Exus-mulheres/Pombogiras e suas sabedorias educativas ancestrais

- 214898
Resumo Expandido - Trabalho em Andamento
Favorite this paper
How to cite this paper?
Abstract
Exus-Mulheres/Pombogiras e suas sabedorias educativas ancestrais Introdução: Trata-se de uma pesquisa em andamento e que tem como finalinada analisar os saberes que emergem das Exus-mulheres/Pombogiras no terreiro de Umbanda Caboco João da Mata, está relacionado com as pedagogias decolonais e das encruzilhadas.sabemos que entre os séculos XVI e XVII mais de 100 mil pessoas foram executadas, na sua maioria mulheres, por serem consideradas bruxas e/ou feiticeiras para os padrões do cristianismo, Kramer (2020). A santa inquisição edificou, de forma violenta, o patriarcado, que retratou as mulheres como ser pecaminoso, demoníaco, defeituoso e, ainda, comparando as mulheres a animais imperfeitos capazes de enganar. Por que as mulheres saõ tão temida? Por que nossos corpos e risadas precisam ser controlados e contidos? Por que nossas palavras são tão fortemente desqualificadas? Nessa ação/olhar de colocar as mulheres como diabólicas e perigosas, historicamente, foi imposto o silencio das mulheres como um mandamento (Perrot, 2005), ordenados por religiões, sistemas políticos e manuais de comportamento. Diante das narrativas de demonização das mulheres e a visão patriarcal estruturada a partir das histórias, ciências e religiões eurocêntricas, que os estudos decoloniais, feminismos das diferenças/negro/interseccional são fundamentais na construção dessa pesquisa. É por essa razão que falar dos saberes das Exus-mulheres/Pombagira contribui para uma concepção de educação antirracista, pautada nos debates de gênero e da tolerância aos diversos credos religiosos. Entendemos que Exú é o caminho, o meio e o fim, pois é o senhor dos caminhos, o Orixá de maior comunicação, de movimento, de atravessamento que podemos compreender. É o primeiro que come, segundo as religiões de matriz africana, sem ele não é possível o desenvolvimento dos trabalhos e do ser humano; Exu é o dono da porteira, o Orixá que nos ensina que o ontem e o hoje são movimento interdependentes. Tendo como função/papel a manutenção da ordem do mundo espiritual, é o mensageiro entre os Orixás; Ele é o que torna possível nossa ligação com os demais Orixás. Sem os Exus a dinâmica e o funcionamento do mundo espiritual e, também, físico ficariam comprometidos, seus saberes estão localizados nessa trama da complexidade do mundo, que questiona verdades estabelecidas, ordens sociais impostas, comportamentos, arrogâncias, amores e outras dimensões do ser humano, capaz de questionar e promover rupturas com as dualidades, tão bem determinadas pelo pensamento moderno/colonial-eurocêntrico. Uma das compreensões que essa pesquisa trabalha é o lado feminino de Exú, o entendimento das Exus-mulheres, também são conhecidas com Pombagiras, Padilhas e Ciganas. Para Rufino e Simas (2018) as Pombagiras representam a complexidade nos terreiros de umbanda, sendo um incrível enigma de feminilidade que combina feitiço e sedução, que corta demanda, provocações, transgressões, proporcionam vivências da sexualidade e muitas outras ações que colocam as Pombagiras na fronteira epistemológica do conhecimento, pois são suaves e agressivas, são sedutoras e fortes, são gargalhadas misteriosas e movimentos precisos. Trata-se de Orixás de luz que sabem transitar por becos escuros, são curandeiras e priorizam a liberdade do corpo. As Pombagiras carregam o axé que nos fortalece na criatividade, no Eros da dinâmica educativa (Hooks, 2013). Ainda para Simas e Rufino(2019), Pombagira é o lado feminino de Aluvaiá, o dono das encruzilhadas, similar ao Exu iorubá e ao vodum Elegbara, dos fons. Em quimbundo, pambu-a-njila é a expressão que designa o cruzamento dos caminhos, as encruzilhadas. Mbombo, no quicongo, é portão. Os portões são controlados por Exu, Pombagira, Pambu-a-njila. A potência exusíaca encarnada no feminino, o poder das mulheres tão temido e por isso controlados e/ou desqualificados como uma formar de subalternizar, pois os movimentos das Pombogiras questionam as normatizações patriarcais, as estruturas racistas e o mundo branco organizado pela modernidade/colonialidade. As questões que orientam nossa pesquisa são: Quais os saberes educativos ancestrais que estão presentes nas manifestações religiosas das Exu-mulheres/Pombagiras? Que contribuições epistemológicas os saberes educativos das Pombagiras corroboram para as pedagogias das encruzilhadas? Que vivências educativas podemos aprender e apreender com as giras de Exus no Terreiro de Umbanda Caboclo João da Mata? Entender a educação que emerge do terreiro, do axé e dos Exus, especialmente, das Exus-mulheres, são giros epistemológicos decoloniais, pois nos impulsiona a percepções entrecruzadas, rompendo com o olhar linear e estático, da epistemologia moderna/colonial. O ato de ruptura/atravessamento é um grande desafio e, também, um doloroso ato de liberdade, que envolve uma tomada de consciência, uma reflexão sobre o mundo e nossa participação nele. É diante da exclusão e do silenciamento histórico e epistemológico imposto às mulheres e às identidades femininas, a luta antirracista que esta pesquisa questiona a centralidade de uma educação bancária, branca estruturada exclusivamente no cristianismo e no patriarcado. O objetivo central: Analisar os saberes educativos ancestrais que emergem das Exus mulheres/Pombagiras no terreiro de Umbanda Caboclo João da Mata; específicos:1- Identificar as contribuições da Umbanda para uma luta antirracista e para a pedagogia da ancestralidade;2 Levantar as produções teóricas e científicas que tratam da educação das encruzilhadas, especialmente, no que tange as Exus-mulheres; 3- criar uma mandala de saberes educativos ancestrais a partir das Pombogiras do terreiro Caboclo João da Mata; 4-Compreender como os saberes educativos das Exus-mulheres/Pombagiras contribuem para a epistemologia da decolonialidade. A metodologia é construída por meio de uma trama da pesquisa de campo e a bibliográfica-documental, que são atravessadas pela analise interseccional de mundo, buscando contribuir com referencial teórico-metodológico do cruzo, compreendida por Rufino (2019, p.86) O cruzo é a arte da rasura, das desautorizações, das transgressões necessárias, da resiliência, das possibilidades das reinvenções e transformações. O cruzo, como perspectiva teórico-metodológica, dá o tom do caráter dinâmico, inventivo e inacabado de Exu. As encruzilhadas são sempre vistas como lugares duvidosos, caminho confuso e/ou lugares sem saída. Porém, na filosofia Yoruba é lugar de encontro, inacabamento, diálogo e possibilidades múltiplas. Para Zaliski e Rufino (2021) é na encruza que se manifestam saberes diversos, é neste lugar da disponibilidade que as coisas acontecem e a vida se refaz. Esta pesquisa está localizada na cigarrilha, no marafo da vida e nas pulsantes preguntas que movimento o mundo, não na rigidez das respostas e das estruturas colonizadoras. Situada numa teoria-metodológica da encruza, que relaciona conhecimento, saberes e vivências, na tentativa de aproximar a educação do sentido do existir cotidiano e de um mundo mais inclusivo, buscando as rupturas de um conhecimento dicotomizado, dualista e que hierarquiza o ser humano, culturas e religiosidade. Pesquisar sobre os saberes das Exus-mulheres/Pombagiras como um modo de ser no mundo, fincado na ancestralidade e na resistência histórica de uma população que foi subalternizada em toda a sua dimensão de humanidade, aqui em especial, as pessoas negras escravizadas. Quem mantêm modos subalternizados de saber/ser têm sua existência negada; são lidos mais como “coisa” do que como “gente” (Rufino, 2018). Assim, com a existência imaterial comprometida, esses sujeitos são lidos com uma espécie de desvio existencial - ou ontológico - que é retratado por Simas e Rufino (2018, p.21) no conceito colonial: “O ser é produzido como não existente por ter suas referências de saber submetidas a uma condição de permanente descrédito, subalternidade e por ter sua enunciação interditada”. Apresentamos alguns resultados parciais, pois nossa pesquisa inicia em janeiro de 2025, porém nossa vivência no terreiro de umbanda João da Mata é desde abril de 2014. Nesta direção, contamos com o levantamento das fontes documentais, a leitura cuidadosa e a vivência de vida e crença no terreiro, para acolher e interpretar os saberes ancestrais que emergem das giras de Exús e Pombogiras. Assim, os saberes iniciais que destacamos, inicialmente, são: 1-Axé como fonte de vida, umas das primeiras coisas que acontece nas giras na chegadas das pombogiras, Padilhas e Ciganas e que elas desejam axé para todas as pessoas que se encontram no barracam; 2- Saberes da fuma perfumada; as Pombogiras são entidades que trabalham com os elementos fluidos, como a fumaça de sua cigarrilha e o perfume, desta forma que consegue melhor ler as intenções de cada pedido e/ou desejos; 3-é na gargalha que resisto e existo, as Pombogiras anunciam sua chegada promovendo a ruptura do silêncio, da subalternização e da dominação sobre seus corpos. É na gargalhada que se edifica seu corpo, sua presença e importância diante do patriarcado. Algumas considerações: A pesquisa nos revela que são muitos os saberes das Exús-Mulheres/Pombogiras, e que foram, num passado recente da nossa história, e ainda estão sendo criminalizados, violentados e negados nos espaços educativos. Sabendo do tempo recente de levantamento e apuramento de nossos estudos, partimos da desconstrução e da desmistificação das Pombogiras como demoníacas, mas são seres de luz que promovem sabedorias ancestrais importante para um mundo mais inclusivo e capaz de dialogar com as diferenças. Referências HOOKS, Bell. Ensinando a Transgredir: a educação como prática de liberdade. São Paulo: martins fontes, 2013. PERROT, Michelet. As mulheres ou os silêncios da história. Bauru, SP: EDUSC, 2005. KRAMER, Heinrich; SPRENGER, James. O martelo das feiticeiras.29 ed. –Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 2020 RUFINO, Luiz; SIMAS, Luiz Antônio. A ciência encantada das macumbas .Rio de Janeiro: Mórula, 2018 RUFINO, Luiz. Pedagogia das Encruzilhadas. –Rio de Janeiro: Mórula, 2019 SIMAS, Luiz Antônio; RUFINO, Luiz. Flecha no tempo. Rio de Janeiro: Mórula, 2019. ZALISKI, Clairi; RUFINO, Luiz Antônio. Corre-Gira Pombagira: A política do saber das Marias no Ser Mulher. In: Abatirá-Revista de Ciências Humanas e linguagens, Universidade do Estado da Bahia -UNEB -Campus XVIIIV2: n.4 Jul : Dez :: 2021. p. 143-161

Share your ideas or questions with the authors!

Did you know that the greatest stimulus in scientific and cultural development is curiosity? Leave your questions or suggestions to the author!

Sign in to interact

Have a question or suggestion? Share your feedback with the authors!

Institutions
  • 1 UFPA - Universidade Federal do Pará
Track
  • GT23 - Gênero, Sexualidade e Educação