SAMBA, COTIDIANO ESCOLAR E O AQUILOMBAR DAS CORPOREIDADES NEGRAS: UMA PESQUISA EM APRESENTAÇÃO Introdução O presente texto tem como objetivo apresentar a pesquisa de Doutorado em Educação, realizado em instituição pública na região sudeste do Brasil, nos seus primeiros movimentos, a partir dos olhares e escrita das duas autoras: a doutoranda e a orientadora, ambas professoras de Educação de Física, da educação básica e do nível superior, respectivamente. Nossas andanças pelo mundo são atravessadas por encontros, pessoas e objetivos variados. As escolas, grupos de pesquisa e, escolas de samba são espaçotempos formativos. O interesse pelo mundo do samba se materializou em nossas pesquisas durante a pandemia. Vivendo (e sofrendo) o contexto e, ao mesmo tempo, sendo pesquisadoras em que a corporeidade é nossa categoria central para mobilizar as investigações que realizamos, ao assistir aos desfiles de carnaval nesse momento, a pesquisadora principal desse artigo é extremamente afetada pelo samba. A partir daí, inicia diálogos com muitos coletivos e pessoas interessadas e imersas nesse mundo, acessando leituras (sinopses de escolas de samba, livros, enredos etc) e narrativas que faziam o coração disparar, literalmente, pelas aproximações daquilo que já pesquisava – democracia e cotidiano escolar - com a novidade de pensar o samba, a escola de samba e o aquilombar como processos formativos. O panorama atual da educação no Brasil tem sido afetado por tensões e contradições que exigem olhar atento e em suspeição. O avanço das forças conservadoras, pautadas no neoliberalismo e na necropolítica (Mbembe, 2018) provoca movimentos de desqualificação da educação, precarização da vida e apagamento de culturas, de modos de existir que são plurais. Há avanços nas lutas em prol da vida, da retomada da história a partir de processos educativos dentro e fora das instituições escolares. As Leis 10.639/03 e 11.645/08 são parte das lutas em prol da ampliação de forças no campo democrático, pois provocam visibilidade da história e memória da parte da população negra e indígena que tem sido dizimada, vilipendiada, nas tentativas de apagamento. Nesse processo, para nós torna-se necessária a ampliação do olhar e dos estudos que tragam as corporeidades negras para o centro do debate. De acordo com Souto (2021, p. 155), em se tratando da experiência no Brasil da diáspora negra, “a tecnologia ancestral do aquilombamento, em sua temporalidade, se adapta e se atualiza às condições de opressão encontradas de forma a garantir a manutenção e preservação das formas sociais e culturais das comunidades negras”. O cotidiano escolar, nessa perspectiva, é um espaçotempo propício para o samba e seus modos de operar, pois dialoga com o sentido de sociabilidade e educabilidade, podendo ajudar a pensar nas transformações a partir da leitura e vivência da “história que a história não conta” (G.R.E.S. Mangueira, 2019). Um dos problemas a ser estudado é a lacuna educacional ao não reconhecer e visibilizar a existência de ferramentas, políticas e espaçotempos de formação das corporeidades negras a partir do samba e dos saberes advindos do aquilombar. Compreendemos que corpo não é só anátomo-fisiológico (Carvalho, 2017) – por isso corporeidade, é também pensá-lo como (...)possibilidade de expansão, exposição e materialização de outros sentidos, para além daqueles biológicos [...]são atravessados e despertados pelas memórias, pelas histórias, pelos acontecimentos que dão contorno a existência. Trazem pessoas, lugares, sensações e marcas que afirmam epistemologias, políticas, estéticas, modos de ver e tratar o outro e o mundo. (Silva e Carvalho, 2023, p. 2) Desse modo, ter o samba e o aquilombar na centralidade da pesquisa, e da vida, é afirmar a potência e fortalecimento do campo democrático, pois O samba é esse complexo de saberes que tem na roda a sua origem e permanência de uma herança ancestral africana, ressignificada em afrobrasilidade. Floresce e tece em redes. Nó que une os mundos. Canção que embala os corpos. Contradição que se revela Brasil. (Natal, 2020, p.1) A partir do exposto, a pesquisa tem como objetivo geral investigar a interface entre os estudos do samba, da democracia e da formação de corporeidades negras fortalecidas pelas memórias e vivências de aquilombamento presentes na escola de samba Portela, situada em Madureira e, no Colégio Pedro II (Campus Realengo I). Destacamos os objetivos específicos: a) Analisar o conceito de aquilombar como ato político de formação democrática e fortalecimento das corporeidades negras; b) Identificar, na escola formal e na escola de samba, movimentos cotidianos (instituídos e instituintes) que se aproximam dos princípios/fundamentos da perspectiva do aquilombar como organização social e ideológica; e c) Construir, em artesania, possibilidades educativas com os cotidianos, a partir do samba e do aquilombar. A metodologia deste estudo está embasada nos pressupostos das pesquisas com/nos/pelos cotidianos (Certeau, 2014; Oliveira, Peixoto, Süssekind, 2019; dentre outros/as). Para tanto, percorreremos o caminho teórico-metodológico das narrativas, porque a condição de pesquisador/a praticante implica em compreender que “Se a própria arte de dizer é uma arte de fazer e uma arte de pensar, pode ser ao mesmo tempo a prática e a teoria dessa arte [...]. A narrativização das práticas seria uma ‘maneira de fazer’ textual, com seus procedimentos e táticas próprios” (Certeau, 2014, p. 140-141). O lócus da pesquisa é a Escola de Samba Portela, localizada em Madureira e; o Colégio Pedro II (Campus Realengo I) que atua com os Anos Iniciais do Ensino Fundamental. Ambos intitulados “escolas”, cotidianos onde a primeira pesquisadora está imersa, sendo lócus coletivos, portanto, sociais e políticos. Os sujeitos da pesquisa, praticantes culturais, que coabitam esses cotidianos com a pesquisadora, são os/as sambistas (pessoas da velha guarda, baianas, rainha de bateria, passistas, compositores/as, componentes de alas etc); e docentes, servidores e estudantes/as. As narrativas são das andanças pelas escolas de samba com seus eventos (ensaios, festas, feijoadas etc); e pelo cotidiano escolar (aulas de Educação Física, reuniões de planejamento, colegiados, projetos de ensino, biblioteca, recreio). A partir dos registros dos atravessamentos da pesquisa, há intenção de refletir a partir de inquietações que movem a pesquisa, pensadas a partir da “tríplice questão: o que vês? O que pensas disso? O que fazes com isso? E assim, até o infinito” (Rancière, 2017, p.44). Estas questões oportunizam dialogar com Freire, pois os processos formativos presentes na pesquisa “começariam por essas perguntas básicas de nossa vida cotidiana, desses gestos, dessas perguntas corporais que o corpo nos faz” (Freire; Faundez, 2017, p. 71). Algumas das muitas perguntas presentes na vida e na pesquisa são: aquilombar é um ato político com viés democrático? Que marcas tornam um corpo aquilombado? Como essas marcas fortalecem esse corpo? As questões não são necessariamente para serem respondidas com respostas determinantes, ao contrário, é um modo de remexer o que já sabemos e o que ainda estamos acessando nas memórias, nos estudos e nos encontros, de forma a contribuírem no mergulho com/pelas narrativas. Considerações para desdobramentos Essa pesquisa busca ampliar os estudos na temática da produção de processos educativos pautados na democracia e nos saberes afrodiaspóricos, e robustecer a discussão sobre o samba como expressão de resistência, memória e letramento crítico. Por isso, trará para a roda e avenida da pesquisa a polifonia das vozes indicando pistas de caminhos democráticos (Silva, 2015) presentes nos cotidianos e de outros/as autores/as que possam contribuir para pensar caminhos e outras questões para a temática pesquisada, fortalecendo o movimento coletivo de educação democrática dentro e fora das escolas, robustecendo outras culturas e modos de viver, expressando e fortalecendo as corporeidades, por meio do aquilombar, para o enfrentamento das violências socias, políticas, epistemológicas, ambientais e outras. O que está em diálogo com a temática da 42ª Reunião Nacional ANPED. Palavras-chave: Samba; Cotidiano escolar; Democracia; Corporeidades; Aquilombar. REFERÊNCIAS CARVALHO, Rosa Malena. A cultura corporal como concepção que organiza a educação física e organiza o escolar. Revista Teias, Rio de Janeiro, RJ, v. 18, n. 49, p. 254-268, abr./jun. 2017. CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano: 1. Artes de fazer. 22. ed. -Petrópolis: Vozes, 2014. FREIRE, Paulo; FAUNDEZ, Antonio. Por uma pedagogia da pergunta. 8. Ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2017. G.R.E.S. ESTAÇÃO PRIMEIRA DE MANGUEIRA. Enredo: História pra Ninar Gente Grande. 2019.
https://mangueira.com.br/site/sambas-enredo/Acesso em 21/04/2024. MBEMBE, Achile. Necropolítica: biopoder, soberania, estado de exceção, política da morte. Tradução Renata Santini. São Paulo: N-1 edições, 2018. NATAL, Vinicius. Samba: uma janela para o mundo. Pensamento Social do Samba. 30 jun. 2020.
https://www.pensamentosocialdosamba.com/post/samba-umajanela-para-o-mun…. Acesso em: 13 de maio de 2024 OLIVEIRA, Inês; PEIXOTO, Leonardo & SÜSSEKIND, Maria Luiza (orgs.). Estudos do cotidiano, currículo e formação docente. Curitiba: CRV, 2019. RANCIÈRE, Jacques. O Mestre Ignorante. Tradução: Lilian do Valle. Belo Horizonte: Autêntica, 2017. SILVA, Cintia; CARVALHO, Rosa Malena. Corporeidades e as escolas de samba como memória e letramento racial. VI Seminário Processos Formativos e Desigualdades Sociais - V Seminário de Egressos – UERJ/FFP, São Gonçalo, 2023. SILVA, Cintia. Escola de tempo integral e jornada ampliada: fatores e possibilidades que favorecem a democracia no cotidiano escolar. Dissertação de Mestrado – UERJ/FFP – 2015. SOUTO, Stéfane. É tempo de aquilombar: da tecnologia ancestral à produção cultural contemporânea. Políticas Culturais em Revista, Salvador, v. 14, n. 2, p. 142-159, jul./dez. 2021.