EDUCAÇÃO E CULTURA DIGITAL: O PAPEL DA AUTORIA DOCENTE

- 215565
Resumo Expandido - Trabalho
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Abstract
INTRODUÇÃO Este texto apresenta o recorte de uma pesquisa de doutorado conduzida entre 2020 e 2024, no campo da Educação. A investigação parte do pressuposto de que o contexto da cultura digital reverbera na prática pedagógica dos professores, propondo, portanto, uma reflexão sobre os etnométodos empregados pelos docentes na construção de dispositivos educacionais. A cultura digital tem transformado as formas de ensinar e aprender, tornando essencial investigar como os professores utilizam dispositivos educacionais digitais na construção de suas práticas pedagógicas. Diante desse cenário, o estudo busca responder: como os professores da área de Linguagens e suas Tecnologias, no Ensino Médio, mobilizam saberes para a produção de dispositivos educacionais multi-hipermidiáticos, como exercício de autoria, no contexto da cultura digital? A investigação tem como base epistemológica a etnometodologia (Garfinkel, 2018; Coulon, 2017) e a pesquisa colaborativa (Desgagné, 2007; Ibiapina, 2008), perspectivas que se alinham ao objetivo geral de compreender a mobilização de saberes na produção de dispositivos educacionais multi-hipermidiáticos, como exercício de autoria, no contexto da cultura digital. Além disso, o estudo busca identificar os etnométodos utilizados pelos professores, analisar suas práticas pedagógicas e discutir as implicações da autoria docente no ensino público. Neste texto, especificamente, discutem-se os resultados relacionados à autoria docente na cultura digital, embasados nos estudos de Lemos (2020) e Bruno (2021). PERCURSO METODOLÓGICO DO ESTUDO A pesquisa adotou uma abordagem qualitativa, com base epistemológica na etnometodologia (Garfinkel, 2018; Coulon, 2017) e na pesquisa colaborativa (Desgagné, 2007; Ibiapina, 2008). Para tanto, o estudo foi conduzido em uma escola pública de Ensino Médio, localizada na Bahia, com a participação de professores da área de Linguagens e suas Tecnologias. Sob a perspectiva etnometodológica, a investigação propõe uma aproximação com o campo educacional, buscando compreender de que maneira os docentes colocam em prática os saberes adquiridos nas experiências cotidianas da escola. A interlocução entre os saberes escolares e acadêmicos busca contribuir para o aprimoramento das práticas pedagógicas e científicas, promovendo sua integração. A pesquisa colaborativa possibilita a construção coletiva do conhecimento, promovendo uma relação dialógica e horizontal entre escola e universidade, visando à superação das hierarquias no saber. Para a construção das narrativas, foram acionados diferentes dispositivos metodológicos como Sessões Reflexivas Formativas (Ibiapina, 2008), Entrevistas Etnonarradas e Etno-observação (Macedo, 2010); além dos dispositivos digitais Live e Podcast. As interações ocorreram no ambiente escolar, com a participação de cinco colaboradores identificados por nomes fictícios, em conformidade com os princípios éticos de preservação da identidade. As narrativas resultantes foram analisadas à luz da Análise Textual Discursiva (ATD) (Moraes; Galiazzi, 2016). A ATD é um processo auto-organizado de construção de compreensões sobre dado fenômeno, em que novos significados são construídos a partir de um ciclo de operações analíticas: a unitarização (fragmentação e seleção de unidades de análise), a categorização (identificação de padrões e relações significativas) e a comunicação (interpretação e produção de metatextos que expressam as compreensões construídas) (Moraes; Galiazzi, 2016). A AUTORIA DOCENTE NA CULTURA DIGITAL A cultura digital pode ser entendida como uma dimensão das práticas socioculturais que a etnometodologia estuda, especialmente no que se refere à integração das tecnologias digitais e suas particularidades. Sob a perspectiva etnometodológica, é possível analisar como as pessoas (re)criam significados em suas interações sociais cotidianas, já permeadas pelas tecnologias digitais que estabelecem outras formas de interação e práticas sociais em ambientes digitais. Assim, a cultura digital constitui uma dimensão fundamental das sociedades contemporâneas, independentemente da presença física das tecnologias digitais, uma vez que vivemos constantemente conectados por suas redes de significados. Independente da gente ter o modelo ou não de educação adequado. Ela já está dentro [referindo-se à cultura digital]. Ela já está aqui entre nós. Todo mundo está inserido. E com essa escola caótica, com essa sociedade corrupta que a gente tem, é nesse universo que a gente vai ter que usar...que a gente vai ter que ensinar... (Professora Sofia) A narrativa da professora Sofia destaca a presença onipresente da cultura digital na sociedade contemporânea e enfatiza a necessidade de incorporá-la à educação, mesmo em um contexto desafiador de uma “escola caótica”, interpretada neste contexto como uma instituição que carece de estruturas físicas adequadas para a atuação docente. O discurso da professora nos revela, também, o reconhecimento da professora em relação à importância das práticas socioculturais do digital, na vida das pessoas, na autoria docente, e, consequentemente, na formação dos alunos. Um conhecimento pertinente em um mundo cada vez mais digitalizado. Uma cultura de caráter plural e ubíquo, onde as pessoas constroem continuamente o mundo digital por meio de dispositivos tecnológicos e interações nas redes sociais. Desse modo, entendemos que: [...] a cultura digital é muito mais do que tais dispositivos, pois é cultura. Porém, é digital e abarca tudo o que é possível por e pelo digital. A cultura digital não se distingue por recursos tecnológicos ou estratégias, mas pela experiência de interação, comunicação, produção coletiva e colaborativa: são tais experiências que atribuem (outros) sentidos ao vivido por meio da práxis. (Bruno, 2021, p. 163) A cultura digital não se restringe aos aparatos tecnológicos; dizem respeito a como as pessoas atribuem sentidos às tecnologias para se comunicarem e colaborarem de maneira criativa e significativa, construindo, assim, uma realidade sociocultural. Nesse contexto, destacam-se a criação de outras formas de expressão, autoria e comunicação, bem como o compartilhamento dessas produções com outras pessoas, gerando significados e perspectivas acerca do mundo que nos cerca—embora nem sempre estejamos em um estado consciente de reflexividade sobre esses processos criativos. A reflexividade etnometodológica indica que todo ator social descreve e constitui práticas, produzindo o quadro social que orienta a vida cotidiana (Garfinkel, 2018). Esse raciocínio sociológico prático baseia-se no senso comum sobre as atividades rotineiras. Ao interagir, movimentamos significados, instauramos ordem e estabelecemos racionalidades, construindo coletivamente o mundo social pela linguagem. Nesse movimento, autorias se forjam; no contexto da cultura digital, é imprescindível que os docentes se reconheçam como autores-atores integrados a essa cultura. Inclusão digital é exatamente isso. Porque é você... Quando eu digo inclusão digital, você já é incluso digitalmente. Nós somos. Vem cá, você é para tirar o título no ano passado... No ano passado você precisou ir no Cartório Eleitoral? Não. Você fez tudo com o seu celular. Você precisa hoje da carteira de motorista, física? Não. Você precisa hoje de um... De uma Carteira de trabalho física? Tudo hoje está digital. (Professor Peguari) Nessa narrativa, o professor Peguari enfatiza a inclusão digital como parte essencial da vida cotidiana, tornando-a indispensável para a plena participação na sociedade. Diversos serviços sociais já se encontram no ambiente digital, o que demanda práticas pedagógicas alinhadas a esse contexto sociocultural. Nesse sentido, a formação docente e a autoria são fundamentais para construir práticas pedagógicas condizentes com estas realidades. Importa também garantir acessibilidade tecnológica a todos e promover maneiras éticas e seguras nos usos dos dispositivos digitais. O uso cotidiano de dispositivos digitais influencia as interações sociais e a construção de identidades, reforçando a necessidade de refletir sobre a autoria docente na cultura digital. A diversidade cultural evidencia que grupos sociais ressignificam elementos de formas diversas, em meio a relações de poder, resistência e dominação. Nesse cenário, compreender a autoria docente requer reconhecer sua atuação na formulação de cenários de aprendizagens mediados pelas tecnologias digitais. Na narrativa que se segue, o professor Peguari expõe sua concepção e experiência quanto ao uso das tecnologias: O próprio celular e o próprio computador já têm muita coisa digital. Eu não preciso de internet para fazer um vídeo. Eu não preciso de internet para fazer um documentário. Eu tenho a câmera, eu tenho voz, eu tenho tudo. Eu tenho programas que...funcionam sem internet, de forma offline, como tem jogos também que funcionam de forma offline, tem jogos que você tem que ter, tem que ser online, né? Não precisa. A internet... São raras coisas que a gente precisa de internet. De um sinal digital, de um sinal de Wi-Fi. É só, na verdade, para transmitir. Para o professor Peguari, os dispositivos digitais ampliam as possibilidades de autoria docente, mesmo sem acesso à internet. Ele enfatiza que alguns equipamentos contam com recursos autônomos para produção audiovisual, revelando que a autoria docente não se limita à conectividade. Sua visão apoia a ideia de integrar tecnologias na prática pedagógica, de modo crítico, criativo e contextualizado, respeitando as reais condições da escola. Quando a gente fala, muitas vezes você entra na escola, eu não vou fazer nada com celular ou computador porque não tem internet. Não precisa, gente. Não precisa necessariamente de internet para você trabalhar com a cultura digital. A cultura digital vai muito mais além do que uma conectividade através da internet. (Professor Peguari) A narrativa do professor mostra que a cultura digital transcende o ambiente on-line, perpassando o cotidiano por meio da criação de conteúdo e do uso de dispositivos. Em consonância, Lemos (2020) enfatiza que a cibercultura não é um campo isolado, mas uma prática social atrelada às tecnologias em rede, geradora de novas formas de sociabilidade. A narrativa do docente reforça a importância de desvincular a cultura digital da necessidade de conectividade, ao sustentar que a escola pode trabalhar tais práticas mesmo sem acesso à internet, abarcando atividades que extrapolam a mera conexão. Desse modo, a autoria docente emerge como prática reflexiva e crítica, alicerçada em um entendimento mais amplo de cultura digital. Ainda que a conectividade amplie o acesso à informação e facilite a comunicação, é essencial reconhecer que a cultura digital transcende o ambiente online. Como nos diz Lemos (2020, p. 11), “trata-se de um processo híbrido em que, nas tramas da vida em sociedade, humanos e seus artefatos fazem desenrolar o destino”. Ao desmistificar a dependência exclusiva da internet para caracterizar a cultura digital, a narrativa do professor ressalta que a autoria docente envolve apropriação crítica das tecnologias. Nesse sentido, os professores tornam-se autores de suas práticas, explorando as potencialidades dos dispositivos digitais no ensino e em aprendizagens significativas, mesmo em cenários com limitações técnicas. Essa perspectiva é importante pois rompe com o paradigma que reduz a cultura digital à conexão online. Em vez disso, as culturas digitais abrangem um conjunto diversificado de práticas que excedem as materialidades de artefatos digitais e as conexões telemáticas. CONSIDERAÇÕES FINAIS Neste estudo, evidenciou-se que a autoria docente transcende a mera adoção de dispositivos digitais, configurando-se como um processo criativo e reflexivo que dialoga com o contexto sociocultural das escolas. A apropriação crítica dos dispositivos, mesmo em situações de acesso limitado à internet, reforça o papel do professor ator/autor responsável pela criação de práticas pedagógicas significativas, capazes de estimular aprendizagens atentas às demandas da contemporaneidade. A articulação entre etnometodologia e pesquisa colaborativa contribuiu para mapear os saberes mobilizados pelos docentes, revelando os etnométodos que orientam suas práticas e fundamentam o exercício da autoria em sala de aula. A construção coletiva de conhecimentos, ancorada em processos colaborativos entre escola e universidade, favoreceu a compreensão das dinâmicas escolares e das particularidades que permeiam o uso das tecnologias digitais. Reconhecer a autoria como eixo estruturante da prática pedagógica amplia as possibilidades de interação e inclusão no ambiente escolar, evidenciando que a cultura digital não se restringe a conexões on-line, mas constitui um campo fértil para a criação, a colaboração e a transformação das realidades educativas. Discutir a cultura digital, portanto, ultrapassa a mera instrumentalidade técnica e implica compreender os sentidos e significados que ela nos apresenta na contemporaneidade, contribuindo para o fortalecimento de práticas pedagógicas autorais alinhadas às demandas do mundo atual e para a formação de sujeitos críticos e reflexivos. REFERÊNCIAS BRUNO, Adriana Rocha. Formação de professores na cultura digital: aprendizagens do adulto, educação aberta, emoções e docências. Salvador: EDUFBA, 2021. COULON, Alain. Etnometodologia e Educação. Tradução Ana Teixeira. São Paulo: Cortez, 2017. DESGAGNÉ, Serge. O conceito de pesquisa colaborativa: a ideia de uma aproximação entre pesquisadores universitários e professores práticos. Educação em Questão, Natal, v. 29, n. 15, p. 7-35, maio/ago. 2007. GARFINKEL, Harold. Estudos de etnometodologia. Petrópolis: Vozes, 2018. IBIAPINA, Ivana Maria Lopes de Melo. Pesquisa colaborativa: investigação, formação e produção de conhecimentos. Brasília: Líber Livro Editora, 2008. LEMOS, André. Cibercultura: tecnologia e vida social na cultura contemporânea. Porto Alegre: Sulina, 2020. MACEDO, Roberto Sidnei. Etnopesquisa crítica, etnopesquisa-formação. Brasília: Liber Livro Editora, 2010. MORAES, Roque; GALIAZZI, Maria Cândida. Análise textual discursiva. 2. ed. Ijuí: Editora Unijuí, 2016.

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