CAMINHOS E LUTAS DA EJA NUMA UNIVERSIDADE COMUNITÁRIA: DUAS PESQUISAS, UM ÚNICO OBJETIVO INTRODUÇÃO O presente trabalho apresenta o resultado de duas pesquisas concluídas, que se desenvolveram concomitantemente durante o ano de 2024, numa universidade comunitária. As pesquisas contaram com o apoio interno da própria universidade através do edital XXXX, do XXXXX e têm como objeto de estudo o campo da Educação de Jovens e Adultos e sua presença no meio universitário e na formação de professores. A primeiro projeto de pesquisa, que a partir de agora chamaremos de Projeto A, intitulado: XXXX, se ocupou em buscar entendimento sobre as ações implementadas pelo Núcleo de Educação de Adultos da XXXXX durante toda a sua existência, ou seja, entre o final dos anos 1990 e o momento atual. Apesar da longa atuação desse núcleo no campo da EJA em âmbito nacional, bem como em contextos internacionais, sua atuação nunca foi suficientemente sistematizada e socializada, o que justificou os esforços de reaproximação dessa história e de reconstituição de sua trajetória. O Projeto de Pesquisa, realizado durante o ano de 2024, permitiu fazer a sistematização preliminar dos documentos arquivados identificando 27 projetos realizados pelo núcleo. A compilação de todo esse material culmina com a elaboração de um e-book, de acesso livre, que facilitará a ampla divulgação dessas informações. O segundo projeto de pesquisa, que a partir de agora chamaremos de Projeto B, intitulado: XXXXXX, realizou discussões sobre o tema da Educação de Jovens e Adultos com os cursos de Licenciatura da referida universidade, com o objetivo de abrir espaço para esse campo na formação dos licenciandos. O trabalho ao longo do ano de 2024 contou com a representação de seis cursos de licenciaturas, do Pré-vestibular comunitário, das educadoras que atuam numa turma de alfabetização de jovens e adultos desenvolvida na sede do Núcleo de EJA, e de um projeto de extensão realizado em 2024 com escolas parceiras da universidade. Esse projeto propiciou a criação de um GT de EJA na universidade, realizou um Seminário que contou com participação dos cursos de licenciatura, estudantes e professores de EJA das escolas parcerias e organizou um livro com o resultado das discussões e reflexões feitas sobre o lugar da EJA na formação dos licenciandos. METODOLOGIA No Projeto A, foi feita a reconstituição da trajetória do núcleo a partir da análise de documentos existentes no acervo. O primeiro movimento foi tentar reconhecer os tipos de documentos que existiam no acervo do núcleo: 35 caixas box (de arquivo) repletas de documentos. Importante destacar que todo esse material estava apenas guardado, mas não arquivado de forma ordenada e/ou classificada. As caixas foram então arrumadas permitindo a identificação dos documentos e, consequentemente, dos projetos a que esses documentos se referiam. Ao final foi criada uma tabela para relacionar todos os documentos mapeados nesse trabalho. A tabela contém respectivamente os seguintes dados: a) a identificação da caixa; b) o tipo de documento; c) título do documento; d) autor (conforme identificado); e) data do documento; f) número de páginas; g) informações adicionais. A tabela possui 49 páginas de documentos identificados e relacionados. Depois de arrumadas, as 35 caixas foram reduzidas a um total de 22. Muita coisa do que havia nesse armário pôde ser separada do acervo, pois foram considerados documentos secundários à história do núcleo, como por exemplo: prestação de contas, notas fiscais, documentos pessoais dos participantes, entre outros. Todo esse material foi separado do acervo documental de modo que foram mantidos nas pastas apenas o que efetivamente estava relacionado aos projetos desenvolvidos pelo núcleo. Cada tipo de documento foi colocado em uma subpasta feita com uma folha de papel A3 dobrada ao meio onde se registrava por escrito: o nome do projeto, o tipo de documento e, se possível, o título e o ano. Essas subpastas foram colocadas em novas pastas box identificadas por números com um título que indicava o projeto a que se referiam os documentos. Depois de reconhecidos e organizados os documentos foram reagrupados por projetos, o que permitiu a identificação de 27 projetos realizados pelo núcleo ao logo da sua existência. A metodologia de trabalho do Projeto B, consistiu na criação de um Grupo de Trabalho – GT em EJA envolvendo os cursos de Licenciatura da referida universidade. Ao longo do ano de 2024 foram realizadas reuniões mensais desse GT com o intuito de provocar uma discussão sobre o campo da EJA na formação dos licenciados/as e dinamizar outras ações correlatas como: a classe de alfabetização mantida no campus, o pré-vestibular comunitário e uma ação de extensão iniciada durante a realização do projeto em parceria com uma das escolas públicas próximas à universidade. ANÁLISE E DISCUSSÃO DE RESULTADOS Ambos os projetos possuem um caráter interdisciplinar, que era uma das exigências do edital, e foram realizados numa parceria entre professores dos departamentos de Pedagogia e Letras. No Projeto A, do ponto de vista teórico-metodológico, foi realizado um estudo descritivo e exploratório no acervo documental do Núcleo de Educação de Jovens e Adultos. Dessa forma, foram construídas várias conexões entre as áreas da Educação e da Linguística Aplicada, promovendo um diálogo extremamente profícuo entre a Pesquisa Participante, na área da Educação Popular (FALS BORDA e BRANDÃO 1991; BRANDÃO, 2007) e a Pesquisa (do) Praticante, no âmbito da Prática Exploratória (ALLWRIGHT, 2003; MILLER, 2013). Entre os participantes essas conexões foram sendo estabelecidas e dialogadas de maneira informal na medida em que o trabalho de organização do acervo avançava. As discussões e descobertas do que caracterizou a prática desenvolvida pelo núcleo na formação de professores de EJA, nas classes de educação de jovens e adultos e em projetos de educação popular ratificaram a ideia de um trabalho exploratório, mesmo sem que sua equipe conhecesse esses conceitos. No Projeto B, a primeira atividade do projeto foi a apresentação da proposta de ação aos coordenadores de licenciatura dos Departamentos e à Coordenação Central das Licenciaturas (CCLic). Na sequência dessa primeira atividade, foi criado um Grupo de Trabalho (GT) em torno da EJA envolvendo professores e licenciandos representantes dos Departamentos: Biologia, Ciências Sociais, Educação, Filosofia, História, Letras. Além disso, das graduandas que atuam na classe de alfabetização no Núcleo de Educação de Jovens e Adultos e da coordenação do Pré-vestibular comunitário. Participaram também desse grupo de trabalho representantes de duas escolas estaduais que atuam na EJA: o XXXXX e o XXXX. O GT realizava reuniões presenciais mensais em que se discutiam temas próprios do campo da EJA a partir de demandas levantadas e ações realizadas pelo grupo, a saber: o acompanhamento semanal de alunos para desenvolvimento de atividades de leitura e escrita, no XXXX. os estágios em EJA realizados no XXXXX no trabalho contínuo com as turmas na disciplina de Filosofia sobre o tema “Educação, tempo e trabalho”; o acompanhamento semanal das estudantes que atuam na turma de alfabetização de jovens e adultos do campus, sobre o aprendizado da Matemática; a participação no Pré-vestibular Comunitário, a partir da análise do trabalho voluntário desenvolvido pelos licenciandos de Pedagogia e Sociologia. Os temas de discussão revelavam a presença de questões próprias dos campos da EJA, identificadas no cotidiano dos Departamentos, a partir das experiências dos alunos que: fazem estágios em EJA, que atuam em pré-vestibulares comunitários, que têm atuação em projetos de alfabetização de jovens e adultos, entre outros. Nas discussões iniciais feitas com representantes dos Departamentos que compõem as Licenciaturas ficou evidente que os professores que atuam na formação dos licenciandos não tinham qualquer interação com o campo da EJA. Na mesma medida, também ficou evidente que nos departamentos existem experiências de EJA que povoam o percurso formativo dos estudantes. Isso significa que há uma lacuna na formação dos estudantes em relação a essa modalidade da Educação Básica, mesmo sabendo que a EJA pode se constituir como um campo de trabalho para os licenciandos. Além das reuniões e do trabalho do GT, o projeto também se ocupou da organização do 1º SEJA – Seminário EJA licenciaturas da XXXX e da elaboração um livro que registra experiências realizadas e as reflexões sobre a EJA na formação de professores nos cursos de Licenciatura. CONSIDERAÇÕES FINAIS O Projeto A, ainda que parcialmente, consegue hoje evidenciar o trabalho do Núcleo de Educação de Jovens e Adultos e a sua contribuição para o campo da EJA em geral e para a a própria universidade. Isso pode ser constatado nos resultados desse projeto de pesquisa através: Da publicação organizada contendo a identificação dos 27 projetos realizados pelo núcleo; Do acervo impresso organizado e catalogado; Da disponibilização do acervo através do Núcleo de Memória, para que possa virar material de pesquisa e estudos dentro e fora da universidade. O trabalho feito nesse projeto possibilita a retomada de alguns projetos e ações no âmbito do próprio núcleo, projetando novas ações inspiradas no reconhecimento do que já foi feito, experimentado e consolidado. O reconhecimento dessa trajetória (que é passado) dialoga com as demandas atuais do núcleo (presente) e ajuda a projetar novos projetos (futuro). Essa é, em alguma medida, a função de um estudo sobre a memória, ou seja, olhar para o passado, com os pés no presente, para projetar o futuro (VELHO, 1994). No âmbito teórico, a realização desse projeto consolida a construção de um trabalho de pesquisa interdisciplinar e a construção de um campo de investigação que congrega e relaciona os campos da Educação Popular e da Prática Exploratória (ALLWRIGHT, 2003; MILLER, 2013). Conforme o objetivo do edital, de fomentar a relação interdepartamental e a criação de novos grupos de pesquisa, um dos resultados desse processo é a intenção de criar um grupo de pesquisa, no âmbito do próprio Núcleo de Educação de Jovens e Adultos, que se coloca em diálogo e aproxima a área da educação, especificamente a Educação de Jovens e Adultos, com estudos e práticas na área da Linguística Aplicada, designadamente no campo da Prática Exploratória. Esse projeto foi reapresentado e aprovado no edital de 2025 do XXXX a ideia é dar continuidade à sistematização da memória do núcleo a partir do acervo digital. O projeto conta também em 2025 com uma bolsista de iniciação científica financiada pela Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro – FAPERJ. O Projeto B promoveu o encontro e a troca de saberes de maneira singular com professores e licenciandos de diferentes departamentos nos estudos, nos debates, nas escritas e nas práticas de ensino. Como exemplo, a Prática Exploratória, prática desenvolvida nas licenciaturas de Letras, foi partilhada e vivenciada nas experiências das aulas de Filosofia e Pedagogia. A realização do 1º Seminário EJA nas Licenciaturas se tornou um diferencial de trabalho para os departamentos envolvidos. O foco dado à formação de professores, estimula a continuidade de reflexões sobre a EJA dos diferentes departamentos envolvidos. Essa luta precisa ser constante e continuada para a que a própria universidade perceba a relevância da inclusão da EJA na formação inicial de professores. A produção de um livro sobre a prática e a pesquisa no trabalho de formação de professores voltadas para a modalidade EJA é também um esforço de fazer reverberar o trabalho desenvolvido durante o ano de 2024 e manter viva a provocação iniciada com esse projeto. Neste ano de 2025, mesmo sem recursos específicos, o Projeto B pretende continuar atuando na universidade e nas escolas parceiras, acompanhando os graduandos em suas atividades de monitoria e de voluntariado, atividades complementares, estágios curriculares. A discussão levantada não pode se esvaziar. Para tanto o GT deve integrar-se ao trabalho do Núcleo de Educação de Jovens e Adultos já existente nessa universidade que tem total interesse na continuidade das ações desse projeto. A coordenação do GT pretende, também, buscar adesão e apoios para a realização do 2º SEJA das licenciaturas, na tentativa de solidificar ainda mais a reflexão sobre a formação de professores de EJA no âmbito das licenciaturas. Os dois projetos realizados durante o ano de 2024 representam um passo importante na luta e resistência da EJA no âmbito universitário. Elas buscam superar o olhar compensatório e caritativo que se têm sobre esse campo, historicamente identificado apenas como um campo ligado à ações de extensão universitária (não menosprezando aqui a importância da extensão). As duas pesquisas referendam a EJA como lugar que articula as dimensões de ensino, pesquisa e extensão, principalmente no âmbito de uma universidade comunitária como é o caso da XXXX. REFERÊNCIAS ALLWRIGHT, Dick. Exploratory Practice: rethinking practitioner research in language teaching. Language Teaching Research, v. 7, n 2, p. 113-141, 2003. MILLER, Inés Kayon de. Formação de professores de línguas: da eficiência à reflexão crítica e ética. In: MOITA LOPES, L. P. (org.). Linguística Aplicada na modernidade recente: Festschrift para Antonieta Celani. São Paulo: Parábola, 2013. BRANDÃO, Carlos Rodrigues e BORGES, Maristela Correa. A pesquisa participante: um momento da educação popular. In: Revista Educação Popular, Uberlândia, v. 6, p.51-62. jan./dez. 2007. DUARTE FILHO, José Elesbão. Saberes em Formação: memória dos processos de formação desenvolvidos pelo Núcleo de Educação de Adultos da PUC-Rio (NEAd) no Projeto Grandes Centros Urbanos. Rio de Janeiro. Dissertação (mestrado) – Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Departamento de Educação, 2022. FALS BORDA, Orlando e BRANDÃO, Carlos Rodrigues. Investigación participativa. – 3º edición – Montevideo: Instituto del Hombre; Ediciones de la Banda Oriental, 1991. VELHO, Gilberto. Memória, identidade e projeto. In: Projeto e metamorfose. Rio de Janeiro: Zahar, 1994.