A ATUAÇÃO DO INSTITUTO ALPARGATAS NAS POLÍTICAS EDUCACIONAIS DA PARAÍBA

- 215454
Resumo Expandido - Trabalho em Andamento
Favorite this paper
How to cite this paper?
Abstract
A ATUAÇÃO DO INSTITUTO ALPARGATAS NAS POLÍTICAS EDUCACIONAIS DA PARAÍBA Introdução O trabalho apresenta pesquisa de mestrado em andamento cujo objetivo geral é compreender a atuação do Instituto Alpargatas (IA) na educação básica pública, por meio dos programas e ações desenvolvidas nas redes municipais da Paraíba. Compreende-se que o processo de privatização da educação vem sendo intensificado ao longo do século XX e XXI em um movimento global de redefinição do papel do Estado, seguindo um modelo hegemônico neoliberal que busca implantar na educação a lógica do livre mercado, por meio da competição, do empreendedorismo e de políticas que buscam equiparar a escola a uma empresa (Freitas, 2018). O Brasil regulamentou as “parcerias” entre o setor público e privado a partir da Lei Federal nº. 11.079/04. De acordo com Adrião (2018) o termo “parceria” não significa uma relação de colaboração horizontal, mas sim, a subordinação da educação pública brasileira aos desígnios do setor privado. É nesse contexto, que problematiza-se acerca da atuação do Instituto Alpargatas (IA) e sua influência na política educacional dos municípios paraibanos. Trata-se de uma pesquisa de caráter bibliográfico e documental, fundamentada na revisão dos estudos na área e também em documentos relacionados com essa política, como a Lei Federal nº 11.079/04 assim como editais organizados pelo Instituto Alpargatas para a premiação dos professores. Na concepção de Evangelista (2008) tais materiais expressam algo mais que diretrizes para a educação, articulam interesses, projetam políticas e estabelecem intervenções sociais. Apresenta-se aqui os resultados parciais da pesquisa, pautados na revisão da literatura que versa a respeito do processo de privatização da educação básica pública no Brasil, ancorando nosso estudo de autores como Freitas (2012; 2014; 2018), Adrião (2018; 2020), Neves (2005) entre outros. Resultados parciais e discussão A atuação dos grupos empresariais na educação pública vem se intensificando ao longo dos anos, como uma alternativa para a crise do modo de produção keynesiano do pós-guerra (Galzerano, 2016). Nesse contexto, o projeto hegemônico neoliberal reformulou o papel do Estado nas políticas sociais, assim, a intervenção estatal seria destinada apenas à proteção da economia e dos interesses burgueses. Compreendendo esse processo histórico de perpetuação da classe dirigente como detentora do poder, observa-se a interferência desses sujeitos na constituição de uma nova pedagogia da hegemonia (Neves, 2005). O Instituto Alpargatas foi criado em 2003 como o braço social dessa famosa empresa do ramo calçadista, de modo que pode-se considerá-lo um Aparelho Privado de Hegemonia, pois, de acordo com Souza, Rodrigues, Macêdo (2025) os APH se caracterizam como proprietários dos programas, dos materiais didáticos e dos pacotes de ensino utilizados nas redes municipais de ensino. O Instituto Alpargatas está há 22 anos desenvolvendo programas na educação básica pública, principalmente nas redes municipais de ensino paraibanas. Neste recorte, tratar-se-á de três projetos em específico: Educação pelo esporte, Educação pela cultura e o Voluntariado empresarial. O IA está presente em 13 municípios paraibanos: Alagoa Nova, Lagoa Seca, Campina Grande, Guarabira, Bananeiras, Serra Redonda, Mogeiro, Ingá, Santa Rita, João Pessoa, Queimadas, Cabaceiras e Itatuba. Em 2025 expandiu sua atuação para mais um município: Baía da Traição. Além dos projetos acima mencionados, o IA atuou na implementação do programa Sistema de Gestão Integrada – SGI entre 2010 e 2012, em diversas redes municipais paraibanas, como Campina Grande e Alagoa Nova. Tal proposta buscava “modernizar” a gestão das escolas, buscando eficácia, eficiência e gestão por resultados, tentando equiparar a educação à lógica do mercado. Na concepção de Medeiros (2013) o SGI era uma proposta de intervenção na gestão escolar pautada no modelo gerencial. O programa “Educação pelo esporte”, criado em 2003, está fundamentado em quatro pilares: desenvolvimento de competências; qualificação de esportes escolares; reconhecimento de boas práticas e disseminação de conhecimento. Entre estes o reconhecimento de boas práticas por meio de premiações como o Aluno Nota 10, criado ainda em 2003, cujo objetivo seria incentivar jovens talentos. Em 2007 foi criada a premiação Professor Nota 10, e em 2011 a categoria Gestor Nota 10, tendo como critério o desempenho do gestor nos aspectos interpessoal, administrativo, financeiro e pedagógico. Para concorrer a tal premiação é necessário que os professores desenvolvam projetos nas escolas em que trabalham incentivando o empreendedorismo e a sustentabilidade. Para Freitas (2012) o fato de colocar professores para competir entre si ou entre as escolas promove um o individualismo, retirando da educação o seu caráter social e coletivo. O programa “Educação pela cultura” tem a pretensão de reformular o currículo das escolas de educação básica tendo como base as leis 10.639/2003 e 11.645/2008 que versam sobre a obrigatoriedade do ensino da cultura afro-brasileira e indígena nas escolas. Como parte deste programa foram implantadas em cerca de 102 escolas aulas de capoeira que atendem crianças desde a creche até o ensino fundamental. Compreende-se que, apesar de parecer algo interessante, este programa altera o calendário e o planejamento escolar, uma vez que obriga as escolas a criarem mostras pedagógicas para apresentarem os resultados desses projetos. O programa Alpa Voluntários em Ação (AVA) existe desde 2003 e estimula a participação dos funcionários da empresa em atividades comunitárias, realizando pequenas reformas nas escolas municipais (Instituto Alpargatas, s.d., n.p.). Para Adrião (2020) promover reformas na infraestrutura de escolas configura-se como privatização da educação que se enquadra na dimensão da oferta educacional. Perante essa conjuntura, observa-se que o empresariado entende a educação como o capital, que necessita de reformas para intensificar a produção e manter a classe burguesa como dominante. Nesse contexto, o IA vem intensificando sua atuação na educação básica pública paraibana por meio de seus programas que buscam moldar a educação a um projeto neoliberal de sociedade. 4. Considerações finais Com base nas análises realizadas até o momento e tendo por base as contribuições de Adrião (2020), compreende-se que o Instituto Alpargatas vem atuando, desde sua implantação nas dimensões de privatização da oferta, da gestão e do currículo na educação paraibana. A privatização da oferta mostra-se mais evidente através do programa de voluntariado, que coloca os funcionários da empresa para realizarem reformas na estrutura das escolas, transferindo a responsabilidade do Estado para o setor privado na manutenção da infraestrutura das escolas. A privatização da gestão foi realizada por meio do SGI, enquanto a privatização do currículo escolar ocorre por meio dos programas “Educação pelo esporte” e “Educação pela cultura”, em que observa-se a alteração do calendário escolar e a definição de conteúdos e de quando e como essas questões devem ser trabalhadas, sem consulta à comunidade. Além disso, esse tipo de privatização também ocorre por meio das premiações para os professores e gestores, o que induz que estes desenvolvam projetos pedagógicos que promovam a sustentabilidade e o empreendedorismo, conforme as determinações do IA. Compreende-se, assim, que a interferência do empresariado na educação pública brasileira fere a autonomia e o princípio da gestão democrática nas escolas públicas, moldando a formação das novas gerações à imagem e semelhança da classe empresarial, reflexão esta que será aprofundada ao longo da pesquisa. 5. Referência ADRIÃO, Thereza. Dimensões e formas da privatização da educação no brasil: caracterização a partir de mapeamento de produções nacionais e internacionais. Currículo sem Fronteiras, v. 18, n. 1, p. 8-28, jan./abr. 2018. ADRIÃO, T.; GARCIA, T.; DRABACH, N. A influência dos atores privados na educação paulista: a primeira geração da privatização. Políticas Educativas, v. 13, n.2, p. 96 - 108. EVANGELISTA, O. Apontamentos para o trabalho com documentos de política educacional. In: ARAÚJO, R. M. L.; RODRIGUES, D. S. (Org.). A pesquisa em trabalho, educação e políticas educacionais. Campinas, SP: Alínea, 2012. v. 1, p. 52-71. FREITAS, Luiz Carlos. Os reformadores empresariais da educação: da desmoralização do magistério à destruição do sistema público de educação. Educ. e Soc., Campinas, v. 33, n. 119, abr.-jun. 2012, p. 379-404. FREITAS, Luiz Carlos. A reforma empresarial da educação: nova direita, velhas ideias. São Paulo: Expressão Popular, 2018.GALZERANO, Luciana S. Grupos empresariais e educação básica: estudos sobre a Somos Educação. Dissertação (Mestrado em Educação). Unicamp Faculdade de Educação, 2016. INSTITUTO ALPARGATAS. Site oficial. Disponível em: https://www.institutoalpargatas.com.br/. Acesso em: 31 de mai. 2024. MEDEIROS, Sonayra da S. O Gerencialismo na Educação Pública: A implementação do Sistema De Gestão Integrado (SGI) na rede municipal de Campina Grande/PB. Dissertação (Mestrado em Educação). Programa de Pós-Graduação, Universidade Federal de João Pessoa, 2013. NEVES, Lúcia M. W. A sociedade civil como espaço estratégico de difusão da nova pedagogia da hegemonia. In: NEVES, Lúcia M. W. A nova pedagogia da hegemonia. São Paulo: Xamã, 2005, p. 85 – 125. SOUZA, Antônio L. L.; RODRIGUES, Melânia M.; MACÊDO, Sonayra S. M. Negócios em jogo: a formação continuada de docentes na disputa de hegemonia em Campina Grande. Cad. Cedes, Campinas, v. 45, 2025.

Share your ideas or questions with the authors!

Did you know that the greatest stimulus in scientific and cultural development is curiosity? Leave your questions or suggestions to the author!

Sign in to interact

Have a question or suggestion? Share your feedback with the authors!

Institutions
  • 1 UNIVERSIDADE FEDERAL DE CAMPINA GRANDE
Track
  • GT05 - Estado e Política Educacional