CIRCULAÇÃO E APROPRIAÇÃO DOS ESPAÇOS PÚBLICOS POR UM GRUPO DE CRIANÇAS EM UMA CIDADE PEQUENA Este trabalho, fruto de uma pesquisa de doutorado, visa discutir como um grupo de crianças, ao circular em uma cidade pequena, no estado do Espírito Santo, se apropria dos espaços públicos. Para isso, estabeleceu-se dois objetivos específicos: identificar e analisar situações de interação das crianças nos e com os espaços da cidade e; registrar e interpretar os usos dos espaços públicos pelas crianças na cidade. Este estudo, sustentado pelo campo teórico dos estudos sociais da infância e os estudos urbanos, tem diálogo com pesquisas que relacionam as crianças e as cidades (Christensen; 2010; Müller; Nunes, 2014), com ênfase na apropriação dos espaços públicos pelas crianças (Gülgönen; Corona, 2019). nas desigualdades socioterritoriais que afetam a infância (Godoy, 2022) e na especificidade das cidades de pequeno porte, que representam 90% dos municípios brasileiros. A relação entre criança e cidade tem sido um dos temas recentes mais relevantes nos estudos sociais da infância, (Carvalho; Seixas; Seixas, 2024; Cerqueira; Carvalho, 2025), podendo ser constatado por meio do crescimento de pesquisas, publicações e eventos na área. De acordo com Sarmento (2019), o aumento do interesse nessa discussão se justifica pelo fato de a maioria da população mundial viver na cidade e pelo fato de as cidades sintetizarem grande parte dos problemas e tensões da sociedade contemporânea. Alguns estudos apontam que as crianças de áreas urbanas experienciam cada vez menos os espaços públicos, o que acaba por limitar seu conhecimento sobre a cidade como alguém que vive, participa e intervém na vida comum (Castro, 2004). Porém, é importante destacar que, diante das características peculiares da cidade pesquisada, em que as crianças se fazem presentes nos espaços da cidade, questionamos: Quais os usos atribuídos pelas crianças aos espaços públicos existentes na cidade? A metodologia empregada se orientou pela perspectiva etnográfica, em especial no conceito de “etnografia em movimento” (Müller; Sousa, 2023), combinada com o uso de métodos participativos e visuais. Como o foco da investigação estava na circulação das crianças na cidade, a etnografia em movimento proporcionou o dinamismo requerido enquanto “se desloca, pensa, sente, percebe junto com seus sujeitos de pesquisa, e toma como interesse aquilo que lhes motiva ao longo do trajeto” (Müller; Sousa, 2023, p. 03). Esses princípios também contribuíram para a análise do que emergiu nesse ato de se mover. O estudo contou com a participação de 29 crianças, com idade entre 1 ano e 8 meses e 11 anos, 13 meninos e 16 meninas, tendo sido realizado um acompanhamento sistemático de oito crianças, negras, moradoras de um bairro periférico, matriculadas em turmas da educação infantil e ensino fundamental I e que circulavam de forma autônoma na cidade. Quanto aos aspectos éticos, foram adotados os procedimentos explicitados nos Termos de Consentimento Livres e Esclarecidos – TCLE e Assentimento Livres e Esclarecidos – TALE que foram aprovados pelo Comitê de Ética em Pesquisa. O trabalho de campo ocorreu no período de um ano, desenvolvido em quatro fases: (i) mapeamento dos espaços públicos que contavam com a presença das crianças; (ii) aproximação com as crianças e suas famílias; (iii) acompanhamento das crianças em seus momentos de circulação cotidiana nos espaços públicos da cidade, como lazer, eventos, festas e trajeto casa-escola e (iv) realização de oficinas de escuta. Os registros dos dados que emergiram durante o campo: desenhos, fotografias, gravações de vídeo e áudio, notas de campo e representação tridimensional foram analisados e agrupados por similaridade de categorias e que se relacionavam com os objetivos da pesquisa, compondo, assim, as discussões apresentadas neste trabalho. Na análise empreendida foram exploradas diferentes dimensões das relações das crianças com os espaços públicos de Alegre, tais como: motivações, limites e possibilidades para a circulação; os marcadores sociais da diferença; o brincar com a natureza; as praças como espaço de brincar e de disputar a cidade; relações étnico-raciais e a participação das crianças em grupos de cultura; interações inter e intrageracionais e; as formas de ressignificação e apropriação dos espaços. Neste trabalho, conforme mencionado anteriormente, será abordada a apropriação dos espaços pelas crianças por meio da circulação na cidade. Formas de apropriação e ressignificação dos espaços públicos Ao longo da pesquisa foi possível perceber como a circulação pela cidade, em grupos formados por crianças de diferentes idades e sem a presença dos adultos cuidadores, em certa medida, ampliavam e influenciavam as possibilidades de apropriação dos espaços públicos. Lopes (2008, p. 78) afirma que “para as crianças a prática espacial é uma prática de lugar-território, posto que apreendem o espaço em suas escalas vivenciais, a partir de seus pares, do mundo adulto, da sociedade em que estão inseridas”. Tal perspectiva é importante para a compreensão de quais são os espaços vividos pelas diferentes infâncias e como as crianças os apropriam, atribuindo significados de forma a se aproximar de seus interesses e necessidades. Um exemplo que corrobora essa análise pode ser observado no episódio a seguir: No trajeto escola-casa, um grupo formado por 4 meninas e 1 menino, com idade entre 4 e 10 anos, me convidou para irmos por um caminho diferente do que costumávamos percorrer. As crianças alegaram que queriam me mostrar algo que era legal. Ao nos aproximarmos de uma esquina, elas correram alvoroçadas e se sentaram enfileiradas no meio fio, orientando o menino de 3 anos a se sentar à frente. Ao grito de “JÁ”, deram impulso, levantaram as pernas e escorregaram gargalhando. Subiram correndo pelo canto da rua e desceram novamente, repetindo isso algumas vezes. (Notas de campo, abril de 2022). Figura 1 – Ressignificação do meio fio no trajeto escola-casa Fonte: Acervo da pesquisa. As crianças, ao realizarem o trajeto escola-casa, identificaram que o meio fio de uma das casas que ficava em uma ladeira fora construído com granito, o que o tornava lúbrico. Assim, elas ressignificaram esse meio fio transformando-o em algo que gostariam de usufruir para o brincar, um escorregador, ou, no linguajar delas, “um chiador”. As crianças demonstram sua capacidade criativa de ressignificar objetos, arquitetura e espaços a partir da apropriação dos espaços em que circulam cotidianamente. Isso porque, na experiência da brincadeira, portanto, as crianças partilham os significados que marcam sua existência social e ressignificam situações, espaços e objetos, atribuindo novos entendimentos e formas de lidar com os objetos e situações ou criando situações que são do seu imaginário. (Carvalho, 2007, p. 121). O episódio apresentado também pode ser analisado por meio das ideias de Muchow (2012), ao destacar que o espaço na vida das crianças não é único, mas se constitui em três: aquele no qual ela vive, seus lugares concretos; o que ela vivencia, suas ações e comportamentos; e o que ela vive, apresentando suas formas de personalização e apropriação dos espaços urbanos. Cabe destacar a relação entre crianças de diferentes idades na brincadeira, em que as crianças mais velhas orientam o menino mais novo onde se posicionar. O menino demonstrou conhecimento de como se portar para fazer parte da brincadeira, se reconhecendo, assim, como um integrante do grupo. Em uma outra ocasião, ao propor a um grupo que fotografasse os lugares de que mais gostavam. Marcos, um menino de 5 anos, disse que gostaria de fotografar o “Escadão”, justificando: Marcos: Porque é bom pra brincar. Pesquisadora: E vocês brincam de que lá? Marcos: Pique pega, pique-alto, esconde-esconde, é o que mais gosto. Pesquisadora: Qual o lugar que você mais gosta de brincar aqui no morro? Marcos: O Escadão, né?! Pesquisadora: Por quê? Marcos: Porque tem muito lugar pra esconder. (Notas de campo, maio de 2022). Figura 2 – Marcos fotografando o Escadão Fonte: Acervo da pesquisa. Numa leitura preliminar, o espaço do Escadão que, a princípio parecia inadequado para o brincar, pois nele só existiam degraus intercalados com rampas e casas cercadas ao longo das laterais, foi indicado por Marcos como privilegiado para as suas brincadeiras. Ao longo do campo, por meio de observações, desenhos, fotos e vídeos produzidos pelas crianças, foi possível confirmar o que foi dito por Marcos. As crianças se apropriavam do Escadão por meio do brincar, ressignificando o espaço e ampliando as possibilidades de sua utilização. Elas apresentaram o que estava invisível ao olhar e percepção dos adultos, levando a questionar o que estava posto, ou seja, que aquele era apenas um espaço de ligação entre duas partes do território, como lugar de passagem. Os degraus e rampas do Escadão era o palco da interação de crianças de diferentes idades, transformando a arquitetura e restos de objetos dispostos pelo território em possibilidades para explorar e criar diferentes brincadeiras: o pique-esconde, o faz de conta, as apresentações musicais, os jogos de tabuleiro, o chiador, a guerra de bolinhas. Assim como no Escadão, pesquisas realizadas em contextos de favelas brasileiras apontam que a diversidade de brincadeiras das crianças também é promovida pela apropriação e ressignificação do que está disposto nas ruas, becos e escadarias por onde circulam entre pares (Coelho, 2004; Pérez; Jardim, 2015; Uglione, 2021). Dessa forma, as crianças apontaram que ao circularem pela cidade, se apropriam dos espaços existentes e atribuem novos significados a eles, provocando percepções que, para muitos, não seria possível alcançar fisicamente ou por meio da imaginação. Conclusão Ao circularem pelos espaços da cidade, as crianças observam o que compõe a cena urbana, e para além do reconhecimento de possibilidades de brincadeiras, elas apontam que a ressignificação dos espaços públicos é um modo de resistência à vida privatizada presente em muitas cidades (Veronese; Veronese, 2018). As formas com que as crianças ressignificam e se apropriam dos espaços ao circularem, ampliam as possibilidades de utilização e a compreensão sobre a cidade. Espaços que, a princípio, não eram percebidos como propícios para o brincar pelo olhar adulto, foram apontados pelas crianças como privilegiados, demonstrando, assim, que as crianças, utilizando seu corpo e imaginação, alcançam lugares e experiências inacessíveis aos adultos. É na observação cotidiana das miudezas, um material utilizado na construção, a inclinação de um terreno, as brechas, degraus, rampas, que as crianças vão se apropriando e ressignificando a cidade. Assim, elas provocam a enxergar e usufruir da cidade por outra lente, buscando romper com a lógica estabelecida para a composição e organização dos espaços. REFERÊNCIAS CARVALHO, Levindo Diniz. Imagens da Infância: brinquedo, brincadeira e cultura. 2007. Dissertação (Mestrado em Educação) - Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais, 2007. 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