A PÓS-GRADUAÇÃO E A EDUCAÇÃO POPULAR: O CASO DO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO AGRÍCOLA A presente pesquisa foi desenvolvida entre 2022 e 2024 a partir de um projeto mais amplo de estágio pós-doutoral. Os Programas de Pós-Graduação em Educação geralmente reúnem grande parte dos pesquisadores e intelectuais contemporâneos sobre o tema. Neste sentido, a produção de conhecimento instalada em seus grupos de pesquisa fornece fundamentação teórica para se pensar uma diversidade de problemas próprios da educação. Por meio deles, também, se desenvolvem pesquisas voltadas para a Educação Popular. Entretanto, em que momento na Pós-Graduação em Educação encontramos, de fato, a Educação Popular como eixo norteador de suas atividades e formação de estudantes de mestrado e doutorado? Sabemos que nem toda formação é libertadora. Sabemos, também, que os Programas de Pós-Graduação agrupam o maior número de especialistas em determinadas temáticas. Então, novamente, qual o espaço que se tem para trocas horizontais na construção de saberes? Qual o lugar do conhecimento próprio dos estudantes de mestrado e doutorado que ocupam as cadeiras dos cursos stricto sensu do país? O Programa de Pós-Graduação em Educação Agrícola (PPGEA), criado em 2003, na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) se apresenta, no início dos anos 2000, com uma proposta pedagógica inovadora para a Pós-Graduação pautada nos princípios da Educação Popular (BRANDÃO, 1984; FREIRE, 1996). As antigas Escolas Agrotécnicas ligadas ao Governo Federal careciam de promover uma formação adequada para os profissionais da educação que lá estavam lotados (docentes, técnicos administrativos e servidores em cargos de gestão). Como essas Escolas geralmente eram instaladas no interior dos estados e, muitas vezes, de difícil acesso às capitais, pensou-se na realização de turmas conveniadas que pudessem suprir essa demanda de especialização, mas que também aproveitassem o conhecimento regional ali produzido. À época, foi estruturado um curso de mestrado em educação onde esse conhecimento local era valorizado e assimilado na formação e não se descolava da realidade dos estudantes. A Pedagogia da Alternância se encaixava perfeitamente para essa proposta. Em momentos de “tempo universidade” e de “tempo comunidade” há o diálogo entre os saberes e produção de conhecimento. Os docentes do Programa, além das aulas ministradas na Universidade, iam também nas Escolas Agrotécnicas para conhecerem essa realidade na qual os estudantes estavam inseridos e partiam deste prisma para a composição das disciplinas no “tempo universidade”. Com a criação dos Institutos Federais de Educação, Ciência e Tecnologia em 2008, o Programa passou a ofertar turmas que abarcavam as diversas realidades regionais ligadas a um mesmo IF. Grande parte dos trabalhos realizados foram na Região Norte e Nordeste do país. A partir de 2012, anualmente também são ofertadas as turmas de Demanda Social, abertas para todo e qualquer candidato. Este desenho pedagógico da alternância ainda é utilizado atualmente com suas turmas em formação. O objetivo geral desta pesquisa se concentrou em analisar os impactos sociais e a relevância da Pedagogia da Alternância como via possível da Educação Popular na Pós-Graduação em Educação. Os objetivos específicos se estabeleceram da seguinte forma: identificar, junto aos egressos do Programa, elementos que reflitam impactos sociais do curso de mestrado; coletar as dissertações defendidas por esses egressos em relação à área de conhecimento do Programa; avaliar a relevância do curso para o desenvolvimento pessoal e profissional de seus egressos; investigar como a Pedagogia da Alternância pode valorizar os conhecimentos e saberes locais; estruturar as falas dos egressos do curso no que diz respeito às suas percepções em relação ao impacto social do mesmo. Os problemas propedêuticos citados abriram o caminho para se pensar nas formas de como a Pós-Graduação em Educação pode se apropriar não só teoricamente, mas metodologicamente da Educação Popular. Brandão (1984), em sua conceituação primária, nos apresenta quatro definições. A primeira consiste em aquela educação da comunidade primitiva, onde os saberes surgiam e circulavam entre todos os seus membros, em uma fase anterior à divisão social dos saberes. As três seguintes se enquadram diretamente naquilo que é tratado neste estudo específico. A segunda definição consiste na Educação Popular como ensino público. Neste sentido, se discute a democratização do saber escolar em instituições laicas e públicas. Grande parte dos Programas de Pós-graduação em Educação stricto sensu estão nas universidades públicas do país. Ainda que haja um processo de seleção, por vezes excludente e seletiva, o atual sistema de cotas sociais permite o acesso mais equitativo em relação ao público geral. No caso do Programa estudado, são trinta vagas por turma de Demanda Social e, dentre estas, quatorze são destinadas a cotas sociais, incluindo étnico-raciais (pretos, pardos e indígenas), pessoas com deficiência, pessoas transexuais e travestis, pessoas quilombolas e pessoas refugiadas. Para além, ainda se oferta duas vagas nesta turma para qualificação de servidores da Universidade (Programa de Qualificação Institucional da UFRRJ). A terceira nos é apresentada como educação das classes populares. Para isto, cabe situar o Programa e seus candidatos. Como já exposto, o PPGEA faz parte dos Programas de Pós-graduação da UFRRJ, que tem sua sede e seu campus principal em Seropédica, cidade da Baixada Fluminense. Essa região é marcada pela falta de cuidados mínimos para os cidadãos, educação com baixos índices em indicadores externos, pouquíssimos hospitais e unidades de pronto atendimento, saneamento básico precário, piores indicadores de renda per capita, população majoritariamente preta e parda. A Universidade, neste contexto, assume um papel crucial na formação do capital humano na região e vocação extensionista. Mais da metade dos candidatos ao curso de mestrado do PPGEA pertence à essa população. São docentes das redes municipais e estadual, gestores, ex-alunos da Universidade e pesquisadores da educação na Baixada Fluminense nos mais diversos aspectos – escolas rurais, educação do campo, pedagogias Decoloniais, educação popular, educação de jovens e adultos, educação inclusiva, educação quilombola, educação indígena, dentre outros. Por meio da Pedagogia da Alternância, com as aulas organizadas em semanas de formação, permite que o estudante concentre um tempo mais curto na Universidade e se ausente menos do lócus de trabalho, podendo este ser negociado com sua chefia imediata e não sendo necessária a dispensa total ou contratação de substitutos. Por fim, a educação da sociedade igualitária. A partir do que foi coletado e analisado, percebeu-se um grande esforço em contribuir para o desenvolvimento local, fomentando olhares outros sobre os problemas educacionais e pedagógicos que permeiam tantos problemas como o fracasso na formação a integral do indivíduo ou mesmo para o mundo do trabalho. Os mestrandos analisados conseguiram ultrapassar os muros da Universidade e desenvolveram elementos de transformação social impactando diretamente a formação de seus alunos na Educação Básica. Ao estimular o pensamento crítico das crianças, jovens e adultos a partir dos saberes escolares, abrem-se outros mundos para que possam também participá-los. É dessa forma que, como expõe Freire (1991; 1996), se atinge a autonomia, não deixando de lado aquilo que se conhece para adotar novos saberes, mas fazer com que eles se articulem num processo dialógico para o desenvolvimento de si e do outro para o bem viver. A Pedagogia da Alternância é um importante instrumentos para esta empreitada. Criada em 1930 na França para ajustar a educação de crianças camponesas e que chega no Brasil em 1968 no interior do Espírito Santo, passa a fazer parte da proposta pedagógicas dos CEFFAs (Centros Familiares de Formação por Alternância). Atualmente, são vinte e duas escolas em funcionamento em todo o estado do Espírito Santo visando a formação integral desses jovens na perspectiva de estarem integrados com o meio em que vivem (GIMONET, 2007). Porém, se no próprio campo onde foi criada, a Pedagogia da Alternância passa por uma série de problemas estruturais e institucionais, como afirmaram Dalia e Frazão (2011), como será que o PPGEA da UFRRJ lida com seus desafios em um nível de pós-graduação? METODOLOGIA O desenvolvimento da pesquisa foi dividido em partes por conta do volume do material coletado. O primeiro movimento se deu em relação ao Relatório Quadrienal da CAPES, disponível na Plataforma Sucupira. Precisou-se delimitar um período, uma vez que o Programa passou a ter egressos na Demanda Social no ano de 2010, e há um contingente com mais de trezentos e cinquenta trabalhos concluídos. Resolveu-se, portanto, em analisar os egressos do último quadriênio (2021-2024) segundo as normas da CAPES, pois a pesquisa também contribuiria para compor o estofo teórico do Relatório, fruto de outras pesquisas e análises em andamento. No quadriênio 2021-2024, foram analisados os materiais dos concluintes a partir do ano de 2016. Assim, desenvolveu-se a coleta e análise de dados com base nas teorias metodológicas de Mattar e Ramos (2021), no que tange a amostragem, viabilidade e confiabilidade dos dados, e Bardin (2020) no que se refere à análise do conteúdo. Primeiramente, identificou-se os diplomados de cada ano, a partir de 2016. Em seguida, buscou-se as dissertações pelos títulos e resumos a fim de revelar, ou não, contribuição relevante para a área da Educação Popular. Em um terceiro momento, foram analisadas as indicações de alguma proposta de intervenção na realidade social ou escolar pesquisada nas dissertações, visto que grande parte dos trabalhos de conclusão se preocuparam em vislumbrar caminhos que até então não tinham sido explorados. Posteriormente, pesquisou-se a trajetória de cada egresso a partir de seu currículo Lattes para constatar o salto qualitativo, ou não, de sua carreira acadêmica e profissional a partir do curso de mestrado. Por fim, foi aplicado dois questionários, de forma online, sobre a formação que tiveram, sobre o Programa, sobre a Pedagogia da Alternância e os impactos sofridos no / pelo / a partir de sua diplomação como mestres em educação pelo PPGEA. ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS Para o tratamento dos dados qualitativos, realizou-se uma análise do conteúdo (BARDIN, 2020) e também análise do discurso (em casos específicos de questões abertas do questionário). Já os dados quantitativos foram analisados a partir de estatística descritiva e inferencial, com base no quadro teórico de Mattar e Ramos (2021). O primeiro passo foi identificar os diplomados em cada ano, a partir de 2016. Não havia registro do atual sistema da UFRRJ desses alunos e na Plataforma Sucupira a consulta é nominal e não por turma de ingresso. Foi necessário ir ao arquivo morto e resgatar a listagem dessas turmas para que se identificasse naquele contingente apenas os estudantes das turmas de Demanda Social. No período foram titulados 508 mestres e apenas 183 foram da Demanda Social. É importante salientar o período pandêmico entre os anos de 2020 e 2021 que refletiu sensivelmente nas pesquisas, certificações e intervenções, visto que muitas delas tiveram que ser alteradas metodologicamente por conta da impossibilidade de ir a campo. No segundo passo, relacionou-se as dissertações por títulos e resumos com a finalidade de revelar, ou não, as contribuições relevante para a área da Educação Popular. Do contingente total dos trabalhos de conclusão deste grupo (183), 86 dissertações, ou seja, 47% dos trabalhos concluintes ressaltavam direta ou indiretamente a importância da confluência de saberes, do “tempo comunidade”, dos conhecimentos adquiridos em alternância. Este dado revelou a importância de uma educação plural e dialógica, como preconizou Freire (1996). A Pedagogia da Alternância proporcionou uma proximidade do estudante com a realidade pesquisada – refletindo, criticando e transformando a mesma. Destas dissertações, no terceiro momento, percebeu-se que 45 (52%) realizaram ou indicaram alguma proposta de intervenção na realidade social ou escolar pesquisada. Foi uma boa surpresa, mesmo pensando, em hipótese, que essas preocupações ocupassem o espaço da pesquisa deste grupo. Sobre a trajetória dos egressos pesquisada nos currículos Lattes dos egressos foi bem desolador, pois muitos não atualizaram o currículo desde a entrada no Programa. Isso foi um sinal de que para estes o processo acadêmico findou ali com o mestrado, pois não mais se preocuparam em atualizar sua formação, experiência profissional e publicações. O que também gerou grande prejuízo para as informações coletadas para o Relatório CAPES. A análise dos dois questionários também gerou desconforto por conta do baixo retorno dos egressos, via e-mail. Alguns e-mails retornaram por terem sido descontinuados, o que também ocorreu com os contatos via celular. Ainda assim, conseguimos tabular e quantificar essas percepções, que serão apresentadas presencialmente. CONSIDERAÇÕES FINAIS A partir da coleta e análise de dados, constatou-se que o PPGEA/UFRRJ é um Programa que, desde a sua oferta das turmas de Demanda Social, se preocupa com uma educação voltada para a formação integral de seus mestrandos e que o diálogo entre os saberes é essencial para o desenvolvimento de pesquisas relevantes que promovam um impacto social necessário na região da Baixada Fluminense. Desta forma, ele se apresenta como um Programa de Pós-Graduação em Educação voltado para a Educação Popular em sua missão e vocação, tendo na Pedagogia da Alternância a base para o acolhimento de múltiplos saberes e a inclusão social. Um detalhamento maior da pesquisa será realizado na apresentação do trabalho completo, com o registro de todos os dados. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BARDIN, Laurence. Análise de conteúdo. Lisboa: Edições 70, 2020. BRANDÃO, Carlos Rodrigues. O que é Educação Popular? São Paulo: Brasiliense, 1984. DÁLIA, Jaqueline de Moraes Thurler; FRAZÃO, Gabriel Almeida. Pedagogia da Alternância e desenvolvimento do meio: possibilidades e desafios para a Educação do Campo fluminense. Disponível em:
https://www.ipea.gov.br › area3 › area3-artigo16. I Circuito de Debates Acadêmicos, 2011. Acesso em: 01 abr. 2025. FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia. Paz e Terra, 1996. ______ . Das relações entre a educadora e os educandos. São Paulo: Olho d’água, 1991. GIMONET, Jean-Claude. Praticar e compreender a Pedagogia da Alternância dos CEFFAs. Petrópolis: Vozes, 2007. MATTAR, João; RAMOS, Daniela Karine. Metodologia da Pesquisa em Educação. São Paulo: Edições 70, 2021