Exus-Mulheres/Pombogiras e suas sabedorias educativas ancestrais Introdução: Trata-se de uma pesquisa em andamento e que tem como finalinada analisar os saberes que emergem das Exus-mulheres/Pombogiras no terreiro de Umbanda Caboco João da Mata, está relacionado com as pedagogias decolonais e das encruzilhadas.sabemos que entre os séculos XVI e XVII mais de 100 mil pessoas foram executadas, na sua maioria mulheres, por serem consideradas bruxas e/ou feiticeiras para os padrões do cristianismo, Kramer (2020). A santa inquisição edificou, de forma violenta, o patriarcado, que retratou as mulheres como ser pecaminoso, demoníaco, defeituoso e, ainda, comparando as mulheres a animais imperfeitos capazes de enganar. Por que as mulheres saõ tão temida? Por que nossos corpos e risadas precisam ser controlados e contidos? Por que nossas palavras são tão fortemente desqualificadas? Nessa ação/olhar de colocar as mulheres como diabólicas e perigosas, historicamente, foi imposto o silencio das mulheres como um mandamento (Perrot, 2005), ordenados por religiões, sistemas políticos e manuais de comportamento. Diante das narrativas de demonização das mulheres e a visão patriarcal estruturada a partir das histórias, ciências e religiões eurocêntricas, que os estudos decoloniais, feminismos das diferenças/negro/interseccional são fundamentais na construção dessa pesquisa. É por essa razão que falar dos saberes das Exus-mulheres/Pombagira contribui para uma concepção de educação antirracista, pautada nos debates de gênero e da tolerância aos diversos credos religiosos. Entendemos que Exú é o caminho, o meio e o fim, pois é o senhor dos caminhos, o Orixá de maior comunicação, de movimento, de atravessamento que podemos compreender. É o primeiro que come, segundo as religiões de matriz africana, sem ele não é possível o desenvolvimento dos trabalhos e do ser humano; Exu é o dono da porteira, o Orixá que nos ensina que o ontem e o hoje são movimento interdependentes. Tendo como função/papel a manutenção da ordem do mundo espiritual, é o mensageiro entre os Orixás; Ele é o que torna possível nossa ligação com os demais Orixás. Sem os Exus a dinâmica e o funcionamento do mundo espiritual e, também, físico ficariam comprometidos, seus saberes estão localizados nessa trama da complexidade do mundo, que questiona verdades estabelecidas, ordens sociais impostas, comportamentos, arrogâncias, amores e outras dimensões do ser humano, capaz de questionar e promover rupturas com as dualidades, tão bem determinadas pelo pensamento moderno/colonial-eurocêntrico. Uma das compreensões que essa pesquisa trabalha é o lado feminino de Exú, o entendimento das Exus-mulheres, também são conhecidas com Pombagiras, Padilhas e Ciganas. Para Rufino e Simas (2018) as Pombagiras representam a complexidade nos terreiros de umbanda, sendo um incrível enigma de feminilidade que combina feitiço e sedução, que corta demanda, provocações, transgressões, proporcionam vivências da sexualidade e muitas outras ações que colocam as Pombagiras na fronteira epistemológica do conhecimento, pois são suaves e agressivas, são sedutoras e fortes, são gargalhadas misteriosas e movimentos precisos. Trata-se de Orixás de luz que sabem transitar por becos escuros, são curandeiras e priorizam a liberdade do corpo. As Pombagiras carregam o axé que nos fortalece na criatividade, no Eros da dinâmica educativa (Hooks, 2013). Ainda para Simas e Rufino(2019), Pombagira é o lado feminino de Aluvaiá, o dono das encruzilhadas, similar ao Exu iorubá e ao vodum Elegbara, dos fons. Em quimbundo, pambu-a-njila é a expressão que designa o cruzamento dos caminhos, as encruzilhadas. Mbombo, no quicongo, é portão. Os portões são controlados por Exu, Pombagira, Pambu-a-njila. A potência exusíaca encarnada no feminino, o poder das mulheres tão temido e por isso controlados e/ou desqualificados como uma formar de subalternizar, pois os movimentos das Pombogiras questionam as normatizações patriarcais, as estruturas racistas e o mundo branco organizado pela modernidade/colonialidade. As questões que orientam nossa pesquisa são: Quais os saberes educativos ancestrais que estão presentes nas manifestações religiosas das Exu-mulheres/Pombagiras? Que contribuições epistemológicas os saberes educativos das Pombagiras corroboram para as pedagogias das encruzilhadas? Que vivências educativas podemos aprender e apreender com as giras de Exus no Terreiro de Umbanda Caboclo João da Mata? Entender a educação que emerge do terreiro, do axé e dos Exus, especialmente, das Exus-mulheres, são giros epistemológicos decoloniais, pois nos impulsiona a percepções entrecruzadas, rompendo com o olhar linear e estático, da epistemologia moderna/colonial. O ato de ruptura/atravessamento é um grande desafio e, também, um doloroso ato de liberdade, que envolve uma tomada de consciência, uma reflexão sobre o mundo e nossa participação nele. É diante da exclusão e do silenciamento histórico e epistemológico imposto às mulheres e às identidades femininas, a luta antirracista que esta pesquisa questiona a centralidade de uma educação bancária, branca estruturada exclusivamente no cristianismo e no patriarcado. O objetivo central: Analisar os saberes educativos ancestrais que emergem das Exus mulheres/Pombagiras no terreiro de Umbanda Caboclo João da Mata; específicos:1- Identificar as contribuições da Umbanda para uma luta antirracista e para a pedagogia da ancestralidade;2 Levantar as produções teóricas e científicas que tratam da educação das encruzilhadas, especialmente, no que tange as Exus-mulheres; 3- criar uma mandala de saberes educativos ancestrais a partir das Pombogiras do terreiro Caboclo João da Mata; 4-Compreender como os saberes educativos das Exus-mulheres/Pombagiras contribuem para a epistemologia da decolonialidade. A metodologia é construída por meio de uma trama da pesquisa de campo e a bibliográfica-documental, que são atravessadas pela analise interseccional de mundo, buscando contribuir com referencial teórico-metodológico do cruzo, compreendida por Rufino (2019, p.86) O cruzo é a arte da rasura, das desautorizações, das transgressões necessárias, da resiliência, das possibilidades das reinvenções e transformações. O cruzo, como perspectiva teórico-metodológica, dá o tom do caráter dinâmico, inventivo e inacabado de Exu. As encruzilhadas são sempre vistas como lugares duvidosos, caminho confuso e/ou lugares sem saída. Porém, na filosofia Yoruba é lugar de encontro, inacabamento, diálogo e possibilidades múltiplas. Para Zaliski e Rufino (2021) é na encruza que se manifestam saberes diversos, é neste lugar da disponibilidade que as coisas acontecem e a vida se refaz. Esta pesquisa está localizada na cigarrilha, no marafo da vida e nas pulsantes preguntas que movimento o mundo, não na rigidez das respostas e das estruturas colonizadoras. Situada numa teoria-metodológica da encruza, que relaciona conhecimento, saberes e vivências, na tentativa de aproximar a educação do sentido do existir cotidiano e de um mundo mais inclusivo, buscando as rupturas de um conhecimento dicotomizado, dualista e que hierarquiza o ser humano, culturas e religiosidade. Pesquisar sobre os saberes das Exus-mulheres/Pombagiras como um modo de ser no mundo, fincado na ancestralidade e na resistência histórica de uma população que foi subalternizada em toda a sua dimensão de humanidade, aqui em especial, as pessoas negras escravizadas. Quem mantêm modos subalternizados de saber/ser têm sua existência negada; são lidos mais como “coisa” do que como “gente” (Rufino, 2018). Assim, com a existência imaterial comprometida, esses sujeitos são lidos com uma espécie de desvio existencial - ou ontológico - que é retratado por Simas e Rufino (2018, p.21) no conceito colonial: “O ser é produzido como não existente por ter suas referências de saber submetidas a uma condição de permanente descrédito, subalternidade e por ter sua enunciação interditada”. Apresentamos alguns resultados parciais, pois nossa pesquisa inicia em janeiro de 2025, porém nossa vivência no terreiro de umbanda João da Mata é desde abril de 2014. Nesta direção, contamos com o levantamento das fontes documentais, a leitura cuidadosa e a vivência de vida e crença no terreiro, para acolher e interpretar os saberes ancestrais que emergem das giras de Exús e Pombogiras. Assim, os saberes iniciais que destacamos, inicialmente, são: 1-Axé como fonte de vida, umas das primeiras coisas que acontece nas giras na chegadas das pombogiras, Padilhas e Ciganas e que elas desejam axé para todas as pessoas que se encontram no barracam; 2- Saberes da fuma perfumada; as Pombogiras são entidades que trabalham com os elementos fluidos, como a fumaça de sua cigarrilha e o perfume, desta forma que consegue melhor ler as intenções de cada pedido e/ou desejos; 3-é na gargalha que resisto e existo, as Pombogiras anunciam sua chegada promovendo a ruptura do silêncio, da subalternização e da dominação sobre seus corpos. É na gargalhada que se edifica seu corpo, sua presença e importância diante do patriarcado. Algumas considerações: A pesquisa nos revela que são muitos os saberes das Exús-Mulheres/Pombogiras, e que foram, num passado recente da nossa história, e ainda estão sendo criminalizados, violentados e negados nos espaços educativos. Sabendo do tempo recente de levantamento e apuramento de nossos estudos, partimos da desconstrução e da desmistificação das Pombogiras como demoníacas, mas são seres de luz que promovem sabedorias ancestrais importante para um mundo mais inclusivo e capaz de dialogar com as diferenças. Referências HOOKS, Bell. Ensinando a Transgredir: a educação como prática de liberdade. São Paulo: martins fontes, 2013. PERROT, Michelet. As mulheres ou os silêncios da história. Bauru, SP: EDUSC, 2005. KRAMER, Heinrich; SPRENGER, James. O martelo das feiticeiras.29 ed. –Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 2020 RUFINO, Luiz; SIMAS, Luiz Antônio. A ciência encantada das macumbas .Rio de Janeiro: Mórula, 2018 RUFINO, Luiz. Pedagogia das Encruzilhadas. –Rio de Janeiro: Mórula, 2019 SIMAS, Luiz Antônio; RUFINO, Luiz. Flecha no tempo. Rio de Janeiro: Mórula, 2019. ZALISKI, Clairi; RUFINO, Luiz Antônio. Corre-Gira Pombagira: A política do saber das Marias no Ser Mulher. In: Abatirá-Revista de Ciências Humanas e linguagens, Universidade do Estado da Bahia -UNEB -Campus XVIIIV2: n.4 Jul : Dez :: 2021. p. 143-161