POSICIONAMENTOS POLÍTICOS DE ESTUDANTES UNIVERSITÁRIOS BRASILIEROS: UM ESTUDO SOBRE OS EFEITOS DO ACESSO AO ENSINO SUPERIOR E AS EXPECTATIVAS DE INSERÇÃO NO MERCADO DE TRABALHO

- 215079
Resumo Expandido - Trabalho em Andamento
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Abstract
POSICIONAMENTOS POLÍTICOS DE ESTUDANTES UNIVERSITÁRIOS BRASILIEROS: UM ESTUDO SOBRE OS EFEITOS DO ACESSO AO ENSINO SUPERIOR E AS EXPECTATIVAS DE INSERÇÃO NO MERCADO DE TRABALHO Este trabalho apresenta uma análise dos dados coletados na fase quantitativa de uma pesquisa coletiva, financiada pelo CNPq, que envolveu pesquisadores das cinco regiões do Brasil e duas instituições internacionais. A pesquisa investigou as opiniões políticas de estudantes dos cursos de Engenharia Civil, Direito, Pedagogia e Psicologia, oriundos de universidades como a Universidade de São Paulo (USP), Universidade Federal do Pará (UFPA), Universidade Federal do Ceará (UFC), Universidade Federal do Paraná (UFPR), Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD), Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio) e Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). O objetivo central da pesquisa foi mapear as tendências de comportamento político desses estudantes, relacionando essas tendências à experiência contraditória de prolongamento da escolarização e às dificuldades de inserção no mercado de trabalho, especialmente em função de sua crescente desregulamentação e precarização. Trata-se, assim, de uma pesquisa que buscou compreender as correlações entre (i) origem social e familiar, (ii) trajetória escolar, (iii) percepções sobre a experiência no ensino superior, (iv) expectativas em relação à inserção no mercado de trabalho e (v) posicionamentos políticos. A pesquisa se insere em um esforço mais amplo para entender os mecanismos que explicam a adesão ou o desencanto com determinados princípios da democracia representativa, investigando a relação entre as opiniões políticas dos estudantes e o fenômeno do alongamento da escolarização, contrastado com as dificuldades de inserção no mercado de trabalho. Para tanto, foram selecionados quatro cursos de graduação com diferentes características formativas e prestígio social, bem como destinos distintos para o mercado de trabalho, o que resultou em perfis socioeconômicos variados entre os estudantes. A metodologia adotada combinou a coleta de dados quantitativos, por meio de questionários online, e dados qualitativos, obtidos por meio de grupos focais também online. Nesta comunicação, apresentamos uma análise preliminar dos dados quantitativos, coletados por meio de um questionário estruturado em cinco blocos temáticos: (i) perfil socioeconômico e dados pessoais, (ii) trajetória familiar e escolar, (iii) formação durante a pandemia de Covid-19, (iv) trajetória profissional e expectativas de mercado, e (v) opiniões políticas. A análise dos 236 questionários respondidos foi realizada utilizando a técnica de Análise de Correspondências Múltiplas (ACM), que permite a organização gráfica e relacional de dados qualitativos, representando-os em planos cartesianos. A técnica da ACM foi aplicada para destacar as relações entre as propriedades sociais dos indivíduos e suas práticas, sem atribuir um significado essencialista a essas práticas, mas contextualizando-as dentro das estruturas sociais. Neste sentido, o uso da ACM possibilitaria minimizar os riscos de análises substancialistas das possíveis relações entre uma dada prática e uma dada categoria social; como, por exemplo, se o gosto por determinado estilo musical estivesse necessariamente relacionado a um pertencimento de classe específico (Bertoncelo, 2016 e 2016a). No sentido contrário, a ACM é essencialmente relacional, visto que essa metodologia é capaz de posicionar as variáveis umas em relação às outras no interior do espaço social, agrupando os elementos similares e distanciando os diferentes (Klüger, 2018). A ACM foi introduzida nas ciências sociais por Pierre Bourdieu, em função de que tal técnica possibilitaria observar e representar graficamente as estruturas sociais e suas polarizações, conduzindo à compreensão das dinâmicas daí decorrentes. De acordo com Bourdieu, o espaço social é multidimensional e funciona como um macrocampo de forças (e de lutas), que abriga, em seu interior, uma multiplicidade de campos sociais mais específicos[1], nos quais indivíduos e grupos se distribuem em função da posse de determinados capitais, que podem ser econômicos, culturais, sociais e simbólicos. Assim, alguns agentes, em função das posições que ocupam no espaço social, estão mais próximos de outros e, portanto, teriam maior probabilidade de internalizar disposições e tomadas de posição análogas, orientadas por um habitus[2] de classe comum (Bourdieu, 2013; Bourdieu e Wacquant, 1992) A partir dos dados gerados pela ACM, foi realizada uma análise dos clusters formados por meio do método Ward, utilizando o software SPAD. Os clusters identificados refletem padrões de afinidade e oposição nas opiniões políticas e sociais dos estudantes, permitindo a identificação de três perfis distintos: (1) Progressistas, (2) Liberal-conservadores e (3) Conservadores (com forte tendência a abstenção nas respostas). Cada cluster revela características específicas relacionadas à identidade social, acadêmica e religiosa dos indivíduos, bem como suas expectativas em relação ao mercado de trabalho. Os resultados preliminares indicam que as opiniões políticas dos estudantes variam conforme características como gênero, idade, curso, universidade e expectativas profissionais. O cluster progressista é composto, principalmente, por jovens do sexo feminino, com acúmulos elevados de capital cultural e econômico, e que demonstram maior engajamento com questões de vocação e pós-graduação. O cluster liberal-conservador é formado por homens, majoritariamente dos cursos de Direito e Engenharia Civil, com uma percepção cética em relação ao mercado de trabalho. Por fim, o cluster conservador, que também tende fortemente à abstenção nas respostas, é composto por indivíduos mais velhos, de menor capital econômico e cultural, com tendência a respostas mais neutras ou conservadoras. Nessa comunicação, pretendemos apresentar de modo mais pormenorizado a composição política, econômica e social de cada cluster, com ênfase sobre as correlações entre as trajetórias sociais e familiares, a experiência de passagem pelo ensino superior, as expectativas de inserção no mercado de trabalho e as tomadas de posições políticas, dado que nos ajudam a compreender como diferentes perfis de estudantes e perfis de cursos e universidades se combinam na formação do espaço social das posições políticas encontradas. Referências Bibliográficas BERTONCELO, E. R. E. O espaço das classes sociais no Brasil. Tempo Social, 28(2), 73-104, 2016. BERTONCELO, E. R. E. O uso da Análise de Correspondências Mùltiplas nas Ciências Sociais: possibilidades de aplicação e exemplos empíricos. In: 40o encontro anual da ANPOCS, 2016a. BOURDIEU, P. e WACQUANT, L. Réponses. Paris: Seuil, 1992. BOURDIEU, P. Capital simbólico e classes sociais. Novos Estudos. n 96, julho, 2013. BOURDIEU. O poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2005. BOURDIEU. O senso prático. RJ: Vozes, 2009. KLÜGER, Elisa. Análise de correspondências múltiplas: fundamentos, elaboração e interpretação. BIB, São Paulo, n. 86, 2/2018, pp. 68-97. [1] Segundo Bourdieu, o campo “é um microcosmo, isto é, um pequeno mundo social relativamente autônomo no interior do grande mundo social. Nele se encontrará um grande número de propriedades, relações, ações e processos que se encontram no mundo global, mas esses processos, esses fenômenos, se revestem aí de uma forma particular. É isso o que está contido na noção de autonomia: um campo é um microcosmo autônomo no interior do macrocosmo social. Autônomo, segundo a etimologia, significa que tem sua própria lei, seu próprio nomos, que tem em si próprio o princípio e a regra de seu funcionamento. É um universo no qual operam critérios de avaliação que lhe são próprios e que não teriam validade no microcosmo vizinho. Um universo que obedece a suas próprias leis, que são diferentes das leis do mundo social ordinário” (BOURDIEU, 2005, p. 195). [2] A noção de habitus, retrabalhada em relação às suas origens aristotélico-tomistas, na obra de Bourdieu, cumpre a função de relacionar as dimensões individual e social. Trata-se de um sistema de (pré) disposições adquiridas nos processos de socialização. “Produto da história, o habitus produz as práticas, individuais e coletivas, portanto, da história, conforme os esquemas engendrados pela história; ele garante a presença ativa das experiências passadas que, depositadas em cada organismo sob a forma de esquemas de percepção, de pensamento e de ação, tendem, de forma mais segura que todas as regras formais e que todas as normas explícitas, a garantir a conformidade das práticas e sua constância ao longo do tempo” (BOURDIEU, 2009, p. 90).

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  • 1 USP- Universidade de São Paulo
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  • GT03 - Movimentos Sociais, Sujeitos e Processos Educativos