O ADOECIMENTO DOCENTE E OS FUNCIONAMENTOS ESCOLARES: A CONJUNTURA SOBRE O TRABALHO E A SAÚDE MENTAL DOS PROFESSORES

- 215452
Resumo Expandido - Trabalho
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O ADOECIMENTO DOCENTE E OS FUNCIONAMENTOS ESCOLARES: A CONJUNTURA SOBRE O TRABALHO E A SAÚDE MENTAL DOS PROFESSORES INTRODUÇÃO Com as inúmeras mudanças ocorridas na sociedade em geral desde a pandemia da Covid-19, o campo da educação passou por uma série de mudanças, principalmente, medidas relacionadas ao ensino, estratégias que visam à recuperação ou minimização das lacunas potencializadas pela pandemia e, principalmente, cuidados com os comportamentos ligados à saúde, tanto física quanto mental. Diversos aspectos demandaram novas articulações, como o domínio de tecnologias no ambiente escolar, o aprimoramento de métodos de ensino que fossem efetivos e alcançassem os estudantes, a implementação de atividades voltadas à obtenção de resultados e a busca incessante por recuperar o tempo considerado “perdido” no que se refere aos conteúdos que deveriam ter sido ministrados. Nesse contexto, o estudo sobre o trabalho docente fez-se necessário, sobretudo por se tratar de profissionais intrinsecamente envolvidos com o fazer pedagógico, participantes ativos no percurso do processo educacional — tanto como sujeitos que o constroem quanto como aqueles que por ele são constituídos. Como afirmam Previtali e Fagiani (2022, p. 159), “os docentes inserem-se no contexto escolar da Educação Básica de forma particular, pois são, ao mesmo tempo, formados pelo sistema educacional e principais formadores no processo escolar [...]”. Dessa forma, o fazer docente, atravessado pelas condições de funcionamento das instituições escolares, revela a realidade desses profissionais, que têm adoecido em decorrência de suas condições laborais e/ou das circunstâncias que permeiam sua rotina: a jornada excessiva de trabalho, a desvalorização profissional e a ausência de políticas públicas educacionais adequadas. A pesquisa demonstrou a importância de se problematizar o trabalho e o adoecimento docente, sua relação com os funcionamentos escolares e os impactos na saúde mental desses profissionais, além de identificar os fatores que causam sofrimento psíquico presentes em seu cotidiano e as dificuldades enfrentadas. Evidenciam-se, assim, as principais características relacionadas ao trabalho e à saúde dos docentes. METODOLOGIA Este estudo caracteriza-se como uma pesquisa bibliográfica, fundamentada na análise de artigos científicos obtidos em bases de dados como a Scientific Electronic Library Online (SciELO), o Portal de Periódicos da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e a Biblioteca Eletrônica de Psicologia (PePSIC). Para o presente trabalho, as discussões foram desenvolvidas a partir de um recorte que contextualiza a temática por meio da análise de artigos disponíveis nessas plataformas, bem como das contribuições teóricas de autores como Foucault (2013), Tardif (2014) e Deleuze (2013). A seleção dos artigos considerou publicações realizadas no período de 2013 a 2023, utilizando-se de palavras-chave relacionadas à saúde mental, ao trabalho docente e ao funcionamento das instituições escolares. A análise dos dados foi conduzida com base em uma abordagem qualitativa, com o objetivo de identificar a relação entre os fatores associados à saúde mental dos docentes e o desempenho institucional no contexto escolar. ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS De acordo com a Organização Internacional do Trabalho (OIT, 2021), a profissão docente apresenta um alto nível de estresse, sendo crescente o número de professores acometidos por patologias relacionadas à saúde física e, principalmente, à saúde mental. Diante disso, os cuidados com a qualidade da educação escolar devem incluir uma atenção especial à condição do professor enquanto trabalhador do ensino. Nesse sentido, Paro (2019) destaca dois aspectos fundamentais: as condições de trabalho e a formação docente. Quanto ao primeiro, ressalta-se a questão salarial, considerando que a remuneração movimenta o capital e gera um ciclo em que o trabalho é forçado em troca da recompensa financeira. Em relação à formação, o autor enfatiza a apropriação do conhecimento como principal objetivo, observando, contudo, que as concepções de formação política voltadas para a educação estão cada vez mais ausentes dos debates e estudos educacionais. Ainda na perspectiva de uma formação docente com menos interesse pelas concepções políticas para educação, Deleuze (2013) comenta sobre a maquinaria envolvida na sociedade antes disciplinar, e que agora se revela na sociedade do controle, que no caso da escola, e especificamente na formação docente, procura não expandir conhecimentos de ideais críticos e de formação política. Dessa maneira, observa-se que nessas relações entre o Estado e a sociedade, mas especificamente, a classe dos docentes, existem uma relação de poder com objetivo de controle dos corpos através da dominação, como afirma: O poder encontra-se disperso por toda parte: ele está presente nos discursos das ciências, nas várias instituições e até na organização familiar. Atualmente, o poder é exercido de maneira polimorfa ou polivalente e ao mesmo tempo, econômico, político, judiciário e epistemológico. Estas várias formas de poder organizam o tempo e administram os corpos dos indivíduos para assegurar o sucesso da exploração (Foucault, 2013, p.10) Assim, em razão dessa ideia de controle do Estado com a sociedade, e também em relação a escola, e aos docentes, que tendem a se submeter a relações difíceis e condições precárias no trabalho. Martins, Araujo e Amorim (2021) entendem que a universalização do ensino, a precarização do trabalho docente, as inúmeras dificuldades de valorização dos profissionais, a falta de políticas públicas e o crescimento do adoecimento dos profissionais são processos que necessitam ser avaliados concomitantemente. Nascimento e Seixas (2021) apontam a importância de se conhecer os fatores que levam os docentes ao adoecimento, para a criação de estratégias voltadas à promoção de saúde mental, bem-estar e qualidade de vida desses profissionais e, consequentemente, uma reverberação da melhoria na qualidade da educação básica no Brasil. Diante disso, considerar os funcionamentos escolares - as relações estabelecidas nesses espaços - é de suma importância, pois eles se refletem nas atividades diretas no cotidiano dos educadores e dessa forma podem ser geradores de situações produtoras de sofrimento psíquico no ambiente de trabalho (Souza, 2007) Entre as situações estressoras que podem levar as doenças laborais, Carlloto e Braun (2010) afirmam que várias pesquisas estão sendo realizadas e estas apontam a grande incidência da Síndrome de Burnout entre os docentes, comparados a outros profissionais, principalmente pelo desgaste físico e psicológico diante das pressões, frustrações e cobranças no ambiente de trabalho. Dessa maneira, vê-se um cenário em que, muitas vezes, o docente pode ter dificuldades de pensar sobre o processo saúde-doença devido à naturalização do mal-estar estigmatizado pela própria profissão, ocasionando, assim, a demora na busca auxílio na atenção básica de saúde (Penteado; Neto, 2019). Com a pandemia da Covid-19, a saúde mental passou a ser pauta de relevância, devido às mudanças de comportamento que as pessoas tiveram que adotar, em decorrência das restrições de isolamento e afastamento. Dessa maneira, percebeu-se o que apontam Resende et al. (2021, p. 04): “Pessoas mentalmente saudáveis compreendem que ninguém é perfeito, que todos possuímos limites e potencialidades”. CONSIERAÇÕES FINAIS Destarte, é necessário que os docentes estejam bem e preparados fisicamente e mentalmente; por mais que isso seja uma proposição, um ideal, sabe-se que a realidade da classe docente é totalmente precarizada e que a maior atenção se concentra em torno dos estudantes. Isso não está errado, porém é notório que, a cada dia que passa, as condições de trabalho e as preocupações em torno da produtividade docente crescem assustadoramente. Segundo Moreira e Rodrigues (2018, p. 3), “o trabalho é um fator estruturante da subjetividade humana, afeta a relação entre prazer e sofrimento e pode contribuir para a saúde ou para o adoecimento”. Dessa forma, vários fatores podem colaborar para o adoecimento docente, visto que muitos enfrentam jornada longas de trabalho diariamente, além de condições estruturais e materiais precárias nas escolas. Assim, a identificação precoce de fatores geradores de situações estressoras e agravamento da saúde mental do docente pode favorecer a busca de estratégias de minimização ou desenvolvimento de cuidados relacionados ao bem estar no trabalho, como afirmam Martini et al. (2021, p. 2) ao evidenciar que “partindo da premissa de que o adoecimento mental relacionado ao trabalho tem sido uma crescente problemática observada no contexto nacional e internacional”. Continuamente os autores discorrem que o protagonismo dos trabalhadores na identificação precoce de sinais e sintomas associados pode auxiliar na prevenção dos agravos, estratégias de educação junto a esta população podem ser uma proposta para conscientização sobre o assunto. Todavia, para implementar práticas efetivas relacionadas à saúde mental do trabalhador docente, é importante que haja políticas públicas educacionais que, nas formações, priorizem momentos de discussões sobre sua própria formação, que estimulem o pensamento crítico sobre sua prática, com a diminuição de ideias de produção de números e aumentos de índices educacionais. Dessa forma, é necessário tempo e oportunizar para o docente construir sua própria ideia de estar na docência, de participar de decisões relacionadas às políticas educacionais. Conforme Tardif (2014, p. 243) “[...] se quisermos que os docentes sejam sujeitos do conhecimento, precisaremos dar-lhes tempo e espaço para que possam agir como atores autônomos de suas próprias práticas e como sujeitos competentes de sua própria profissão”. Um estudo de Lourenço e Valente (2020) aponta que aspectos negativos relacionados à rotina escolar podem contribuir para o aumento da ansiedade e das fragilidades na saúde do docente; segundo as autoras, ficou evidenciada a necessidade de apoio psicológico para os docentes, devido à alta carga estressora advinda do ambiente escolar; portanto, deve-se considerar a importância de medidas e estratégias que possam auxiliar o trabalhador docente em suas atividades. REFERÊNCIAS BRAUN, Ana Claudia. CARLOTTO, Mary Sandra. Síndrome de Burnout: estudo comparativo entre professores do Ensino Especial e do Ensino Regular. 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