ECOS DE PRÁTICAS DOCENTES SIGNIFICATIVAS NO PROCESSO IDENTITÁRIO DE ALUNOS DA EJA Introdução As gretas dão luz a esperanças pequenas. Penso na flor que apareceu de um dia para o outro em uma pequena fenda das grades exteriores de pedra e cimento de minha casa, também nas duas folhas verdes que brotaram ante meus olhos no asfalto de uma vereda em plena cidade. As gretas em que penso revelam a irrupção, o começo, a emergência, a possibilidade e também a resistência do muito outro que faz vida apesar de – e fendendo, fissurando – as próprias condições de sua negação (Walsh, 2019, p. 106). Mesmo contextualizada no âmbito do posicionamento político de Catherine Walsh, a concepção de que, por meio de fissuras, podemos despender um outro modo de olhar sobre um modelo vigente, permite-me fazer uma relação das gretas com fendas propulsoras do movimento de ressignificar o processo identitário do adulto que retorna à escola. A flor que nasce na fenda presente entre a pedra e o cimento, mencionada na citação acima, pode ser associada à reconstrução da identidade de estudante que o educando da EJA tem a oportunidade de reparar em seu retorno à comunidade escolar. Esses educandos tiveram o percurso escolar interrompido por razões presentes nas respectivas trajetórias de vida, as quais abarcam diversos entraves: distância de moradia à escola, necessidade de trabalhar para ajudar na renda familiar, dificuldades de aprendizagem, falta de integração com professores e colegas e, no caso de muitas mulheres, gravidez precoce ou preconceito dos pais que não queriam que a filha estudasse. Junto a esses entraves, soma-se a falta de políticas públicas efetivas para propiciar a permanência do jovem na escola. Deste modo, desprovidos dos direitos básicos assegurados – dentre eles, uma boa educação – a classe menos favorecida se torna vítima de um sistema político e econômico perpetuador da grande desigualdade social. A volta ao estudo é justificada pela necessidade de completar a formação, ter melhores oportunidades de emprego e há, também, o grupo de educandos, geralmente de idade mais avançada, que, vendo filhos e netos escolarizados ou vivenciando a dificuldade de interagir numa sociedade letrada, procuram reaver o direito de se desenvolveram nas habilidades de escrita e leitura e apropriarem-se do conhecimento escolarizado. Além desses, há aqueles que voltam a ser alunos pela simples vontade de resgatarem uma parte de si esquecida nas dobras do passado. A escola, nesse contexto, seria o elemento mediador entre o antigo “eu” e o novo si mesmo, de modo a propiciar transformações identitárias nos educandos. O objetivo geral da pesquisa é identificar, na perspectiva do aluno, as marcas formativas significativas no contexto da EJA de uma instituição privada. Para isso, concebe-se como objetivos específicos: verificar as marcas formativas do aluno desde o tempo da infância até o regresso à escola; analisar os movimentos identitários ocorridos em seu percurso escolar; e buscar indícios de práticas docentes significativas em seu percurso escolar e no seu processo de constituição identitária no retorno à escola. Tendo em vista a importância da formação docente para as especificidades inerentes desse público-alvo, esse estudo trará os indícios significativos da prática docente, propiciando uma reflexão mais profunda sobre o professor neste segmento educacional. Justificativa Ao longo de sua trajetória de vida, nas diversas interações sociais, o indivíduo vai construindo novas configurações identitárias. Considerando a escola como um dos lugares da interação social, o retorno à comunidade escolar pode propiciar ao aluno da EJA uma ressignificação de experiências escolares presentes na infância. Despendendo um olhar para o passado e refletindo, a partir das atribuições que lhe foram feitas, que tipo de pessoa “os outros diziam que ele era”, esse indivíduo será capaz de analisar que tipo de pessoa “eu sou ou quero ser”. O movimento de rememorar pressupõe uma reflexão sobre experiências que foram significativas para o sujeito. As narrativas de vida constroem-se a partir de marcas relevantes de sua história. Ao narrá-las, o educando traz experiências de atribuições que lhe foram feitas e de pertencimentos tomados para si no passado Partindo da concepção de Bauman (Placco; Souza, 2010) de que a identidade é um processo contínuo do sujeito de se redefinir, inventar e reinventar sua própria história sempre em relação à comunidade, essa pesquisa traz uma análise mais profunda e reflexiva sobre a escola como elemento mediador nas construções identitárias dos educandos da EJA, de modo a compreender quais inquietações os levaram a resgatar o papel de estudantes e quais experiências escolares foram significativas para suas transformações identitárias ocorridas no retorno à escola. Metodologia Estruturando a investigação de experiências formativas significativas a partir da perspectiva do aluno, de forma a considerar sua subjetividade diante de experiências vivenciadas na escola, encontrou-se na pesquisa qualitativa o alicerce para consolidar este estudo. A pertinência de inspirar o estudo na autobiográfica é reiterada pelas contribuições de Delory-Momberger (2016) de que essa pesquisa é um meio do processo de construção de si: por meio das narrativas, organiza-se a experiência humana no mundo social, o seu conhecimento sobre ele e as trocas que os sujeitos fazem com ele. Para que o material colhido nos relatos orais estivesse direcionado ao que foi proposto investigar, estruturou-se a conversa com os quatro entrevistados da EJA de uma escola particular de São Paulo em torno de três focos: aluno na infância e juventude, o aluno no trabalho e o aluno na EJA. A seleção dos quatro participantes foi realizada uma atividade, a qual tinha como objetivo averiguar o significado atribuído por eles ao retorno à escola. Foram selecionados para a entrevista aqueles que, com uma visão mais abrangente, não restringiam o retorno à escola ao objetivo de uma preparação para o ingresso à faculdade ou para uma melhoria no campo profissional. Para eles, a vivência na EJA propiciava-lhes um processo de autotransformação. Também, se considerou-se como critério de seleção, a assiduidade e o envolvimento no curso e estudantes homens e mulheres, de modo a contemplar, na análise, possíveis peculiaridades referentes ao gênero do entrevistado. Análise e Discussão de Dados A experiência do narrador aconteceu com os outros, não sozinho, ocorreu por meio de trocas, e por isso não é possível fixar o olhar apenas no sujeito, sem perceber o que está ao redor e como o redor se relaciona com o sujeito. Perceber trocas pressupõe, além dos diferentes pontos de vista, uma perspectiva de longa duração. (Everaldo G. Leandro; Cármen Lúcia B. Passos) O excerto acima remete a um aspecto importante a ser considerado na análise das entrevistas: “nenhum homem é uma ilha” (Ginzburg, 2004, p. 113). Na perspectiva de uma visão não insular[1], as situações narradas nas entrevistas devem ser articuladas ao contexto em que estão inseridas. As experiências relatadas ocorreram em trocas feitas entre os participantes e o outro, de modo que, para compreender seus respectivos processos de constituição identitária no tempo de longa duração de suas trajetórias de vida, fez-se necessário analisar as relações estabelecidas entre os entrevistados e as comunidades em que eles se inserem. Mesmo com percursos de vida diferentes, eles entrecruzam, em suas trajetórias, dificuldades e situações convergentes de um mesmo contexto social, político e econômico. Desse modo, considerou-se, na análise, indícios narrativos que trazem um mesmo ponto de partida – privação do direito de estudar quando criança. Um primeiro aspecto a ser destacado é o entrelaçamento da ascendência com a interrupção da trajetória escolar. A família é uma comunidade de vida estruturante na vida do indivíduo, constituindo-se como a primeira comunidade em que ele recebe as atribuições, as quais lhe são tomadas como pertença. Inseridos em um contexto regido pela dificuldade financeira, a inserção precoce ao mundo do trabalho foi uma marca consoante a todos os entrevistados, porém, houve dissonâncias no modo como ocorreu a sobreposição do trabalho ao estudo. Tais incongruências decorrem do gênero – a atribuição dada às filhas mulheres é diferente da atribuição dada ao filho homem – e, também, da perspectiva dos pais no que concerne ao valor do estudo atrelado a uma realização e ao bom desenvolvimento profissional. A filha mulher recebe, desde cedo, atribuições integradas ao serviço doméstico: cuidar dos irmãos menores, exercer tarefas cotidianas da casa e preparar-se para o papel de esposa; para isso, não podem se “perder” em possíveis namoros com colegas da escola. A elas, a constituição de uma identidade profissional não está incorporada a uma expectativa primordial dos pais. No caso do filho homem, a atribuição de provedor da casa é comumente reiterada no contexto familiar, porém, nem sempre trazer o sustento à família está arraigado a ter uma profissão. A urgência da necessidade de contribuir para o orçamento familiar não corrobora para a extensão do tempo de estudo necessária a uma formação profissional. Com isso, eles se inserem no mundo do trabalho antes de consolidarem sua identidade profissional, exercendo, muitas vezes, serviços braçais e elementares, os quais, comumente, não promovem uma possível ascensão financeira. A pesquisa também trouxe a relevância das relações estabelecidas no mundo do trabalho na constituição identitária desses estudantes. Tais experiências intensificam atribuições tomadas como pertenças no âmbito escolar e trazem, positivamente, a oportunidade de eles ressignificarem a constituição identitária advinda da comunidade familiar e escolar. Assim, qualidades anteriormente não valorizadas revestem-se de outro vigor, concebendo a possibilidade de efetivarem conversões identitárias (Dubar, 2009), as quais lhes garantem um outro modo de ser e estar em suas vidas. A diversidade de comunidades presentes na vida adulta modelou mudanças identitárias desses estudantes, porém, não supriu a sensação de incompletude (Freire, 1996) procedente da interrupção da trajetória de estudante. Retornar à instituição escolar é um desejo latente de preencher a lacuna de um direito que lhes foi tirado na infância. Entre as marcas formativas significativas da vivência na EJA, a pesquisa destacou a importância de um curso presencial. Os estudantes optam por frequentar as aulas, em vez de obterem certificados a partir de exames ou cursos online, pois reconhecem a importância das interações advindas no âmbito escolar e concebem a essa vivência o desejo de resgatar a escola deixada no tempo passado. Ressaltam a importância da proximidade e da escuta do professor e a possibilidade de trazerem para esse contexto suas experiências de vida, mostrando tais fatores como propulsores das mudanças identitárias advindas do retorno à escola. Junto a isso, relatam a importância do acolhimento e da dedicação do professor em ajudá-los a superar eventuais dificuldades pedagógicas e propiciar-lhes a segurança no processo de aprendizagem. Concomitantemente à importância do professor, a relação com os colegas, que pressupõe um convívio intenso com a heterogeneidade presente no grupo da EJA, foi outra referência importante ressaltada pelos alunos. Momentos de leitura coletiva a partir de obras literárias impulsionadoras de reflexões acerca do preconceito, memórias afetivas e problemas da sociedade atual propiciaram a troca de vivências concordantes e destoantes nas respectivas trajetórias de vida, de modo a promover a cumplicidade do grupo e o autoconhecimento de cada integrante. A partir do Outro (Almeida, 2014), tiveram a oportunidade de ressignificar o seu lugar no âmbito escolar e afirmar o aluno que desejam ser, descartando atribuições indesejadas e ressignificando pertenças advindas da infância. Considerações Finais O diálogo entre o passado e o presente, regado pela memória e metacognição, trouxeram o processo de aprendizagem a esse estudante adulto provido de um saber constituído em seu percurso de vida (Placco; Souza, 2015). Incitar propostas pedagógicas que contemplam esse diálogo é um aspecto primordial do trabalho com o estudante adulto. Esta pesquisa traz a fresta de uma janela a ser aberta para esse problema educacional da sociedade brasileira. Despender um olhar mais profundo para a trajetória de vida do adulto que retorna à escola e buscar os indícios de práticas docentes significativas é uma maneira de propiciar a conscientização das peculiaridades inerentes a esse público e de caminhar para uma paisagem menos árida e mais florida de nossa sociedade. REFERÊNCIAS ALMEIDA, L. R. A questão do Eu e do Outro na psicogenética walloniana. Estudos de Psicologia, Campinas (31) (4), p. 595-604, 2014. Disponível em:
https://doi.org/10.1590/0103-166X2014000300013. Acesso em: 21 abr. 2024. DELORY-MOMBERGER, C. A pesquisa biográfica ou a construção compartilhada de um saber do singular. Revista Brasileira de Pesquisa (Auto)Biográfica, Salvador, v. 01, n. 01, p. 133-147, jan/abr., 2016. DUBAR, C. Construção e crises da identidade pessoal. In: DUBAR, C. A crise das identidades. São Paulo: Edusp, 2009, p. 193-255. FREIRE, P. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996. GINZBURG, C. Nenhuma ilha é uma ilha: quatro visões da literatura inglesa. São Paulo: Companhia das Letras, 2004. LEANDRO, E. G.; PASSOS, C. L. B. O paradigma indiciário para análise de narrativas. Educar em revista, Curitiba, v 37, 2021. Disponível em:
https://doi.org/10.1590/0104-4060.74611. Acesso em: 1 dez. 2023. PLACCO, V. M. N. de S.; SOUZA, V. L. T. de. Identidade de professores: considerações críticas sobre perspectivas teóricas e suas possibilidades de pesquisa. In: CORDEIRO, A. F. N.; HOBOLD, M. S.; AGUIAR, M .A. L. (Org). Trabalho Docente: formação, prática e pesquisa. Joinville: Editora Univille, 2010. de vida: entreteceres do pedagógico ao colonial. In: SOUZA, S. R. M.; SANTOS, L. C. (org). Entre-linhas: educação, fenomenologia e insurgência popular – vol. 6. Salvador: Edufba, 2019, p.105 e 106. [1] O termo não insular é empregado por Leandro e Passos (2021) para evocar uma visão mais abrangente do pesquisador em seu procedimento de análise.