PROCESSOS DE INCLUSÃO E EXCLUSÃO DE ESTUDANTES NEURODIVERGENTES NAS ESCOLAS PÚBLICAS 1 Tramas iniciais: a pesquisa narrativa e o processo de inclusão A pesquisa “Processos de Inclusão e Exclusão de Estudantes Neurodivergentes nas Escolas Públicas” busca compreender as concepções que professoras e professores produzem a partir de suas experiências com os processos de inclusão e exclusão. O desafio da inclusão vai além da adequação curricular ou da implementação de políticas educacionais, o que exige a superação de estigmas e barreiras estruturais, culturais e atitudinais, no sentido de transformar as práticas pedagógicas pela valorização da diversidade. Minha trajetória pessoal e profissional orienta esta pesquisa. Como mulher de pele branca, mas com herança fenotípica negra, minha identidade se forma na interseção entre gênero, classe e raça. Essa vivência, marcada pela desigualdade social, fortaleceu minha compreensão sobre as lutas por reconhecimento e inclusão. Os feminismos negros são fundamentais para esta pesquisa, pois questionam as estruturas de poder que marginalizam os corpos e as subjetividades. A morte precoce de meu pai, reafirmou a educação como espaço de pertencimento e transformação. O fato de ter sua presença constante em meu processo de escolarização foi fundamental para consolidar minha relação com a educação como um caminho de possibilidades. Aos quinze anos, comecei minha carreira docente, aos vinte anos fui aprovada em concurso público, atuando nas mais diversas funções do magistério e etapas de ensino. Em 2013, passei a atuar no Atendimento Educacional Especializado (AEE) e no Centro de Referência ao Apoio Pedagógico (CRAP) da rede municipal de ensino de Várzea do Poço - BA, onde desenvolvemos políticas inclusivas baseadas nas múltiplas dimensões dos estudantes, exigindo maior efetivação e aprofundamento teórico. Minha vivência como professora evidenciou contradições do discurso da inclusão educacional, especialmente de estudantes neurodivergentes. Muitas vezes, estes/as estudantes são limitados/as a diagnósticos clínicos e adaptações curriculares que não atendem às suas singularidades. O sistema educacional, ao padronizar corpos e comportamentos, deslegitima formas de aprendizagem. Como apontam Roseiro e Carvalho (2021), a normalização dos corpos no ambiente escolar reforça mecanismos de exclusão sutis, mas profundos. Assim, a inclusão requer mudanças estruturais e coletivas. Os processos identitários, a diferença e a interseccionalidade são conceitos centrais nessa pesquisa e contribuem na compreensão dos processos de inclusão e exclusão escolar. A identidade, entendida como não fixa (Hall, 2003), desafia essencialismos, enquanto a diferença, segundo Silva (2000), exige uma análise crítica para evitar exclusões, e a interseccionalidade, formulada por Crenshaw (1989), reflete sobre as múltiplas camadas de opressão. Já a neurodiversidade, proposta por Singer (2017), confirma as diferenças neurológicas como parte legítima da diversidade humana. O estudo também se baseia em Foucault e Freire, cujas abordagens críticas contextualizam as práticas educacionais na perspectiva da emancipação social. 2 Os fios metodológicos A pesquisa, de caráter qualitativo e aplicado, fundamenta-se na Pesquisa Narrativa e dialoga com os feminismos negros. Essa abordagem metodológica inspira-se no conceito de tempo espiralar de Martins (2011) e na proposta de decolonialidade de Walsh (2018), que questionam epistemologias dominantes e valorizam saberes ancestrais e situados. A metáfora “Tecelã da Existência”, é inspirada além dos trabalhos de Martins (2011), nos de Larrosa (2002) e Mota (2023). Larrosa destaca a experiência como elemento central na formação dos sujeitos, enquanto Mota aprofunda a autobioformação, evidenciando como o desvelamento do ser-docente possibilita novas reflexões sobre a docência. Assim, a metáfora ilustra como as experiências individuais se entrelaçam com os contextos sociais e educacionais, ampliando a compreensão das histórias de vida e suas relações com a inclusão. O lócus da pesquisa são as duas escolas do ensino fundamental de Várzea do Poço – BA que apresentam um maior índice de estudantes neurodivergentes. A primeira etapa da pesquisa já foi realizada, contando com a participação de duas professoras, sendo uma de cada escola. Os dispositivos metodológicos são a entrevista narrativa e as etnografias escolares. Através da análise compreensiva-interpretativa será possível aprofundar o olhar sobre as dinâmicas de inclusão e exclusão no contexto escolar. Nessa perspectiva, a reflexividade crítica, conforme Walsh (2007), contribui para que enquanto pesquisadora eu possa reconhecer minha posição no processo investigativo, garantindo uma escuta ativa e respeitosa das narrativas das professoras colaboradoras. 3 Resultados parciais e discussão Os resultados da pesquisa inicial revelam a complexidade do processo de inclusão e exclusão de estudantes neurodivergentes na escola pública. A análise das narrativas evidencia como a falta de diagnóstico precoce, as desigualdades socioeconômicas e a ausência de suporte adequado influenciam diretamente as trajetórias escolares desses estudantes. As narrativas autorais de indivíduos neurodivergentes destacam a necessidade de desconstruir representações patologizantes e normativas que perpetuam a marginalização desses sujeitos. Como apontam os estudos sobre a neurodiversidade, é fundamental que as práticas pedagógicas sejam repensadas para acolher diferentes formas de aprendizagem, rompendo com a lógica da normatização, e por isso, a importância da formação docente. Além disso, os resultados evidenciam a urgência de uma abordagem interseccional e decolonial na construção de políticas educacionais mais inclusivas. A escola deve ser um espaço de acolhimento e valorização da diversidade, superando práticas superficiais de inclusão que não enfrentam barreiras estruturais e culturais que perpetuam desigualdades. 3 Considerações Finais Os desafios da inclusão de estudantes neurodivergentes não podem ser resolvidos apenas por ajustes curriculares, é necessária uma transformação nas práticas pedagógicas e políticas públicas. Este estudo contribui para a reflexão crítica sobre a inclusão educacional, apontando caminhos para fortalecer práticas pedagógicas que reconheçam a diversidade como um valor fundamental. A construção de uma educação inclusiva e transformadora exige a busca por possibilidades que ainda não foram plenamente concretizadas, mas que podem emergir a partir das práticas e lutas cotidianas. Nesse sentido, é essencial reconhecer que a inclusão não é um ponto de chegada, mas um processo contínuo de criação e ressignificação, impulsionado pela escuta, pelo diálogo e pelo compromisso com a justiça social. O futuro não está distante, mas se constrói nas práticas cotidianas e nas mobilizações sociais e educacionais. A neurodiversidade, com sua complexidade, nos convida a reconfigurar as estruturas educacionais de maneira criativa, reconhecendo as múltiplas vozes e saberes que formam a trama educacional. A equidade, embora fundamental, não resolve os desafios que enfrentamos. É preciso lutar por justiça epistêmica, social e curricular, ampliando os horizontes da educação para incluir todas as diferenças. Ela exige uma mudança estrutural que envolva todos os sujeitos da comunidade escolar. A transformação do ambiente educacional depende da conscientização coletiva sobre a importância de respeitar as singularidades de cada estudante e de criar espaços que promovam o pertencimento. O caminho para uma educação inclusiva passa pela valorização das diferenças, pela construção de políticas públicas que favorecem a equidade e pela superação das barreiras que ainda marginalizam muitos sujeitos na escola. REFERÊNCIAS ABREU, Tiago. O que neurodiversidade? [livro eletrônico] Goiânia: Cânone Editorial, 2022. CLANDININ, D. J.; CONNELLY, F. M. Pesquisa narrativa: experiência e história em pesquisa qualitativa. Tradução Grupo de Pesquisa Narrativa e Educação de Professores ILEEL/EFU. 2. ed. Uberlândia: EDUFU, 2015. CRENSHAW, Kimberlé. Mapping the Margins: Intersectionality, Identity Politics, and Violence against Women of Color. Stanford Law Review, v. 43, n. 6, 1989. p. 1241-1299. 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