreflexão. Os estudantes foram convidados a refletir sobre situações complexas envolvendo justiça, confiança, respeito e responsabilidade, conectando esses valores às suas próprias experiências e contextos de vida. A base de dados foi feita por meio de registros reflexivos escritos pelos estudantes, observações de sala de aula e questionários estruturados, baseados nos pilares de ética, engajamento e excelência. A intervenção educacional foi composta por 10 encontros de 100 minutos, realizados em duas salas de aula em cada escola durante o segundo semestre de 2024. As atividades incluíram estudos de caso, rodas de conversa, produções reflexivas e debates ético-morais. Como instrumentos de coleta, foram utilizados questionários aplicados durante e após a trilha pedagógica, registros escritos dos estudantes e gravações em áudio das sessões. A análise qualitativa tem sido guiada pela Teoria dos Modelos Organizadores do Pensamento (Arantes, 2012), que permite mapear estruturas cognitivas e afetivas, revelando como os jovens internalizam valores éticos e constroem sentido para suas escolhas. A escolha por uma intervenção com múltiplos encontros, visou garantir a exposição ao conteúdo e principalmente a maturação das reflexões ao longo do tempo, permitindo maior profundidade na apropriação dos conceitos trabalhados. A abordagem empírica foi adotada por sua capacidade de captar nuances subjetivas nos relatos dos estudantes e de compreender como os jovens articulam a empatia em suas trajetórias educacionais. O cruzamento entre os registros e os dados quantitativos dos questionários tem possibilitado uma análise comparativa entre os grupos, evidenciando semelhanças e diferenças nas formas de engajamento ético-moral. d) Resultados parciais e discussão Os resultados preliminares sugerem que a empatia pode ser compreendida como um processo mediado pela reflexão crítica sobre as consequências de ações individuais e coletivas. Em ambos os contextos, os estudantes demonstraram capacidade de compreender perspectivas alheias quando expostos a dilemas morais que exigem ponderação sobre valores, intenções e impactos sociais. No entanto, a forma como essas reflexões se desenvolve parece estar diretamente relacionada às experiências vividas e às oportunidades de diálogo que emergem nos espaços escolares. Esse processo de escuta e análise revela a compreensão de diferentes perspectivas e a construção de um repertório ético mais plural e dialógico entre os estudantes. Nos registros de investigação, jovens da escola de alta vulnerabilidade frequentemente associaram suas escolhas à busca por transformação coletiva. Já os estudantes da escola de elite mencionaram aspectos ligados ao autodesenvolvimento e à estabilidade. Essa diferença sugere que o campo de possibilidade (Velho, 1994) influencia diretamente os modos de apropriação do conceito de Bom Trabalho. Em ambos os grupos, observou-se que a exposição a dilemas éticos potencializa a empatia e a reflexão crítica, conectando desejos pessoais ao bem comum. A multiplicidade de respostas indica que o trabalho de educação em valores com foco em empatia não deve ser desvinculado do contexto social em que os sujeitos estão inseridos. A reflexão crítica, ao ser conduzida de maneira situada e dialógica, pode ampliar o campo de possibilidades éticas e favorecer um engajamento social mais sensível e plural. e) Considerações finais Os achados desta etapa da pesquisa reforçam a hipótese de que práticas educativas que integram reflexão crítica e empatia podem contribuir de forma significativa para a formação moral de jovens em contextos diversos. Ao fomentar a análise de dilemas morais e a escuta ativa de diferentes perspectivas, os educadores podem transformar a empatia de um valor subjetivo e pontual em um componente ativo da tomada de decisão ética e do engajamento social. Os resultados parciais indicam que promover o Bom Trabalho nas escolas demanda mais do que bons materiais: exige escuta ativa, valorização das experiências juvenis e atenção às desigualdades estruturais. Intervenções baseadas em ética, excelência e engajamento precisam ser sensíveis às condições reais dos estudantes, ampliando seu repertório e sua visão de futuro. Para tanto, políticas públicas educacionais devem considerar o campo de possibilidade de cada jovem, oferecendo experiências que desafiem limites sociais e incentivem novas aspirações. Essa abordagem propõe um currículo comprometido com a formação integral, que reconhece os estudantes como sujeitos morais em construção, capazes de elaborar projetos de vida que, ao mesmo tempo que contemplam seus desejos individuais, também considerem o bem comum. Ao reconhecer a escola como espaço legítimo de elaboração de sentidos e de experiências morais, reafirma-se seu papel central na construção de uma cidadania crítica e empática. f) Referências ARANTES, V. A. Modelos Organizadores do Pensamento e seu desenvolvimento teórico-metodológico: Estudos de Psicologia e Educação. Tese (Livre-docência). Faculdade de Educação, Universidade de São Paulo, 2012. ARANTES, V. A. O psiquismo humano e a Teoria dos Modelos Organizadores do Pensamento. Revista Nupem, v.5, p. 51-66, 2013. DAMON, W. The Moral Child: Nurturing Children’s Natural Moral Growth. New York: Free Press, 1988. DAMON, W. The Path to Purpose: Helping Our Children Find Their Calling in Life. New York: Free Press, 2008. GARDNER, H.; CSIKSZENTMIHALYI, M.; DAMON, W. Good Work: When Excellence and Ethics Meet. New York: Basic Books, 2001. MORENO MARIMÓN, M.; SASTRE. G.; BOVET, M.; LEAL, A. Conhecimento e mudança: Os Modelos Organizadores na construção do conhecimento. Campinas: Unicamp.; São Paujlo: Moderna, 1999. MORENO MARIMÓN, M.; SASTRE. G. Por qué vemos dinousarios em las nubes: De las sensaciones a los modelos organizadores del pensamento. Barcelona: Gedisa, 2020. MORENO MARIMÓN, M.; SASTRE. G. Cómo construímos universos. São Paulo: Uneso, 2014. OCDE. Future of Education and Skills 2030: OECD Learning Compass 2030. OECD Publishing, 2019. UNESCO. Reimaginar juntos os nossos futuros: Um novo contrato social para a educação. Paris: UNESCO, 2021. VELHO, G. Projeto e metamorfose: antropologia das sociedades complexas. Rio de Janeiro: Zahar, 1994.