OS ANCIÃOS INDÍGENAS E SEU PAPEL FORMATIVO NA ATUAÇÃO DOS PROFESSORES BARÉ DA COMUNIDADE PISASÚ SARUSAWA, NO RIO CUIEIRAS, AMAZONAS.

- 215367
Resumo Expandido - Trabalho em Andamento
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Abstract
OS ANCIÃOS INDÍGENAS E SEU PAPEL FORMATIVO NA ATUAÇÃO DOS PROFESSORES BARÉ DA COMUNIDADE PISASÚ SARUSAWA, NO RIO CUIEIRAS, AMAZONAS. INTRODUÇÃO Este trabalho aborda a relevância do papel dos anciãos indígena, visando apresentar experiências pedagógicas na educação escolar indígena, concomitante com os ensinamentos dos anciãos, por meio de suas memórias de riqueza simbólica, cultural e dos conhecimentos tradicionais no que tange o papel formativo na prática educativa dos professores indígenas Baré. A pesquisa, ainda em andamento, é etnográfica e com abordagem qualitativa. Os instrumentos utilizados durante o percurso da coleta de dados e na observação direta são as entrevistas narrativas e o uso do diário de campo. O presente estudo discute o papel formativo dos anciãos indígenas na atuação dos professores Baré da comunidade Pisasú Sarusawa, localizada no rio Cuieiras, afluente do Baixo rio Negro, distante a 80 km da cidade de Manaus. O estudo faz parte da linha de pesquisa em educação, saberes e culturas do programa de pós-graduação em educação da Universidade do Estado do Amazonas-UEA. As entrevistas com a liderança, professores, comunitários e principalmente os anciãos indígenas permitirão adensar a pesquisa. Nossa análise dos dados encontra-se em fase de finalização. Cada comunidade/aldeia indígena possui modo peculiar para eleger o ancião, uma vez que, são eles os detentores do conhecimento da língua, ciência tradicional e cosmovisão do seu povo. Sobre a pedagogia dos avós e pais na educação indígena, o autor Tuyuca, Rezende afirma que: Nossos avós possuem diversos conhecimentos (conteúdos), diversos modos de cuidar da pessoa (pedagogia) e diversas forças imateriais (benzimentos, forças das divindades) para cuidar da pessoa do educador, dos filhos e da comunidade, dos ambientes [casas, florestas, caminhos, roças, rios...]. A meta da educação é educar para que o filho e a filha cheguem a ser bons membros do povo ao qual eles pertencem. Finalmente, que ele e ela saibam viver bem. (Rezende, 2013 p. 206). Ao mesmo tempo, o autor faz uma análise sobre seu pensamento no que diz respeito aos modos de educar e a importância para a vida dos indígenas. Sobre ciência e saberes tradicionais Rezende enfatiza: [...] hoje em dia não é possível dizer categoricamente que somente os saberes tradicionais indígenas serão soluções para os problemas do mundo nem tão pouco dizer que somente os saberes ocidentais [não indígena] é que resolverão os nossos problemas. Eu vejo o mundo material e imaterial hoje está pedindo ajuda para continuar existindo melhor. Nós indígenas que moramos lá no interior, dentro das florestas sofremos também com as consequências da destruição humana da biodiversidade, da natureza, da floresta, da poluição, etc. Nesses últimos quinze anos em nossa região, do alto rio Negro, se buscam recuperar os saberes de nossos avós que foram sendo deixados de lado desde que começou o processo de escolarização, na década de 1920. Gradualmente nós indígenas do rio Negro fomos estudando outras ciências ocidentais, de tal maneira que pensávamos que estudando tais ciências não precisaríamos mais dos nossos saberes tradicionais. Mas sem esses saberes nossas vidas indígenas tiveram muitos vazios que nem ciências modernas ocuparam e substituíram (Rezende, 2013, p. 207). Historicamente os povos indígenas são dinâmicos por realizarem mudanças de acordo com suas necessidades. Na atualidade, a história e cultura indígena tem tido alcance em outras sociedades “plurais e complexas” de modo que exige dos indígenas nova maneira de pensar, teorizar, construir novos saberes, bem como aprender a ciência ocidental. Na análise do autor percebe-se que nem um saber é mais ou menos importante que o outro. METODOLOGIA Este estudo utiliza a pesquisa qualitativa, configurando-se como uma pesquisa etnográfica, fundamentada no pensamento de Geertz (1999) que descreve a inserção do pesquisador no ambiente pesquisado com a comunidade e a escola. Vale destacar que o exercício da etnografia não é apenas selecionar os sujeitos e transcrever as entrevistas e textos e sim exige do pesquisador um esforço intelectual que o autor denomina de “descrição densa”. Para análise dos dados adotamos a hermenêutica por estar muito ligada à filosofia da linguagem e um modo de entender e considerar a realidade. (Gadamer, 1997). Os instrumentos adotados foram as entrevistas narrativas, uso do diário de campo e outros registros oriundos da observação participante. O local da pesquisa é a Escola Indígena Municipal Puranga Pisasú, situada na comunidade Pisasú Sarusawa. ANÁLISES E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS No ano de 2014 iniciei trabalhos na educação escolar indígena no município de Manaus, especificamente no assessoramento pedagógico aos professores indígenas. Com o passar do tempo e muitas vivências construídas, senti interesse e necessidade de conhecer a trajetória de vida, os saberes tradicionais e a cosmovisão dos indígenas mais velhos das comunidades/aldeias. Em muitos desses lugares percorridos, pude observar o quanto essas pessoas são determinadas, vigorosas, participantes e atuantes em seu cotidiano, porém minha experiência empírica junto aos processos educativos desses povos, se transformaram em inquietações especificamente voltada ao ancião (a) no campo da educação, com o objetivo de elucidar em que medida os anciãos participam das práticas educativas na escola e fora dela, analisando o papel do ancião (a) como formador (a) junto à formação dos professores Baré. Durante a pesquisa de campo, nas entrevistas direcionadas aos professores Baré, foi questionado sobre como acontece a participação dos anciãos junto aos professores, Apigawa Mirĩ enfatiza de forma reflexiva que: [...] eu vejo que o aprendizado dos alunos se dá muito no espaço informal, porque eu estava fazendo uma reflexão um dia desse sobre isso, e aí eu presenciei algumas atividades nesse sentido e quando você tira um ancião do espaço, do contexto dele, do cotidiano dele, você leva para um ambiente mais formal, um espaço sala de aula, por exemplo, ele não se sente tão à vontade para expressar, para transmitir os conhecimentos dele, entendeu? Mas, eu fiz essa leitura e quando você pega essa mesma turma, você chega, vai até onde o ancião está, onde ele está ali perto de um espaço de um assado, de uma casa de farinha, de uma roda de história no final da tarde, você consegue subtrair dele muitos saberes, muitos conhecimentos, porque é interessante que ele vai muito mais além, ele consegue produzir mais nesses espaços informais, é interessante isso. (Professor Baré Apigawa Mirĩ, em entrevista concedida em 2023). O professor esclarece que há interação dos anciãos junto aos professores Baré na escola, porém, pontua que os anciãos ficam mais à vontade quando os professores levam os alunos nos espaços não formais. A escola indígena municipal Puranga Pisasú há quatro anos realiza no mês de abril a Semana Baré em alusão a data comemorativa de 19 de abril. Durante os dias de evento, acontecem diversas programações, dentre as quais a mais esperada é o Mingau com os Anciãos Indígenas. Segundo o ancião Mutuca, essa prática educativa foi pensada principalmente para envolver os jovens na transmissão dos valores e a história do povo Baré: A semana Baré é um repasse da valorização, significados de passar os conhecimentos que temos ainda vivo da cultura Baré, aos jovens e alunos da escola Puranga Pisasú, antigamente a semana Baré era preparada uma semana antes e assim queremos manter. Depois que as igrejas entraram nas aldeias e comunidades mudou os costumes dos povos indígenas, isso é uma perca muito grande. Não pode deixar seus costumes, tem que carregar até morrer. (Fala proferida pelo ancião Mutuca no dia 18/04/24). A semana Baré reúne a comunidade escolar, os comunitários e os convidados especiais que são os anciãos protagonistas da comunidade e do evento. A epistemologia Baré está presente na fala de cada ancião, nos aspectos da educação, saberes e valores indígenas. Um momento importante do evento é “O mingau com os anciãos”, que é o encontro entre os mais velhos e experientes da comunidade. Em resumo, é um espaço de diálogo e que tem sabor de memórias, troca de saberes, formas de viver e visão de mundo dentro da cosmologia indígena. CONSIDERAÇÕES FINAIS A análise preliminar desta pesquisa, mostra que os anciãos se sentem mais à vontade nos ambientes não formais, pois entendem a educação como um processo mais amplo, comunitário e possível em outros espaços. Nessa conjuntura, os professores indígenas se apropriam dos conhecimentos que são oferecidos pelos anciãos, assim os mesmos podem acumular saberes e ter ideias de como organizar suas aulas a partir dos relatos dos anciãos, convidá-los para participar de atividades dentro e fora da escola, levar os alunos para os espaços formais e não formais produzindo e ressignificando novos conhecimentos aos alunos. REFERÊNCIAS CANUTO, Cristina Luciano de Oliveira. Política linguística na perspectiva de fortalecimento na língua indígena yĕgatu: construção de material didático e sua aplicabilidade. Dissertação (mestrado) - Universidade Federal do Rio de Janeiro, Museu Nacional, Mestrado Profissional em Linguística e Línguas Indígenas - PROFLLIND, 2022. GADAMER, Hans-Georg. Verdade e método. Tradução: de Flávio Paulo Meurer. Petrópolis, RJ: Vozes, 1997. GEERTZ, Clifford. A interpretação das culturas. l. ed. IS. reimpr. Rio de Janeiro: LTC, 2008. 323p. REZENDE, J. S. Ciências e saberes tradicionais. Revista Tellus, v. 13, n.25, p. 201-213, jul./dez. 2013. Disponível em: https://www.tellus.ucdb.br/tellus/article/view/338. Acesso em: 25 out. 2022. REZENDE, J. S. Homens e mulheres indígenas contemporâneos da região do Rio Negro, Amazonas. Revista Tellus. Campo Grande, MS ano 16, n.31, p. 153-161, jul./dez. 2016.

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