PERSEGUIÇÃO A EDUCADORES E O ENFRAQUECIMENTO DA DENSIDADE DEMOCRÁTICA DE UMA COMUNIDADE EDUCATIVA: UM ESTUDO DE CASO Introdução O presente trabalho tem como objetivo analisar a entrevista de um educador sobre os processos de violência sofridos vinculados a sua atuação docente, visando, através desta investigação, adensar a discussão sobre violência e perseguição contra educadores/as. A entrevista foi realizada dentro do escopo da pesquisa “A violência contra educadores como ameaça à educação democrática: um estudo sobre a perseguição de educadores no Brasil”, idealizada pelo Núcleo de Estudos em Educação Democrática (NEED-UFF) e efetivada enquanto uma ação do Observatório Nacional da Violência contra Educadoras/es (ONVE). Segundo Penna, Aquino e Moura (2024), pode-se conceituar a perseguição a partir de 4 eixos: “O objeto: as(os) educadoras(es) são o alvo”; “O método: O discurso de ódio contra as(os) educadoras(es)”; “Relação com os espaços de participação: o enfraquecimento da densidade democrática das comunidades educativas”; “O objetivo: o medo e (auto)censura”. O terceiro eixo utilizado para a caracterização do fenômeno, e objeto de estudo deste trabalho, é a forma como os espaços institucionais lidam com as denúncias feitas sobre o educador. De acordo com os autores, “A denúncia que inicia a perseguição não visa estabelecer o diálogo sobre as práticas escolares de maneira respeitosa, mas parte da certeza da razão da sua acusação e realiza uma denúncia em busca de causar dano ao acusado e/ou proveito próprio ao acusador.” (Penna; Aquino; Moura, 2024, p.13-14). A perseguição geralmente é interrompida em comunidades educativas com alta densidade democrática, quando não se interrompe, a consequência é diminuir ainda mais os marcadores de democracia dessas comunidades. A primeira etapa da pesquisa do Observatório foi feita a partir de um questionário compartilhado pelo Brasil, tendo como público alvo os educadores(as) de todos os níveis de ensino, com o objetivo de mapear o fenômeno, o qual obteve 3017 educadores como respondentes. A segunda etapa compreende entrevistas orais com 20 educadores/as, 4 de cada região do país, para que possamos entender melhor as especificidades e características do fenômeno. A entrevista analisada aqui fez parte de um conjunto de 8 entrevistas pilotos realizadas pelo Observatório. Metodologia Utilizamos neste trabalho a metodologia da História Oral para entrevistar um testemunho (professor perseguido) e assim produzir uma nova perspectiva do fenômeno. A entrevista produzida nesta pesquisa se torna imprescindível, pois entendemos o estudo da perseguição a partir da abordagem da vitimização[1]: (...) a abordagem dos estudos de vitimização, em vez de concentrar seu foco nos perpetradores, permite que as transgressões e os delitos sejam entendidos do ponto de vista da vítima, que assim se vê transformada num informante privilegiado. Essa abordagem trata do problema do sofrimento sem vinculá-lo a algum modelo que possa fazer com que as vítimas se sintam culpadas (Debarbieux, 2002, p.80). Os testemunhos das vítimas, feitos através das entrevistas de história oral, de acordo com Portelli (2016) são uma troca dialógica entre o historiador e o narrador, uma troca de perguntas e respostas que podem seguir a direção “esperada” ou não. As fontes orais são co-criadas pelo historiador. A arte da escuta da história oral “diz respeito ao significado histórico da experiência pessoal, por um lado, e ao impacto pessoal das questões históricas, por outro” (Portelli, 2016, p. 16). Este trabalho insere-se no âmbito de uma História Oral temática[2], pois tem como foco informações que se enquadram no escopo da pesquisa. É importante ouvir dos próprios educadores/as sobre os impactos da perseguição, pois a partir dos testemunhos teremos acesso a subjetividades, memórias e narrativas de quem efetivamente sofreu o fenômeno e assim poderemos chegar mais próximo da sua compreensão e de uma conceituação não impositiva, mas construída coletivamente, inclusive do que nós, classe docente, consideramos como violência e perseguição. A entrevista escolhida para este trabalho foi a primeira realizada pelo Observatório Nacional da Violência contra Educadoras/es e o entrevistado, o professor Laurentino, participou da elaboração da metodologia da pesquisa e da entrevista em coletivo com a equipe do Observatório. Essa entrevista é de grande importância para o grupo, pois trouxe questionamentos e perspectivas importantes que até então não tínhamos sobre o fenômeno da perseguição. Resultados parciais e discussão Laurentino[3] é um homem cisgênero, preto e professor de sociologia da rede estadual do Rio de Janeiro. Ele entrou na faculdade de Ciências Sociais da Universidade Federal Fluminense aos 33 anos e escolheu a licenciatura por necessidade financeira. O professor passa por uma série de violências articuladas, o que o enquadra no fenômeno sistemático da perseguição. Para este trabalho focaremos em um acontecimento específico narrado: (...) enquanto eu estava transcrevendo, eu ouvi eles performarem aquele filme Planeta dos Macacos, quando o César começa a falar, né? Aí eu falei assim, “ah, não acredito que eles estão fazendo isso para mim.” E aí eu continuei escrevendo, “deve ser uma brincadeira entre eles”. O som voltou, aí eu fiquei um pouco... Eu lembro que eu parei de escrever, e aí eles percebem isso (...) Aí acho que o som voltou umas quatro vezes, na quinta, aí eu fiquei um pouco estatelado, porque eu não sabia o que fazer. É muita sensação de abuso mesmo que você está sofrendo, né? E aí eu saí da sala, a porta da sala tinha um vidro acima, mas era retangular, assim, né? Quando eu saí do lado de fora, eu olhei para a sala, eu meio sem saber o que fazer. Eu não sabia o que fazer. Eu lembro de olhar para dentro da sala e os alunos estarem debochando, e tem um aluno rindo do que está acontecendo, né? Óbvio que não foram todos, mas era um grupo, assim, tipo assim, 95% dos alunos. Tinha um grupo muito pequeno, meio que... também... “Como assim vocês estão fazendo isso com o professor, né?” Aí eu desço, vou falar com a orientadora educacional do que estava acontecendo, ela... Ela... “Cara, que isso?” Não acreditou, né? E aí eu lembro que quando eu saí da sala, alguns alunos saíram junto comigo e ela vem buscando os alunos (...) É… Quando ela chega na sala, a primeira frase que ela solta é essa, de que... Que na época dela não acontecia, essas coisas a gente fazia por trás (...) E o racismo, como a minha colega fala, ele é um crime tão perfeito, que isso já estava acontecendo com os alunos, essa questão de... De performação do planeta dos macacos no colégio, e eles fizeram comigo… E aí ela fala isso, e ela confirma isso no processo administrativo, a parte que eu li, que me mandaram avisos atualizados. Ela fala que isso é muito normal mesmo, que era assim mesmo, assim... É como se as pessoas vivessem realmente num mundo paralelo (Laurentino, 2024). Após a violência, o professor pediu para deixar o trabalho e ir para casa, a diretora não permitiu. Pediu então à orientadora educacional para ter acesso ao livro de ocorrências da escola, o que também foi negado. Laurentino relata que não advertiram os alunos com a justificativa de que não era uma prática do colégio advertir estudantes não reincidentes. A diretora chega a fazer uma reunião com os pais dos estudantes, mas não convida o professor, o qual só descobre a existência da reunião quando passa pela sala onde ela estava ocorrendo. Ao perceber a inação da comunidade educativa, Rogério começa a pedir ajuda externa, como ao sindicato, ao CEDINE-PIR e ao ONVE. O professor aponta que o que ele esperava da escola é que, junto a ele, fizessem um trabalho pedagógico com os alunos sobre racismo e práticas anti-racistas, mas nada ocorreu. A inação da comunidade educativa frente a violência sofrida pelo educador, como apontam Penna, Aquino e Moura (2024), gera o enfraquecimento da densidade democrática desta comunidade educativa. A não interrupção do processo violento por qualquer personagem da comunidade, fez com que o professor sofresse uma série de violências articuladas. Neste caso, a denúncia, diferentemente da caracterização de Penna, Aquino e Moura, não partiu de um aluno ou de um responsável, mas sim do próprio educador à administração escolar. A violência deveria ter sido interrompida e convertida em uma oportunidade pedagógica, o que não foi feito, dando início assim, a um quadro de inúmeras violências, o qual caracterizamos como perseguição. Considerações finais A não interrupção de uma violência pela comunidade educativa e a não conversão em uma oportunidade pedagógica leva os educadores a sofrerem uma série de violências articuladas. A entrevista com o professor Laurentino possibilita o aprofundamento na discussão sobre a perseguição a educadores e o enfraquecimento da densidade democrática de uma comunidade educativa gerada pelo fenômeno. Referências COLLINS, P. H.; BILGE, S. Interseccionalidade. São Paulo: Boitempo, 2021. DEBARBIEUX, E. Violências nas escolas: Divergências sobre palavras e um desafio político. In E. Debarbieux, & C. Blaya (eds.), Violências nas escolas e políticas públicas. Brasília: Unesco, 2002. FONSECA,S. G. Ser Professor no Brasil: história oral de vida. Campinas (SP); Papirus, 1997. LAURENTINO, 2024. Entrevista de História Oral não disponível publicamente. Acervo do Observatório Nacional da Violência contra Educadoras/es. (ONVE). MIGUEL, L. F. A reemergência da direita brasileira. In: GALLEGO, E. S (org.). O ódio como política: a reinvenção das direitas no Brasil. São Paulo: Boitempo Editorial, 2018. Posição 135-331. Edição Kindle. PENNA, F; AQUINO, R; MOURA, F. Propondo uma definição de perseguição a educadoras(es) baseada na educação democrática. Educ. Soc., Campinas, v. 45, e274629, 2024. PORTELLI, A. História oral: Uma relação dialógica. In: História Oral como arte da escuta/ [tradução Ricardo Santhiago]. – São Paulo: Letra e Voz, 2016. – (Coleção Ideias). [1] Sabemos que o conceito de vitimização tem impactos diferentes nas diversas áreas, como por exemplo, para a psicologia social. Assumimos aqui o conceito de vitimização dentro de uma perspectiva jurídica sociológica da constatação de que a violência foi sofrida. [2] Para aprofundamento nas categorias de entrevistas de História Oral, consultar Fonseca, 1997. [3] O professor entrevistado escolheu ser identificado segundo esse nome.