EDUCAÇÃO COSMOPOLÍTICA: INFÂNCIAS, SABERES ANCESTRAIS E A LUTA EPISTÊMICA Introdução Este trabalho é fruto de uma pesquisa em nível de doutorado em andamento e consiste em uma análise teórica alargada que oferece suporte epistemológico para uma posterior etapa do processo que será a entrada no campo em território indígena. O presente trabalho tem como objetivo discutir o papel das infâncias na construção do conceito de educação cosmopolítica ou cósmica (Santos; Goldman, 2020) das crianças indígenas. Considera-se, portanto, as perspectivas construídas nos estudos das infâncias e os saberes ancestrais (Tiriba; Guimarães, 2024) de povos originários e tradicionais por meio da luta epistêmica (Xakriabá, 2018). Deste modo evidencia-se os desafios epistemológicos na luta cotidiana de povos vilipendiados de seus direitos sobre o território que ocupam e no enfrentamento ao carrego colonial (Simas; Rufino, 2019). Nêgo Bispo (Santos; Goldman, 2020) propôs uma reflexão que constituiu a base fundante desta pesquisa: a concepção de uma educação cósmica. O autor destaca a diferença entre as noções de "cosmo-educação" e "educação cósmica", argumentando que o primeiro conceito reitera uma lógica colonizadora que se excede em adjetivações, enquanto o segundo se posiciona como uma resistência ao colonialismo, como um conceito integrador e contra-colonial, enfatizando a necessidade de desconstruir repertórios coloniais e promover uma formação baseada na confluência de saberes. Nas culturas ancestrais o conhecimento comunitário mostra-se inseparável do modo de vida. Esse conhecimento abrange a produção e o preparo de alimentos, as práticas de religação espiritual, as formas de organização política, os rituais, os cantos, as cores, os cheiros, os contextos e as experiências educativas. A educação escolar também, porém as práticas educativas que compõem a estrutura da escola indígena diferenciada no território não se limitam apenas ao edifício arquitetônico, às salas de aula ou à infraestrutura da escola (Xakriabá, 2018, Benites, 2020, Takuá, 2020, Maxakali; Maxakali, 2023). Deste modo, há uma arquitetura pedagógica que é transcendida pela educação cosmopolítica, em outras palavras, a educação cósmica é praticada e estabelecida por uma relação com o território, pelo calendário cultural dos povos, pelos modos de fazer os rituais e nas relações com povos e populações não-humanas e mais-que-humanas (Rufino, 2023). Entre os tikmũ'ũn/maxakali o território é visto como um agente educador que transmite uma educação cultural e política (Maxakali; Maxakali, 2023). Desde pequenos, as crianças aprendem com a natureza, rituais e práticas cotidianas de suas comunidades (Ribeiro Junior, 2022), fortalecendo sua identidade cultural e lutando por justiça social e pela permanência em suas terras (Silva, 2011; Pimentel, 2023). Nêgo Bispo (Santos, 2023), propõe um questionamento fundamental à lógica colonial, indicando a necessidade de um processo de contracolonização das estruturas sociais. Essa abordagem difere da descolonização, pois, conforme argumenta o autor, trata-se de uma iniciativa conduzida pelos próprios sujeitos não colonizados — como os povos quilombolas, indígenas, campesinos e demais comunidades tradicionais. Esses grupos, historicamente marginalizados e afastados das instâncias centrais do Estado, operam em sistemas de poder descentralizados e, por consequência, antagônicos ao modelo estatal hegemônico. Assim, a escola indígena deve ser concebida não como um modelo imposto, mas como uma construção coletiva baseada em referenciais próprios de cada povo. Metodologia A experiência da pesquisa realizada junto aos Tupinambá de Olivença (Tiriba; Profice 2018; Tiriba; Vogler; Pereira, 2021) que, desde 2010, busca evidenciar a complexidade e as nuances dos processos de transição família-escola em um contexto indígena específico, oferece subsídios valiosos para este trabalho. Intenciona-se, portanto, uma revisão e ampliação desta metodologia em estudos com outros povos indígenas. A riqueza das informações coletadas e a profundidade da análise desenvolvida por Tiriba e Profice (2018) demonstram o potencial desta abordagem para compreender as especificidades culturais e as dinâmicas sociais envolvidas na educação infantil indígena, contribuindo para a formulação de políticas públicas mais sensíveis e adequadas às necessidades de cada território. Este estudo busca apreender as experiências cotidianas de meninos e meninas indígenas maxakali em seus processos de transição entre o contexto familiar e comunitário e os espaços institucionalizados de Educação Infantil. A metodologia empregada prioriza a compreensão do outro "em seus próprios termos" (Romero, 2015), por meio de um movimento de imersão na alteridade e de tradução da experiência pessoal em análise sistematizada. A pesquisa aqui proposta é inspirada também no trabalho de Silva (2011) sobre a circulação das crianças Xakriabá quando destaca essa como sendo central na aprendizagem das crianças que participam ativamente de práticas comunitárias, como o trabalho na roça e o cuidado com os animais, aprendendo por meio da observação e da interação com os mais velhos. Silva (2011) ressalta o conhecimento territorial das crianças, expresso em seus desenhos, reforçando a relação território-identidade-aprendizagem. Expandindo essa metodologia para a pesquisa na Aldeia-Escola-Floresta, localizada em Teófilo Otoni/MG, com a experiência dos infantes tikmũ’ũn/maxakali a presente pesquisa busca compreender como o território estrutura a educação cosmopolítica das crianças, partindo da noção de que a floresta não apenas abriga, mas também educa. Considerações finais A educação cosmopolítica emerge como um conceito que reconhece e valoriza os saberes ancestrais dos povos originários e comunidades tradicionais. Baseada na relação entre território, educação e cosmopolítica, essa perspectiva desafia a visão ocidental hegemônica e propõe uma pedagogia que integra múltiplas formas de conhecimento. Nos territórios indígenas, a aprendizagem ocorre em interação com a floresta, os rituais e as relações sociais, evidenciando um modelo educacional que transcende o ensino formal e reafirma a identidade cultural. A experiência da Aldeia-Escola-Floresta Maxakali evidencia uma diplomacia do cosmos, onde crianças e não humanos compartilham um espaço de formação sensível e interdependente. Sem a necessidade de vigilância rígida, mas com presença atenta, os infantes aprendem por meio da vivência, tornando-se mediadores sociais e protagonistas na manutenção dos saberes tradicionais. Nesse contexto, o xamanismo tikmũ’ũn não se restringe a figuras especializadas, mas permeia toda a comunidade, permitindo que todos se conectem espiritualmente com a floresta e seus seres. REFERÊNCIAS BENITES, S. Educação Guarani e interculturalidade: a(s) História(s) Nhandeva e o Teko. Revista Caracol, n. 20, p. 189-200, 2020. Disponível em:
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