A IMPORTÂNCIA DOS PRODUTOS ARTÍSTICO-CULTURAIS NA CRIAÇÃO DE ‘CONHECIMENTOSSIGNIFICAÇÕES’ EM EDUCAÇÃO Paulo Cesar Rodrigues Carrano – Universidade Federal Fluminense Leonardo Nolasco-Silva – Universidade do Estado do Rio de Janeiro Ana Cristina Nascimento Givigi – Universidade Federal do Recôncavo da Bahia Coordenadora: Nilda Alves – Universidade do Estado do Rio de Janeiro Resumo: A presença da produção artístico-cultural (AC) nas escolas e em outras redes educativas sempre existiu. Entretanto, as pesquisas em Educação, durante muitos anos, a ignorou. Apesar disso, a potência de imagens, sons e afetos nos processos educativos é tão grande que, crescentemente, elas foram sendo usadas e criadas nas pesquisas em Educação, em inúmeros grupos por todo o país, chegando a um ponto em que, por estímulo de diversos programas, a ANPEd criasse em 2022 a Comissão Especial para propor Política de Valorização da Produção Artístico-Cultural na Pós-graduação e na Pesquisa em Educação, reafirmada em 2024, com uma reestruturação. Essa Comissão se dedicou, inicialmente, a conhecer documentos publicados pela CAPES, nos quais estavam registrados os modos como outras áreas se preocupavam com a avaliação desta produção, e a ouvir colegas que participaram desse debate. Em seguida, produziu um questionário que recebeu quase 200 respostas. No final de 2023, em uma live organizada pelo Forpred, se fez pública a concordância dos programas para que este estudo continuasse. Em 2024, com o debate público solicitado pela Comissão de Avaliação de Educação, da CAPES, acerca da ficha de avaliação para o quadriênio 2025-2028, a Comissão/ANPEd se dedicou à análise da mesma sugerindo mudanças. Dessas, a mais significativa, aceita para ser acrescentada à ficha, foi a que deixa clara a existência desses produtos, acrescentando-os à produção intelectual da Educação. O trabalho da Comissão continuará em 2025, por interesse da Direção da ANPEd, que entende ser preciso aprofundar os modos de produção e de avaliação dos produtos AC na área. Para tanto, será necessário ampliar os debates em torno da questão junto aos programas, reunidos no FORPRED, junto aos GTs e GEs, com articulação permanente com a Comissão de Avaliação da CAPES. A proposta do painel é pensar os desafios existentes para a reafirmação dos produtos AC como ‘espaçostempos’ de criação de ‘conhecimentossignificações’ na Educação, visando o próximo quadriênio (2025-2028), para que sua produção se amplie e para que sua avaliação se realize plenamente. O primeiro trabalho nos mostra os resultados do citado questionário que recebeu respostas de pesquisadores/as dedicados/as ao AC em quase todos os estados do país, nos dando também conta de dados produzidos pela CAPES acerca da questão. O trabalho seguinte nos traz movimentos que têm sido desenvolvidos nas pesquisas na área da Educação ao trabalharem nessa seara. Por fim, o terceiro trabalho permite avançar na compreensão da avaliação dos programas profissionalizantes. Palavras-chave: produção artístico-cultural; avaliação; cotidianos; produção de ‘conhecimentossignificações’. A presença dos produtos artístico-culturais na área da educação Resumo: O texto analisa a inserção dos produtos artístico-culturais na Pós-Graduação em Educação, nos registros da CAPES, e destaca as potencialidades para o seu crescimento e diversificação na área. Apresenta dados comparativos entre áreas do conhecimento e discute os desafios de valorização desses produtos na avaliação acadêmica. A criação da Comissão de Produtos Artístico-Culturais pela ANPEd e iniciativas como a sondagem "Quem Somos? os/as produtores/as artístico-culturais” evidenciam o esforço para ampliar o reconhecimento e a legitimação dessas produções na área da Educação. Palavras-chave: Produção artístico-cultural; Pós-Graduação em Educação; Avaliação acadêmica. Temos a perspectiva que o debate que a ANPEd fomentou com a criação da Comissão Especial para propor política de Valorização da produção artístico-cultural na Pós-graduação e Pesquisa em Educação venha a estimular a maior participação da produção artístico/cultural na área da Educação ao longo dos próximos anos. A produção intelectual na Avaliação da Pós-Graduação no Brasil é classificada pelos tipos “Bibliográfica”, “Artístico-Cultural” e "Técnica”, para o próximo quadriênio (2025-2028). Nosso esforço tem sido por estimular o debate e buscar influenciar para que os produtos artístico-culturais sejam reconhecidos e valorizados na avaliação da área. Na Plataforma do Observatório da Pós-Graduação (CAPES)[1], a produção intelectual coletada nos 190 programas de pós-graduação na Área de Educação para o ano de 2022 estava assim distribuída: produção bibliográfica, 56,91%; produção técnica, 42,71% e produção artístico/cultural, 0,37% do total da produção intelectual. No ano de 2023, a área da Educação registrou um pequeno decréscimo no registro de produtos artístico-culturais (0,32%) . A produção intelectual do tipo artístico-cultural da área da Educação (191 Programas em 2025) é equivalente com a grande área das Ciências Humanas (675 Programas), ambas apresentaram o percentual de 0,36% para esses mesmos produtos, no ano de 2022. É, contudo, guardando-se as devidas proporções entre o tamanho das áreas, percentualmente menor do que a produção da área de Arqueologia/Antropologia (37 programas) para produtos artístico-culturais que era da ordem de 1,74%, no ano de 2022. Em 2023, a área de Antropologia registrou mais produtos artístico-culturais que passaram a representar 2,4% de produtos intelectuais daquela área. Tal como era de se esperar, a Área de Linguística, Letras e Artes destaca-se na produção e registro de produtos artístico-culturais tendo apresentado os seguintes percentuais nos três primeiros anos do quadriênio anterior (2021-2024) de avaliação da Capes: 4,22% (2021), 6,41% (2022) e 6,38% (2023). [2] Em sentido diverso, áreas sem tradição epistemológica ou metodológica no campo artístico e cultural registram muito poucos produtos artístico-culturais em relação ao conjunto de sua produção intelectual, tal como é o caso da área de Ciências Exatas e da Terra que registrou 0,1% desses produtos, em 2019, 0,07%, em 2020, e 0,06% no ano de 2023. Em números absolutos, as áreas de Educação, Antropologia e de Linguística, Letras e Artes registraram, em 2020, os seguintes dados percentuais para os produtos artísticos-culturais em relação ao total da produção nas áreas: 231 (Educação), 250 (Antropologia) e 3.308 (Linguística, Letras e Artes). É preciso ressaltar as especificidades das áreas que favorecem a maior incidência de processos de produção de conhecimento que resultam em produtos artístico-culturais. A área da Antropologia já possuía orientação própria no quadriênio 2017-2020 denominada "Diretrizes para qualificação de produtos artístico-culturais/audiovisuais" e incluiu em sua ficha de avaliação dos programas de pós-graduação a categoria “Etnografias audiovisuais”. Esse movimento pode, além da tradição de produção audiovisual da área, ter estimulado a produção nesse campo específico de produção intelectual entre seus pesquisadores e estudantes dos programas de pós-graduação. A área de de Linguística, Letras e Artes, pela sua própria identidade, privilegia que seus processos de produção de produção de conhecimento sejam expressos na forma de produtos artístico-culturais, algo que se evidencia na sensível diferença quantitativa desses produtos nessa área. Na tabela a seguir (tabela 1), organizamos série histórica de dados, entre os anos de 2017 e 2023, que atravessam dois quadriênios de avaliação da pós-graduação em Educação. Buscamos evidenciar a relação entre os produtos artístico-culturais, seus subtipos (artes cênicas, artes visuais, música e outra produção), com a produção intelectual total dos Programas em Educação (Mestrado e Doutorado) e o total dos produtos artístico-culturais por cada um dos anos do período. A produção total da área oscilou entre 80.048 produtos intelectuais, em 2017, e 78.620, em 2023. Entre 2017 e 2023, alcançou-se o número de 561.994 produtos. O ano de 2019 apresentou o maior número de produções registradas, na ordem de 88.569. Sendo neste ano de 2019, também, que a produção artístico-cultural alcançou o seu maior número, 306 produtos, nesta série histórica. Considerando o total de produções artísticas e culturais, os anos pandêmicos de 2020 e 2021 apresentaram a maior redução de produtos, 231 para o ano de 2020 e 187 para o ano de 2021. Considerando os três primeiros anos de cada um dos últimos quadriênios de avaliação (2017-2020 e 2021-2024), é possível constatar que o penúltimo quadriênio registrou mais produções artístico-culturais (891) e em relação ao último quadriênio de avaliação (704). O predomínio de produtos artísticos culturais na série que vai entre 2017 e 2023 encontra-se no subtipo artes visuais com 742 produtos, seguido por “outra produção artístico-cultural” (579), artes ciências (332) e música (173). Desses números depreende-se o amplo predomínio das artes visuais como canal de expressão do que é produzido de forma artístico-cultural na pós-graduação em educação, algo que aponta para a subrepresentação das outras formas de expressão artística. Em outro aspecto, pode-se deduzir que o número expressivo de produtos categorizados no subtipo “outra produção” é uma sinalização da necessidade de que se amplie a subcategorização para outras formas de expressões artísticas que encontram-se, hoje, subsumidas num subtipo genérico de produção artístico-cultural que não nos permite conhecer as nuances e variações criativas do conhecimento que vem sendo produzido na pós-graduação em educação no Brasil e que podem se manifestar numa multiplicidade de outros tipos expressivos. Tabela 1 - Relação entre produtos artístico-culturais, seus subtipos, e total de produtos intelectuais na Área da Educação entre os anos 2017 e 2023 Ano Total de produtos intelectuais da Área da Educação Total de Produtos Artístico-Culturais Artes Cênicas Artes Visuais Música Outra produção artístico-cultural 2017 80.048 279 46 129 39 65 2018 85.773 306 69 126 27 84 2019 88.569 306 77 96 28 105 2020 74.429 231 28 99 33 71 2021 84.241 187 38 75 9 65 2022 70.314 263 38 110 12 103 2023 78.620 254 36 107 25 86 Totais 561.994 1.826 332 742 173 579 Tabela produzida pelo autor. Fonte: Painel de Dados do Observatório da Pós-Graduação/Plataforma Sucupira - CAPES. Disponível na internet , consultado em 26.02.2025. No ano de 2022, a Comissão de Produtos Artístico-Culturais da ANPEd distribuiu o formulário intitulado "Produtoras/es Artísticos e Culturais na Pós-Graduação em Educação - Quem somos?". Este foi divulgado pela ANPEd junto aos associados/as. O movimento público da Comissão teve como objetivo sondar a área e tecer rede de produtores/as interessados no tema da produção artístico-cultural. O questionário foi apresentado no formulário Google e contou com 20 perguntas divididas em duas seções: identificação do respondente e uma segunda seção que buscava indagar sobre o envolvimento do participante na criação de processos e/ou produtos artísticos e culturais. Recebemos 194 respostas. A área de formação predominante dos respondentes foi a área de Ciências Humanas, com 57,7% das respostas. Em segundo lugar, com 22,2% das respostas, estão as áreas de Linguística, Letras e Artes. Declararam associação à ANPEd 86,1% dos respondentes e 13,1% informaram não serem associados. Sobre a vinculação dos respondentes aos GTs da ANPEd, o predomínio foi de 23,8% vinculados ao GT09 - Trabalho e Educação, 23,8% ao GT Formação de Professores e 7,4% ao GT Educação e Comunicação. Ainda sobre o perfil dos que responderam ao questionário, 46,4% dos participantes têm o vínculo de Docente Permanente, 25,3% são mestrandos/as, 21,6% doutorando/a, 4,1 % docente colaborador e 2,6% pós-doutorando/a de Programas de Pós-Graduação. Na segunda seção, que reuniu perguntas sobre a criação de processos e/ou produtos artísticos e culturais, uma parcela expressiva das respostas, 73,7%, relatou ter criado, nos últimos cinco anos, algum tipo de produto ou processo criativo que poderia ser considerado artístico ou cultural em suas pesquisas na pós-graduação. No entanto, um grupo menor, correspondendo a 19,1% das respostas, indicou que não desenvolveu tais produtos ou processos criativos. A esses últimos foi dada a orientação de encerrar o questionário e enviar suas respostas, pois não seria mais necessário continuar para os fins desta sondagem. Dentre os participantes que afirmaram ter criado conteúdo artístico ou cultural em suas pesquisas, o Audiovisual (cinema, vídeo, etc) foi o produto mais citado com 34,4%, seguido por 28,6% de respostas que apontaram para a criação de conteúdo Sonoro (musical, podcast, etnografia sonora etc), 26% das respostas mencionaram a Literatura (poema, prosa, dramaturgia etc). Produtos estritamente visuais (pintura, fotografia, desenho, cartoon, charge etc) foram citados por 25% das respostas. Produtos Cênicos (teatro, dança, performance, circo etc) foram citados por 17,2% dos entrevistados. Esses dados destacam a diversidade de meios e formatos criativos elaborados nas pesquisas em nossa área da Educação. As respostas indicam que 59,1% dos produtos estão vinculados a uma linha ou grupo de pesquisa em seus respectivos Programas de Pós-Graduação, 25,9% não estariam vinculados e 15% não souberam responder sobre os vínculos de seus produtos. Considerando que a classificação de produtos artístico-culturais que se busca encontra-se diretamente relacionada com a organicidade dos produtos com grupos e linhas de pesquisa, estes são dados especialmente relevantes por expressar que parcela significativa dos/as produtores/as não apontam relação orgânica com o substrato acadêmico institucional dos programas de pós-graduação que são suas linhas e grupos de pesquisa. Sobre o financiamento dos projetos de pesquisa que originaram os produtos artístico-culturais, 62,9% das respostas informaram que os produtos/processos não foram originados em projetos financiados, enquanto 37,1% o foram. Dos financiados, 72% dos projetos obtiveram financiamentos públicos. Nota-se que a maioria dos participantes, correspondendo a 58,1%, revelou ausência de vínculo com redes de pesquisa local, regional, nacional ou internacional. Isso levanta questões intrigantes sobre a necessidade de maior integração e colaboração em nível acadêmico. Por outro lado, 41,9% dos participantes confirmaram que seus projetos têm vínculos com redes de pesquisa. Isso destaca a importância de conexões interdisciplinares e colaborativas que podem pluralizar os ambientes de pesquisa e promover a disseminação de ideias e a comunicação pública da ciência. Quando se trata do acesso público aos produtos e processos criativos, 48,7% responderam afirmativamente, enquanto 51,3% das respostas informaram a indisponibilidade de acesso público. Segundo as respostas à pergunta que indagou sobre a abrangência do acesso dos produtos, 33,3% desses projetos estariam acessíveis ao público em âmbito local, 29,7% nacionalmente, 19,3% alcançaria público internacional e 17,7% teria abrangência regional. Considerando o perfil do público alcançado, em resposta à pergunta de opção múltipla, docentes da Educação Básica e estudantes foram apontados em 125 respostas, seguido das opções "outros pesquisadores" (93 respostas), organizações e movimentos sociais (57 respostas), trabalhadores/as (40 respostas) e moradores de bairros (37 respostas). Um campo de resposta aberta no questionário solicitou que o respondente deixasse comentário e/ou sugestão para a Comissão Qualis Arte-Cultura da ANPEd aprimorar o debate sobre o tema na área da Educação. Os participantes enfatizaram a necessidade de valorizar os processos criativos artísticos na Educação e reconheceram a importância de outros tipos de pesquisa. Isso inclui a sugestão de atribuir qualis para produtos artísticos relacionados com a produção de paradidáticos desenvolvidos por pesquisadores/as da área. Além disso, foi proposta a elaboração de um manual de identificação de produtos artísticos para orientar sobre como e onde preservar e divulgar essas atividades artísticas e culturais. Essas sugestões refletem um desejo de maior reconhecimento e integração das dimensões artísticas na pesquisa acadêmica. Por fim, é notável que a grande maioria dos participantes, ou seja, 91,8% concordou em receber informes da Comissão de Produtos Artísticos e Culturais da ANPEd por meio do email cadastrado no formulário. Isso demonstra engajamento e interesse na continuidade do diálogo e colaboração com a comissão, ressaltando a importância de manter os participantes informados e envolvidos nas atividades futuras. Desde a criação da Comissão de Produtos Artístico-Culturais pela ANPEd, em 2022, até a recente discussão e definição da nova ficha de avaliação dos Programas de Pós-Graduação em Educação que vigorará para o quadriênio 2025-2028, avançamos na abertura de novas perspectivas para que diluir as assimetrias de valoração entre os tipos de produtos intelectuais em nossa aérea. Ainda que a maior valorização siga recaindo para os produtos bibliográficos, há uma sensível busca de equalização avaliativa que amplia a perspectiva sobre a diversidade de produtos intelectuais, caminho que pode, em médio e longo prazo, contribuir para para diluição das hierarquias na área, em especial, reconhecendo o trabalho de grupos criativos que produzem conhecimento ancorados na cultura e na arte. Referências ANPEd. Relatório da Comissão Especial para Propor Política de Valorização da Produção Artístico-Cultural na Pós-Graduação e Pesquisa em Educação. Portal da ANPEd, ANPEd, 2023. Disponível em:
https://anped.org.br/comissao-de-produtos-culturais/. Acesso em: 21 mar. 2025. CARRANO, Paulo Cesar R. Comissão sobre produtos artístico-culturais para o PNPG contará com Sessão Conversa na ANPEd Sudeste 2022. Portal da ANPEd, ANPEd, 2022. Entrevista. Disponível em:
https://anped.org.br/310-news/. Acesso em: 21 mar. 2025. Sobre a fabulação na criação de ‘conhecimentossignificações’: narrar a vida, autoficcionalizar e hipermidializar a ciência Resumo: Opero, neste texto, com a noção de fabulação – a partir de Deleuze – para, com ela, propor uma prática científica comprometida com a ampliação das subjetividades, de modo a realizar – na perspectiva dos cotidianos – conexões entre ciência e arte. Para tanto, revisito uma pesquisa com narrativas realizada há mais de vinte anos, durante o meu mestrado, e faço outros usos dos meus diários de campo, compondo outras histórias a partir de um referencial teórico-metodológico novo. Aplico a essas narrativas a técnica do ‘praticantepensante’ alegórico (Nolasco-Silva, 2019) e crio um filme de ficção, prospectando outros modos de circulação dessa pesquisa que problematiza os devires das masculinidades, mas também os limites e as possibilidades do pesquisador cotidianista que se aventura a operar com narrativas. Como pano de fundo dessa conversa-experimentação temos o debate acerca da produção artístico-cultural na área da Educação. Palavras-chave: Fabulação; autoficção; narrativas; masculinidades; audiovisualidades. Fabulação, para Deleuze (1990), é a criação de novas maneiras de existir e de pensar, que coloca em cena figuras que não são meramente fictícias, mas potências de pensamento. A fabulação, nesse sentido, pode ocorrer em um processo de criação de personagens conceituais e de mundos possíveis, que não se limita à representação da realidade tal como ela é, mas tem o desejo de transformá-la. No contexto do cinema, Deleuze fala sobre a fabulação como um ato político e criador. Para Deleuze, a fabulação tem um papel revolucionário porque não se propõe a falar pelo povo, mas a contribuir para que esse povo fabrique a si mesmo através de novas narrativas e imagens. Nesse sentido, a fabulação é um ato que permite que subjetividades antes invisíveis ou silenciadas/marginalizadas encontrem sua própria forma de expressão. Em outras palavras, o que Deleuze propõe com a fabulação é estimular a experimentação de outros modos de habitar o mundo que ainda não tenham se estabelecido – não porque esses modos não existam, mas porque ainda não fazem parte do repertório de determinados indivíduos. Imaginar como seria a vida caso ela não fosse como é, seria, nessa perspectiva, um exercício de expansão da subjetividade, uma aposta na alteridade ou, no mínimo, uma fruição artística. Deleuze vê a fabulação como uma ferramenta epistemológica que a ciência pode usar para expandir seus horizontes, e não como um risco de imprecisão. Ao criar novas funções e proposições, a ciência frequentemente se apoia em metáforas, ficções teóricas e modelos imaginativos para descrever fenômenos complexos. Por isso, a fabulação não deve ser entendida como uma invenção arbitrária ou uma falsidade, mas como um modo de abrir o pensamento para novas possibilidades, permitindo que a ciência antecipe descobertas, questione verdades estabelecidas e construa realidades alternativas. Afinal, mesmo que a ciência busque objetividade, ela não pode avançar sem certo grau de fabulação, pois é por meio da imaginação que ela inventa novos problemas, propõe soluções inesperadas e transforma nossa relação com o mundo. Escolhi começar esse texto definindo fabulação a partir de Deleuze, por entender que esta é uma noção importante nas pesquisas que realizo. Como pesquisador cotidianista, pratico uma ciência pautada no compromisso com a expansão das subjetividades, de modo que aquilo que produzo com o meu trabalho estará sempre à serviço dos processos de desterritorialização[3] dos discursos hegemônicos que tentam atrofiar os modos plurais de existência. O que busco realizar, operando com narrativas e delas fazendo usos muito singulares[4], é criar contradiscursos por meio do audiovisual e de outros formatos viabilizados pela linguagem das hipermídias, assumindo a ficção como recurso narrativo que, em algumas ocasiões, atravessa e encontra o corpo do próprio pesquisador enquanto lócus de enunciação. Quando isso ocorre, a pesquisa se aproxima daquilo que tenho chamado – tomando de empréstimo da literatura – de autoficção. A autoficção, do modo como a tenho praticado nas pesquisas com os cotidianos, é a narração de si – nas contingências da memória que se atualiza no presente – com a consciência de que, ao narrar, editamos. E, ao editar, fazemos associações entre o vivido na esfera íntima e o contexto mais geral que nos rodeia; negociamos saídas para as encruzilhadas em que estivemos; ocultamos pedaços de histórias que nos foram traumáticas, desfavoráveis ou vergonhosas; cruzamos nossas lembranças com as histórias de outras pessoas e fazemos isso porque toda história é transindividual (Escóssia, 2010), ou seja, nenhuma pessoa é um dado isolado, um ponto de partida fechado em si mesmo, mas o resultado de um processo no qual emergem indivíduo psíquico e meio. Em outras palavras, toda biografia é uma ficção nascida de um prolongamento, tramada a partir e em meio a relações. E quando o pesquisador cotidianista decide assumir, com o seu corpo, as narrativas do seu campo, fazendo-as passar por ele, tornando a escrita em primeira pessoa uma narração encarnada, o que se tem é o encontro, em linhas de fuga, entre ciência e arte. Em Certeau (2014), ciência e arte se cruzam ao refletirem sobre as maneiras pelas quais o ser humano entende e narra a realidade, pois ambas são práticas culturais que operam no cotidiano, ora como táticas, ora como estratégias, respondendo a contextos sociais e históricos específicos. Tomadas como práticas culturais, ciência e arte podem criar espaços de resistência à ordem dominante, questionando verdades estabelecidas, funcionando como uma espécie de ‘contaminação’ criativa. Da mesma forma que os métodos científicos podem inspirar as práticas artísticas, a arte provoca e questiona os fundamentos epistemológicos e estéticos da ciência. Vale lembrar que, em Foucault (2007), ciência e arte participam da produção de saberes e modos de ver o mundo. Enquanto a ciência estaria vinculada às condições históricas que definem o que é considerado “verdadeiro” em um dado momento, a arte poderia ser vista como uma prática que escaparia parcialmente desses regimes de verdade, desafiando os limites e abrindo novas formas de percepção. A proposta aqui é pensar em que medida podemos fazer pesquisas com os cotidianos abdicando dessa dicotomia para, ao invés dela, apostar cada vez mais na imbricação entre ciência e arte enquanto práticas humanas que produzem discursos que, não necessariamente, precisam almejar representar o real ou alcançar o estatuto da verdade, mas sim causar efeitos em quem delas se aproxima. Sabemos o quanto tem sido desafiador conectar aquilo que se faz na universidade com aquilo que se consome na sociedade, pois parecem existir certas incompatibilidades em termos de linguagem, nas formas de abordagem dos temas e, até mesmo, em alguns casos, desinteresse de um lado e de outro em iniciar conversas. Em contrapartida, tem crescido na Internet, nas redes sociais, supostos especialistas falando “fácil” sobre muitos dos assuntos difíceis que pesquisamos na Academia, conseguindo alcançar – com os bons usos que têm feito da linguagem hipermídia – um público cada vez maior e mais interessado naquilo que eles têm a dizer. É nesse contexto de narrativas em disputa – onde a universidade tem perdido espaço para outros meios de produção e de circulação de conhecimento – que as pesquisas que realizo operam. Temos investido nos usos das imagens e dos sons, fundamentados nas ideias de fabulação, de autoficção e de adiovisualidades[5], sempre partindo das narrativas que produzimos com os nossos interlocutores que, como se sabe, serão editadas e remixadas para, depois, serem transformadas em personagens conceituais, materializadas (ou não) no corpo do pesquisador. Nesse processo de montagem do discurso – porque é disso que se trata – muitas tecnologias são postas em movimento. Ultimamente tem ganhado destaque em nosso grupo de pesquisa[6] as ferramentas de Inteligência Artificial (IA), sobretudo aquelas que nos ajudam a produzir imagens, mas também os “conversadores” estilo ChatGPT, que podem funcionar como coautores na produção de textos ou até mesmo de aulas. Nossa intenção ao usar as imagens produzidas por IA é ilustrar as narrativas, criando cenários, movimentos, rostos, desenhando emoções que possam se aproximar do que vimos ou percebemos no campo, para que o espectador tenha a possibilidade de sentir – esse é o verbo – algo que seja próximo daquilo que sentimos, enquanto pesquisadores, quando os dados primários foram produzidos. É claro que, nesse processo de edição, o pesquisador inventa uma emoção nova, cria uma atmosfera que não é a mesma do contexto original, mas ainda assim é um movimento válido, pois há uma intencionalidade ‘teoricoprática’ nesse gesto, há um pensamento que está sendo posto em ação pelo pesquisador a partir das narrativas ficcionalizadas e é isso que importa quando estamos falando de um filme de pesquisa. Quando fiz o meu mestrado, há mais de 20 anos, entrevistei homens que cumpriam penas pelo crime de estupro. Passei quase dois anos reunindo narrativas dentro de uma penitenciária, ainda sem ser um pesquisador cotidianista. Eu era um jovem antropólogo que fazia etnografias do tipo tradicional. Então, muitos dos dados produzidos na época ficaram de fora da dissertação, por serem considerados “sobras”, por não servirem ao “escopo” da pesquisa. Eram histórias que contavam da vida íntima daqueles homens, dos seus medos, dos seus amores, das suas sexualidades, dos seus prazeres, enfim, relatos que transbordaram das entrevistas porque o que passamos a ter – sem que eu tivesse controle sobre isso – eram conversas, longas conversas sobre a vida. Só agora, passadas duas décadas, é que consegui fazer um filme[7] com essas histórias, para pensar outros modos de subjetivação das masculinidades e para refletir sobre os limites éticos da atuação do pesquisador no campo – reflexão que não faço no filme, mas em um artigo derivado do filme. Porque a produção artístico-cultural não exclui a produção bibliográfica, ao contrário, serve-se dela e a alimenta. Referências ALVES, N. A compreensão de políticas nas pesquisas com os cotidianos: para além dos processos de regulação. Educação e Sociedade, Campinas, v. 31, n. 113, p. 1.195-1.212, out./dez. 2010. Disponível em:
https://www.redalyc.org/articulo.oa?id=87315816008. Acesso em: 30/01/25. CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano: artes de fazer. Petrópolis: Vozes, 2014. DELEUZE, Gilles. Cinema 2: a imagem-tempo. São Paulo: Brasiliense, 1990. DELEUZE, Gilles. Diferença e Repetição. Rio de Janeiro: Graal, 2006. DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. O que é a filosofia? Tradução de Bento Prado Jr. e Alberto Alonso Muñoz. 1.ed. São Paulo: Editora 34, 1992. DELEUZE, Gilles; GUATARRI, Félix. Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia 2, vol. 5. São Paulo: Editora 34, 2012. FOUCAULT, Michel. As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas. 9ª ed. Trad. Salma Tannus Muchail. São Paulo: Martins Fontes, 2007. NOLASCO-SILVA, L.; Tecnodocências: a sala de aula e a invenção de mundos. 1. ed. Salvador: Devires, 2019. Programas profissionais de pós-graduação em Educação: os produtos e as pistas estético-políticas para um conhecimento sem hierarquias Resumo: O texto analisa as possibilidades de criar novos ‘conhecimentossignificações’ que tem os produtos tecnológicos gerados nos Programas Profissionais de Pós-Graduação, quando são produtos artístico-culturais, por incitar as dimensões estéticas e éticas do conhecimento e gerar efeitos desestabilizadores ao conhecimento tradicional. Desvelam, por isso, os artifícios das hierarquias entre modos de conhecer e os lugares de poder dos que nomeiam o que é ciência. Palavras-chave: pós-graduação, programas profissionais em educação, produtos tecnológicos, produtos artístico-culturais Os programas de pós-graduação profissionais existem no Brasil desde a organização do Sistema Nacional de Pós Graduação, mas expandiram-se na década de 90 e, de forma ainda mais sistemática, a partir da Portaria Capes 7/2009 que regulamenta seu funcionamento, depois atualizada pela Portaria 60/2019, que também revê a Portaria que cria os doutorados profissionais, datada de 2017. Dos 196 programas de pós-graduação em educação regulamentados pela Capes, 55 são programas profissionais e 141 são acadêmicos; contudo, deste total, 41 mestradose 14 doutorados são profissionais, 37 mestrados e 104 doutorados são acadêmicos, o que significa que a maior parte dos/as mestres são formados por essa modalidade. Por sua natureza e objetivo, os Programas de Pós Graduação Profissionais em Educação (PPE) formam pesquisadores/as envolvidos/as amplamente com as questões do cotidiano, uma vez que já são criados visando o estreitamento da relação entre ciência, ambiente profissional e impacto/inserção social. Assim, a atitude prático-política que guia a pesquisa e a formação, deve resultar, além da dissertação ou tese, também em produtos de educação, classificados para fins de avaliação como produtos técnicos tecnológicos (PTT) que, ora são parte efetiva das metodologias colaborativas e participativas – como oficinas, entrevistas coletivas, cursos de for...