(RE)FUNDAMENTAÇÃO DA ECOPEDAGOGIA: OIKOS, PHYSIS E PAIDEIA A Ecopedagogia surgiu em 1992 na América Latina, mas especificamente na Costa Rica, a partir das pesquisas de Francisco Gutiérrez e Cruz Prado (2013), que encontraram em Moacir Gadotti (2000) e Paulo Freire (2003), no Brasil, seus maiores interlocutores, adensando assim a fundamentação crítica da abordagem ecopedagógica no campo da Educação. Inicialmente, nomeou-se como Biopedagogia, mas depois dos primeiros diálogos e elaborações, concluiu-se por Ecopedagogia como nomenclatura mais adequada, por tomar o ambiente como ponto de partida da produção do conhecimento. Ao mesmo tempo, foi a partir daí que iniciou a confusão entre Ecopedagogia e Educação Ambiental, com aproximações, distanciamentos e intersecções (Dickmann, 2022), pois o prefixo eco nomeia um conjunto de produções científicas no campo da Biologia, ligados aos estudos e reflexões sobre a natureza e seus complexos ecossistemas geradores de vida – a ecologia (Odum, 1977). A outra questão é a falta de distinção entre educação e pedagogia, pois enquanto a primeira está no âmbito mais geral da formação humana, a segunda originada na paideia grega, que se preocupava com a formação integral do ser humano (Jaeger, 2001), se redimensionou na Modernidade para o cuidado com a criança e seu desenvolvimento físico e cognitivo (Comenius, 1986; Rousseau, 2004; Piaget, 2013; Vigotski; 1989), sendo na atualidade a síntese dessas preocupações anteriores, mas também avança para a formação dos profissionais docentes, em todos as modalidades de ensino. Nesse contexto problemático de formulação de uma definição mais adequada da filologia da Ecopedagogia e da necessária formatação de sua (re)fundamentação teórica depois de trinta anos, que tem o potencial de redimensionar a compreensão da produção ecopedagógica, apresenta-se a questão central dessa pesquisa: como reinventar a Ecopedagogia hoje, na compreensão filológica do oikos e da paideia, para a sua (re)fundamentação da síntese teórica e consolidação como um campo de pesquisa? Para tanto, objetivamos desenvolver uma organização relacional entre Filosofia e Biologia, como base filológica, passando pela paideia da práxis (palavração) e culminando na síntese oikopaidética como resultado do movimento do pensamento na busca da resposta para a pergunta intrínseca a pesquisa (O que é a Ecopedagogia hoje?). Do ponto de vista metodológico é uma pesquisa que se caracteriza como círculo epistemológicos de cultura (Romão, 2006), baseada em encontro dialógicos (Teo; Mattia, 2024), orientada a partir de referenciais da educação crítica freiriana, permitindo produzir nessa inovação pedagógica, conhecimentos novos a partir de uma base já consolidada e atualizada (Rabaioli; Nobre; Zucchetti, 2023; Menegussi; Pereira, 2023; Sgnaulin; Dickmann, 2024; Mendes; Pinto; Braz, 2025). O grupo tem ficado atento às produções e autores nacionais e internacionais que vêm publicando sobre a questão da Ecopedagogia, especialmente Misiaszek (2016), Kahn (2010), Boff (1999; 2004), Zimmermann (2005), além de estudos de revisão e estado da arte que servem de referência para a pesquisa (Marín Velásquez, 2019; Oliveira et al, 2021; Ruiz-Peñalver, 2021; Dickmann et al, 2022). Concomitante as pesquisas bibliográficas realizadas em trabalhos de iniciação científica, monografias de conclusão de curso de graduação, mestrado, doutorado e pós-doutorado, acontece de forma quinzenal, os encontros dialógicos ecopedagógicos. A atividade é orientada por um tema gerador (Freire, 2003) que permite, a partir das leituras e discussões, o entendimento da temática e o avanço da teoria. A primeira questão que foi desvelada é a retomada do conceito de oikos como lugar, casa ou em algumas situações, família. A Geografia já vem há anos falando do lugar como o construto das vivências e relações humanas, portanto, resultado da cultura humana. Por isso, tomamos nessa reconstrução o oikos como algo da cultura e não como natureza. Os gregos tinham um conceito específico para designar a natureza (physis), e é por isso que nesse estudo afirmamos que há um equívoco interpretativo e a necessidade de recolocar o verdadeiro sentido do oikos (que originou o eco) como espaço da cultura (Pereira, 1998). Embora entendamos a interpretação de Odum (1977) de oikos como ambiente natural, para criar o neologismo ecologia, preferimos interpretá-lo como ambiente construído, lugar da cultura. A nossa preferência se dá pela compreensão freiriana que damos a Ecopedagogia, pois, Paulo Freire (1983) sempre anunciou, desde seus primeiros escritos, a necessidade primordial de distinguir natureza e cultura para superar a visão fatalista da realidade, bem como se mostrou ao final da vida preocupado com as questões socioambientais (Andreola, 2014). Portanto, não se trata de uma opção entre uma e outra – cultura ou natureza, oikos ou physis –, mas resultado de uma síntese dialética importante para a (re)fundamentação teórica da Ecopedagogia, visto que a compreensão do oikos como cultura e não natureza nos faz perceber as relações socioambientais, econômicas e políticas que são responsáveis pelos danos à qualidade de vida dos seres vivos no planeta. Esse aspecto filológico e filosófico anuncia um logos próprio da Ecopedagogia, uma linguagem que comunica a abordagem crítica que ela se propõe construir das relações entre os seres humanos e destes com o meio ambiente – natural e construído –, um discurso sobre as possibilidades de defesa da vida na Terra dentro do cenário atual de luta de classe, como Ecopedagogia da práxis – palavração. A segunda questão, ligada a Biologia é a vida como fundamentação primeira do discurso ecopedagógico, pois sem ela não há como pensar a prática pedagógica, ou dizendo de outra forma, a Ecopedagogia é uma pedagogia da vida, geradora de vida, defensora da vida. Por isso, inicialmente era chamada de Biopedagogia. Mas como não basta ter um horizonte, é preciso ter um lugar de partida bem definido, precisamos estabelecer uma “protologia” (estudo dos princípios, do grego protos: primeiro; e logos: estudo, reflexão) que fundamenta – ou (re)fundamenta no processo de reinvenção – e orienta a práxis ecopedagógica. Nessa direção, hoje, a “protologia” da Ecopedagogia é a defesa e a geração da vida. No que tange ao horizonte da Ecopedagogia, precisamos estabelecer também a possibilidade de contribuir para continuar escrevendo a história e reinventando-a. Há muitas perspectivas inerentes à trajetória atual da Ecopedagogia e as pesquisas e pesquisadores atuais estão longe de desejar construir conhecimento baseado num puritanismo ou arraigado às bases de trinta anos atrás como intocáveis. Pelo contrário, o tempo atual nos sinaliza a necessidade de diálogo permanente com as teorias do espectro crítico de educação e sociedade, de modo mais intenso com o materialismo histórico-dialético e a teoria da complexidade. A essa construção de perspectivas dialógicas, de escritura da nova formação humana baseada na integralidade e criticidade, estamos chamando de “ecografia” (do grego oikos: lugar, casa; e grafos: escrever), que remete a Ecopedagogia aos fundamentos da paideia, que se preocupava com a formação integral do ser humano, porém, atualizada e alinhada dentro da perspectiva crítica de educação. Nesse sentido, a “ecografia” é a formação crítica das pessoas e a produção de conhecimentos pertinentes à transformação do mundo, tendo como ponto de partida o contexto concreto de existência. Na sequência apresenta-se o gráfico que detalha o movimento do pensamento em forma de síntese dialética, ilustrando o que afirmamos até agora e apontando as conclusões que traçaremos na sequência. Gráfico 1 – Relação dialético-complexa da refundamentação da Ecopedagogia Fonte: Autores (2025). Da forma como se apresenta essa reflexão e pensando a reinvenção da Ecopedagogia, temo-la como uma síntese do discurso filosófico acerca da natureza humana e suas relações entre si e com o mundo, em oposição dialética com a organicidade da vida biológica, com a materialidade da realidade-ambiente que é parte fundamental do ecossistema que todos nós estamos insertados. Tomando emprestada a concepção de Gadotti (2000), a Ecopedagogia é a Pedagogia da Terra, pois a Pangeia se movimentou e mudou de lugar, mas continuamos sendo um único planeta, assim, a paideia mudou de tempo, mas continua sendo a formação integral do ser humano na relação consigo mesmo, com os outros e o mundo – porém, agora na perspectiva da práxis crítica, como palavração no pronunciamento da palavramundo. Essa nova compreensão da Ecopedagogia tem o ambiente como (oikos) como forma cultural da natureza, como resultado da intervenção humana no mundo em vista da sua transformação. E tem a formação humana (paideia) como intervenção criadora e crítica do ser humano no mundo, que ao mudar as pessoas é geradora de vida digna. Enfim, essa reflexão apresenta-se como (re)fundamentação da Ecopedagogia como uma forma de pensamento original latino-americano que se debruça sobre a formação humana e a relação do ser humano no mundo, emergindo em sua originalidade como uma ciência rigorosa e diferente das demais ao se dedicar aos estudos referente a questões oikopaidética, para assim, se distinguir definitivamente da Educação Ambiental a partir dessa nova matriz epistemológica que acabamos de elucidar. Referências ANDREOLA, B. O problema ecológico na obra de Paulo Freire. In: NEUMANN, L. (Org.). Desafios da educação para os novos tempos. Porto Alegre: Evangraf, 2014. p. 213-227. BOFF, L. Saber cuidar: ética do humano, compaixão pela Terra. Petrópolis: Vozes, 1999. BOFF, L. Ecologia: grito da Terra, grito dos pobres. Rio de Janeiro: Sextante, 2004. COMENIUS, J. A. Didáctica magna. Madrid: Ediciones Akal, 1986. DICKMANN, Ivo. Reinventando a ecopedagogia: patriarcado, modernidade e capitalismo. 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