AVALIAÇÃO DE NARRATIVAS EM LÍNGUAS DE SINAIS: ASPECTOS MACRO E MICROESTRUTURAIS

- 215254
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Abstract
AVALIAÇÃO DE NARRATIVAS EM LÍNGUAS DE SINAIS: ASPECTOS MACRO E MICROESTRUTURAIS Diante da necessidade de descrever características do desenvolvimento da língua em crianças surdas da Catalunha e Espanha, bem como traçar uma trajetória evolutiva das características das narrativas, descrevendo os elementos formais identificados, o grupo de pesquisadoras desenvolveu um Instrumento de avaliação de texto narrativo em línguas de sinais (JARQUE et al., 2018) utilizado para subsidiar análises de narrativas e denominado Valoración de Narrativas en Lengua de Signos – Lengua de Signos Catalana/Producción (NarVaL-LSC/Prod) Em seguida, a autora brasileira que colaborou para a criação do NarVaL-LSC/Prod apresenta uma versão traduzida e adaptada para uso da Libras, no contexto das escolas brasileiras, denominado Avaliação de Narrativas em Língua Brasileira de Sinais/Produção (NarVaL-Libras/Prod) (XXXX, 2020). De acordo com as pesquisadoras, se as crianças surdas de 6 anos, por exemplo, foram minimamente expostas à língua de sinais da comunidade onde vivem, são potencialmente capazes de eliciar uma narrativa macroestruturada. Caso isso não ocorra, é fundamental uma intervenção pedagógica para seu desenvolvimento. É preciso destacar que a narração de história não é algo tão simples para as crianças surdas ao considerar que, em muitos casos, a aquisição de linguagem deixa de ser um processo natural quando não é possível contar com interlocutores fluentes em língua de sinais. Vygotsky (2008) afirma que o processo de desenvolvimento da linguagem da criança ocorre por meio da interação e das trocas interpessoais, nas relações que as crianças estabelecem como o outro. Certamente, nos casos de crianças surdas, essas trocas seriam mais significativas se pudessem contar com interlocutores adultos fluentes em Libras. Nesse viés, Guarinello e Lacerda (2014) acrescentam que as crianças surdas possuem poucas oportunidades para o desenvolvimento da linguagem ao considerar que a maioria não possui acesso à língua utilizada, majoritariamente, por seus familiares ouvintes, o que acaba por acarretar o atraso do processo de desenvolvimento da linguagem. Neste processo é essencial que a criança tenha oportunidade de vivenciar experiências de narrativas como usuária da língua de sinais, para se constituir como interlocutor efetivo nessa língua. Este contato inicial com uma língua acessível ocorre, na maioria dos casos, no ambiente escolar, ao entrar em contato com outros interlocutores fluentes em língua de sinais (PEREIRA; NAKASATO, 2004). Mediante essas considerações, o objetivo desse estudo é apresentar uma versão ilustrada do instrumento NarVaL-Libras/Prod (XXXX, 2020) para o uso no ambiente escolar. Com base em um corpus de narrativas de adultos surdos, foram criados vídeos curtos, disponibilizados por meio da leitura de QR Codes ou acessados por hiperlinks, exemplificando os indicadores e seus respectivos descritores – 96 itens ao total – contidos no instrumento, a fim de auxiliar o professor no entendimento e no uso dessa ferramenta (MONTES, 2023). O instrumento NarVaL-Libras/Prod está dividido em seis dimensões, nove níveis e 24 indicadores que podem receber uma pontuação de zero, um, dois ou três, selecionando a declaração que melhor descreve a situação observada. A pontuação total do instrumento pode chegar aos 72 pontos. As seis dimensões são: estrutura textual, fluxo da informação e estrutura da sentença, vocabulário, predicados verbais, gestualidade, articulação e prosódia. Possibilita uma análise qualitativa da narrativa sinalizada considerando aspectos macro e microestruturais de maneira detalhada. O nível macroestrutural refere-se à capacidade de construir uma representação hierárquica dos elementos principais da história, incluindo a sequência de eventos, introdução dos personagens, cenário da cena, menção de ações complicadoras, o clímax da história e uma resolução. Os componentes microestruturais da narrativa são elementos usados ​​no nível da palavra e da oração e incluem dispositivos para o controle de formas de referência, coesão do enredo, uso de dispositivos gramaticais para coesão no nível da frase e comentários avaliativos. A seguir será apresentado um indicador como exemplo: Tabela 1 - Instrumento de Avaliação de Narrativas em Língua Brasileira de Sinais/Produção – NarVaL-Libras/Prod: Estrutura Textual – Introdução e recuperação da referência. DIMENSÕES NÍVEIS INDICADORES DESCRITORES 0 1 2 3 ESTRUTURA TEXTUAL Capacidade de dominar estratégias de conexão que contribuem para a coesão textual Introdução e recuperação da referência:Nominais, classificadores, pronomes, verbos dêiticos (direcionais), ação construída etc. Em geral, não se introduz referência de forma adequada, produzindo imprecisões. Em geral, introduz, mas nem sempre retoma a referência de forma adequada. Introduz e retoma a referência utilizando alguns recursos de forma adequada. Introduz e retoma a referência combinando diferentes recursos de forma adequada. Fonte: elaborado pelas autoras. Para reunir as narrativas sinalizadas de adultos surdos, duas coletas de dados1 foram necessárias para a obtenção do corpus necessário para a elaboração de uma versão ilustrada do NarVaL-Libras/Prod. Adultos surdos usuários da Libras foram convidados a participarem da pesquisa, com idades entre 25 e 50 anos e com formação acadêmica variada, totalizando dez narrativas sinalizadas. Os participantes foram instruídos a ler/olhar um livro de imagens e, em seguida, narrar a história em Libras. As narrativas foram filmadas para análises posteriores. O livro utilizado para subsidiar a coleta dos dados foi Frog, where are you? (MAYER, 1969), o mesmo utilizado por Morgan (2002), Rathmann, Mann e Morgan (2007), Jarque e Pascual (2021) entre outros. Consiste em uma sequência de imagens em preto e branco, desenhadas e sem texto escrito, que vão representando uma história na qual um garoto e seu cachorro procuram uma rã que haviam capturado e que desapareceu. Para encontrá-la enfrentam uma série de obstáculos até chegar ao desfecho da história, um tanto ambíguo. A forma como a história está proposta favorece a apresentação de uma narrativa por parte dos leitores. Todas as narrativas sinalizadas foram assistidas inúmeras vezes e, a partir dos vídeos originais, recortes foram realizados e apresentados por meio de QR Codes e hiperlinks a fim de exemplificar os quatro descritores (pontuação 0, 1, 2 e 3) de cada indicador: Vídeo A – Introdução e recuperação da referência [descritor 0] Vídeo A – Introdução e recuperação da referência [descritor 1a] Vídeo A – Introdução e recuperação da referência [descritor 2] Vídeo A – Introdução e recuperação da referência [descritor 3a] Vídeo A – Introdução e recuperação da referência [descritor 1b] Vídeo A – Introdução e recuperação da referência [descritor 3b] A introdução e recuperação da referência, de acordo com Bel, Ortells e Morgan (2015), pode ser feita de duas maneiras pelas quais os sinalizantes transmitem informações sobre os referentes nas narrativas: a). características não-manuais (expressões faciais ou posição da cabeça e do corpo, que acrescentam ou modificam o significado dos sinais manuais) e b). sinais manuais introduzidos no discurso com itens lexicais, bem como sinais com localizações específicas no espaço de sinalização. Isso significa que outras menções de um determinado referente podem ser ancoradas a essas localizações espaciais. Os dispositivos utilizados para o estabelecimento de referência na produção narrativa em língua de sinais que pode ser observado nesta pesquisa vêm de sinais nominais (menino, cachorro e sapo), aponta para localizações no espaço em frente ao sinalizador que funcionam como pronominais, marcadores morfológicos de concordância verbal, conhecidos como classificadores de entidades. Os autores explicam que existem outros dispositivos disponíveis aos sinalizantes em narrativas para atribuir proeminência ao discurso, como mudanças de papéis, que marcam um deslocamento para uma 1ª pessoa sinalizado por mudanças na expressão facial, direção do olhar ou posição corporal. As expressões faciais, a posição da cabeça e do corpo, que desempenham uma função um tanto análoga à prosódia e entoação nas línguas faladas, codificam propriedades do discurso como foco ou funções informativas do tópico (BEL; ORTELLS; MORGAN, 2015). A introdução e retomada da referência também podem ocorrer por meio do uso de verbos dêiticos, denominados por alguns autores de verbos indicadores (LIDDELL, 2003). Ou, ainda, no uso da ação construída (JARQUE, 2019). Esse detalhamento sobre a ‘introdução e recuperação da referência’ foi apresentado, também, para os outros 23 indicadores do instrumento. Além disso, após apresentar cada exemplo, uma descrição foi realizada para direcionar o olhar do professor para os aspectos a serem investigados por cada indicador/descritor. Assim, diante da ausência de instrumentos que auxiliem na avaliação da Libras em sala de aula e da necessidade emergente de desenvolvimento de ferramentas de avaliação das línguas de sinais (MERTZANI; TERRA; DUARTE, 2020), buscou-se narrativas de adultos surdos por trazerem exemplos mais claros dos usos linguísticos, complexos ou não, mas que contribuem para a compreensão da estrutura da língua durante um discurso narrativo. Dessa forma, a nova versão do instrumento NarVaL-Libras/Prod (NarVaL-Libras/Prod-Ilustrado) poderá auxiliar educadores e especialistas da área a conhecer a estrutura das narrativas eliciadas por seus alunos surdos e terão a possibilidade de conhecer as características dessas narrativas de forma individual, bem como descrever/pontuar os elementos formais identificados. O instrumento NarVaL-Libras/Prod-Ilustrado poderá, também, auxiliar na identificação de possíveis limitações narrativas em crianças surdas e, assim, contribuir como ferramenta na organização de estratégias de intervenção educacional focadas na superação dos atrasos encontrados, se for o caso. Portanto, o instrumento contribuirá para que educadores e especialistas possam acompanhar o desenvolvimento das narrativas em Libras e assim interferir, quando julgarem necessário, visando um melhor desempenho de seus alunos. Além disso, outras potencialidades do instrumento também merecem atenção, como o caráter formador, a descrição de aspectos linguísticos da Libras, a possibilidade de reflexão sobre a estrutura narrativa e seus aspectos macro e microestruturais, o ensino e a aprendizagem da Libras. REFERÊNCIAS BEL, A.; ORTELLS, M.; MORGAN, G. Reference control in the narratives of adult sign language learners. International Journal of Bilingualism, v. 19, nº 5, 2015, p. 608-624. DOI:10.1177/1367006914527186. GUARINELLO, A. C.; LACERDA, C. B. F. Educação Bilíngue e Atuação Fonoaudiológica. In: MARCHEZAN, I. Q.; SILVA, H. J.; TOMÉ, M. C. Tratado das Especialidades em Fonoaudiologia. São Paulo: Guanabara Koogan, 2014, v. 1, p. 516-523. JARQUE, M. J.; LACERDA, C. B. F.; GRÀCIA, M.; CEDILLO, P.; SERRANO, M. C. L’avaluació de la producció de textos narratius en llengua de signes catalana (LSC). VII Seminari de la llengua de signes catalana, Barcelona, June, 2018. JARQUE, Maria Josep. Grounding, subjectification and deixis: modal constructions in Catalan Sign Language and their interaction with other semantic domains. 2019. 915 p. Tesi (Doctoral). Psicologia de l’Educació – Facultat de Psicologia, Universitat de Barcelona, Barcelona, 2019. LIDDELL, Scott. Grammar, gesture and meaning in American Signe Language. Cambridge: Cambridge University Press, 2003. MAYER, Mercer. Frog, where are you? A Boy, a Dog, and a Frog. New York: Dial Books for Young Readers, 1969. MERTZANI, M.; TERRA, C.L.; DUARTE, M. A. T. Currículo da Língua Brasileira de Sinais – LIBRAS: componente curricular como primeira língua. Rio Grande: Ed. da FURG, 2020. Disponível em: http://www.riogrande.rs.gov. PEREIRA, M. C. C.; NAKASATO, R. Narrativas infantis em Língua Brasileira de Sinais. Letras de Hoje. Porto Alegre. V. 39. N. 3, p. 273-284, setembro, 2004. VYGOTSKY, Lev Semenovich. Pensamento e linguagem. 4.a ed. São Paulo: Martins Fontes, 2008. 1 Comitê de Ética em Pesquisa Plataforma Brasil, Parecer nº 3.488.624 (CAAE: 18030919.0.0000.5504) e Parecer nº 5.121.484 (CAAE: 35990220.0.0000.5504).

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