O PAPEL DA EDUCAÇÃO PARA A EMANCIPAÇÃO DA MULHER NA OBRA “HIBISCO ROXO”

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Resumo Expandido - Trabalho
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Abstract
O PAPEL DA EDUCAÇÃO PARA A EMANCIPAÇÃO DA MULHER NA OBRA “HIBISCO ROXO” Introdução O presente trabalho surgiu a partir de nossas inquietações sobre muitos acontecimentos que vivenciamos cotidianamente, no que a forma como Chimamanda Ngozi Adichie, autora nigeriana da obra Hibisco Roxo aborda a questão de gênero é retrato de uma realidade em que mulheres são vítimas de violência, opressão, e o ápice de todas as formas de violência – o feminicídio. Neste sentido, entendemos que a educação pode contribuir para a mudança de mentalidade e possivelmente de comportamento, dependendo da perspectiva que se toma no decorrer do processo formativo. A obra em apreço ilustra o estado de violência com a mulher contemporânea que, como a personagem Kambilli sofre agressão por questões religiosas. Ao mesmo tempo em que retrata a resistência das mulheres nesse contexto opressor, também mediada pelo processo educativo, quando explora a temática do empoderamento feminino diante de um sistema patriarcal. Desta forma, o texto objetiva analisar o papel da educação para a emancipação da mulher na obra Hibisco Roxo, buscando evidenciar e potencializar o processo formativo como forma de emancipação da mulher. Metodologia A pesquisa é exploratória no que dispõe Gil (2008), a partir de pesquisa bibliográfica, cuja fonte principal foi a obra Hibisco Roxo (Companhia das Letras, 2011) de Chimamanda Ngozi Adichie. Mesmo sendo proveniente de fonte secundária, entendemos que a “pesquisa bibliográfica não é mera repetição do que já foi dito ou escrito sobre certo assunto, mas propicia o exame de um tema sob novo enfoque ou abordagem, chegando a conclusões inovadoras” (Marconi; Lakatos, 2003, p. 183). Para além do romance, recorremos a pesquisa bibliográfica de outras obras, sobretudo de Akotirene (2022), Beauvoir (2019), Bento (2022), Davis (2026), Duarte (2010), Evaristo (2005), Garcia (2015), Lerner (2019), Mill (2019), dentre outras. Resultados e Discussão Muito se tem discutido sobre educação e emancipação da mulher, discussão gerada pela necessidade que temos de combater e superar as formas de violência contra as mesmas nos dias de hoje. Neste sentido, acreditamos que a educação pode ser uma ferramenta imprescindível para sua emancipação política e financeira, quando mediada por uma formação verdadeiramente libertadora. No campo literário, as percepções das autoras nos permitem refletir, questionar, dialogar sobre os enfrentamentos diários vivenciados por mulheres no mundo todo, sobretudo a literatura feminista por ser um meio necessário para esta discussão, uma vez que a mulher passa a protagonizar a história, levantar questionamentos que ajudam a subverter as regras e convenções cultivadas de submissão feminina e sugere formas possíveis para tomadas de decisão que podem solucionar problemas como a violência doméstica, o machismo, entre outras (Coelho, 2000). Neste sentido, a literatura tem força humanizadora. É nesta perspectiva que a obra em análise expõe vários contextos de tortura sofridos pelas personagens Beatrice e Kambili, mas, também, destaca comportamentos subversivos de outras como o de Ifeoma, irmã de Eugene, e Amaka, filha de Ifeoma. Os princípios apontados e os estudos realizados ao longo desta pesquisa nos fazem compreender, para além da análise do romance, que muitos fatores corroboraram para que hoje mulheres se encontrem em situação de vulnerabilidade e sujeição. Também notamos a relevante busca em reverter esse quadro a partir da criação de mentalidades que nos ajudem a reconhecer, a mutar a estrutura patriarcal, consequentemente, a perspectiva de ver e tratar a mulher. Na obra Hibisco roxo (2011) encontramos episódios que reverberam o sofrimento de maneira mais intensa das mulheres, Kambili e Beatrice, condições de silenciamento, violência psicológica, violência física e aceitação de tais condições. À Beatrice cabia obedecer às ordens do marido, além de viver a agradar a comunidade religiosa umunna para que fosse vista como mulher íntegra, cheia de virtudes. Sem formação, a dependência financeira contribui para que ela permaneça submissa a todas as formas de opressão do marido. A emancipação do pensamento começa a ser construída lentamente durante as cenas, o que irá ajudá-la a se libertar da violência doentia, mas isso só é possível a partir da convivência com a cunhada Ifeoma a qual lhe aconselha e a faz refletir sobre a vida de repressão que a família vive. Ifeoma é uma mulher de forte personalidade, assim como a filha Amaka que é a extensão ou a renovação da personalidade da mãe, o que corrobora como relevante seguimento na rede de fortalecimento do feminino. Em Hibisco Roxo, Kambili e Beatrice simbolizam as figuras subalternas diante de Eugene, no entanto, paralelamente, Adichie cria outras personagens que confrontam essa condição, Ifeoma e Amaka, que têm outras vivências e procuram fazer com que Kambili e Beatrice sejam protagonistas de uma história que a busquem superar as opressões. Essa concepção da nova forma de ver o mundo começa a ficar evidente quando observamos o fragmento do romance em que Kambili tem lapso de pensamento o qual a faz repensar suas crenças e almejar a liberdade: Fiquei deitada na cama depois que Mama foi embora, deixando minha mente remexer o passado, pensando nos anos em que Jaja, Mama e eu falávamos mais com nosso espírito do que com nossos lábios. Até Nsukka. Nsukka começou tudo; o jardinzinho de tia Ifeoma perto da varanda de seu apartamento em Nsukka começou a romper o silêncio. A rebeldia de Jaja era como os hibiscos roxos experimentais de tia Ifeoma: rara, com o cheiro suave da liberdade, uma liberdade diferente daquela que a multidão, brandindo folhas verdes, pediu na Government Square após o golpe. Liberdade para ser, para fazer. Mas minhas lembranças não começavam em Nsukka. Começavam antes, quando todos os hibiscos do nosso jardim da frente ainda eram de um vermelho chocante (Adichie, 2011, p. 22). Observamos na obra o começo da ruptura com o silêncio, o que irá abalará com a estrutura da família de Kambili por meio das influências sofridas durante a convivência entre as mulheres do romance, embora Kambili tenha tido compreensão e reconhecimento da sua condição antes do comportamento da mãe e do irmão serem impactados pelos conselhos e atitudes de Ifeoma e sua família. A família de Ifeoma, uma professora universitária, viúva, que cria os três filhos de forma amorosa, respeitosa, sempre incentiva-os a contestar e a alçar voos cada vez mais altos. Naquele instante, percebi que era isso que tia Ifeoma fazia com os meus primos, obrigando-os a ir cada vez mais alto graças à forma como falava com eles, graças ao que esperava deles. Ela fazia isso o tempo todo, acreditando que eles iam conseguir saltar. E eles saltavam. Comigo e com Jaja, era diferente. Nós não saltávamos por acreditarmos que podíamos; saltávamos porque tínhamos pânico de não conseguir? (Adichie, 2011, p. 238). Como enfatiza o trecho, Kambili agia impulsionada pelo medo, enquanto os primos portavam-se pelo apoio que recebiam da mãe. Por essa representatividade é que Ifeoma exerce com mais expressividade a figura da subversão na trama e influencia a cunhada Beatrice a subverter a sofrida vida que levava. Diante do contato com a família da tia Kambili vai contemplando a forma prazerosa de vida que levavam, mesmo com toda dificuldade financeira, constante falta de energia, de gás, ambiente calorento, era uma família que desfrutava de uma alegria invejável. Os conselhos que Ifeoma procurava dar muitas vezes eram ligados à educação para que a cunhada pudesse estudar e ter a possibilidade de mudar de vida, entretanto, suas proposições não eram bem recebidas pela cunhada porque Beatrice vivia conformada com a vida de submissão que levava. O comportamento benevolente e diligente de Beatice parece inabalável, não há orientação convincente capaz de fazê-la mudar de comportamento. A vida de apatia e acomodação que Beatrice leva são reverberações da forma como foi criada. A ideia acima nos leva a pensar na realidade de muitas mulheres que não tiveram oportunidade de estudar pela falta de condições financeiras que vivem. Outras, mesmo com todas as possibilidades de acesso e permanência, não estudam, talvez por não terem dimensão do quão importante é a formação para a emancipação do pensamento e da possibilidade da independência financeira. Outa compreensão que o pensamento de Ifeoma evoca é que, muitas vezes, a mulher que vive em uma relação abusiva não consegue se desprender, seja por dependência emocional, por questões de finanças, ou outro motivo. Todavia, muitas vezes, a vida digna de uma mulher começa quando o casamento acaba porque é a partir do livramento de uma vida infeliz que ela passa a experienciar momentos de paz e liberdade. As falas de Ifeoma estão em constante confronto com as atitudes de Eugene que, embora se assemelhe ao exemplo de ser humano, ela conhece muito bem o irmão violento que tem. No trecho abaixo, acompanhamos a hostilidade de Ifeoma quanto sua insatisfação perante o quadro agravante de saúde do pai e a crueldade do irmão em negar assistência como todo filho deveria fazer: Mas você sabe que Eugene briga com as verdades das quais ele não gosta. Nosso pai está morrendo, ouviu bem? Morrendo. Ele é um homem velho, quanto tempo ainda tem de vida, gbo? Mas Eugene não o deixa entrar nesta casa, se recusa até a falar com ele. O jokal Eugene tem de parar de fazer o trabalho de Deus. Deus é grande o suficiente para fazer seu próprio trabalho. Se Deus for julgar nosso pai por escolher o caminho de nossos ancestrais, então Ele que faça o julgamento, não Eugene (Adichie, 2011, p. 105). O discurso de Ifeoma reverbera o que presenciamos cotidianamente quando somos julgadas por nossas opiniões acerca de assuntos polêmicos como o aborto, a homossexualidade, pela roupa que usamos, pela forma como nos comportamos diante de certas situações, entre 95 tantos outros motivos. É uma vigília constante da nossa conduta por parte de algumas pessoas religiosas que tentam justificar seu preconceito usando o nome de Deus. São pessoas que, contraditoriamente aos ensinamentos divino, para quem acredita, se comportam contra os ensinamentos dele que, dentre tantos, é amar e fazer o bem ao próximo. Considerações finais É enveredada a temática da educação a partir das figuras representativas: Beatrice, cuja formação é a Educação Básica, e Ifeoma, professora universitária, evidenciando a importância que se dá à educação como ferramenta essencial para a emancipação da mulher e a busca da superação das violências sofridas pelas mulheres. Neste contexto, entendemos que a formação acadêmica da mulher é imprescindível para que ela tenha oportunidade de adentrar aos espaços que ela queira estar, romper barreiras impostas e desfrutar de suas conquistas, sem julgamentos de outrem. O romance nos permite refletir sobre a história de uma personagem que passou pela educação científica e venceu barreiras, o que mostra, para além da ficção, o quanto é essencial que as mulheres tenham acesso à educação. Referências ADICHIE, Chimamanda Ngozi. Hibisco roxo. Tradução: Julia Romeu. 3. impressão. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. AKOTIRENE, Carla. Interseccionalidade. 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GIL, Antonio Carlos. Métodos e técnicas de pesquisa social. 6. ed. São Paulo: Atlas, 2008. LERNER. Gerda. A criação do patriarcado: história da opressão das mulheres pelos homens. Tradução Luiza Setellera- São Paulo: cultrix, 2019. MARCONI, Marina de Andrade; LAKATOS, Eva Maria. Fundamentos de Metodologia Científica. São Paulo: Atlas, 2003. MILL, Jhon Stuart. A sujeição das mulheres. Tradução Débora Ginza. São Paulo: Lafonte, 2019.

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  • 1 UFPA-PPGEDUC – UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ
Track
  • GT23 - Gênero, Sexualidade e Educação