A FUNDAMENTAÇÃO DO PAPEL DOCENTE NA PROMOÇÃO DAS POTENCIALIDADES HUMANAS: UMA ABORDAGEM A PARTIR DA TEORIA HISTÓRICO-CULTURAL DE VIGOTSKI Diversas pesquisas desenvolvidas em programas de pós-graduação stricto sensu em Educação têm evidenciado a relevância do papel do professor nos processos de ensino e aprendizagem, especialmente quanto à promoção do desenvolvimento das potencialidades humanas. São exemplos as dissertações produzidas na Universidade Estadual de Londrina (2012), Universidade Estadual de Maringá (2014), Universidade Federal da Bahia (2013), Universidade Federal do Rio Grande do Sul (2016) e Pontifícia Universidade Católica de Goiás (2020). Entretanto, apesar dessa compreensão teórica consolidada, ainda persistem significativas contradições na prática escolar. Aspectos históricos, culturais e políticos interferem diretamente nas concepções sobre a educação e o papel docente na sociedade contemporânea (Silveira, 1995; Masetto, 2003; Martins e Duarte, 2010). Na educação infantil, prevalece uma concepção tradicional que minimiza a relevância do ensino como função central das instituições que atendem crianças de 0 a 6 anos, predominando a visão assistencialista e a associação cuidar e educar (Martins e Duarte, 2010). No contexto do ensino fundamental e médio, políticas curriculares restritivas limitam a autonomia docente por meio da imposição de diretrizes e conteúdos distantes da realidade concreta dos estudantes e das reais possibilidades formativas dos professores (Silveira, 1995; Araújo e Almeida, 2010). No ensino superior, a expansão acelerada da educação a distância e a pressão por adequações tecnológicas têm reduzido significativamente o espaço para reflexão crítica, inovação pedagógica e, consequentemente, enfraquecido o papel formativo dos docentes (Masetto, 2003). Considerando ainda o fato recente de que o Brasil possui cerca de nove milhões de influenciadores digitais, número quatro vezes maior que o de professores em atividade nas escolas brasileiras (Greenhalgh, 2022), reforça-se a necessidade urgente de aprofundar a compreensão da docência como uma prática intelectual, ética e socialmente situada. Nesse cenário, a presente pesquisa, parte de uma investigação mais ampla sobre os fundamentos da prática docente, analisa especificamente como a obra “A Formação Social da Mente”, de Lev Semionovitch Vigotski, contribui para fundamentar a necessidade da atuação docente na escolarização das crianças. Assim, o problema que orienta esta investigação pode ser assim formulado: por que é necessária e como se fundamenta, à luz da referida obra vigotskiana, a atuação dos professores nos processos educativos infantis? Com base nesse problema, o objetivo geral da pesquisa consiste em investigar os fundamentos teóricos da necessidade da atuação docente a partir do pensamento de Vigotski. Especificamente, busca analisar conceitos centrais como mediação pedagógica, instrumentos culturais, internalização, linguagem e zona de desenvolvimento proximal (ZDP); compreender a atuação docente como prática mediadora segundo a perspectiva histórico-cultural; discutir desafios e possibilidades pedagógicas nas escolas públicas; e relacionar pressupostos teóricos às práticas escolares reais, identificando caminhos possíveis para fortalecer a atuação intencional e planejada dos docentes. A fundamentação teórica deste estudo está ancorada nos pressupostos centrais da Teoria Histórico Cultural, particularmente na obra supracitada de Vigotski. Segundo o autor, o desenvolvimento humano não ocorre espontaneamente nem de maneira exclusivamente biológica ou maturacional, mas é resultado das interações sociais mediadas por instrumentos culturais historicamente produzidos. Nesse contexto, o professor exerce papel essencial como mediador, especialmente por meio da linguagem, possibilitando às crianças internalizar formas culturais complexas de comportamento. Destaca-se especialmente o conceito de Zona de Desenvolvimento Proximal, que explicita que a ação docente deve orientar-se não apenas pelas habilidades já dominadas pelas crianças, mas especialmente pelas suas capacidades potenciais, ainda não plenamente realizadas. Essa perspectiva teórica dialoga diretamente com as formulações de Leontiev (2005) e Davídov (1988), que igualmente reforçam a importância da mediação pedagógica para a apropriação ativa dos conhecimentos científicos e culturais. Do ponto de vista metodológico, esta investigação caracteriza-se como teórica e bibliográfica, adotando uma abordagem qualitativa e interpretativa sustentada no método histórico dialético. O estudo concentra-se exclusivamente na análise detalhada e sistemática da obra “A Formação Social da Mente”, publicada originalmente em 1978 e traduzida ao português em 1991. Entre os procedimentos metodológicos destacam-se a leitura integral da obra, o fichamento temático orientado por categorias prévias relacionadas aos objetivos do estudo, como mediação pedagógica, instrumentos culturais, internalização e ZDP, além da construção interpretativa dessas categorias em diálogo com o contexto atual da educação escolar. Os resultados parciais obtidos com base nessa leitura aprofundada demonstram que, para Vigotski, o desenvolvimento das funções psicológicas superiores é qualitativamente diferente dos processos naturais, exigindo necessariamente a intervenção mediadora do professor. Tal perspectiva implica que a aprendizagem escolar precisa ser organizada de modo a impulsionar o desenvolvimento infantil para além do já consolidado. A atuação docente assume então papel estratégico, criando situações nas quais a linguagem desempenha função central ao transformar ações externas em operações cognitivas internas, mais complexas e avançadas. Vigotski enfatiza a importância das práticas pedagógicas planejadas que possibilitem aos estudantes antecipar mentalmente suas ações, utilizando instrumentos simbólicos culturais. Assim, percepção, memória e atenção ganham qualidades superiores, culturalmente mediadas pelo professor em contextos significativos de interação social. Além disso, a análise inicial revela uma significativa consonância entre Vigotski e os autores da Teoria Histórico Cultural, especialmente Leontiev e Davídov, ao destacar a educação como processo dialético e cultural, cujo papel docente consiste na organização consciente e planejada das condições educativas que favoreçam a apropriação crítica das conquistas histórico-culturais. Por fim, considerando esses resultados preliminares, constata-se que a fundamentação teórica proposta pela obra de Vigotski oferece sólida sustentação para a relevância e necessidade da atuação docente enquanto prática pedagógica mediadora e intencional. O aprofundamento dessa compreensão teórica constitui importante subsídio para futuras ações e reflexões práticas no contexto educacional brasileiro atual. Palavras-chave: Formação Docente; Desenvolvimento humano; Teoria Histórico-Cultural. REFERÊNCIAS ARAÚJO, Denise Silva; ALMEIDA, Maria Zeneide C. M. Políticas educacionais: refletindo sobre seus significados. 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