POSSÍVEIS APROXIMAÇÕES ENTRE O CRPE-RECIFE E O MOVIMENTO REGIONALISTA DA DÉCADA DE 1920

- 215720
Resumo Expandido - Trabalho em Andamento
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Abstract
POSSÍVEIS APROXIMAÇÕES ENTRE O CRPE-RECIFE E O MOVIMENTO REGIONALISTA DA DÉCADA DE 1920 O INEP instituiu em 1955 o Centro Brasileiro de Pesquisas Educacionais (CBPE), com sede no Rio de Janeiro, e outros cinco Centros Regionais de Pesquisas Educacionais (CRPE) localizados nas cidades de Recife, Salvador, Belo Horizonte, São Paulo e Porto Alegre. CRPE-Recife iniciou os seus trabalhos em 1957 e funcionou até 1975. Seu primeiro diretor geral foi Gilberto Freyre que ficou responsável pela coordenação de seus trabalhos até 1971. Segundo Libânea Xavier “A visão peculiar desse intelectual o levaria a relacionar a instituição recém-criada a um movimento de regionalização, imprescindível, na visão de Freyre, para a legitimação do projeto nacional partilhado pelo grupo” (XAVIER, 1999, p. 82). Esse entendimento porque Gilberto Freyre havia sido um dos fundadores e dos principais defensores do Movimento Regionalista, Tradicionalista e, ao seu modo, Modernista que teve seu início no Recife na década de 1920. Assim, nos interessa neste trabalho, analisar a influência deste Movimento Regionalista nos trabalhos, pesquisas e publicações desenvolvidas pelo CRPE- Recife. A partir de uma análise de paratextos editoriais, que segundo Gérard Genette (GENETTE, 2009) se incluem “nome de autor, um título, um prefácio, ilustrações, que nunca sabemos se devemos ou não considerar parte dele” (GENETTE, 2009, p.9) faremos análises que pretendem verificar aproximações entre o Movimento Regionalista e as ações do CRPE-Recife. Entre as obra a serem utilizadas estão o Manifesto Regionalista de 1926, o livro Região e Tradição de 1941, ambos escritos por Freyre. Além de algumas publicações do CRPE-Recife, como: o livro Ideologia dos Poetas Populares do Nordeste, de Renato Carneiro Campos; o livro Educação e Região: Problemas de Política e Administração no Nordeste Brasileiro; e a publicação dos Cadernos Região e Educação, publicados de 1961 até 1975. Após o retorno de Freyre dos Estados Unidos na década de 1920, juntamente com outros intelectuais fundou em1924 o Centro Regionalista do Nordeste. E em 1926 foi um dos principais organizadores do 1º Congresso Regionalista do Nordeste, onde foi lido o Manifesto Regionalista elaborado pelo próprio Gilberto Freyre. Segundo Durval Muniz, o Movimento Regionalista surge como um movimento de caráter “cultural e artístico, destinado a resgatar e preservar as tradições nordestinas” (ALBUQUERQUE JÚNIOR, 2011, p.100). Era um movimento de resistência para a preservação da cultura, modo de vida, os valores e a tradição do Nordeste. Sua influência permeava a arte, a literatura, a arquitetura, e a culinária. Este movimento se colocou em oposição ao movimento Modernista de São Paulo de 1922, a Semana de Arte Moderna. A qual era acusada de promover um “regionalismo de superioridade”, desconsiderando as regiões mais pobres, as tradições culturais da sociedade e de serem imitadores de padrões estrangeiros. Por outro lado, o que se percebe é que o “projeto cultural do regionalismo de Freyre não se reduz a uma luta pela preservação de tradições culturais, mas irrompe também como disputa no cenário intelectual pela tomada e ocupação de posições sociais e simbólicas” (SANTOS, 2011, p. 407). No Manifesto de 1926, Freyre defende que o Movimento não buscava a supremacia do Nordeste em relação às demais regiões, pelo contrário, não desejavam nenhuma espécie de separatismo, mas era “unionista”. Este procurava reabilitar os valores e as tradições do Nordeste do perigo de serem abandonados e espera que aconteça uma troca entre as regiões do país para enriquecer a cultura brasileira. Como exemplo de elementos regionais que precisam ser valorizados ele cita os mocambos como modelos arquitetônicos de adaptação às condições dos trópicos e que atende as necessidades das classes mais baixas. E o segundo exemplo é a culinária, considerada como um local propício para o surgimento de uma cultura tipicamente brasileira fruto da mistura entre as culturas portuguesa, africana e indígena. No livro Região e Tradição de 1941, no prefácio à primeira edição, José Lins do Rego faz elogios ao regionalismo nordestino e diz que “o Brasil precisava era de se olhar, de se apalpar, de ir às suas fontes de vida, às profundidades de sua consciência” (REGO, 1968, p. 24). O mesmo defendia que esse regionalismo “merecia que se propagasse por todo o Brasil, porque é essencialmente revelador e vitalizador do caráter brasileiro e da personalidade humana. Com um regionalismo desses é que poderemos fortalecer mais ainda a unidade brasileira” (REGO, 1968, p. 33). No prefácio à segunda edição da mesma obra, em 1968, Freyre reforça que a proposta do Manifesto traduziu o interesses dos signatários em “querer juntar o sentido de tradição e região a quanto fosse expressão verdadeiramente brasileira, ao mesmo tempo que nova, moderna, analítica, sem deixar de ser lírica, de culinária, de escultura, de urbanismo, de paisagem, de jardim, de móvel, de trajo. (FREYRE, 1968, p. 39). Onde os conceitos de região e tradição eram tidos como dinâmicos e não estáticos e que em outras partes do mundo estavam contribuído na resistência aos processos de centralização e uniformização cultual que descaracterizam e fragilizam os as diferenças regionais. Entre os capítulos do livro Região e Tradição, dois capítulos chamam atenção, são eles o “Região, Tradição e cozinha” e “Região, Tradição e Casa”. Ambos reafirmam argumento levantados por Freyre no Manifesto Regionalista. O primeiro destaca a culinária e o segundo os mocambos como referência para adaptação aos trópicos Em seu discurso de posse como Diretor Geral do CRPE-Recife, Freyre estabelece vínculos entre o Movimento Regionalista e o CRPE-Recife. Ao escolher o título de Região, Pesquisa Social e Educação para a publicação de seu pronunciamento em 1959 na Revista Brasileiro de Estudos Pedagógico, ele reforça a essa relação e desenvolve argumentos de defesa do Movimento Regionalista, muitas vezes mal compreendido como separatista, mas que para ele tem a finalidade de promover a articulação dos “valores regionais” e que “concorre para aquela unidade não só nacional como humana que se concilia com a diversidade das culturas” (FREYRE, 1958, p 31). Freyre trata da contribuição que a educação poderia dar para a regionalização na medida em que esta fosse orientada interregionalmente. E assim poderia desenvolver a consciência de pertencimento ao indivíduo a um todo nacional que tem dependência das regiões e assim estimular uma relação harmônica entre as mesmas. A primeira publicação do CRPE-Recife, resultado da pesquisa de Renato Campos Carneiro, “Ideologia dos Poetas Populares do Nordeste”, representa bem os princípios propostas do Movimento Regionalista, no momento em que valoriza e ressalta o valor da tradição da literatura em cordel para a formação da cultura nordestina, e consequentemente brasileira, e também seu valor para a alfabetização e educação rural. (CAMPOS, 1977). Em prefácio à segunda edição da mesma, Freyre diz quando Anísio Teixeira criou os CBPE e CRPE “agiu de acordo com o programa de pesquisa e de ação do Movimento Regionalista e a seu modo Modernista” (FREYRE, 1977, p. 5). Em 1960, outra publicação do CRPE-Recife foi o conjunto de artigos fruto do curso realizado entre os anos de 1958 e 1960 promovido pelo Centro Regional que teve como tema geral Educação e Região e se propôs a trabalhar os Problemas de Política e Administração Escolares no Nordeste Brasileiro. Alguns dos temas das palestras realizadas parece mostrar a vinculação aos ideias regionalista como por exemplo: Região, Educação e Rádio; Região, Saúde e Educação no Nordeste; Teatro, Região e Tradição; e Espaço, Tempo, Região e Educação, entre outros. Além destes, a publicação regular do CRPE-Recife carrega no nome a aproximação ao regionalismo, os Cadernos Região e Educação. A princípio concluímos que analisando alguns paratextos editoriais, principalmente alguns prefácios, apresentações e títulos de livros, publicação e artigos publicados pelo CRPE-Recife, é que há uma aproximação destes trabalhos desenvolvidos com o Movimento Regionalista liderados, ambos, por Gilberto Freyre. E neste caso específico, identificamos uma busca do papel da educação e do educador, em sua maioria, professoras primárias, na construção de uma escola e educação regional, onde se buscassem os valores da região e das tradições que efetivamente viessem a favorecer ao fortalecimento de uma identidade local, e consequentemente, nacional. No entanto, se faz necessário, um aprofundamento de análise que se debruce no conteúdo desses trabalhos para ampliação da compreensão dessa articulação entre os o Movimento Regionalista e o CRPE-Recife. REFERÊNCIAS ALBUQUERQUE JÚNIOR, D. M. A invenção do nordestes e outras artes. São Paulo: Cortez, 2011. CAMPOS, Renato Carneiro. Ideologia dos Poetas Populares do Nordeste. MEC – Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais. 1977. FREYRE, G. REGIÃO, PESQUISA SOCIAL E EDUCAÇÃO. Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos. Volume 29, nº 69, 1959. p. 31- 40 _____________. Região e Tradição. Gráfica Record Editora. 2ª Edição. Rio de Janeiro, 1968. _____________. Manifesto regionalista. 7.ed. Recife: FUNDAJ, Ed. Massangana, 1996 FREYRE, F. M. O MOVIMENTO REGIONALISTA E TRADICIONALISTA E A SEU MODO TAMBÉM MODERNISTA - ALGUMAS CONSIDERAÇÕES. Ciência e Trópico, Recife, 5(2): p. 775-188, jut/dez. 1977. GENETTE, Gérard. Paratextos Editoriais. Cotia, SP: Ateliê Editorial, 2009. REGO, José Lins do. Prefácio. In: FREYRE, Gilberto. Região e Tradição. Gráfica Record Editora. 2ª Edição. Rio de Janeiro, 1968, p.21-25. SANTOS, R. Cultura e tradição em Gilberto Freyre: esboço de interpretação do Manifesto regionalista. Soc. e Cult., Goiânia, v. 14, n. 2, p. 399-408, jul./dez. 2011. XAVIER, L. N. Regionalização da pesquisa e inovação pedagógica: os Centros de Pesquisas Educacionais do Inep (1950-1960). R. Bras. Est. pedag., Brasília, v. 80, n. 194, p. 81-92, jan./abr. 1999.

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  • 1 UFPE - Universidade Federal de Pernambuco
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  • GT02 - História da Educação