Escola e Museu: reflexões sobre práticas educativas colaborativas, construção de conhecimentos e relação com o mundo natural Diante das necessidades das crianças, que frequentemente desafiam as rígidas normas impostas pelos adultos para organizar os espaços escolares, iniciamos uma exploração de novas possibilidades para criar e vivenciar experiências com elas além dos limites da instituição. Nesse sentido, buscamos por práticas educativas desenvolvidas no entorno do Parque Estadual da Serra da Tiririca (PESET), nas escolas onde realizamos nossas pesquisas e onde nos reconhecemos como professoraspesquisadoras (Garcia; Alves, 2002). As experiências que visam romper com os limites dos muros da instituição escolar, geram as questões de duas pesquisas em andamento, que enfocam projetos educativos envolvendo crianças, professoras e trabalhadores, em experiências de criação, liberdade e conexão com o mundo natural e com a comunidade do entorno da escola. As pesquisadoras objetivam perceber os processos de aprendizagens que se dão nos deslocamentos das crianças para fora, olhando, deslumbrando-se, criando com e na natureza e com as histórias das comunidades tradicionais que habitam o entorno da escola e das suas casas, no PESET. Rufino (2021) nos provoca a refletir sobre a educação como uma parte orgânica e cooperativa da vida, além dos muros escolares. As experiências nas Unidades Educacionais apresentam um modelo de educação que é "radical de vida e prática da liberdade" (p. 18), buscando desconstruir um projeto colonial que visa à dominação e ao apagamento de memórias e culturas. As práticas que incentivam as crianças a saírem do prédio escolar ajudam a romper com ideias hegemônicas que fragmentam e hierarquizam a apropriação do conhecimento. Esses projetos educativos não veem ensino e aprendizagem como processos separados, mas enfatizam a colaboração e a interdependência entre os sentidos dessas palavras e os sujeitos envolvidos na ação de ensinaraprender. As pesquisas são realizadas por meio de estudos qualitativos que envolvem observação participativa e registro das práticas pedagógicas em uma Unidade de Educação Infantil (UMEI) e em uma Unidade de Ensino Fundamental (UE), ambas públicas e localizadas em Niterói/RJ, na Região Oceânica. Destacam-se nas pesquisas, projetos em colaboração com o Museu de Arqueologia de Itaipu (MAI), integrando saberes locais e experiências culturais. A interação dialógica é fundamental para que escola, museu, crianças, educadores e famílias se tornem coautores do processo educativo. Inspirados por Walter Benjamin (1994), refletimos sobre o projeto educativo anual Ciranda Cultural, que se realiza na UMEI e narramos experiências de um projeto na Unidade de Ensino Fundamental, ambos em colaboração com o MAI. A UMEI e a UE, situadas no PESET, uma área rica em história, cultura e biodiversidade, buscam desenvolver projetos que atendam interesses coletivos e necessidades locais, respeitando crianças e famílias como participantes ativas. Os praticantespensantes (CERTEAU, 1998) destas instituições acreditam que a colaboração depende da interação dialógica. Sem escuta e encontros, não é possível traçar interesses comuns e promover o conhecimento entre os envolvidos. Ao dialogar sobre o outro, reconhecemos a biodiversidade ao nosso redor e entendemos que fazemos parte dela, necessitando manter um constante equilíbrio. Com o objetivo de promover o encontro das crianças com diferentes culturas, a UMEI desenvolve trabalhos significativos, como a Ciranda Cultural. Este projeto surge do interesse das crianças pelas cantigas de roda, vivenciadas através de coreografias que conectam gerações, fortalecendo relações entre crianças e adultos. O planejamento da ação busca unir crianças e famílias por meio da arte, brincadeiras, musicalidade, encontros intergeracionais e respeito à natureza, e se materializa em uma festividade anual ao final de cada primeiro semestre. Durante os encontros, cantigas tradicionais são entoadas e danças circulares são realizadas em torno de uma saia, símbolo da festividade há 10 anos. Nesse contexto educativo, relembram-se histórias das gerações anteriores, enriquecendo a experiência benjaminiana com afeto e alegria. Assim, as temporalidades do devir-criança emergem, fazendo com que as infâncias transcendam o tempo cronológico. As cirandas são momentos coletivos de dança, sorrisos e compartilhamento de histórias e memórias por meio de contos e cantigas. No entanto, na primeira Ciranda Cultural em 2015, o espaço físico da UMEI mostrou-se pequeno e inadequado, limitando o movimento e a liberdade necessários. Era essencial ter contato com o ar livre, a natureza e a terra, exigindo a busca por alternativas para sua realização. Conforme observado por Vecchi (2017, p. 134), o ambiente é crucial na construção da identidade. Com essa visão, o grupo de professoras reconheceu a importância do ambiente para o desenvolvimento do projeto e decidiu buscar a colaboração com o MAI para a realização da festa. O local, à beira da Praia de Itaipu, já despertava uma intensa curiosidade nas crianças que o frequentavam. Ao receber a UMEI, o MAI enriqueceu e embelezou as cirandas, permitindo aos participantes uma imersão nas histórias que narra, na arte que apresenta e nos afetos que envolvem e consolidam nossas experiências. Além de promover o encontro entre os participantes — as mãos que se unem nas danças circulares, os olhares que se cruzam, a música e a dança —, o projeto também desperta memórias de outros tempos e espaços habitados pelos familiares das crianças (pais, avós, tios, etc.). A Ciranda revela uma rica história cultural dos povos que habitaram nosso país, até mesmo sobre a história da colonização que domina nossos povos até os dias de hoje, e têm muito a nos ensinar sobre arte e resistência. De modo semelhante às experiências na UMEI, os estudantes da UE participam cotidianamente de atividades envolvendo o MAI. Por 15 anos o MAI, a escola e a comunidade vivem experiências significativas e ricas em aprendizagem, como observa a pesquisadora. Os projetos educativos desenvolvidos jut tem como proposta educativa um cunho socioambiental, com oficinas de “Diagnóstico e Monitoramento da Saúde Lagunas e dos Recursos Pesqueiros de Itaipu”, bem como a participação da Colônia de Pescadores de Itaipu e dos alunos da educação básica das escolas situadas no entorno do MAI. A escola firmou o compromisso de participar do Projeto junto ao MAI, acreditando que o conhecimento do lugar em que se vive, bem como dos espaços de cultura e de convivência, têm fundamental importância na formação de sujeitos críticos e cuidadosos com os espaços sociais onde convivem. Assim como diz CASTRO, […]a reafirmação do lugar é também a visibilidade dos modelos culturalmente diferentes e hegemônicos, específicos quanto à relação com a natureza. É a afirmação do plural e da diversidade do mundo, como realidade que atravessa o tempo.” (p.48) Temos assim, diante de nós, uma proposta de parceria que traz para a escola, e consequentemente para a comunidade escolar, muitas reflexões e aprendizagens que caminham na contramão de projetos educacionais hegemônicos estabelecidos. Desde 2010, então, o projeto tem como participantes os alunos do 5º Ano do Ensino Fundamental I, suas respectivas professoras e o MAI. O projeto anualmente começa em março e se estende até dezembro, tendo, quase todos os meses, alguma atividade envolvendo o MAI e a escola. Os grupos realizam trilhas ecológicas (Morro das Andorinhas, Caminho de Darwin, Laguna e Canal de Itaipu); escutam sobre as histórias dos Sambaquis visitando a Duna Grande - um sítio arqueológico pré-histórico que contém vestígios de povos que habitaram a região há milhares de anos; interagem com os pescadores locais, conhecendo a atividade pesqueira tradicional; conhecem a história do MAI e nessa dinâmica de troca estudam sobre a conservação desse meio ambiente onde a escola e o MAI estão inseridos e onde vivem os estudantes. Provisoriamente concluímos que ao estarem em contato com o mundo, as crianças ampliam significativamente suas possibilidades de aprendizagem e de contribuição para o mundo natural. As práticas desenvolvidas no cotidiano das escolas evidenciam que a interação com o Museu oferece um espaço de aprendizado dinâmico, onde as crianças têm a oportunidade de questionar e explorar o mundo ao seu redor. Projetos como a Ciranda Cultural, realizados na UMEI, e como os que se são desenvolvidos com os estudantes do Ensino Fundamental na UE, incentivam a expressão artística, cultural e a relação afetuosa com a natureza e com o entorno da escola, permitindo que as crianças se percebam como protagonistas de suas próprias histórias e de sua comunidade. Palavras-chave: Educação Extramuros; Estudos dos Cotidianos; Escola e museu REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS CASTRO, Edna. Epistemologia e caminhos da crítica sociológica latino-americana. In: CASTRO, Edna e PINTO, Renan Freitas. Decolonialidade e Sociologia da América Latina. Pará: UFPA, 2018. CERTEAU. Michel de. A invenção do cotidiano: artes de fazer. Petrópolis:Editora Vozes, 1998 GARCIA, Regina Leite; ALVES, Nilda. Conversa sobre pesquisa. In: Professora Pesquisadora: uma práxis em construção. Orgs. Maria Teresa Esteban e Edwiges Zaccur. Rio de Janeiro: DP&A, 2002 RUFINO, Luiz. Vence-demanda: educação e descolonização. Rio de Janeiro: Mórula, 2021