HOMOSSURDOFOBIA NA VIDA DE SURDOS LGBTQIAPN+: O INVISÍVEL PRECONCEITO

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Resumo Expandido - Trabalho
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Abstract
HOMOSSURDOFOBIA NA VIDA DE SURDOS LGBTQIAPN+: O INVISÍVEL PRECONCEITO Introdução O texto aborda a marginalização das identidades LGBTQIAPN+, evidenciando como a sociedade impõe padrões binários de gênero e sexualidade que reforçam a exclusão e a violência. O artigo está fundamentado de dados desenvolvidos de uma dissertação de mestrado já defendida, que aborda conceitos centrais, como a homossurdofobia, que combina homofobia e surdofobia para descrever a discriminação enfrentada por surdos LGBTQIAPN+, marcada tanto pelo preconceito linguístico quanto pela marginalização de identidade de gênero e orientação sexual. Destaca-se a carência de estudos sobre o tema e a necessidade de ampliar o debate acadêmico, utilizando uma análise interseccional e uma abordagem decolonial para combater essa exclusão. A pesquisa busca preencher essa lacuna teórica e prática, promovendo a visibilidade dessas experiências e enfatizando a urgência de políticas inclusivas e ações concretas para construir uma sociedade mais justa e acolhedora. Esse estudo aborda as interfaces entre surdez e sexualidade, destacando como a exclusão e a marginalização impactam identidades LGBTQIAPN+ dentro da comunidade surda. A violência simbólica e estrutural imposta a esses indivíduos reforça um sistema que os invisibiliza e silencia, tornando essencial a problematização dessas vivências. Neste contexto, propomos a introdução do termo homossurdofobia como uma categoria analítica que evidencia as implicações específicas enfrentadas por pessoas surdas LGBTQIAPN+. Ao unir as opressões associadas à surdez e à homossexualidade, a homossurdofobia se manifesta na deslegitimação de suas identidades, na exclusão educacional e profissional, e na imposição de padrões normativos que negam suas formas próprias de existir e se comunicar. Assim sendo, este artigo constitui um recorte de um estudo mais amplo e busca iluminar as tensões que emergem na interseção entre surdez, sexualidade e normas sociais, ressaltando a urgência de ampliar as discussões sobre diversidade e inclusão. Ao adotar uma perspectiva decolonial, o estudo propõe uma ruptura com as narrativas normativas que sustentam a exclusão de surdos LGBTQIAPN+. Em vez de apenas inserir essas vivências em debates já estabelecidos, é necessário deslocar os eixos do discurso e reconhecer a centralidade das experiências que historicamente foram silenciadas. A luta por acessibilidade não pode se restringir à tradução de conteúdos, mas deve englobar a criação de espaços onde a diversidade surda seja representada e respeitada em toda a sua complexidade. Nesse sentido, a visibilidade dessas identidades não é um ato passivo, mas um gesto político que desafia os alicerces de uma sociedade estruturada para apagar aquilo que não se encaixa em suas normas. Isto posto, surge o seguinte problema deste estudo: de que forma uma pessoa surda, gay, docente, nortista enfrenta processos de homossurdofobia em seu percurso formativo? Para tanto, o objetivo central é compreender as formas de enfrentamento pessoa surda, gay, docente, nortista acerca da homossurdofobia em seus processos formativos, escolares e profissionais. Metodologia Para que os objetivos fossem alcançados, optou-se por desenvolver um estudo de abordagem qualitativa de cunho biográfico (Derossi, 2023; Passeron, 1989), buscando explorar as vivências individuais e as memórias de uma pessoa que intersecciona múltiplos marcadores identitários, como surdez, homossexualidade e sua atuação no campo educacional. A estratégia metodológica que sustenta esta pesquisa foi a entrevista narrativa (Jovchelovitch, 2015; Connelly e Clandinin, 1995; Tozonni, 2009) com perguntas abertas com relatos pessoais, que permitiu a coleta de dados ricos em experiências subjetivas e contextuais que revelam os desafios e as estratégias de enfrentamento em situações de discriminação. Para análise de dados, optou-se pela abordagem decolonial freireana, apoiada em Paulo Freire (2016, 1979), que auxiliam na compreensão crítica dos dados. A partir do pensamento freireano sobre a existência humana, observa-se que, ao questionar, homens e mulheres não apenas reconhecem sua inserção em um tempo social e histórico, mas também se afirmam como criadores e pertencentes de uma cultura. O ato de questionar, portanto, não só constrói a identidade do ser, mas também a identidade cultural do povo. Houve o mapeamento de docentes surdos gays nas universidades de Macapá que revelou que apenas um docente da Universidade Federal do Amapá (UNIFAP) se encaixava nos critérios da pesquisa. A amostragem foi realizada por meio da técnica “bola de neve”, que utiliza indicações de participantes para alcançar novos sujeitos. Quanto aos cuidados éticos, durante o processo de construção foi indispensável a submissão desta pesquisa ao Comitê de ética de pesquisa – Plataforma Brasil, no período de dezembro de 2024, obtendo-se o Certificado de Apresentação de Apreciação Ética (CAAE) de número 84421024.9.0000.0211, aprovado sem alterações pelo parecer de número 7.326.250, em janeiro de 2024, assim como a celebração do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE); e o Termo de Autorização de identificação pessoal em trabalhos acadêmicos e científicos entre o pesquisador e o participante da pesquisa. Resultados Imagem 1: O participante da pesquisa Fonte: Arquivo pessoal do participante, 2025. Nascido em Macapá, é um professor[1] de 37 anos com uma sólida trajetória acadêmica e profissional. Possui duas graduações: Letras Libras (2012), realizada em Natal (RN), e Filosofia (2019), cursada de forma remota. É também especialista em tradução e interpretação (2012). Com mais de dez anos de experiência na docência, já atuou em diferentes níveis de ensino, desde a educação básica até o ensino superior. Atualmente, está se preparando para ingressar no mestrado, dando continuidade à sua formação acadêmica. INTERSECCIONALIDADE: as interfaces da sexualidade e deficiência A interseccionalidade, como proposta por Collins e Bilge (2021), mostra como diferentes identidades (por exemplo, ser surdo, negro ou LGBTQIAPN+) interagem, gerando formas específicas de opressão. A experiência de surdos negros e gays é uma representação clara dessa exclusão múltipla, com opressões que se acumulam e se sobrepõem. No Brasil, a deficiência ainda é tratada de forma isolada nos estudos feministas e de gênero, sendo considerada periférica nas Ciências Sociais e Humanas. Mello e Nuernberg (2012) destacam a importância de abordar a deficiência dentro das discussões de gênero e outras categorias, pois a deficiência não se resume ao corpo, mas envolve aspectos sociais e culturais que determinam o que é considerado normal ou funcional. A exclusão de pessoas com deficiência foi inicialmente levantada pelas feministas, que incluíram no debate o papel das cuidadoras e a subjetividade dos corpos não-padrão. A surdez, quando analisada dentro da perspectiva interseccional, revela como a deficiência não é um fator isolado, mas se entrelaça com outras identidades, como a sexualidade e a raça, criando uma experiência única de opressão para aqueles que se identificam como surdos e LGBTQIAPN+. Essa interseção não é apenas uma questão de falta de acesso à comunicação, mas também envolve a invisibilidade e marginalização dentro de grupos que deveriam ser espaços de acolhimento e empatia. Surdos gays enfrentam barreiras não apenas em relação à sua deficiência, mas também ao serem discriminados por sua orientação sexual, o que agrava a sensação de exclusão e dificulta a construção de uma identidade sólida e integrada. PERCEPÇÃO E COMPREENSÃO: o impacto da homossurdofobia na vida da pessoa surda A invisibilidade de surdos gays é um fenômeno que reflete a interseccionalidade entre a deficiência auditiva e a orientação sexual. Muitas vezes, a comunidade surda é retratada de maneira monolítica, sem considerar as diversas identidades que existem dentro dela. Essa invisibilidade pode levar à marginalização de surdos gays, que enfrentam não apenas barreiras de comunicação, mas também preconceitos relacionados à sua sexualidade. É crucial que a sociedade reconheça e valorize essas identidades, promovendo um ambiente mais inclusivo. A dificuldade de Hegon em ser um rapaz gay se reflete em diversos aspectos de sua vida. Além das barreiras familiares e sociais, ele, assim como demais jovens gays, enfrentou o desafio constante de ser aceito por quem realmente é. Em um ambiente muitas vezes que pode ser marcado por preconceitos e julgamentos, Hegon precisou desenvolver uma forte resistência emocional para lidar com os desafios diários. A sensação de ser constantemente questionado e desconectado da própria verdade gera um sentimento de solidão e insegurança, tornando ainda mais complicado o caminho para a aceitação plena. O processo de autodescoberta de Hegon como gay foi árduo e, muitas vezes, solitário. Durante muito tempo, ele tentou entender e conciliar suas duas identidades, a de surdo e a de gay, sem o apoio necessário de uma rede de suporte adequada, o que o deixou ainda mais vulnerável. Na juventude, ele vivenciou momentos de grande confusão, tentando se encontrar em um mundo que frequentemente não o compreendia nem como pessoa surda, nem como gay. Hoje, mesmo sendo mais confiante em sua identidade, a comunicação com gays ouvintes ainda é um grande desafio para Hegon. A ausência de uma compreensão verdadeira sobre as particularidades de ser surdo em um ambiente majoritariamente ouvinte, especialmente dentro da comunidade LGBTQIAPN+, torna as interações mais complicadas. Muitas vezes, ele sente que precisa negociar sua identidade em espaços que deveriam ser acolhedores, como se fosse invisível ou menos válido. Na Universidade Federal do Amapá (UNIFAP), Hegon enfrenta outro tipo de limitação: a restrição profissional imposta pela percepção reducionista de sua identidade acadêmica. Apesar de ser formado em Filosofia e possuir conhecimento amplo sobre educação, nota-se que seu papel dentro da instituição é frequentemente limitado a atividades relacionadas exclusivamente à Libras. Sempre que é convidado para eventos, palestras ou projetos, a temática gira em torno da língua de sinais, como se sua formação pedagógica e sua capacidade de contribuir para debates mais amplos sobre educação não fossem reconhecidas. Essa situação reforça a ideia equivocada de que professores surdos só podem atuar dentro do ensino de Libras, ignorando suas potencialidades em outros campos da educação. Esse tipo de limitação profissional não é exclusivo de Hegon. Muitos professores surdos, mesmo aqueles com sólida formação acadêmica em áreas como pedagogia, educação infantil e ensino inclusivo, enfrentam o mesmo problema. Há uma invisibilização de suas capacidades intelectuais, que os relega a um nicho específico, restringindo sua atuação e impactando diretamente suas oportunidades de crescimento na carreira. Apesar das dificuldades enfrentadas ao longo da vida, Hegon descobriu que sua força não está apenas em superar as barreiras impostas pelo mundo ao seu redor, mas na coragem de se manter fiel a quem ele realmente é. Ele aprendeu a valorizar sua identidade única, que combina sua surdez e sua sexualidade, entendendo que não há uma única forma de ser e amar. Hoje, ele se vê como um exemplo de resistência, alguém que, mesmo em face de tantos obstáculos, encontrou um caminho para ser autêntico e se permitir ser amado e respeitado por quem é, sem abrir mão de suas raízes. Sua jornada é um lembrete de que a busca pela aceitação é árdua, mas o mais importante é encontrar paz e amor dentro de si. Considerações finais A falta de reconhecimento acadêmico da homossurdofobia não apenas perpetua a exclusão desses indivíduos, mas também dificulta a formulação de políticas públicas eficazes e a criação de espaços verdadeiramente inclusivos. É fundamental que pesquisadores, educadores e ativistas ampliem as discussões sobre esse tema, incorporando perspectivas interseccionais e decoloniais para desconstruir as hierarquias normativas que sustentam essa discriminação. Diante desse cenário, torna-se essencial o incentivo a novas pesquisas que explorem essa temática sob diferentes abordagens e metodologias. Estudos que investiguem a experiência de surdos LGBTQIAPN+ em distintos contextos socioculturais e educacionais podem contribuir significativamente para a construção de um corpo teórico mais sólido e para a proposição de estratégias de inclusão mais eficazes. Assim, este estudo reflete para o avanço desse debate, destacando a necessidade de se aprofundar a compreensão sobre a homossurdofobia e suas implicações na vida social, acadêmica e profissional dos surdos LGBTQIAPN+. A partir dessa reflexão, espera-se incentivar novas pesquisas que deem visibilidade a essa questão, promovendo ações que combatam a exclusão e fomentem uma sociedade mais justa e plural. Referências CONNELLY, F. Michael; CLANDININ, D. Jean, Relatos de Experiencia e Investigación Narrativa. In LARROSA, Jorge (et.all.) Déjame que te Cuente – Ensayos sobre narrativas y educación. Barcelona: Ed. Laertes, 1995. COLLINS, Patricia Hill; BILGE, Sirma. Interseccionalidade. Tradução de Rane Souza. 1. ed. São Paulo: Boitempo, 2021. DEROSSI, Caio Corrêa. Uma análise sobre as pesquisas (auto) biográfica e biográfica: visada panorâmica nas plataformas da CAPES e da BDTD. Revista Prática Docente, v. 8, n. 1, e23004, 2023. FREIRE, P. Educação e Mudança. 16. ed. Rio de Janeiro: Paz e terra, 1979. FREIRE, P. Pedagogia da indignação cartas pedagógicas e outros escritos. 3.ed. São Paulo: Paz e terra, 2016. JOVCHELOVITCH, Sandra. Bauer, Martin W. Entrevista narrativa. In. 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[1] O participante permitiu que seu nome e imagem fossem utilizados na pesquisa.

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Institutions
  • 1 UNIFAP - UNIVERSIDADE FEDERAL DO AMAPÁ
Track
  • GT23 - Gênero, Sexualidade e Educação