RELATORIAS POÉTICAS: A DANÇA DAS ONDAS, A ESCRITA NA AREIA, UM CORPO SUBMERSO Uma pesquisa de mestrado e um sonho todo azul, azul da cor do mar. A dissertação “Relatorias Poéticas: por uma educação como forma de (a)mar” transita entre a escola de educação básica e a universidade pelos pés de uma professora-pesquisadora-artista para potencializar a discussão docente em educação utilizando-se da imagem do mar como pano de fundo. Para isso, o dispositivo da pesquisa é a relatoria poética e seu fundamento metodológico, a pesquisa narrativa em educação de CLANDININ & CONNELLY (2015). O estudo propõe mergulhos que colocam professores, pesquisadores e artistas em experiências geradoras de relatorias poéticas, um gênero textual ainda muito novo que mescla a objetividade do relato com a sensibilidade da poesia. Aprendemos a pensar a escola, a arte e a pesquisa desde o corpo, composição de memórias, possibilidades e porvires. Este texto traz a pesquisa sobre as relatorias poéticas, que são textos construídos a partir da experiência vivida e revivida para discutir a educação. A produção se apresenta através dos recursos da edição e da montagem, isto é, a partilha, a escuta, a seleção vocabular e estrutural, múltiplas vozes somadas e resultadas em um texto único. As relatorias poéticas defendidas como metodologia sem desconsiderar a dança, a escrita e o corpo. A dança das ondas, a escrita na areia, um corpo submerso. Quando decidi usar o mar como metáfora para a poesia da educação, considerei as sensações que a grande massa de água e sal me causavam. Em lugar de analisar sua composição química, fórmulas e suas demais classificações, submergi em um mar personificado em poesia, em suas metáforas e mistérios. Possibilitei refletir meus medos e anseios com os traumas do mar para um novo reencontro com ele. Eu que sempre olhava o mar desde a areia da praia, agora colocava minhas vistas à paisagem por outro ângulo. Desde o sonho azul da cor do mar que acendeu em mim a luz da pesquisa em Educação à luz da poesia, ponho-me a refletir as experiências em que se manifestaram as relatorias poéticas. Há algo de um depois que por vezes me falha a memória. Quando damos a nós a oportunidade de relatar o acontecido ainda com o sangue quente – com o acontecimento reverberando na pele –, os sentimentos se aparecem mais claros, nítidos e traduzíveis. Por outro lado, se deixamos a experiência amornar, deixando para refletir sobre ela e suas implicações depois de algum tempo, é preciso um outro sentido além do olhar para que essa interpretação póstuma nos leve à compreensão do todo. Uma grande nau que se desenha em experiências vividas se desdobra em diversas embarcações. No entanto, meu mar se limita a descrever experiências com professores, pesquisadores e artistas ao longo do mestrado: quatro momentos em que a relatoria poética se fez presente. Ondas, areia, submersão: as experiências que me compõem encaminham meus sentidos para ver, ouvir, tocar, falar, degustar a vida a meu modo. Assim, penso que os sentidos e efeitos de sentido, aos nossos modos individuais de sentir a vida, se entremeiam pelas imagens e palavras e significados que absorvemos pelos nossos cinco sentidos. Quando, por exemplo, ouço uma poesia, fecho os olhos; quando leio, passeio a mão pelas linhas escritas; com um livro na mão, executo meus cinco sentidos sem perceber como e quanto eles se cruzam e mesclam. Um livro na mão me convida a ler as imagens da capa, a sentir seu cheiro. Quando leio um livro, me proponho ao encontro de uma outra voz. Ou vozes. Quando me ponho ao encontro de outras pessoas, reacende em mim as minhas próprias questões, encontro identificações, pares, similaridades, finitudes e afinidades. Paradoxalmente como o mar, somos semelhantes e únicos. Na feitura das relatorias e – ainda mais – no momento em que compartilho a sua leitura, eis que me sinto “portadora de várias almas”, “a boca”, “a dona da palavra sem dono de tanto dono que tem” (LUCINDA, 2021). Percebo, assim, que – dos sentidos mais aguçados para a relatoria poética – a escuta se revela como “essência-par” da sua elaboração. Isto porque, quando estabelecemos conversas, escrevemos em voz alta e, consequentemente, lemos ouvindo as palavras. Da mesma forma, a atividade escrita é pensada, muitas vezes como uma ação automática, técnica e penosa. Não desconsidero sua complexidade nem o árduo trabalho que ela invoca, mas quero destacar que se trata de uma atividade corporal, que requer o envolvimento do corpo como um todo. A ação de falar juntos é o encontro com a palavra do outro, escrevendo em voz alta e lendo com a escuta. E que esse encontro é um acontecimento, uma troca, uma ação de sujeitos ativos, reflexivos, recíprocos. A atividade leitora que, sob muitos pontos de vista, imprime uma ação passiva, se arroga pelo movimento, uma vez que “A experiência intelectual de atravessar as páginas ao ler torna-se uma experiência física, chamando à ação o corpo inteiro” (MANGUEL, 2017, p. 33). A escrita envolve a leitura do que se escreve: as mãos e pernas como suporte, olhos investigativos, ouvidos atentos, cabeça armazenadora de sentidos. Nesse sentido, volto a que escrever é movimento. Não só pela atividade motora complexa que aprendemos a dominar ainda nos anos iniciais da vida escolar, mas também por toda a magia a manifestar-se que ocorre entre o escrevente, o pensamento, a mão e o movimento – “o pensamento-visão (FERRANTE, 2021, p. 18) –, que se transformam em palavra”. E se escrever é movimento, o corpo do texto só se faz corpo, porque há um corpo que lê e escreve. E, numa coleção de gestos espontâneos, “Um corpo se prepara para ler ou escrever (...), como uma dança desinteressada” (CONY, 2023, p.18). Com o sonho que pintei de azul, foi preciso um diálogo e acertamentos em prol da pesquisa. Subtraí imagens nebulosas, oníricas, surrealistas para uma meta visível, alcançável, palpável, realizável. Na embarcação-dissertação, coloco em prática a artesania da montagem e da edição, resolvo mergulhar naquelas experiências com professores-pesquisadores-artistas em quatro momentos do meu percurso-mestrado, as quais chamei de “Roda de Possibilidades”, “Dois pesos e duas medidas”, “A poesia que pousa nos discursos” e “Do corpo do texto ao texto do corpo”. Em cada uma delas, quis variar as abordagens e direcionar meu olhar de pesquisadora-poética para o que se apresentava para mim como primeiras necessidades de acordo com o público com o qual lidava. Tive colegas de mestrado e do grupo de pesquisa, professores de Educação Infantil e professoras-pesquisadoras-artistas da dança como plateia, ouvintes e coautores das relatorias que produzimos. Sendo assim, adentramos o curso de mestrado num meio pós-durante-pandemia que nos convidava a encontrar outros professores para falar sobre as expectativas de uma educação pós-confinamento; juntamos as pesquisas de duas mestrandas e um doutorando, interessados nas possibilidades do corpo, numa mini-residência artística entre professores e artistas; realizei uma experiência formativa em escrita poética com professores de um CIEP da rede pública; e uma vivência na disciplina oferecida pelo Programa de Pós-graduação em Dança, chamada Laboratório de Dança-Educação. Em cada uma das experiências, preocupei-me em tematizar o acontecimento de acordo com o público com o qual eu estava lidando. A ver, na primeira experiência descrita, a “Roda de Possibilidades”, levei minhas memórias, presenças e porvires na minha experiência em educação para compartilhar com outros professores no período pós-pandemia. E, assim, ouvi-los, lê-los e interpretá-los, uma vez que compreendo a pandemia como uma tentativa desenfreada de nos arrancar a poesia. A segunda experiência, a mini-residência artística, preocupei-me em explorar a palavra “peso” e o paradoxo semântico que ela pode carregar: “um peso pesado” ou “um peso de peso”. Desta vez, ao brincar com os significados, queria extrair dos participantes os que lhes proporciona poesia e o que lhes subtrai. Na experiência realizada no CIEP, direcionamos nossas angústias em ser professor para registrá-las de forma poética. Já na última experiência, em Laboratório de Dança-Educação, ao deparar-me com pesquisadoras do corpo, quis levar algumas reflexões sobre o corpo a partir das minhas observações pessoais sobre a sua falibilidade, na compreensão de que é preciso sentir, ser corpo “corpar” (KATZ, 2021), para que se possa obter uma dimensão do debate sobre o corpo docente, numa concepção de corpo docente, doente e potente (Virna Bemvenuto, ?). Nossos encontros e – consequentemente – a coreografia das palavras que resultam neste tipo de registro nos permitem conhecer um pouco das experiências vividas e da relatora-observadora – coreógrafa de uma dança escrita. Por isso, chamo também a relatoria poética de dança-escrita, “Porque também as palavras [...] nos convidam a dançar com elas” (SKLIAR, 2014, p. 29). Aponto também para uma satisfação das ideias escritas a mão, poéticas e mais macias, mais criativas advindas das narrativas autobiográficas em igual valor, porque a pesquisa-vida também é formação, também pode ser acadêmica. Permitir-se olhar para dentro e narrar a própria história é sobre também questionar-se a si e às próprias escolhas acadêmicas e profissionais, e também de afetos. Reconhecer na complexidade a possibilidade de borrar as segmentações de saberes para um saber mais amplo, porque assim a vida é: ampla e complexa. Da mesma forma, é preciso olhar para si e para a própria história com o mesmo carinho e generosidade do olhar para a história coletiva, suas dores e delícias. A escrita na areia e a dança das ondas desbravam a Pesquisa Narrativa (CLAUDENIN; CONNELY, 2015), as Metodologias Minúsculas, a “pesquisa-vida” (GUEDES; RIBEIRO, 2019) ou “investigación-vida” (LENZ; RAMALLO & RIBEIRO, 2023) e a Teoria da Complexidade (MORIN, 2006). Um corpo submerso em seus processos desenvolve o conceito de dispositivo, gênero textual e linguagem poética. Na caracterização da relatoria poética enquanto gênero textual, atirei-me ao mar de saberes sobre a leitura e a escrita: o entendimento sobre dispositivo (DELEUZE, 2021), gêneros textuais, intertextualidade, processos de leitura e escrita (COSTA, 2009; KOCH, 2007; MARCUSCHI, 2007; COELHO, 2000), linguagem e poesia (SKLIAR, 2014). Uma pesquisa subjetiva, diversa, decolonial, artística e processual, porque oriunda de uma pesquisa narrativa das histórias vividas e narradas (CLANDININ; CONNELLY, 2015; KRENAK, 2019, 2021). Corpo a corpo, trago comigo professores, pesquisadores e artistas, da Literatura (BARROS, 2010), da Dança (BARDET, 2014; KATZ, 2021) e da Educação (FREIRE, 2007; RUFINO, 2022). Os resultados da investigação destacam a valorização da experiência e da partilha acredita na autonomia e na potência de narrativas outras, reconhecendo seus saberes e suas diferenças, suas lutas, esperanças. Desperta assim afinidades, amplitude de saberes, de conexões. Da mesma forma, creio que a relatoria poética poderá funcionar para além da reflexão entre educadores para despertar educandos, muitas vezes atraídos ao conhecimento pelo viés do afeto. Isso significa dizer que – quando registramos as falas/dizeres que nos tocaram o coração, pode revelar muito mais que anotações fechadas, que repudiam a subjetividade de quem as escreve. Significa visibilizar a trajetória de todos os envolvidos. Além disso, diante de tantas experiências que me tocaram o coração, acredito que possamos pensar a relatoria poética para além da reflexão da própria formação docente, como também rica ferramenta pedagógica para despertar uma educação pelo/do/com o corpo, o movimento e o registro. A relatoria poética, assim, pretende abrir caminhos para uma dança-escrita na escola, na pesquisa e na vida. REFERÊNCIAS BAJOUR, Cecília. Ouvir nas entrelinhas: o valor da escuta nas práticas de leitura. São Paulo: Pulo do Gato, 2012. BARDET, Marie. A filosofia da dança: um encontro entre dança e filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 2014. BARROS, M. de. Manoel de Barros: poesia completa. São Paulo: Leya, 2010. BRETÓN, H. Pesquisa narrativa: entre descrição da experiência vivida e configuração biográfica. Cadernos de Pesquisa, São Paulo, v. 50, n. 178, p. 1138–1158, 2020. Disponível em:
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