O TRANSTORNO DO ESPECTRO AUTISTA NOS/DOS/COM OS COTIDIANOS ESCOLARES: (RE)EXISTÊNCIAS, MEMÓRIAS, ARTEFATOS E CARTAS NA CONSTRUÇÃO DE PRÁTICAS INCLUSIVAS — UMA EXPERIÊNCIA AUTOETNOGRÁFICA

- 214772
Resumo Expandido - Trabalho
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Abstract
O Transtorno do Espectro Autista nos/dos/com os Cotidianos Escolares: (Re)existências, Memórias, Artefatos e Cartas na Construção de Práticas Inclusivas — Uma Experiência Autoetnográfica As experiências escolares são marcadas por desafios e resistências. O conceito de (re)existência, inspirado na filosofia da diferença — em especial na obra de Deleuze (2018), e nos estudos decoloniais, permite compreender como estudantes com TEA e seus familiares constroem espaços de pertencimento dentro das escolas. A análise das memórias e artefatos evidencia as táticas utilizadas para subverter normas e criar formas alternativas de aprendizagem e interação. A inclusão de estudantes com Transtorno do Espectro Autista (TEA) tem se tornado um tema de crescente relevância na educação contemporânea, especialmente ao se considerar a trajetória de luta de mães que também são professoras, e conforme Lourenço (2020), “são as mulheres que precisam entrar na luta para que as crianças recebam um tratamento digno, deixando as próprias necessidades para trás”. Esta pesquisa de mestrado investigou um desses processos por meio de memórias, artefatos educativos e cartas, destacando a experiência da mãeprofessora na inclusão de seus filhos e de outros estudantes com TEA. Os artefatos são objetos, materiais, práticas, conversas e expressões simbólicas criadas por uma sociedade, desempenhando um papel essencial na transmissão de valores e identidades culturais (Geertz, 1973). Inclui desde obras de arte e mobília até monumentos e tecnologias. Alves (2011) destaca o significado entre arquitetos e processos curriculares. Os artefatos educativos não apenas refletem as características de uma cultura, como também exercem influência na formação de comportamentos, nas interações sociais e nas percepções dos indivíduos dentro desse contexto sociocultural. Ao longo da História, as cartas desempenharam diversas funções e mantiveram sua relevância na contemporaneidade. Além de servirem como registros históricos que documentam eventos, pensamentos e experiências pessoais, contribuindo para a compreensão de contextos socioculturais em estudos biográficos e históricos, as cartas também desempenham um papel na preservação da memória coletiva e no fortalecimento dos laços familiares, sendo frequentemente transmitidas entre gerações como relíquias culturais. Mesmo em um mundo digitalizado, sua capacidade de conectar diferentes tempos e influenciar o futuro evidencia sua atemporalidade. A pesquisa adotou a autoetnografia como metodologia, ou seja, um método autorreflexivo que permite examinar as experiências pessoais e profissionais, proporcionando uma análise profunda e contextualizada da prática docente. Na investigação, a metodologia da autoetnografia possibilitou uma reflexão crítica sobre as vivências no cotidiano escolar, especialmente no contexto da inclusão de estudantes com TEA. A partir da perspectiva de uma mãeprofessora, discutiu-se a intersecção entre a vida pessoal e profissional, evidenciando os desafios enfrentados na luta pela inclusão e a relevância do reconhecimento da diversidade e das necessidades individuais dos(as) estudantes. Segundo Santos (2017), a autoetnografia é uma abordagem de pesquisa e escrita que busca descrever e analisar sistematicamente a experiência pessoal para compreender a experiência cultural. Essa metodologia desafia as formas “canônicas”, ou seja, normativas e pontuais de conduzir investigações e representar os outros. Além disso, considera-se a pesquisa como um ato político, socialmente justo e consciente, ampliando a compreensão sobre as subjetividades envolvidas no processo investigativo. Para Certeau (1994, p. 35), [...] os relatos de que se compõe esta obra pretendem narrar práticas comuns. Introduzi-las com as experiências particulares, as frequentações, as solidariedades e as lutas que organizam o espaço onde essas narrações vão abrindo caminho, significará delimitar um campo. A pesquisa autoetnográfica viabilizou a análise aprofundada das dinâmicas escolares, incorporando as vivências dos(as) pesquisadores(as) para investigar desafios, estratégias e influências culturais na inclusão de estudantes com TEA. Essa abordagem também evidenciou estereótipos e lacunas na compreensão do transtorno, impactando a trajetória escolar. Assim, a autoetnografia se mostrou essencial para descrever e refletir sobre a prática docente e materna na inclusão. Ellis e Bochner (2000) destacam que a autoetnografia valoriza a subjetividade do(a) pesquisador(a), incorporando-a ao processo de pesquisa, com o objetivo de alcançar uma compreensão mais aprofundada das experiências humanas e sociais. Essa abordagem permite que o pesquisador(a) integre reflexivamente suas próprias vivências e perspectivas ao estudo, enriquecendo a análise e a interpretação. A utilização de termos como mãesprofessoras, filhosestudantes e filhasestudantes refletiu uma prática linguística inclusiva, que encontrou respaldo nas reflexões de Nilda Alves (2005) sobre o poder transformador da linguagem. Segundo a autora, a base lexical de palavras pode ser um mecanismo para criar novos significados e, por conseguinte, promover mudanças sociais, sendo a linguagem uma ferramenta de construção e desconstrução de realidades. Esse processo linguístico evidencia o papel da linguagem não apenas na formação de identidades, mas também na promoção da justiça social. Assim, ao empregar tais expressões no estudo, buscou-se simbolizar a união de diversas vozes e perspectivas, ampliando o alcance da representação social e reconhecendo a multiplicidade de experiências vívidas. A partir desse entendimento, foi possível perceber a linguagem como um instrumento de ação política e transformação, com potencial para contribuir significativamente para a construção de uma sociedade mais inclusiva e equitativa. A pergunta norteadora que guiou esta pesquisa, portanto, foi: como a narrativa de uma mãeprofessora na luta pela inclusão pode contribuir para o emergir do direito ao acesso, permanência e aprendizado de estudantes com TEA na escola? O objetivo geral consistiu em apresentar a trajetória autobiográfica da pesquisadora, evidenciando experiências narrativas que permearam sua luta pela inclusão em diferentes contextos. Já os objetivos específicos incluíram: a compreensão do conceito de TEA, seu histórico e impactos sociais; a conceituação da autoetnografia como uma metodologia pertinente; e a reflexão sobre a luta pela inclusão, utilizando memórias, artefatos educativos e cartas como eixos centrais de análise. A investigação visou integrar material científico que possibilitasse comparações e análises que pudessem beneficiar o trabalho de educadores e famílias, servindo como um recurso para futuras iniciativas voltadas à inclusão no cotidiano escolar. A utilização de artefatos na inclusão escolar é uma forma de (re)existência que subverte as normas convencionais do cotidiano educativo. A inclusão deve ser entendida em um contexto abrangente, que integra questões sociais e econômicas, buscando uma educação justa e equitativa. Esse processo contínuo exige adaptações pedagógicas, valorização das subjetividades e acolhimento da diversidade. Nesse sentido, a investigação destacou a “perspectiva da presença”, que busca uma participação significativa e engajada na escola, criticando a superficialidade do termo “inclusão”. Essa abordagem valoriza a diversidade e incentiva práticas pedagógicas transformadoras, reconhecendo o “diferente” como uma oportunidade de enriquecimento, e não como uma barreira para a promoção de uma sociedade mais equitativa e inclusiva. Compreender o cotidiano escolar na inclusão de pessoas com TEA requer atenção às suas particularidades e comportamentos atípicos, que desafiam normas estabelecidas. A neurodiversidade é vista como um fator enriquecedor no processo de ensino-aprendizagem, proporcionando alternativas pedagógicas. É primordial respeitar as necessidades individuais desses estudantes, promovendo um ambiente inclusivo e transformador. A escola é construída para além do conhecimento teórico, sendo influenciada pelo cotidiano e pelas subjetividades dos envolvidos (Alves; Garcia, 2002). Certeau (1995), por sua vez, enfatiza a alteridade como princípio fundamental para consideração e respeito à diversidade. O estudo dos cotidianos desafia paradigmas estabelecidos, ampliando a compreensão da experiência educativa. No que diz respeito ao TEA, a aprendizagem desses estudantes exige adaptações curriculares e materiais pedagógicos contínuos, levando em consideração suas necessidades individuais, a fim de criar um ambiente educacional equitativo e inclusivo. Carvalho (2009) ressalta que a adaptação curricular constitui um desafio fundamental, exigindo o compromisso dos professores e da comunidade escolar. Complementando essa perspectiva, Cunha (2014, 2016) reforça que as adaptações curriculares são fundamentais para a criação de um ambiente educacional inclusivo e personalizado, o que possibilita condições para acesso, permanência e aprendizagem. Essas adaptações foram configuradas, na pesquisa, como artefatos educativos. Segundo Kerches (2020), o pareamento de materiais auxilia o desenvolvimento de habilidades cognitivas em estudantes com autismo, favorecendo processos como classificação, categorização e identificação de padrões. Essa medida fomenta a equidade ao assegurar oportunidades significativas para a participação ativa na vida escolar em todas as atividades, sejam elas acadêmicas ou sociais (Freitas; Lopes, 2021). A construção de uma educação plural é vista como um ato de desobediência frente a um sistema educacional que banaliza a inclusão e ignora a diversidade dos estudantes. Essa recusa em aceitar normas homogêneas desafia as expectativas de conformidade, promovendo uma educação mais inclusiva e justa. Tal movimento visa desconstruir práticas excludentes e criar um ambiente educativo equitativo que valorize múltiplas identidades e experiências. Dessa forma, foram exploradas as ações que rompem com a trivialidade dos cotidianos escolares, argumentando que as vivências da mãeprofessorapesquisadora, tanto passadas quanto atuais, desempenham um papel fundamental na prática docente, na promoção da inclusão e na revisão contínua das práticas educativas. A autoetnografia, ao considerar a complexidade de ser simultaneamente o objeto e o sujeito da pesquisa, não apenas investigou as perspectivas pessoais da autora, como também refletiu sobre os valores, as influências culturais e as dinâmicas sociais que moldam essas experiências. Esse método de investigação proporcionou uma compreensão mais profunda das relações entre a prática educativa e das diversas realidades que permeiam o contexto escolar, oferecendo, portanto, uma análise crítica das estratégias docentes na construção de uma educação equitativa. Além disso, ao conectar o subjetivo ao social, essa metodologia permitiu que o estudo fosse além das normas superficiais, capturando as interseções entre identidade, ambiente sociocultural e práticas pedagógicas. Por fim, ao enfatizar a relevância da diversidade como um recurso fundamental para a inovação pedagógica, a pesquisa propôs que a educação busque reconhecer e valorizar o “diferente” como ponto de partida para o desenvolvimento de competências sociais, cognitivas e emocionais, promovendo uma cultura de respeito e equidade, alinhada aos princípios de justiça social e inclusão. A vivência cotidiana alimenta uma reflexão contínua sobre as abordagens pedagógicas e as relações sociais, proporcionando espaço para práticas mais inclusivas e sensíveis às necessidades individuais dos filhosestudantes e das filhasestudantes. Desse modo, a experiência pessoal não apenas enriquece a prática profissional, mas também impulsiona mudanças significativas nas percepções e atitudes em relação à diversidade, ampliando a compreensão sobre a importância da inclusão no ambiente educacional. Palavras-chave: autoetnografia; cotidianos escolares; práticas inclusivas; (re)existência. REFERÊNCIAS ALVES, N. O “Espaço-Tempo” Escolar como Artefato Cultural nas Histórias dos Fatos e das Idéias. Acervo, Rio de Janeiro, v. 18, n. 1-2, p. 15-34, jan./dez. 2005. Disponível em: https://revista.arquivonacional.gov.br/index.php/revistaacervo/article/…. Acesso em: 24 fev. 2025. ALVES, N. Sobre novos e velhos artefatos curriculares: suas relações com docentes, discentes e muitos outros. In: FERRAÇO, C. E. Currículo e educação básica: por entre redes de conhecimentos, imagens, narrativas, experiências e devires. Rio de Janeiro: Rovelle, 2011. p. 71-83. ALVES, N.; GARCIA, R. 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