MARINHEIRO SÓ: APRENDENDO A NAVEGAR NO NOVO MUNDO INTRODUÇÃO Compreendemos o Brasil como um país marcado por uma miscigenação que traz em si vestígios de diversas partes do mundo, devido tanto ao processo de colonização quanto às migrações contemporâneas, mas que, apesar de sua origem situar-se na diversidade, insiste em negá-la, silenciando sua própria heterogeneidade. Diante disso, surgem questionamentos urgentes: se ainda não somos capazes de conviver com a pluralidade de sujeitos que compartilham este território, como foi construída a ideia de um Brasil acolhedor e diverso? A quem essa narrativa busca enganar — e com que consequências? Mais do que questionar, é preciso pensar em formas de romper com essa teia de hipocrisias e, de fato, construir um país que seja verdadeiramente de todos. Silva (2011), em sua obra, refere-se especialmente à particularidade das línguas em conflito, enquanto em uma abordagem mais ampla, sendo elemento chave para a interação social e “marcado pelas atitudes, sentimentos e julgamentos de valor que os falantes desenvolvem entre si e em relação às línguas que falam" (p.9). Nesta pesquisa trabalhamos sujeitos em sua total complexidade em conflito. Mas quem é o sujeito deste trabalho que grita por diversidade? São indivíduos advindos de fluxos migratórios, refugiados, imigrantes e migrantes, particularmente, crianças em fase escolar incluídas em salas de aula da Rede Municipal de Educação do Rio de Janeiro. Esta dissertação de mestrado, ainda em desenvolvimento, propõe-se a investigar a inclusão escolar de crianças oriundas de fluxos migratórios, com ênfase nas possibilidades de construção de uma inclusão efetiva e afetiva a partir das narrativas biográficas literárias. A pesquisa parte do reconhecimento da riqueza das histórias de vida dessas crianças, que chegam ao espaço escolar carregando trajetórias singulares, muitas vezes marcadas por deslocamentos, rupturas e reconstruções identitárias. METODOLOGIA A presente pesquisa adota uma abordagem qualitativa, cuja natureza é eminentemente social e centrada nos sujeitos envolvidos, conforme argumentam Nascimento e Sousa (2023). Os autores destacam que a pesquisa qualitativa visa à interpretação dos fenômenos observados e ao significado que lhes é atribuído, considerando o contexto em que estão inseridos. Trata-se de um processo descritivo e indutivo, que privilegia a observação da singularidade dos sujeitos e a subjetividade dos fenômenos, sem se pautar por princípios previamente estabelecidos. Assim, embora permita generalizações, estas são realizadas de forma moderada, partindo de casos particulares. Trata-se, ainda, de uma pesquisa de caráter exploratório, voltada à compreensão da situação vivenciada pelos sujeitos envolvidos, bem como à problematização e construção de hipóteses a partir dos objetivos específicos delineados. Para tanto, foram adotados como procedimentos metodológicos a pesquisa-ação e a pesquisa-formação narrativa, tendo como campo de investigação uma escola pública municipal situada na Zona Oeste do Rio de Janeiro, a qual recebe, em suas turmas do 1º ao 6º ano do Ensino Fundamental, crianças oriundas de diferentes fluxos migratórios. O processo de coleta de dados foi organizado em seis etapas. Na primeira etapa, realizou-se uma reunião prévia com a equipe gestora da escola, com o objetivo de levantar informações sobre a situação dos estudantes migrantes. Na segunda etapa, definiu-se um conjunto de critérios de observação, com foco no desenvolvimento escolar e comportamental das crianças participantes, especialmente no que se refere às práticas de acolhimento pautadas na alteridade e em seu papel no processo de inclusão. As terceira e quarta etapas envolveram a observação e a análise dos perfis das crianças, bem como a aplicação de instrumentos mais específicos para o registro das atividades pedagógicas. Foram utilizados roteiros de observação para rodas de leitura e mediações individuais, cujos registros foram sistematizados em diário de campo, fichas individuais e diário pessoal. A análise concentrou-se nos discursos e nas narrativas emergentes das crianças migrantes, priorizando os sentidos produzidos nas chamadas "narrativas insurgentes". Na quinta etapa, delineou-se um modelo teórico a partir dos dados coletados, o qual orienta a estruturação dos capítulos da dissertação. Por fim, a sexta etapa consistiu na avaliação do modelo teórico em conjunto com a orientadora da pesquisa, em reuniões periódicas que visaram alinhar os achados empíricos aos referenciais teóricos e conceituais do estudo. Dado o deslocamento do campo estritamente teórico para um campo teórico-prático, justifica-se a adoção da pesquisa-ação como técnica metodológica. Segundo Senna (2024), essa abordagem caracteriza-se como um movimento realizado por e para professores, voltado às experiências cotidianas da escola e de seus alunos, permitindo que os sujeitos escolares participem ativamente da construção do conhecimento em diálogo com suas práticas pedagógicas. Assim, a pesquisa se estrutura com base na cooperação e reciprocidade entre pesquisador e sujeitos da pesquisa, estreitando os laços entre a cultura escolar e a produção científica. A investigação é, portanto, construída de forma colaborativa, a partir das narrativas produzidas tanto pelo pesquisador quanto pelos participantes, o que abre espaço para a constituição da pesquisa-formação narrativa, tendo em vista que a escola tomada por campo de pesquisa passa a ser espaço de formação a partir da pesquisa-ação proposta, conforme a penumbra que separa o pesquisador do professor da sala de aula se dissipa no ar. RESULTADOS PARCIAIS E DISCUSSÃO Em uma primeira análise, a partir de uma revisão integrativa de literatura, chegou-se às seguintes constatações: faz-se claro que é necessário repensar o fazer docente ao passo que a criança é central nesse processo, compreendendo a pluralidade identitária. Também foi notória a ausência de teses e dissertações que falem do processo de alfabetização de crianças migrantes em si, em especial no Rio de Janeiro, estado no qual a pesquisa é situada. Dentro da sala de aula a realidade é de despreparo, medo e frustração, cabendo mencionar que de forma alguma buscamos culpabilizar o professor, já que sua formação, que deveria ser prevista por órgãos e instituições responsáveis pelo ensino brasileiro, não tem dado conta das atuais demandas com as quais ele tem se deparado, que para além de lidar com crianças migrantes, ainda tem mais 20-30 alunos em classe. É nesse terreno arenoso que a pesquisa em andamento se insere, no chão da sala de aula, de onde todos falam, mas pouco ouvem, especialmente às principais figuras desse cenário: os pequenos migrantes. Durante a atuação na escola, cada interação é muito preciosa, já que em cada uma de nossas trocas, surgem pistas de como podemos atuar em sua inclusão. Nas mediações individuais, partindo sempre de uma literatura acordada entre nós, o português vive a prática da língua de acolhimento, dando espaço para que as crianças façam a deliciosa mistura entre seu idioma e o nosso para encontrarem caminhos performáticos de expressão de suas narrativas. Eles nos ensinam tanto mais quanto aprendem, reconhecendo nesse espaço livre de estigmas um palco para um bailado intercultural. A aluna que aprende a escrever “vermelho” ao invés de “bemejo” no emaranhado de fonemas, é a mesma que me conta animada em sua língua materna a leyenda del Silbón, e que a registra em português para compartilhá-la com os colegas. Nas rodas literárias, alunos brasileiros e imigrantes tiveram a possibilidade de mergulhar e transbordar as literaturas selecionadas. Afeto, desejos, anseios e sonhos foram as pautas dos encontros realizados, com narrativas borbulhando para todos os lados, com um dos pequenos migrantes demarcando seu lugar enquanto menino venezuelano, cuja bandeira do próprio país é materialização do que lhe é mais precioso; e com um brasileiro que, deparando-se com o acolhimento ao diferente, descobre uma nova faceta com a qual se sente tão confortável que nos pede para declamá-la frente à turma. Isso é educação inclusiva, quando todos tem espaço para serem quem são, uma constelação de estrelas brilha(migra)ntes. O aluno nessa perspectiva não é passivo das ações da escola, mas agente ativo no desenho das novas configurações educacionais, enriquecendo com toda sua pluralidade esse ambiente de produção e potencialização de conhecimento. É nas narrativas que se desdobram que encontramos conforto em nossas similaridades e diferenças, rumando de mãos dadas ao Novo Mundo. CONSIDERAÇÕES FINAIS Há ainda muito a se descobrir com esta pesquisa e, mais do que isso, experienciar no chão da escola multinacional. Os silêncios nos contam muita coisa, mas as vozes a quem damos passe livre contam muito mais. Vendo o quanto essas crianças crescem ao encontrarem ouvidos atentos, olhos verdadeiramente curiosos e corpos disponíveis, aprendemos que a pesquisa aqui descrita vai para muito além de relatos: as narrativas ganham pernas, braços, sangue e alma, caminhando para um futuro que semeia esperança. Os pequenos marinheiros nos ensinarão a navegar sob uma perspectiva ainda não conhecida, enquanto nós, professores do velho mundo, buscaremos adaptar nossos empoeirados instrumentos de navegação, a fim de que essa viagem seja, de fato, uma viagem exploratória a um pequeno grande universo ainda não explorado. REFERÊNCIAS NASCIMENTO, F.; SOUSA, F. Metodologia da Pesquisa Científica: Teoria e Prática (Monografia, Dissertação, Tese, Artigo) - Como Elaborar TCC (versão digital). –2ª edição.- Brasília: Thesaurus Editora. SENNA, L. O projeto de pesquisa na formação de professores: uma introdução à metodologia da pesquisa em educação. Rio de Janeiro: Ed. do Autor; Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 2024. SILVA, S. (org). Línguas em contato: Cenários de Bilinguismo no Brasil. Coleção Linguagem e Sociedade v.2. Campinas/SP: Pontes Editores, 2011.