MEMÓRIAS DA IMPLEMENTAÇÃO DA ELEIÇÃO DIRETA PARA DIRETORES ESCOLARES NA PMV/ES, EM 1992: UMA CONVERSA COM VITOR BUAIZ

- 214912
Resumo Expandido - Trabalho
Favorite this paper
How to cite this paper?
Abstract
MEMÓRIAS DA IMPLEMENTAÇÃO DA ELEIÇÃO DIRETA PARA DIRETORES ESCOLARES NA PMV/ES, EM 1992: UMA CONVERSA COM VITOR BUAIZ Introdução Este estudo tem como objetivo central analisar a implementação das eleições diretas para diretores escolares no município de Vitória, Espírito Santo, em 1992, com foco nas dinâmicas políticas e sociais que marcaram esse processo. Para isso, utiliza-se da metodologia da memória oral, por meio de uma entrevista com um dos principais atores envolvidos na iniciativa, o então chefe do Executivo municipal, Vitor Buaiz. A narrativa oferece uma perspectiva histórica sobre os desafios, avanços e impactos dessa política, contribuindo para a compreensão das transformações na gestão educacional da época. A memória oral, como ferramenta metodológica, complementa a análise documental e enriquece a reconstrução histórica, permitindo resgatar experiências e reflexões. Segundo Severino (2013), as fontes de pesquisa incluem não apenas documentos impressos, mas também gravações, memórias orais e outros registros, ampliando a compreensão do tema. A entrevista, realizada com base em protocolos éticos, destaca-se como fonte primária para explorar motivações, estratégias e percepções, possibilitando uma análise contextualizada e humana. Essa abordagem evidencia os aspectos práticos e simbólicos da gestão democrática na educação, alinhando-se à valorização da diversidade de fontes para uma investigação mais abrangente e profunda. Além de resgatar memórias, o estudo busca refletir sobre os impactos duradouros dessa iniciativa na gestão educacional contemporânea. Ao explorar as narrativas do entrevistado, pretende-se evidenciar a importância da participação democrática na construção de um sistema educacional mais inclusivo e representativo. A análise dessas experiências históricas oferece subsídios para repensar os desafios atuais da gestão escolar, reforçando a relevância de políticas que promovam a autonomia e a representatividade nas instituições de ensino. Contexto Histórico e os Desafios da Implementação: impactos e legados Ao assumir a PMV/ES, Vitor Buaiz trouxe consigo uma trajetória política consolidada. Como deputado federal, atuou na reabertura democrática do Brasil no período pós-ditadura cívico-militar e contribuiu para a elaboração da Constituição Federal de 1988, que segundo ele, foi um dos marcos mais importantes de sua carreira política e é de grande relevância para esta pesquisa. Nascido em Vitória, Espírito Santo, em 19 de agosto de 1943, Buaiz formou-se em Medicina pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) em 1967, especializando-se em Gastroenterologia e Nutrição. Ainda em atividade profissional, atualmente, é reconhecido como um renomado acupunturista. Nesse estudo enfatizamos um movimento político durante o governo de Vitor Buaiz que impactou diretamente a educação nas escolas da PMV/ES: a implementação da eleição direta para diretores escolares. A adoção desse modelo representou um marco na educação municipal de Vitória. Em 1992, a PMV/ES estava prestes a implantar esse sistema pioneiro, enfrentando desafios e resistências ao longo do processo. As memórias de Buaiz apontam: "Havia muita resistência interna e externa à ideia de eleições diretas para diretores escolares. Muitos setores da administração municipal temiam perder o controle sobre as unidades escolares, e parte da comunidade escolar ainda não compreendia totalmente o que essa mudança causou. No entanto, acreditávamos que esse era um passo necessário para fortalecer a democracia dentro da educação pública." (Buaiz, 2023) Nesse sentido, a pesquisa histórica, relata que o processo ocorreu por meio de uma ampla mobilização, incluindo formações com professores, servidores, pais e alunos, a fim de conscientizá-los sobre o impacto e a responsabilidade da escolha dos diretores por meio do voto. Conforme destacado por Ferreira et al. (1999), a adoção do princípio da gestão democrática foi resultado das reivindicações dos movimentos sindicais dos profissionais da educação. A perspectiva de gestão defendida por esses movimentos baseava-se em três pilares: a formação de conselhos escolares, a eleição direta de diretores e a participação ativa da comunidade na administração escolar. Buaiz (2023) relembra: "Foram meses de debates e reuniões, algumas tensões, mas essenciais para que o modelo fosse aceito e, mais do que isso, fosse protegido pela comunidade escolar." Apesar das críticas e da oposição política, especialmente de setores conservadores que defendiam a nomeação exclusiva pela administração municipal, a eleição direta fortaleceu o envolvimento da comunidade escolar na gestão educacional. Buaiz enfatiza: "O maior legado dessa mudança foi a percepção de pertencimento que a comunidade escolar passou a ter. Quando um pai ou uma mãe vota no diretor da escola do filho, ele se sente parte do processo educativo. Esse envolvimento gerou impactos positivos no aprendizado e na gestão escolar." (Buaiz, 2023) A educação na capital do Espírito Santo direcionou-se para a implementação dos princípios democráticos em suas escolas, com o intuito de cumprir o artigo 206 da Constituição Federal de 1988, que estabelece a gestão democrática como modelo de administração nas escolas públicas do país. Nesse contexto, Ferreira et al. (1999) relatam que, na PMV/ES entre os anos de 1989 e 1990, foram formadas duas comissões encarregadas de conduzir pesquisas, coletar dados, revisar a literatura e analisar a legislação relacionada à gestão democrática. Essas comissões se dedicaram na promoção dos debates com movimentos sociais organizados e diferentes segmentos da comunidade escolar. Com isso, a adoção do modelo de escolha dos dirigentes escolares por meio do voto teve como objetivo promover a equidade e fortalecer a confiança na educação pública. Conforme ressalta Buaiz (2023): “A democratização da gestão escolar transformou a relação entre escolas e comunidades, estabelecendo uma nova forma de governança mais transparente e participativa.” Nesse contexto, a criação dos Conselhos de Escola e do Orçamento Participativo se destacam ao ampliar a participação da comunidade na gestão escolar, consolidando os ideais democráticos. Os resultados dessa política foram evidentes no aumento da confiança depositada na escola pública, favorecendo uma gestão mais participativa e alinhada às necessidades e expectativas da sociedade. Participação Comunitária e Gestão Democrática: Reflexões sobre as Eleições Direta A análise dos resultados dessa iniciativa evidencia o valor da atuação ativa da comunidade escolar nas decisões pedagógicas e administrativas. Essa mobilização contribuiu não apenas para o fortalecimento da gestão democrática, mas também para o desenvolvimento de um sentimento de pertencimento entre os integrantes da comunidade escolar. Vitor Buaiz destaca os riscos de retrocessos que podem comprometer as conquistas democráticas alcançadas ao longo dos anos. Ele alerta que políticas conservadoras e regulamentos que visam enfraquecer as estruturas democráticas representam uma ameaça que merece atenção. Conforme aponta Buaiz (2023): "A fragilidade das práticas democráticas exige vigilância constante e um engajamento contínuo da sociedade. Sem essa participação ativa, corremos o risco de perder as conquistas obtidas." Esse alerta sublinha a importância de um esforço coletivo para proteger e fortalecer os avanços democráticos, especialmente no contexto da gestão escolar. A resistência a retrocessos deve ser encarada como uma responsabilidade compartilhada entre todos os envolvidos na educação, assegurando que a escola pública permaneça um espaço de inclusão e participação. Como reforça Buaiz (2023): "A manutenção e o fortalecimento dessas práticas democráticas exigem uma vigilância constante e o engajamento contínuo da sociedade. Sem essa participação ativa, corremos o risco de perder as conquistas obtidas." Nesse contexto, o presente texto busca registrar e analisar as memórias de Vitor Buaiz acerca da implementação da eleição direta para diretores escolares, evidenciando sua relevância para a democratização da gestão escolar e sua importância na história da educação pública na PMV/ES. As memórias de Vitor Buaiz e o contexto histórico retratado no texto destacam um período importante para a gestão educacional em Vitória nos anos 1990, marcado por iniciativas pioneiras e desafios estruturais. Conforme apontado por Ferreira et al. (1999), em 1992, a administração municipal implementava um modelo inovador de gestão, com destaque para a regulamentação dos Conselhos de Escola e a escolha democrática de gestores escolares, conforme estabelecido pelo Decreto nº 8.765, de 28 de fevereiro daquele ano. Essas ações visavam promover uma gestão mais alinhada às necessidades da comunidade escolar. No entanto, como apontado por Cravo (2012), persistiam desafios educacionais que exigiam mudanças estruturais para consolidar um projeto educacional mais robusto. Freire (2003) complementa essa visão ao enfatizar que o planejamento educacional deve ser um reflexo dos valores sociais e atuar como um agente de transformação. As conversas com Vitor Buaiz evidenciam que as incertezas e obstáculos daquele período continuam relevantes, instigando reflexões sobre a eficácia das políticas educacionais adotadas. Entender esse contexto histórico é necessário para avaliar as dinâmicas escolares e as políticas de gestão abordadas neste estudo. O cenário reforça a necessidade de políticas públicas que atendam demandas sociais e promovam mudanças para um sistema inclusivo e democrático. A implementação da eleição direta de diretores, no final da gestão de Buaiz, consolidou a gestão democrática prevista na Constituição, permitindo a participação ativa da comunidade escolar. Essa medida foi impulsionada pelo contexto de reabertura política no Brasil, que demandava práticas mais democráticas. "Havia muita resistência interna e externa à ideia de eleições diretas para diretores escolares. Muitos setores da administração municipal temiam perder o controle sobre as unidades escolares, e parte da comunidade escolar ainda não compreendia totalmente o que essa mudança significava. No entanto, acreditávamos que esse era um passo necessário para fortalecer a democracia dentro da educação pública." (Buaiz, 2023) A eleição direta marcou uma mudança na gestão educacional, promovendo uma cultura de participação da comunidade escolar nas decisões pedagógicas e administrativas. Buaiz relembra que o processo não foi simples: "Tivemos que realizar formações com professores, servidores, pais e alunos para que entendessem o impacto e a responsabilidade de escolher um diretor por meio do voto. Foram meses de debates e reuniões, algumas tensas, mas essenciais para que o modelo fosse aceito e, mais do que isso, fosse apropriado pela comunidade escolar." (Buaiz, 2023) A decisão da PMV/ES de implementar esse modelo reflete um compromisso com a democratização da gestão escolar, visando promover equidade e fortalecer a confiança na educação pública. Apesar das dificuldades iniciais, a mobilização da comunidade foi necessária para transformar a escola pública em um espaço de participação cidadã. Buaiz (2023) ressalta a necessidade de união entre partidos progressistas para proteger a democracia, alertando que a ausência de uma liderança alinhada a esses princípios pode colocar em risco os avanços conquistados nas últimas décadas. Ele destaca a importância de uma resposta coletiva para preservar os valores democráticos na gestão pública e na educação, convocando as forças democráticas a agir para assegurar a continuidade das eleições para diretores escolares. Considerações Finais O estudo analisado destaca a relevância histórica e pedagógica da implementação da eleição direta para diretores escolares, baseada nas memórias de Vitor Buaiz. Essa medida consolidou o princípio da gestão democrática, promovendo a participação ativa da comunidade escolar e fortalecendo valores como transparência e responsabilidade. Ressalta-se a importância de preservar a memória coletiva dessas práticas, para compreender as dinâmicas educacionais e combater retrocessos. A experiência de 1992 é apresentada como um marco importante, que serve de referência para enfrentar os desafios atuais da educação pública. O estudo enfatiza que a gestão democrática deve ser continuamente defendida e renovada, envolvendo toda a sociedade civil, para assegurar que a escola pública permaneça como um espaço de formação cidadã e inclusão social. Por fim, reforça-se a necessidade de um compromisso coletivo com um futuro educacional mais justo, equitativo e democrático. REFERÊNCIAS A Gazeta, Vitória, p. 8, 16 abr. 1991. PMV prepara eleições em escola. A Gazeta, Vitória, p. 08, 16 abr. 1991. _______. Câmaras não regulamentaram as leis orgânicas. A Gazeta, Vitória, p. 05, 14 abr. 1991. _______. Conselhos de escolas tomam posse. A Gazeta, Vitória, p. 13, 16 abr. 1992. _______. Escolas fazem eleições para escolher diretores. A Gazeta, Vitória, p. 12. 29 maio 1992. BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Presidência da República, [2016]. Disponível em:https://www2.senado.leg.br/bdsf/bitstream/handle/id/518231/CF88_Livro_E… Acesso em: 15 de julho de 2023. _______. Lei nº 9394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 23 dez. 1996. Disponível emhttps://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/L9394.htmAcesso em 15 de julho de 2023. _______. Lei n.º 14.644, de 02 de agosto de 2023. Altera a Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996 (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional), para prever a instituição de Conselhos Escolares e de Fóruns dos Conselhos Escolares. Brasília, DF: Presidência da República, [2023]. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2023-2026/2023/Lei/L14644.htm Acesso em: 15 de julho de 2023. BUAIZ, Vitor. Entrevista I. Entrevistador: Cláudia Vieira Küffer Chagas. Vitória, 2023. Entrevista concedida em novembro de 2023. Arquivo de vídeo (.mp4), 29 min. CRAVO, Therezinha Baldassini (org.). Gestão da Educação em Vitória: Caminhos, Estratégias e Contradições. Vitória: Gráfica Santo Antônio, 2012. FERREIRA, Eliza Bortolozzi et al. Gestão Democrática e Autonomia nas Escolas de Vitória: Os Conceitos por Trás das Letras da Lei.Caderno de Política e Administração da Educação, Vila Velha, v. 1, n. 1, p. 20-30, jan. 1999. FREIRE, Paulo. Educação e Atualidade Brasileira. São Paulo: Cortez, 3ª ed. 2003. _______. Direitos Humanos e Educação Libertadora. Gestão Democrática da Escola Pública na Cidade de São Paulo. Organização e notas de Ana Maria Araújo Freire, Erasto Fortes Mendonça - 4ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2021c. _______. A Educação na Cidade. 5ª ed. São Paulo: Cortez, 2001a. _______. Política e Educação: Ensaios. São Paulo: Cortez, 4ª ed. 2001b. SEVERINO, Antônio Joaquim. Metodologia do Trabalho Científico [livro eletrônico]. 1. ed. São Paulo: Cortez, 2013. VITÓRIA, Prefeitura Municipal. Avaliação da administração municipal (1989-1992) – Relatório Síntese. Vitória, setembro de 1992. v. 1. VITÓRIA, Prefeitura Municipal. Decreto nº 8.765. Dispõe sobre o Processo de Eleição de Diretores das Unidades Escolares da Rede Municipal de Vitória, de 28 de fevereiro de 1992.

Share your ideas or questions with the authors!

Did you know that the greatest stimulus in scientific and cultural development is curiosity? Leave your questions or suggestions to the author!

Sign in to interact

Have a question or suggestion? Share your feedback with the authors!

Institutions
  • 1 UFES - Universidade Federal do Espírito Santo
Track
  • GT02 - História da Educação