AS ESCREVIVÊNCIAS DE MULHERES NEGRAS – BREVES REFLEXÕES

- 215513
Resumo Expandido - Trabalho em Andamento
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Abstract
AS ESCREVIVÊNCIAS DE MULHERES NEGRAS – BREVES REFLEXÕES INTRODUÇÃO A partir do neologismo “escrevivência”, desenrola-se o presente estudo. O termo foi cunhado por Conceição Evaristo, utilizado pela primeira vez em sua dissertação de mestrado, em 1995, e, ao longo do tempo, foi se moldando até ser compreendido, na atualidade, como uma forma de expressão — oral ou escrita — das experiências vividas, especialmente por mulheres negras que, durante muitos anos, foram silenciadas em relação ao direito de contar suas histórias de luta e resistência, as quais contribuíram significativamente para a construção do país (Evaristo, 2008; Evaristo, 2009; Duarte; Nunes, 2020; Oliveira; Sampaio, 2021). O interesse em assumir o termo como conceito tem se intensificado, como destaca Fonseca (2020, p. 59), ao afirmar que “a discussão sobre seus sentidos ganha maior força a partir do momento em que passou a ser utilizado em artigos, dissertações, teses (...)”. Além de visibilizar as experiências de mulheres negras em seus percursos educativos, esta pesquisa ancora-se na compreensão de que há uma produção de saber situada, marcada por histórias de dor, resistência e potência. Nesse sentido, a escrita de si emerge como um ato político, como afirma Sueli Carneiro (2011, p. 43): "Quando a mulher negra escreve, ela funda uma nova gramática, alargando os sentidos da palavra e resgatando a dignidade de um povo historicamente silenciado." A escrevivência, enquanto prática de escrita e denúncia, rompe com a epistemologia eurocêntrica, reposicionando as mulheres negras como sujeitos de conhecimento, e não apenas como objeto de estudo. Com base nessa perspectiva, as escrevivências tornam-se um instrumento de reconstrução identitária, onde a memória, o corpo, a ancestralidade e o cotidiano tornam-se matéria-prima da análise. São, portanto, práticas de insurgência epistêmica, capazes de tensionar os saberes hegemônicos e afirmar a pluralidade de vozes que compõem o tecido social. Atualmente, devido à sua complexidade, o termo “escrevivência” tem sido alvo de discussões entre estudiosos(as) e pesquisadores(as) de diversas áreas das ciências humanas e sociais. Oliveira e Sampaio (2022) realizaram um estudo com o objetivo de analisar como esse conceito tem se expandido no campo das ciências humanas e sociais. Para os autores, ao abordar os aspectos acadêmicos — principais objetos de investigação — eles concluem que o conceito de escrevivência “vai além da unilateralidade de sentidos esperados, sendo entendido como uma noção com múltiplos significados e interpretações” (Oliveira; Sampaio, 2022, p. 289). Esse entendimento reflete que o conceito está em constante construção, promovendo novas discussões nas diversas áreas do conhecimento e abrindo horizontes para novas pesquisas. METODOLOGIA Com os olhares voltados à inclusão de mulheres negras, esta pesquisa tem como principais dados para reflexão e análise as escrevivências de três mulheres negras que compartilharam o mesmo espaço de formação acadêmica inicial, sendo este um dos critérios de inclusão para participação por meio de suas escrevivências. Tem-se como premissa uma investigação qualitativa, que envolve um conjunto de substantivos cujos sentidos se complementam: experiência, vivência, senso comum e ação (Minayo, 2012). O verbo principal da análise qualitativa é compreender, e compreender é exercer a capacidade de ver, de conhecer o lugar do outro, tendo em vista que, como seres humanos, temos condições de exercitar esse entendimento. Para compreender, é preciso levar em conta a singularidade do indivíduo, pois sua subjetividade é uma manifestação do viver total. No entanto, é necessário reconhecer que a experiência e a vivência de uma pessoa ocorrem no âmbito da história coletiva e são contextualizadas e envolvidas pela cultura do grupo em que ela está inserida (Minayo, 2012). Essas histórias se entrecruzam e dão vida ao trabalho, que busca analisá-las, com base nas teorias de Delory-Momberger (2016), no campo das ciências humanas, utilizando como base a metodologia de pesquisa em narrativas biográficas. RESULTADOS PARCIAIS Este trabalho, situado no campo da educação popular, valoriza tanto a educação formal quanto a não formal, buscando compreender quais saberes contribuíram, por meio da análise de seus registros, para a formação pessoal e social dessas mulheres. Pretende-se identificar quais foram seus enfrentamentos e formas de resistência, a fim de mostrar como os conhecimentos adquiridos permitiram a construção de novas rotas em direção a uma condição de vida mais justa e digna. Em relação a essas escrevivências, a primeira corresponde à história de vida de uma das participantes, que retrata fatos e experiências marcantes, atravessadas por condições sociais e culturais que evidenciam as marcas da temporalidade e dos espaços sociais. A segunda narrativa apresenta o viver, o ver e o escreviver de uma mulher negra que, com suas marcas históricas e experiências de vida, expressa força e superação diante dos desafios enfrentados. Por fim, a terceira traz uma trajetória de vida marcada por superação e resiliência. Cada uma traz suas marcas e peculiaridades, que em alguns momentos as distanciam, mas trazem em comum, as cicatrizes deixadas pelo racismo. A análise dos dados apresentados nas escrevivências dessas mulheres vem sendo realizada evidenciando fatos históricos e sociais, conhecendo seus percursos educacionais, identificando as desigualdades e resistências vividas durante a escolarização até a graduação, e compreendendo quais aspectos favoreceram sua construção e/ou desenvolvimento pessoal e coletivo. Conforme ensinam Vasconcelos e Sousa (2020, p.40), pautadas nas premissas da Educação Popular: “nossa ciência se faz com as pessoas, na convivência, tomando a teoria não como verdade absoluta ou ferramenta para hierarquização, dominação ou subalternização humana, mas sim como “local de cura” e de descolonização de saberes, a fim de alimentar nossa busca para superar os males oriundos do encobrimento da diversidade cultural e epistemológica impingido em toda América Latina”. CONSIDERAÇÕES PARCIAIS Ao reconhecer as escrevivências como um gesto de resistência e (re)existência, esta pesquisa também contribui para desvelar as estruturas que historicamente invisibilizaram as trajetórias de mulheres negras nos espaços educacionais e científicos. A escuta dessas narrativas possibilita não apenas a produção de conhecimento a partir do vivido, mas também a reafirmação de identidades que resistem ao apagamento. É nesse sentido que a escrevivência se estabelece como prática transformadora, onde escrever é também um ato de existir, ocupar e reconfigurar espaços de poder. Os caminhos para a construção de uma educação equânime, que atenda às singularidades que nós, brasileiros(as) afrodescendentes, merecemos, ainda avançam a passos lentos. No entanto, na busca por uma reparação histórica — e diante das possibilidades anunciadas tanto pelos movimentos sociais quanto pelas lutas e resistências aqui apresentadas —, vislumbra-se uma luz de esperança quanto à melhoria da qualidade de vida para as novas gerações. Corroborando Sousa e Vasconcelos (2022, p. 9): “Nossa posição, ancorada na obra de Freire e nos princípios da Educação Popular, é a de esperança. Ainda que a onda neoconservadora desenhe um cenário de profundo pessimismo e tristeza, quando testemunhamos a criminalização da pobreza e o recrudescimento dos índices de crimes inspirados no machismo, no sexismo, na homofobia, na transfobia e no racismo”. Desde que sejam valorizadas e respeitadas nossas ancestralidades, essa marcha por uma sociedade mais justa não será individualizada: a caminhada pela igualdade e pela dignidade das mulheres, especialmente as negras, é feita em coletividade. REFERÊNCIAS CARNEIRO. Sueli. Racismo, sexismo e desigualdade no Brasil. São Paulo: Selo Negro, 2011. DELORY-MOMBERGER, Christone. A pesquisa biográfica ou a construção compartilhada de um saber do singular. Revista Brasileira de Pesquisa (Auto) Biográfica, v. 1, n. 1, p. 133-147, 2016. DUARTE, Constância Lima; NUNES, Rosado Isabella. Escrevivência: a escrita de nós. Reflexões sobre a obra de Conceição Evaristo. 1ª ed. Rio de Janeiro: Minas Comunicação e Arte, 2020. EVARISTO, Conceição. Escrevivências da afro-brasilidade: história e memória. Releitura, Belo Horizonte, v. 1, n. 1, p. 5-11, 15 fev. 2008. Disponível em: https://www.itausocial.org.br/wp-content/uploads/2021/04/Escrevivencia-…. Acesso em: 29 out. 2024. __________. Conceição Evaristo por Conceição Evaristo. Depoimento no I Colóquio de Escritoras Mineiras. Belo Horizonte, maio de 2009. Disponível em: https://www.letras.ufmg.br/literafro/autoras/188-conceicao-evaristo. Acesso em: 29 out. 2024. MINAYO, Maria Cecília de Souza. Análise qualitativa: teoria, passos e fidedignidade. 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  • 1 Univás - Universidade do Vale do Sapucaí
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  • GT06 - Educação Popular