IMAGENS DO FUTURO: UMA CIBERPESQUISA-FORMAÇÃO COM INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL GENERATIVA NA FORMAÇÃO DOCENTE1 INTRODUÇÃO Este resumo apresenta uma pesquisa de mestrado em andamento que investiga os usos da Inteligência Artificial Generativa (IAG) na formação docente, com foco na geração de imagens. A proposta busca refletir sobre os potenciais pedagógicos da IAG, suas implicações éticas, os impactos sobre o imaginário coletivo e sua repercussão na formação de professores. Como campo empírico, a pesquisa analisa uma experiência desenvolvida com 50 estudantes do curso de Pedagogia de uma universidade pública do Rio de Janeiro, em 2024, a partir de um desenho didático interativo intitulado "Uma sala de aula no 2224", concebido como dispositivo de ciberpesquisa-formação (Santos, 2019), articulando criação autoral, reflexão crítica e experimentação pedagógica com narrativas digitais imagéticas. A pesquisa parte das seguintes questões: quais os impactos do surgimento da IAG nas salas de aula? Como docentes em formação têm vivenciado experiências com essa tecnologia? A conhecem e experimentam, ou a evitam por desconhecimento ou medo? Ao propor a criação de imagens de salas de aula do futuro, geradas por IAG, busca-se explorar a narração de histórias como possibilidade curricular, formativa e de pesquisa na cibercultura, ampliando os horizontes da formação docente no século XXI. Desde a popularização do ChatGPT em 2022, vivenciamos um período de intensas transformações que impactam diretamente o campo educativo (Carvalho; Pimentel, 2023). A IAG, capaz de simular interações humanas, tornou-se tema recorrente em mídias, redes sociais, cinema e literatura, reativando antigos temores diante do avanço tecnológico. Como destaca Beiguelman (2023), parte desse imaginário temeroso está enraizado em narrativas distópicas e patriarcalistas — do mito de Frankenstein à robô Rosie dos Jetsons —, que projetam a máquina como ameaça ou servidão, dificultando a construção de outras possibilidades de relação com as tecnologias. A ficção científica, como observa Certeau (1987), ocupa justamente essa zona de fronteira entre linguagem científica e experiência cotidiana, traduzindo questões filosóficas e éticas em narrativas acessíveis. É nesse contexto de disputas simbólicas e sociotécnicas que a IAG entra nas salas de aula, exigindo novas perguntas e deslocamentos no pensar educativo. A pesquisa vem mostrando que muitas percepções sobre IA ainda estão atravessadas por construções do campo estético e imagético da ficção científica, que tendem ao exagero e alimentam afetos duradouros no imaginário social. O receio diante das tecnologias se enraíza na memória coletiva, atravessa gerações e se intensifica com as constantes transformações desde a Revolução Industrial. Para De Masi (2017, p. 93), diante de mudanças tão profundas, a sensação predominante é a desorientação. METODOLOGIA Esta pesquisa tem como principais referenciais a Ciberpesquisa-formação (Santos, 2019), as Pesquisas com os cotidianos (Certeau, 2012) e os Estudos da cultura digital (Santaella, 2021). A partir desse marco teórico-metodológico, investigamos os possíveis usos da IAG na formação docente, por meio da criação de um dispositivo de ciberpesquisa-formação estruturado com base em um desenho didático interativo. O contexto da pesquisa é a formação de professores que ensinam e aprendem em ambientes atravessados pelo digital em rede. O estudo foi desenvolvido com 50 estudantes da disciplina “Tecnologias e Educação”, vinculada ao curso de Pedagogia de uma universidade pública. Nessa perspectiva, seguimos os fundamentos da ciberpesquisa-formação, que, segundo Santos (2019): “Concebe o processo de ensinar e aprender a partir do compartilhamento de narrativas, sentidos e dilemas de docentes e pesquisadores pela mediação das interfaces digitais concebidas como dispositivos de pesquisa-formação.” (p.19) Durante as aulas, desenvolvemos um desenho didático interativo com o aplicativo Genially, estruturado como um mini game que convida os estudantes a realizar uma viagem imaginária para 2224. Ao longo do percurso, são apresentados a cenários de mudança e inovação, especialmente relacionados à Inteligência Artificial. A proposta tem início com a apresentação do recurso e uma breve contextualização dos temas abordados. Em seguida, os estudantes acessam o conteúdo pelo celular e seguem o passo a passo da atividade, sendo provocados a refletir sobre o futuro da educação. No decorrer da experiência, escolhem uma das plataformas (Canva, Pareto ou Craiyon) e, a partir de prompts elaborados por eles mesmos, criam uma imagem de uma sala de aula do futuro — um retrato de si no ano de 2224. Todas as imagens foram publicadas em um mural do Padlet, acompanhadas de um texto narrando a experiência. O objetivo central da proposta foi proporcionar uma vivência pedagógica que estimulasse a imaginação crítica sobre o futuro da escola, enquanto os alunos exploravam o uso da IAG por meio de imagens e expressavam seus conhecimentos prévios sobre o tema. RESULTADO PARCIAIS E DISCUSSÃO Foram geradas mais de 45 imagens com IAG criadas pelos alunos a partir da proposta didática. A atividade foi bem recebida, sem grandes dificuldades técnicas e gerou forte engajamento na criação autoral e na exploração de novos recursos de IAG. Dessas narrativas visuais inspiradas no futuro emergiram três categorias de análise que se destacam como achados da pesquisa em andamento: 1) etarismo e viés de gênero; 2) olhar apocalíptico sobre o avanço tecnológico no futuro; e 3) ausência de relações entre natureza e tecnologias. A escolha pelas imagens se justifica por sua força simbólica e afetiva, revelando futuros imaginados que expressam medos, tensões e desejos do presente. 1) Etarismo e viés de gênero: As imagens geradas revelam padrões estéticos hegemônicos, com personagens femininas jovens, magras e idealizadas. A velhice é invisibilizada ou aparece de forma caricatural, indicando vieses etaristas e de gênero nos sistemas de IAG. Um exemplo marcante foi o de uma aluna negra com mais de 50 anos que, ao tentar se representar, obteve apenas imagens de mulheres jovens e com padrões de beleza irreais — combinação que também trouxe um olhar apocalíptico sobre o futuro que ela tinha. Fonte: Imagem criada por uma aluna através de uma plataforma de IAG 2) Olhar apocalíptico sobre o avanço tecnológico: A maioria das imagens geradas associa o futuro a cenários distópicos, marcados pela destruição e pela figura do maquínico como inimigo. Nas imagens geradas pelos estudantes, percebemos que narrativas ficcionais do cinema e da literatura influenciam esse imaginário, reforçando o medo diante da IA e limitando visões mais complexas ou positivas. Como aponta Santaella (2021), é necessário superar essas visões catastrofistas difundidas pelas mídias audiovisuais e buscar uma compreensão mais lúcida sobre os impactos reais da IA na vida cotidiana. Mesmo com representações de avanços técnicos, as imagens revelam retrocessos em aspectos ambientais, sociais e econômicos. Podemos observar nas seguintes imagens e narrativas: Fonte: Imagens criadas pelas alunas através de uma plataforma de IAG. 3) Ausência de relações entre natureza e tecnologias: Nenhuma das imagens produzidas representou cenários onde natureza e avanço tecnológico coexistem. Essa ausência revela uma dificuldade em imaginar conciliações entre ambos os mundos, reforçando uma visão dicotômica influenciada por narrativas que opõem o natural ao artificial. Mesmo após discussões em sala de aula, a separação entre tecnologia e meio ambiente permaneceu como traço dominante nas produções. Nas narrativas sobre o futuro com IA, os alunos destacaram avanços tecnológicos, como robôs em sala, EAD com hologramas, realidade virtual e o uso da IA dentro e fora da escola. Observamos que algumas plataformas recusaram prompts com o termo “criança”, e que, mesmo sem menção explícita, robôs apareciam em muitas imagens. Algumas criações eram tão realistas que permitiam reconhecer os próprios alunos. A atividadee gerou forte engajamento na criação autoral e na exploração de novos recursos de IAG. CONSIDERAÇÕES FINAIS Vivemos imersos na cibercultura (Santaella, 2021), em um contexto em que as tecnologias digitais em rede já fazem parte do cotidiano escolar. A presença crescente da IAG em nossas rotinas provoca fascínio e temor, tornando indispensável uma postura crítica que evite tanto o deslumbramento quanto a rejeição. Na educação, o debate é ainda mais urgente, envolvendo ética, segurança de dados, viés algorítmico e desigualdade em torno ao letramento digital. Por isso,defendemos que a IAG seja tema central nas práticas formativas, com reflexão profunda e responsável. A partir dos dados analisados até aqui, os próximos passos da pesquisa incluirão: aprofundar a análise das narrativas digitais criadas com IAG sobre a sala de aula de 2224; ampliar a discussão teórica sobre o imaginário do “artificial” dentro e fora da ficção; refletir sobre as imagens geradas por IAG em conexão com futuros possíveis para a educação; e explorar, de forma crítica, as aplicações da IAG na formação docente. REFERÊNCIAS BEIGUELMAN, G. Máquinas companheiras. Morel., n. 7, p. 76-86, 2023. CARVALHO, F.; PIMENTEL, M. Estudar e aprender com o ChatGPT. Revista Educação e Cultura Contemporânea, v. 20, 2023. CERTEAU, Michel de. História e psicanálise: entre ciência e ficção. Belo Horizonte: Autêntica, 2011. DE MASI, D. Alfabeto da sociedade desorientada: para entender o nosso tempo. Trad. Silvana Cobucci e Federico Carotti. São Paulo: Objetiva, 2017. SANTAELLA, L. Humanos hiper-híbridos: linguagens e cultura na segunda era da internet. São Paulo: Paulus, 2021. SANTOS, E. Pesquisa-formação na cibercultura. Teresina: EDUFPI, 2019. 1 O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) Código de Financiamento 001.