SABERES TRADICIONAIS E EDUCAÇÃO: REPRESENTAÇÕES SOCIAIS DE JOVENS DO MARUANUM-AP E AS IMPLICAÇÕES EM SEUS PROJETOS DE VIDA 1 INTRODUÇÃO Este resumo apresenta parte da pesquisa realizada no distrito do Maruanum/AP, na sua sede denominada de Vila Carmo do Maruanum, que concentra cerca de 300 pessoas, localizada a cerca de 56 Km da capital Macapá. Essa vila é reconhecida como remanescente de quilombo, pela Fundação Cultural Palmares, e nela há um saber tradicional cultural, educacional e intergeracional. Trata-se das louças produzidas com argila que também se estende para outras comunidades desse distrito. A confecção das louças requer que a mistura da argila com o cariapé – cinza consistente, resultante da queima de cascas da árvore da floresta rica em sílica, para dar consistência à massa e aumentar a durabilidade das louças. Após moldadas e niveladas, as louças são queimadas para obter resistência. Em seguida, são impermeabilizadas, internamente, com o breu nas peças ainda quentes. O breu é uma espécie de resina produzida a partir da seiva expelida pela planta para se proteger de ataques de insetos que, ao entrar em contato com o ar, solidifica-se e se transforma em uma pedra que em contato com o aquecimento, derrete, e possibilita o uso para impermeabilização. O processo de produção das louças produzidas é atravessado por uma relação simbólica e sagrada com a natureza, geradora de crenças e encantados em que a mãe natureza deve ser respeitada e reconhecida pela sua hegemonia. A caracterização apresentada, foi fundamental, tanto na realização da pesquisa com os jovens moradores das comunidades do distrito do Maruanum, quanto na análise dos dados e inferências relativas às representações sociais da juventude. O nosso interesse pelas ações do coletivo de jovens do referido distrito está associada aos simbólicos envolvidos nas objetivações e respectivas ancoragens que constituem as suas representações, sobre os saberes tradicionais desse distrito e as implicações em seus projetos de futuro. Nesse sentido, a pesquisa teve o seguinte objetivo: analisar a constituição das Representações Sociais de jovens do distrito do Maruanum (AP), sobre os saberes tradicionais locais e as implicações em seus projetos de vida. Como aporte teórico utilizamos, entre outros, Moscovici (1978) e Jodelet que tratam sobre a Teoria das Representações Sociais de abordagem processual; Diegues (2000, p. 30) que aborda sobre o conceito de conhecimento tradicional; Sacristán (2000) que discute a homogeneização do currículo; e Brandão (2011) que ressalta a existência de uma educação informal, que vem do povo e que não pode ser desconsiderada. A relevância da pesquisa reside no aspecto psicossocial por evidenciar que os saberes tradicionais fazem parte da cultura e história de grupos locais, pois consistem em práticas e modos de vida daquela população. No âmbito educacional, poderá subsidiar a reavaliação do papel da escola em comunidades tradicionais, nesse caso, quilombola, e de práticas docentes para que aliem- se aos saberes tradicionais existentes no contexto dos estudantes. 2 METODOLOGIA O caminho que seguimos, neste estudo, teve o suporte teórico-metodológico da Teoria das Representações Sociais (TRS) de Moscovici (1978), em especial, a abordagem processual (Jodelet,1989), sendo a objetivação (imagem) e a ancoragem (sentidos) os dois elementos fundamentais para a constituição das Representações Sociais de um grupo sobre um objeto, acontecimento, dentre outros. Desse modo, adotamos, o caráter qualitativo, descritivo e interpretativo (Gil, 2016), por ser uma pesquisa realizada em um contexto em que os saberes tradicionais encontram-se presentes, do tipo estudo de caso (Yin, 2015). A pesquisa ocorreu na Vila Carmo do Maruanum (AP), por ser a sede do distrito do Maruanum/AP. O lócus de nosso estudo foi a escola Estadual Raimundo Pereira dos Santos que oferta o Ensino Médio situada na Vila Carmo do Maruanum, com 73 estudantes no Ensino Médio, do primeiro ao terceiro ano, dentre esses ,os 22 participantes da pesquisa selecionados por meio da técnica de amostragem do tipo “acessibilidade ou por conveniência” (Gil, 2016, p.94). A faixa etária foi de 17 a 23 anos, que supomos que já estariam projetando o seu futuro, distribuídos entre três do sexo feminino e dezenove do sexo masculino. Todos os participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido ( Resolução 510/2016 CNS/CONEP) e identificados por duas letras maiúscula, a fim de garantir o anonimato deles. Quanto aos instrumentos de pesquisa, utilizamos o questionário semiestruturado embasadas em Triviñus (1987). O tratamento da análise das informações foi realizado à luz da análise temática proposta por Braun e Clarke (2006), com as seguintes etapas para a efetivação da análise: a) leitura, transcrição e codificação das informações; b) organização e agrupamento das informações com base nas três questões indicadas por Jodelet (1989) que funcionam como marcadores e orientadores de análise para o estudo no campo das Representações Sociais de abordagem processual, quais sejam: a) quem sabe e de onde sabe? b) o que sabe e como sabe?; c) o que sabe e com que efeito?”. A partir das respostas para essas três questões, revelamos o caminho da interpretação das representações sociais dos jovens entrevistados, sobre os saberes tradicionais do lugar que vivem. 3 ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS Seguindo a primeira questões indicadas por Jodelet(1989), em relação à questão “quem sabe e de onde sabe?”, constatamos que sses jovens são moradores das comunidades que compõem o distrito do Maruanum, cuja faixa etária varia de 17 a 23 anos, com maior prevalência na idade de 18 anos (45%), 28% têm 19 anos; 17 anos 18%. Os demais estão na faixa dos 20 aos 23 anos. Ressaltamos, que esses jovens foram os que aceitaram em participar da pesquisa. Detectamos que há um atraso no fluxo escolar, pois a idade máxima de jovens no Ensino Médio na referida escola ultrapassa a faixa de 23 anos. A Taxa de distorção idade-série nos níveis de Ensino Médio – 2022, foi alvo de abordagem na série histórica aferida pelo INEP. Os dados do ano de 2022 foram de: 46,7% para o 1º ano; 56% para o 2º ano; e 50% para o 3º ano (INEP, 2022). Isso significa que o atraso escolar é de 2 anos ou mais que interfere no futuro dos jovens estudantes. Constatamos que a renda familiar, em sua maioria, advém de programas assistencialistas dos governos federal e estadual, do tipo Bolsa família, Renda pra viver melhor e Amapá jovem. Não há incentivo para desenvolvimento de atividades que gerem renda nas e para as comunidades. A produção de farinha, agricultura, pesca, pecuária e artesanato (louças), ainda são prevalentes na subsistência, contudo, sem suprir as necessidades. Quanto aos fatos históricos sobre a origem da população da qual são remanescentes, a maioria demonstrou que não tem conhecimento. Os que conhecem a história de seus ancentrais e a origem, bem como, a constituição do quilombo demonstraram entendimento superficial. Em referência à questão “o que e como sabe?”, as narrativas desses jovens revelaram que um pouco mais da metade (61%) reconhecem as louças de argila como o saber mais expressivo de sua comunidade. Ou seja, práticas, técnicas, sentidos construídos e acumulados no interior de comunidades tradicionais constituem o conhecimento tradicional que para Diegues (2000), é um conjunto de saberes e saber-fazer existentes no mundo natural em asscociação com o sobrenatural, transmitido oralmente de geração para geração. Porém, apenas 8% disseram que obtiveram conhecimento por intermédio de alguém da família, em especial, a mãe. Palavras de IY: “[...] a minha avó me falou, eu conheço o processo e ajudo a tirar o barro e as mulheres fazem as louças.” RB disse: [...] “minha mãe me falou que o barro é retirado do lago, misturado com o cariapé, feita a louça, polida e queimada.” Esses dois jovens sabem como ocorre parte do processo produtivo, mas não mencionaram a relação com o sagrado, a natureza; e a relação de colaboração entre as louceiras até a finalização das peças. Com o amparo de Moscovici (1978), detectamos que para a maioria dos participantes, as louças como saber tradicional, cultural e histórico estão materializadas (objetivação) na imagem mental de grande parte deles. Porém, os sentidos (ancoragem) atribuídos a esse saber tradicional não encontram-se associados ao processo de elaboração e produção coletiva, que envolve a coleta da matéria-prima em conexão com os rituais sagrados que dinamizam o processo pedagógico, a marcação do território e a preservação do contexto histórico de vivência deles, que são as marcações, advindas de suas vivências, interações, descobertas, escolhas e modos de vida. Observamos, também, que 57% desses jovens não participaram de alguma atividade que envolvesse os saberes tradicionais locais na escola. O currículo escolar e as práticas pedagógicas dos professores não estão em estreita sintonia com a especificidade cultural das comunidades maruanuenses. No currículo a cultura mantida é a hegemônica, “centralizada nos conteúdos como resumo do saber culto e elaborado sob formação das diferentes disciplinas” (Sacristán, 2000, p.39), ou seja, na contramão da perspectiva de Geertz(2017). Porém, segundo Brandão (2011), não há um único modelo de educação, tanto é, que a prática dos saberes na confecção das louças de argila, não vem da escolarização. Nesse sentido, entendemos que deve haver uma vinculação entre a educação escolar e a educação informal empreendida na confecção das louças. Desse modo, o fazer de meninas e de meninos deve unir as juventudes por meio de saberes informais, educativos, pedagógicos, culturais, geracionais e da inclusão desses saberes nos projetos de vida futuros. Embora esses jovens não tenham se apropriado do simbólico desse artefato como também do processo de fabricação, eles pensam em vender as louças produzidas em sua comunidade como meio de sobrevivência. Podemos inferir, que as Representações Sociais da maioria deles, sobre os saberes tradicionais locais, objetivam-se a partir da materialização da imagem de mercadoria atribuída a essas louças. Os sentidos conferidos a essa imagem ancoram-se nas vendas das louças para sobrevivência. Desse modo, as representações produzidas não dão conta de preservar esses saberes tradicionais e nem de manter para as próximas gerações as práticas da produção dessas cerâmicas. No que diz respeito aos projetos de vida que associamos à questão “sobre o que sabe e com que efeito?”, os registros das falas a seguir ratifica o que mencionamos sobre a visão estritamente mercadológica sobre as louças de sua comunidade: RN, por exemplo disse que é apena:s “[...] pra ganhar dinheiro”; PL afirmou que: “[...] é um modo de ganhar dinheiro”; AP: “[...] pode ser uma fonte de renda.” A manutenção da sobrevivência, as incipientes oportunidades de melhoria de vida levam à compreensão de que a urgente geração de renda sobrepõe-se a cultura da comunidade. Nas respostas analisadas, apenas 41% intencionam prosseguir nos estudos como uma forma de galgar um futuro melhor, além da mudança de vida. Entretanto, a condição financeira pode ser um complicador, pois terão que morar na capital Macapá para estudar. Para alguns, a prioridade é trabalhar. O trabalho por si só, como moeda de troca, revela a ânsia por superar as parcas oportunidades para romper com a condição de desempregado e assim sobreviver. Outros não souberam informar. É como se, para esses, projeto de vida futuro fosse algo inatingível. Essa falta de perspectiva de futuro é preocupante, pois a prepração desses jovens para a superação das adversidades deveria ser um exercício permanente na comunidade e na escola. Entendemos que é fundamental a reflexão sobre o contexto nos quais esses jovens vivem, uma vez que contribuem com formas de pensar, sentir e agir que constituem as suas representações como protagonistas de sua cultura e saberes tradicionais só podem ocorrer se a escola e a comunidade interreacionarem-se e assim haja a esperança para que esses jovens possam, mesmo com as dificuldades inerentes de quem mora na Amazônia, pensar em realizar projetos de futuro. 4 CONSIDERAÇÕES FINAIS Em suas Representações Sociais, os jovens entrevistados revelaram pouco domínio sobre os saberes tradicionais locais, embora, uma parcela demonstre em suas imagens e sentidos que esses saberes são culturais e geracionais. Isso implica na compreensão de que esses jovens estão envoltos a um saber cultural e histórico que precisa ser preservado e difundido como ensinamento para as gerações futuras. Estes saberes devem ser incentivados para que as gerações, sobretudo de jovens, foco de nosso estudo, possam assumi-los como parte da história de seu povo e como um meio de produção que pode gerar autossustentação, uma vez que gera renda que pode ser estimulada por meio da constituição do processo produtivo das louças e, dessa maneira, contribuir para transformações no bem-estar das comunidades do Maruanum/AP. Palavras-chave: Saberes tradicionais. Representações Sociais. Juventude. Educação. Projetos de vida. REFERÊNCIAS BRANDÃO, C. R. O que é educação? São Paulo: Brasiliense, 2011. BRASIL. Conselho Nacional de Saúde. Resolução n. 510, de 7 de abril de 2016. Dispõe sobre as normas aplicáveis às pesquisas em Ciências Humanas e Sociais. Brasília, DF, Presidência da República [2016]. Disponível em:
https://conselho.saude.gov.br/resolucoes/2016/Reso510.pdf. Acesso em: 14 fev. 2023. BRAUN, V.; CLARKE, V. Using thematic analysis in psychology. Qualitative Research in Psychology, Rio Grande, v. 3, n. 2, p. 77-101, jul. 2006. DOI:
http://dx.doi.org/10.1191/1478088706qp063oa DIEGUES, A. C. (Org). Biodiversidade e comunidades Tradicionais no Brasil. Brasília: Ministério do Meio Ambiente; São Paulo: USP, 2000. GEERTZ, C. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: LTC, 2017. GIL, A. C. Métodos e técnicas de pesquisa social. 6. ed. São Paulo: Atlas, 2016. INSTITUTO NACIONAL DE ESTUDOS E PESQUISAS EDUCACIONAIS ANÍSIO TEIXEIRA (INEP). Indicadores Educacionais, 2022. Disponível em:
https://www.gov.br/inep/pt-br/acesso-a-informacao/dados-abertos/indicad…. Acesso em: 9 mar. 2023. JODELET, D. Représentations sociales: un domaine en expansion. In: JODELET, D. (ed.). Les représentations sociales. Tradução de Tarso Bonilha Mazzotti. Paris: PUF, 1989. p. 31-61. MOSCOVICI, S. A representação social da psicanálise. Tradução de Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: ZAHAR Editores, 1978. SACRISTÁN, J. G. O currículo: uma reflexão sobre a prática. 3. ed. Porto Alegre: Artmed, 2000. TRIVIÑOS, A. Introdução à pesquisa em ciências sociais. A pesquisa qualitativa em educação: o positivismo, a fenomenologia, o marxismo. 3. ed. São Paulo: Atlas, 1987. YIN, R. K. Estudo de caso: planejamento e métodos. Porto Alegre: Bookman, 2015.